A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Tango em Buenos Aires

Casal dançando tango na rua

Casa Rosada, na Plaza de Mayo

              
            Em outubro de 2009, o Zé e eu comemoramos 40 anos de casados. Gostaria que ele escrevesse para mim coisas tão lindas como o Celso Machado escreveu para a esposa, quando fizeram Bodas de Prata: “por ela mudei hábitos, revi conceitos, ajustei comportamentos. Para merecer a recompensa de seu beijo, seu abraço, seu afeto, seu sorriso e sua presença. Por ela tenho construido uma vida maravilhosa e uma história de vida gostosa de ser revivida e contada.” O Zé não escreveu, mas me presenteou com uma viagem a Buenos Aires, onde curtimos as nossas Bodas de Rubi.
            A Argentina lembra Maradona, carne e tango. O povo anda enfurecido com o Maradona e o considera “muy loco”. Isto, de acordo com os motoristas de táxi, que falam sem parar e dão opinião sobre tudo. Querem trocar a Cristina Kirchner pelo Lula. Avisam sobre os ladrões de bolsas nas ruas. Têm ódio dos piqueteiros, que diariamente fazem piquetes de protestos nas ruas e atrapalham o trânsito.
            A cidade é agradável, limpa, de clima frio, com árvores imensas e muitas praças com estátuas do libertador San Martín. A bela Avenida 9 de Julio, uma das mais largas do mundo. A flor gigante de metal que abre as pétalas com a luz do sol. A Plaza de Mayo, local de muitos protestos. A Casa Rosada, imponente, com a bandeira da Argentina. O majestoso prédio da Embaixada Brasileira. A Igreja do Pilar, com estonteantes altares dourados, no estilo barroco. O Museu da Evita Pérón, a Protetora dos Descamisados. Moderno e com vários telões, onde Evita aparece discursando para o povo argentino. Com placas e fotos contando como seu corpo foi roubado e mutilado (uma tragédia). Bairros agradáveis, com encantamento e estilos próprios. A população praticamente só de pessoas brancas (negros e morenos são raros). Lojas
e lojas com botas, chapéus e bolsas de couro, mas tudo muito caro (mesmo o real valendo dois pesos). Os cuidadores de cães, passeando com inúmeros cães ao mesmo tempo, de todas as raças, grudados uns aos outros. O cassino gigante e cheio de luzes, com centenas de pessoas buscando a sorte onde não vão encontrar.
            Nos restaurantes, o Zé, bastante carnívoro, sempre tentando saborear a tão famosa carne argentina. Gostou do chorizo e do lomo, mas prefere mesmo é a carne brasileira, mais saborosa.
            E o tango, meu Deus, o tango! Como dizem, o tango é um pensamento triste que se pode dançar. Pessoas dançando nas praças, nas ruas, em frente aos restaurantes. Fomos à casa de show “Sr. Tango”, imensa, sofisticada e lotada de brasileiros. Os casais de dançarinos deslizavam pelo tablado, num incrível jogo de pernas para o alto, para os lados, no meio das pernas do outro. As mulheres com vestidos colados, brilhantes, pretos e vermelhos, uma rosa nos cabelos alisados. Os homens de terno escuro riscado, flor na lapela, cabelo com gel. Poses sensuais, cabeça para trás, olhar provocante, flexibilidade invejável. A orquestra tocando “La cumparsita” várias vezes, sob a regência do maestro velhinho. Inesquecível. No final, o apresentador deixou claro que a única rivalidade entre brasileiros e argentinos “es la bola”. No mais, somos todos “muy amigos”.
            Assim foi a nossa viagem. Além de assistimos um tango em Buenos Aires, reafirmamos nossa crença na beleza de uma vida a dois e no companheirismo que encontramos no amor.

Desejos de Natal

Eu e o Papai Noel desejando Feliz Natal a todos
               
Neste Natal, desejo tudo de bom para você. Desejo-lhe uma estrela guia, como a que surgiu no céu quando o Menino Jesus nasceu, para iluminar o seu caminho e servir de guia para você continuar sempre  em frente. Desejo-lhe também um cantinho para viver, gostoso e acolhedor, como o lugar na manjedoura do Menino Jesus. E que você, tendo seu cantinho, saiba ajudar àqueles que estão abandonados nas ruas a encontrar o seu. Desejo ainda que tenha a alegria e a humildade do Menino Deus. E assim como ele sempre nos consolou, que você saiba também oferecer um ombro amigo onde as pessoas possam reclinar a cabeça, descansar e renovar as forças.
Desejo que você viaje mais, contemple mais entardeceres, suba mais montanhas, nade em mais rios, tome mais sorvete, ande mais descalço, brinque com mais crianças, conte mais piadas, distribua mais sorrisos e risadas. Desejo ainda que você afague um cão, ouça o canto do sabiá , do João-de-barro e do bem-te-vi.   
Desejo que você encontre um jeito único de ofertar uma flor, sem ser dia de nada. Que encontre tempo para fazer uma prece sincera no silêncio do quarto: para conversar com Deus e agradecer por um novo dia, um novo amor, uma tristeza que lhe ensinou muita coisa, por uma saudade que ficou.  Que encontre também mil e uma razões para sorrir, mesmo quando a vida lhe der mil razões para chorar. Que entenda que o mundo pode mesmo fazer você chorar, mas Deus lhe quer sorrindo. E que encontre forças a cada dia, consolo para as lágrimas e luz para o caminho.
Desejo que goste da natureza e que saiba cuidar dela para aqueles que virão, entendendo que ela não é uma herança dos nossos pais e sim, um empréstimo dos nossos filhos. Que plante uma semente e acompanhe o seu crescimento, para ver de quantas muitas vidas é feita uma árvore. Que faça a sua parte, de um jeito só seu.
Desejo ainda que você tenha muitas virtudes, como compaixão, solidariedade, afeto, justiça, dignidade, pois as virtudes são os verdadeiros tesouros da vida. Que seja tolerante, não com aqueles que erram pouco, pois isto é fácil, mas com aqueles que erram muito e sempre. Desejo ainda que tenha uma ternura natural no trato com as crianças, idosos e animais. Que oferte a sua canção, a sua poesia, a sua hospitalidade, aquele prato especial que só você sabe fazer.
Desejo que você ame e seja amado. Amar não é fácil, mas é necessário. Como rezou uma menininha para Deus: “querido Deus, eu aposto que é muito difícil para você amar a todas as pessoas do mundo. Na nossa família só tem quatro pessoas e eu nunca consigo.” Desejo também que você aceite as pessoas como elas são. O que também é difícil, como disse o menininho Eddie: “Querido Deus, talvez Caim e Abel não matassem tanto um ao outro se tivessem seu próprio quarto. Isso funciona com meu irmão”. Desejo ainda que você seja agradecido a Deus por ter enviado seu filho único para nascer por nós, em mais este Natal, e que diga isso a Ele. Como na prece de outro menininho, Charles: “querido Deus, eu não acho que alguém poderia ser um Deus melhor que você”.
Por fim, desejo que neste Natal você abrace todos os seus amigos: os de longe e os de perto, os antigos e os recentes, os sempre lembrados e os que às vezes ficam esquecidos. E que o Menino Jesus ilumine, abençoe e traga muita paz, alegria, saúde e fé para você e sua família. E se tudo isso acontecer, não tenho mais nada a lhe desejar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

A um amigo que se foi

         
           O Anselmo fez história na UFU. Ingressou como técnico no curso de Biologia em 1980. Era uma figura ímpar: de bermudas quadriculadas e  escandalosas, tênis e meia, barrigudo, jaleco branco de mangas compridas, contrastando com a pele muito negra. Sempre soltando risadas pelos corredores. Uma risada gostosa, forte, que deixava ver os dentes muito brancos e bonitos. Era a sua marca registrada.
            Gostava de festas, de confraternizações, de comer e de beber. Cozinhava bem e fazia uma macarronada como nenhum outro. Também gostava muito de fotografias. Abraçado aos alunos, nas aulas práticas, nos cursos de campo, taxidermizando animais. A sua salinha (que sempre estava mudando de lugar) era abarrotada de fotos e de animais taxidermizados: corujas e morcegos dependurados, borboletas pregadas nas paredes, aranhas em terrarios, macacos empoleirados. Havia também inúmeras placas que recebeu dos alunos, nas solenidades de formatura (era muito querido por eles e sempre era homenageado). Mudava de sala e levava tudo.
            O Anselmo tinha defeitos, como todos nós. Às vezes, esquecia de preparar as aulas práticas de zoologia (deveria estar por ai, rindo pelos corredores). Num curso de Biologia Marinha, em Ubatuba, preparando uma prática de fecundação de ouriço-do-mar, se enrascou e acabou pipetando e engolindo os espermatozoídes e os óvulos. Dizem que, a partir daí, ficou mais barrigudo...
Era prestativo e gostava de ajudar. Emprestava o material que podia e o que não podia para as escolas, nas Feiras de Ciências. No Natal, mesmo quando tinha dívidas (o que era comum), comprava Papai Noel, bolas coloridas e enfeitava as portas das salas. Construía belas grutas de papelão dourado e colocava o Menino Jesus por todo lado. Festejava o seu aniversário no dia 26 de dezembro, para “juntar” com o Natal, mas ele era do dia sete de janeiro. Participou do coral da UFU e soltava o vozeirão para agradar as pessoas. Também gostava de carnaval, fazia parte da escola Garotos do Samba. Não sambava na avenida, era tímido para isto, mas ajudava na organização. Como gostava de festas (e eu também), sempre o encontrava nas festas da Nossa Senhora do Rosário (Congado). Ficávamos lá na praça, fotografando as mulheres rodopiando em saias bordadas, os homens com chocalhos nas pernas, as meninas de cabelos trançados e fitas coloridas.
   Como técnico em taxidermia, ministrava cursos nas semanas cientificas. No primeiro dia, já combinava a festa de encerramento e o amigo invisível. Gostava de taxidermizar os animais em posições típicas: serpentes enroladas nos troncos, bicho-preguiça dependurado no galho, mico-estrela agarrado ao tronco. Uma vez, levei um papagaio, a Rosa, para ele taxidermizar. Ficou perfeita, parecendo viva. Como eu tinha também o macho, o Cravo, trouxe a Rosa para casa para observar a reação dele, que não se incomodou. Mas a minha mãe colocou um pedaço de melancia para cada um e ficou preocupada porque a Rosa não comeu! O Anselmo trabalhava bem mesmo.
            Ele faleceu em março do ano passado, aos 49 anos, devido a complicações após um transplante de fígado. Ao vê-lo ali deitado, com o rosto e as mãos negras emolduradas por flores brancas, pensei que ele viveu a vida de modo que, ao morrer, todos choravam e só ele sorria. Descanse em paz. Sentiremos saudades. A vida ficou mais triste sem suas risadas.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Os bichos

       
Gosto de gente, de bichos e de plantas, não necessariamente nesta ordem. O comportamento, a beleza, a perfeição, a originalidade e a “sabedoria” dos animais me fascinam. O comportamento principalmente.
Por exemplo, o porco que conheci na fazenda, o Janjão. Nasceu em uma ninhada de 14 leitõezinhos, mas a mãe, infelizmente, veio a falecer. O Manoel, encarregado da fazenda, criou o Janjão na mamadeira, só ele sobreviveu. Mamava como um bezerro, mas se julgava um cachorro. Adotou o Manoel como pai e os cachorros como irmãos. Considerava um ultraje, um desaforo, ser trancafiado no chiqueiro com os seus semelhantes. Não se misturava. Fugia e ia se juntar aos cachorros, vivia esparramado na varanda da casa. Um dia, abri a porta, fui descer as escadas e pisei no Janjão, quase levei uma mordida. Estava lá, deitado, folgadão, pensando que era cachorro. Onde o Manoel ia, o Janjão ia atrás. Mesmo se saia a cavalo, o porco ia atrás, todo lépido e ligeiro. Quando o Manoel atravessava o rio na canoinha, os cachorros pulavam na água e nadavam atrás. O Janjão também, ia nadando como cachorro. Ele gostava de ficar no colo do Manoel, cochilando e recebendo um cafuné. Se outra pessoa o pegasse, não aceitava. Esperneava, mordia e saia guinchando. Colo, só mesmo o do pai. Mas o Janjão foi crescendo e muito. Ficou valente e custoso. Batia na cachorrada toda e mamava na Tigrona, uma cadela fila bem mansa. Às vezes, queria até cruzar com ela. Não teve saída, venderam o Janjão (matar e comer a carninha dele, do porco de estimação, nem pensar). Mas ele ficou na história da Fazenda Água Verde.
Outro caso interessante é um que vi na internet. Owen, um filhote de hipopótamo de 300 kg, foi salvo por uma equipe de resgate na Ásia, por ocasião do tsunami. A mãe morreu e ele adotou um macho centenário de tartaruga gigante como sua mãe. A tartaruga está bem feliz com o seu papel e o hipopótamo a segue por toda parte. Ela vai andando bem devagarzinho, como toda tartaruga, e ele também. Comem e nadam juntos. Na hora de dormir, o bebê hipopótamo coloca a cabeçorra no casco da tartaruga e dorme como anjo. Dois gigantes muito ternos.
Trabalhei em um projeto de extensão da UFU, no Museu de Biodiversidade do Cerrado, no Parque Siquierolli. Sempre que possível, atendia às escolas visitantes e explicava sobre os animais expostos. Todos taxidermizados, durinhos, com olhos de vidro, mas cada um com seu fascínio. O lobo-guará, tímido, de pernas longas, audição aguçada, ameaçado de extinção. O tamanduá-bandeira, com garras dianteiras poderosas; enxerga pouco, mas tem olfato 40 vezes mais eficaz que o do homem. O tatu-canastra, enorme, com até 60 quilos e um metro de comprimento; bem raro porque é caçado por sua carne saborosa. O bicho-preguiça, muito peludo, preguiçoso e paradão, passa o dia dormindo, dependurado nos galhos. O ouriço-cacheiro, inofensivo e lerdo, com espinhos afiados. Além dos mamíferos, aves e insetos incríveis. A arara, o tucano, o bem-te-vi: a coloração das penas é inacreditável. Insetos grandes, pequenos, coloridos, camuflados, centenas deles. Enfim, o show da vida, ali exposto na forma da diversidade dos animais do cerrado. Mostrando que o bicho-homem ainda tem muito a aprender com os outros bichos.

          
 
      

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Na paz de Cristo

           
          Encontro muita paz e conforto ao participar da celebração da santa missa. É bom ficar na casa de Deus, se sentir abraçada por Ele e receber o pão da vida. Cantar o Pai Nosso, de mãos dadas com a igreja toda. Mãos macias, mãos calejadas, mãos enrugadas, mãos pequeninas, mãos rudes. Todas entrelaçadas pedindo a paz de Cristo, a paz que vem do amor. E ao final de tudo, a benção de Deus e a certeza de que Ele nos ama mesmo quando menos merecemos, porque Ele sabe que é quando mais precisamos. É aí que Ele nos carrega no colo.
            Tentando educar os filhos na fé, sempre os levava a igreja. Passei maus momentos, mesmo na paz de Cristo. Certa vez, no momento do ofertório, uma senhora recolhia os donativos com uma cestinha. Um dos meus meninos, então com três anos, enfiou as duas mãozinhas no cesto e agarrou o máximo de notas que conseguiu. Entendeu que a senhora estava dando o dinheiro para ele. Foi uma novela e um vexame fazê-lo devolver. Em outra ocasião, o mais velho, com cinco anos, saiu do banco de fininho e entrou na fila da comunhão. Voltou indignado, reclamando que o padre não quis dar o pãozinho para ele. Outro, na Semana Santa, quando a procissão chegou à igreja, se assustou com a imagem de Cristo sendo carregada no andor. Era uma imagem grande, com cabelos compridos, coroa de espinhos. Ele arregalou os olhos e perguntou, bem alto, para toda a igreja ouvir: “mas, o que este índio está fazendo aqui?” (fingi que não o conhecia). Já o quarto filho sempre levava uma violinha para tocar perto do coral (pensava que sabia tocar). Uma menininha ficou encantada com ele e ficou encarando-o. Ele não pensou duas vezes: sentou a violinha na cabeça dela. Choro, vexame, desculpas.
Passei também por momentos diferentes, dentro de igreja, quando  visitei minha filha nos Estados Unidos. No momento do abraço da paz, no Brasil a gente abraça mesmo e deseja a paz de Cristo para o maior número de pessoas possíveis. Parece que existe uma competição para ver quem abraça mais. Isto sem contar as pessoas que dançam e batem palmas ao som da música. Lá nos States, não. É apenas um cumprimento formal, para as duas pessoas do lado. Mas aprendi isto só depois de ter cumprimentado vários americanos, como se fossem velhos conhecidos. Também no momento da comunhão é diferente, tudo organizadinho. A sequência obedecida é do primeiro ao último banco, de acordo com o assento das pessoas no banco. Como eu não sabia disto, é claro que furei toda a fila (o genro americano ficou impressionado). E no momento da comunhão, outra descoberta: todas as pessoas que comungavam bebiam um golinho de vinho numa mesma taça. A igreja inteira, no mesmo copo. Quando vi, queria retroceder na fila, mas não tive saída. Bebi meu golinho também. Outra diferença é no momento de dar as mãos. Lá nos States ninguém fica no meio do corredor, unindo as pessoas de dois bancos. Ninguém a não ser eu, claro (também descobri isto depois).
            Mas interessante mesmo é o que aconteceu com minha filha na igreja. Ela tem o costume de beijar a mão quando termina de fazer o sinal da cruz (lá não beijam). Conheceu o marido por causa disto. Ele a viu fazendo este gesto, teve certeza de que deveria ser latina, gostou da morena bonita de cabelos compridos e anelados e foi conversar com ela. Hoje estão felizes, casados e esperando o segundo filho. Deus os uniu com o sinal da cruz.

sábado, 11 de dezembro de 2010

A malinha do Miguel

Miguel com dois dias, no hospital, e sua roupinha da sorte

    
O quartinho do Miguel


                
Em janeiro de 2008 estive em Macaé, esperando a chegada do primeiro rebento do meu filho mais velho, engenheiro da Petrobras.
Ao abrir a porta do quartinho do bebê, fiquei maravilhada. Tudo combinando, em branco e azul: cortina de nylon esvoaçante, pintura na parede com cenas da infância, berço com almofadas bordadas, cortinado pomposo e móbile musical que projetava estrelas no teto, guarda-roupa com coleção de sapatinhos e roupinhas perfumadas e cheirosas. Coisa de cinema, ao vivo e em cores.
Mas a emoção maior foi quando abri a malinha do bebê, que seria levada para o hospital. Em tom verde água, com as roupinhas todas separadas em saquinhos de filó, amarradas com laço. Todas em ordem cronológica, onde estava escrito em letras prateadas: primeira roupa, segunda roupa, terceira roupa, roupa extra, roupa de saída do hospital. A primeira, toda azul, porque era um menino: manto, sapatinhos, luvas, touca e macacão. A última, toda vermelha, para dar sorte na vida (o Miguel sairia como um Papai Noel ou como um Chapeuzinho Vermelho). Como eu seria a acompanhante, fiquei receosa de misturar sapatinhos, calças, toucas e luvas, mas a norinha me tranqüilizou. Disse que se a primeira vestimenta e a última saíssem certinhas, as do meio não seriam tão importantes. Além das roupas, um caderno decorado, onde as pessoas deveriam escrever mensagens de boas vindas para o Miguel e as lembrancinhas, um chaveiro com um bonequinho de pano. Chupetas, mamadeiras, pomadas. O auge aconteceu quando descobri, no bolso da malinha, dois CDs de música clássica, “Beethoven para bebês”, que deveriam ser tocados no quarto para o bebê ficar calminho! Achei deslumbrante essa malinha de chegada (principalmente porque todas as malas são de partida).
Depois da malinha, só faltava mesmo o Miguel. Ele nasceu no dia 11 de janeiro, com três quilos e meio, lindo, forte e saudável, chorando alto (um pouco amassado, como todo recém-nascido). Mãe, pai e avó emocionados e maravilhados. Começou toda a maratona de mamadas em peito dolorido, arrotos, cólicas, soluços, curativos no umbigo, noites mal dormidas (a música do Beethoven foi deixada de lado, na vida real as coisas não são tão perfeitas assim, muitas vezes é simplesmente um “salve-se quem puder”).Para complementar, os eternos palpites: “parece com o tio”, “os olhos são da avó”, “a pele clara é da mãe”, “ o pé feio é do pai”. E o nenê no colo, que gostoso! Uma sensação de paz, aconchego, ternura. Parece que nada mais importa.
  O nascimento de uma criança é sempre um momento mágico. Símbolo de esperança, de vida, de continuidade. Existem tristezas sim, como crianças e velhos abandonados, mulheres espancadas, jovens drogados, pessoas assassinadas. Mas existem crianças nascendo, engatinhando e aprendendo a andar. O Pequeno Príncipe, quando chegou ao planeta Terra, ficou assustado com a pequenez dos homens e perguntou: “e as crianças, elas ainda existem?”. Existem sim, lindas como o Miguel, que saiu do hospital todo de vermelhinho, pronto para viver a vida, no que der e vier.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O pequenino e bravo Enzo

Enzo saindo do hospital, com dois dias, amarradinho na cadeira

Enzo em sua caminha, com dez dias


             
No dia primeiro de agosto veio ao mundo meu quinto neto, Enzo, o primeiro rebento de minha filha e seu marido americano. Nasceu no Memorial Hospital, em Sacramento, California, de parto normal. O pai e eu acompanhamos tudo: as contrações, as dores, o bebê nascendo, o corte do cordão umbilical. Depois, o choro silencioso da mãe, do pai e da avó, de emoção. E o choro aos berros do bebê. De susto, de tantas mãos segurando, das dores e do esforço para nascer, do desejo premente de mamar.
Logo em seguida, foi colocado durante uma hora e meia no peito da mãe, para sentir seu cheiro e sua pele (o pai, deslumbrado, queria colocar no seu peito também, mas a médica nao permitiu). Esfomeado, o pequeno Enzo já comecou a sugar o seio da mãe com dez minutos de vida, um verdadeiro milagre da natureza. Nos dois dias que esteve no hospital, tentou como pôde conseguir umas mseras gotinhas do precioso lquido. Ás vezes, berrava tanto que as enfermeiras, num ato de misericórdia, davam a ele uma nfima quantidade de leite num copinho, que ele lambia como um gatinho. Além da árdua luta pelo leite, passou por uma bateria de exames e vacinas. Teste de audição, de visão, de reflexos. Teste do pezinho (furaram o pé do pequenino com uma agulha bem grossa e ele ficou dando suspiros apaixonados). Também gostavam era de bebê peladinho, só de fralda, para ele não dormir na hora de mamar. Arrancavam as roupas, apesar dos protestos do bebê. Como sempre estava mamando (ou tentando), o Enzo passou boa parte do tempo pelado. As roupas, escolhidas com carinho, voltaram como foram. Para acalmar o bebê, ensinaram a técnica de colocar o dedo indicador dentro da boca, para ele chupar (chupeta nao podia, dedão sim). Chupou o dedo da enfermeira da manhã, da enfermeira da noite, da pediatra, da mãe, do pai, da especialista em amamentação. Até preparei meu dedo também (cortei a unha e passei álcool), mas faltou coragem. Quando estava calminho, lá vinha a enfermeira atormentá-lo com um aparelho de última geração, que bipava e acendia uma luz infra-vermelha, pesquisando no corpinho dele qualquer sinal de ictercia. Além de tudo, o tempo todo o pequenino ficou com um aparelho preso na perninha, capaz de disparar um alarme contra roubo de bebês, caso fosse retirado do andar onde estava (hospital de primeiro mundo é uma loucura).
O pequenino Enzo foi aprovado com bravura em todos os quesitos, alcançando nota 9,9 em uma escala de zero a dez (mas ele não sabe que na próxima semana vão fazer a circunsciçao no pintinho dele, um costume dos americanos). Quando recebeu alta do hospital, toda a equipe foi ao quarto dar as instruções de como cuidar do bebê. A especialista em amamentação sabia tudo sobre peito, sucção, tempo de mamada, posição correta, etc, e explicou tudinho ( quando ela saiu do quarto, a jovem mãe até chorou, ao pensar que jamais conseguiria amamentar bem). Na hora de sair, fotos do bebê peladinho, pra variar, no peito pelado do pai, deitado na cama da mãe.
Uma enfermeira acompanhou o cortejo até o carro, para certificar-se que o pequenino ia sair bem amarradinho na cadeirinha do bebê (no colo, nem pensar). Já em casa, o pai enviou flores vermelhas para a esposa (a "minha marida", como a chamou certa vez, tentando falar português). E o Enzo dormiu feliz, de barriguinha cheia. Sobreviveu ao Hospital, agora é fácil viver a vida, no que der e vier.   

domingo, 5 de dezembro de 2010

O casamento

           

             
 Hora de todos se aprontarem para o casamento às 18h na Igreja Nossa Senhora do Caminho. O pai da noiva todo lindo, no meio-fraque alugado (estava se sentindo o Napoleão Bonaparte). Eu, com o vestido verde bordado que veio direto dos States, presente da filha, e que nem sabia se iria servir. Os pajens, os dois netinhos, lindos no meio-fraque, idênticos ao avô. As duas daminhas, com coroas de flores naturais: uma esqueceu o buquê, mas entrou direitinho assim mesmo, junto com os outros, ao som da música Aquarela, de Toquinho, cantada pelo coral de quatro vozes.
A porta da igreja fechando e depois abrindo. A noiva linda, entrando ao som da Ave Maria, com um sorriso que tudo iluminava. O pai entregando-a ao genro americano e dizendo algumas frases ensaiadas em inglês. A noiva se emociona, mas não chora. Na cerimônia, lê compenetrada uma passagem da bíblia, a pedido do celebrante (no entanto, explica aos convidados que não gosta da parte onde diz que a mulher deve ser submissa). O noivo, alto e bonitão, não disse o sim na hora certa, porque não entendeu nada do que o padre disse (a noiva começou a rir ). Na sola do sapato dele, escrito “I Do”, para todos lerem quando ele se ajoelhasse.
Na benção das alianças, a música “ que o casal seja um para o outro de corpo e de mente e que nada no mundo separe um casal sonhador”. O noivo repete, em português, com dificuldade, as palavras do padre: “...na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.”
Minha amiga, do meio da igreja, declama para os noivos o Poema da Fidelidade, de Vinícius de Morais, com emoção e voz forte. Nessa hora, como os americanos não entendiam nada, pensaram que era alguém protestando contra o casamento, naquele momento “se alguém tiver algo contra, que fale agora ou cale-se para sempre”. Ficaram aliviados quando todos os presentes aplaudiram, ao final do poema.
Os noivos saem ao som de música da Marisa Monte, no tapete vermelho e entre os bancos enfeitados de lírios e copos de leite. Os pajens e convidados soltam bolhinhas de sabão na igreja, dando um toque de alegria. Os noivos entram no carro antigo, se beijam, acenam e vão embora. Tudo muito lindo. Para encerrar, o pajem chora na porta da igreja: quer tirar a roupa e ganhar logo o presente prometido para ele entrar direitinho.
    Como no filme “o pai da noiva”, ao final de tudo, sento-me na sala toda desarrumada. Papéis de presente amassados, copos abandonados, gravatas esquecidas. O buquê da noiva murchando no vaso em cima da mesa. Num misto de vazio e saudade, começo a olhar os presentes e a ler os cartões de felicitações. Uma amiga escreveu: “Para vós invoco os prazeres que voam nos ventos e as alegrias que moram nas cores. Que o sorriso de um seja, para o outro, festa, fartura, mel, peixe assado no fogo, côco maduro na praia, onda salgada do mar   E que no final das contas, em nome do nome sagrado, do pão partido e do vinho bebido, sejam felizes hoje, amanhã e sempre.” Estes também são os meus votos.

O casamento

Os noivos com as irmãs e o pai do noivo

A noiva com a mãe e a irmã

A mãe da noiva

Os noivos na festa do casamento
              
             Adorei o filme “O pai da noiva”, com Steve Martin. Como recentemente passei pela experiência, resolvi escrever sobre as emoçôes e confusões de ser mãe de noiva, em dois textos: o primeiro, envolvendo os fatos “em volta” do casamento e o segundo, com os momentos emocionantes na igreja.
            Minha filha que mora nos Estados Unidos (trabalha como ortodontista) casou-se com um americano. O casamento civil foi nos States e o religioso em Uberlândia. Convite em inglês e em português. Os noivos só poderiam chegar na semana do casamento, com centenas de coisas para resolver. As confusões começaram já na viagem: a noiva veio e o noivo ficou para trás (ele tinha dois passaportes e só pegou o que não tinha visto para o Brasil). Ficou no meio do caminho, na conexão do voo em Chigago. Uma hora de atraso do avião, para retirar as malas do noivo. A noiva chorando e o tio do noivo enxugando suas lágrimas, com 180 passageiros do avião acompanhando o drama. O noivo passou três dias em Chigago tentando visto e passagens (sem roupas, pois as malas extraviaram).
            Assim, perderam o curso de noivos. E sem ele, não tem casamento. Conseguiu-se um de emergência, de apenas uma noite. Depois, começaram a chegar os americanos, amigos e parentes do noivo (vieram 16). Mais malas perdidas e roupas compradas às pressas no Brasil. Um calçava número 48 e ninguém encontrou sapato para ele. Confusão de inglês, português, espanhol e portunhol. O Silveira, coitado, era o motorista da Van de 15 lugares que contratei para o translado dos americanos para os vários lugares. Ele não falava nadica de nada de inglês e os americanos, apenas “obrigado” em português. O Silveira terminou a “turnê” jurando que ia aprender inglês.
            Amigos e parentes da noiva chegando de todo lado. Muitos no hotel, 23 na minha casa, colchões e confusões. Almoço dois dias em casa, com pernil, tutú e couve: confraternização de 50  brasileiros e americanos (parecia a Torre de Babel). O ensaio na igreja (todos fazendo tudo errado), presentes e telegramas, torcida para não chover. O aluguel do carro antigo para transportar a noiva (mas ela queria mesmo era chegar de lambreta no casamento).
            Hora do casamento na Igreja Nossa Senhora do Caminho. Depois, as fotos na praça com a irmã fotógrafa e a festa na chácara. No caminho, aconteceu um fato engraçado: ensinei o caminho errado para o meu marido e meu irmão. Nos perdemos, à noite, com seis americanos. Disse para eles: “Sorry, we are lost”. Exclamações, espanto, olhares amedrontados. Vacas e cavalos no caminho, com olhinhos brilhando no escuro. Devem ter pensado que estavam no fim do mundo. O pior é que fui eu quem fez o mapa do caminho! Confundi o nome das ruas, troquei Quarto de Milha por Mangalarga, tudo é nome de cavalo. Fomos os últimos a chegar na festa.
            Depois, as felicitações, a alegria, a mesa do bolo com doces cristalizados. O clip com os momentos importantes da vida dos dois. Pessoas dançando, sorrindo , comendo e bebendo. A decoração com muitas flores, a música gostosa e nostálgica, a felicidade dos noivos.     
      No final, tudo deu certo. E como na música de Roberto Carlos, “o importante é que emoções eu vivi.”

Um bebê no colo

Yara no dia do seu nascimento

              
            Aconteceu no domingo, 18 de abril. O bebê veio ao mundo de parto natural, em um hospital de Uberlândia. Tão rápido que nasceu na maca, no pronto socorro, sem assistência médica na hora crucial. Um enfermeiro, o Tito (nome fictício para proteger o personagem) entrou na salinha para levar uma maca e segurou o bebê no susto, sem nunca ter feito um parto. A mãe, minha filha Karine, aturdida pelas dores, perguntou se era menina ou menino. O Tito, mais aturdido ainda, respondeu que era menina. O pai, trêmulo e de pernas bambas, segurando as mãos da mãe (só ele assistiu tudo). A avó (eu), entrando esbaforida no quartinho, magoada por ter perdido o parto (estava preenchendo os papéis para a internação) e maravilhada ao ver a netinha, aliás netona, com 3.800 gr. A médica, atrasada, chegou para cortar o cordão umbilical e “costurar” a parturiente.
            Foi assim que nasceu Yara, a rainha das águas (ia se chamar Gaia, em homenagem ao planeta Terra, mas depois a mãe se encantou com o nome e o significado de Yara). Saiu do hospital de roupinha cor de rosa, escolhida na malinha onde existiam roupas azuis e roupas rosa, e veio para a casa dos avós (a filha mora na Bahia, entre coqueiros, areia e mar). A partir daí, começou a maratona das mamadas no peito, choros e berros (os pulmões dela são fortes), soluços, arrotos, fraldas, banhos. As visitas, os presentes, os comentários de “é a cara da mãe”. Noites mal dormidas e falta de tempo para comer em sossego. Lembrei à minha filha que minha velha mãe, em sua sabedoria, sempre dizia: “desde que filho possui, nunca mais barriga enchi”.
Mas bom mesmo é ter a Yara no colo (quando ela não está berrando). Acredito que um dos atos mais sublimes da humanidade é ter um bebê nos braços. Momentos de ternura, de carinho, de enlevo. Oportunidade de maravilhar-se com a perfeição das mãozinhas, dos pés, dos olhos que olham ainda sem enxergar; de curtir o sorriso com duas covinhas e de sentir o aconchego do corpinho macio daquele pedacinho de gente. Pensar que a vida é mesmo um milagre e mais simples do que a gente pensa. Sentir que aquele bebê representa um universo de verdades a ser descoberto , uma vida a desabrochar e florescer entre alegrias e dores. Como bem escreveu Lya Luft, “o primeiro momento em que um filho é colocado nos braços de uma mãe representa um misto de susto, plenitude e ternura, maior e mais importante do que todas as glórias da arte e da ciência, mais sério do que as tentativas dos filósofos de explicar os enigmas da existência”. Acrescento que este sentimento também é compartilhado pelas avós.
Agora ela está em sua casa, na praia de Algodões. Ao apertá-la no colo, para me despedir, desejei a ela uma vida plena de afetos e que sempre se sinta querida e amada como foi desde o primeiro momento. E como escreveu Carlos Drumond de Andrade, que tenha muitas coisas boas na vida, como: “tomar banho de cachoeira, banho de mar, ver o por do sol, beber água de coco na sombra de um coqueiro, comer fruto do mato, ouvir canto de passarinho e chuva no telhado, sentir o cheiro do jardim, aprender uma nova canção, bater palmas de alegria, calçar um chinelo velho, curtir uma festa, um violão, uma seresta e namoro no portão”. E que receba muitos abraços, dê muitas risadas e tenha saúde.
Yara, que Deus a proteja sempre e a carregue no colo quando você precisar.   

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Obama e Yuri

Yuri hoje, com dois anos e seu galo de estimação

Yuri com os pais, com uma semana de vida




Obama, o presidente eleito da maior potência mundial, tem muito a ver com o meu netinho Yuri, de dois meses. Por exemplo, a cor da pele e os cabelos enrolados (os cabelos do bebê, antes lisos e abundantes, caíram e nasceram rebeldes). Obama disse que é “marrom” e Yuri foi classificado como “pardo”, no hospital uberlandense onde nasceu.
            No dia em que Obama foi eleito, houve uma comoção nacional nos Estados Unidos e uma vibração no mundo todo. No dia em que o Yuri nasceu, houve uma “comoção hospitalar” e o Brasil todo comemorava a independência, pois ele nasceu no dia sete de setembro. A “comoção hospitalar” ocorreu porque minha filha, Karine, ficou 34h em trabalho de parto (30h em casa, com a “doula” e eu assistindo e sofrendo). A mãe deu à luz de cócoras, numa cama de um quarto comum no hospital, sem nenhuma anestesia (gritou um pouco). A médica, muito profissional e elegante, com saltos altíssimos, andava de um lado para o outro, esperando as coisas acontecerem. Eu não sabia se ficava ou se saía. Fiquei e me emocionei junto com a equipe (a médica, a pediatra, a “doula”, as enfermeiras) quando o Yuri nasceu, com três quilos e meio, um pouco roxo (não sei se da cor da pele ou sufocado) e berrando alto. Acredito que nunca houve um parto assim nesse hospital (dizem que é um “parto humanizado”, mas eu não achei).
            O Obama e o Yuri são multiculturais. A mãe do Obama era branca, antropóloga e fascinada pelos camponeses da ilha de Java. A mãe do Yuri também é branca, culta, fascinada pela vida simples, meditação, yoga e pelos quilombolas. O pai de Obama era um negro da tribo dos luos, do Quênia. O pai do Yuri é um moreno escuro, de um quilombola da Bahia. O Obama é um Ph. D. em diversidade, nasceu no Havai, viveu na Indonésia, estudou nos Estados Unidos. O Yuri terá que viver em mundos diferentes, entre Uberlândia, praia dos Algodões e comunidade quilombola. Vai aprender o linguajar dos quilombolas e o inglês, que a mãe vai ensinar. Aqui, dormiu num bercinho normal. Lá, está dormindo num casco de tartaruga gigante, já colocou os pés no mar e tomou banho no rio. O primeiro presente que vai receber do pai, agricultor, será uma enxadinha, para ir se familiarizando com a terra.
Os dois são carismáticos. Obama é jovem, com sorriso largo e franco, talentoso e com ideais nobres. O Yuri é lindo, com olhos vivos, brilhantes e expressivos, gordinho e bochechudo, dobrinhas por todo lado e sorrindo sem saber de que. Os dois têm um grande desafio pela frente: Obama é o presidente dos Estados Unidos mais inexperiente e terá que governar um país com duas querras, uma grave crise financeira e uma reputação internacional se dilacerando. O Yuri terá que viver e se adaptar a dois mundos tão diferentes em um mesmo país. Até o nome deles é interessante. Barak Hussein Obama é uma mistura de nome africano, árabe e tribal, um homem de três continentes. Yuri é um nome russo, do primeiro astronauta a viajar para o espaço, representando a capacidade do homem de ir cada vez mais longe. Pressinto que o Yuri irá alcançar altos horizontes. O Chicago Tribune descreveu a vitória de Obama como “a de um candidato improvável, realizando um sonho que já foi impossível”. Quem sabe um dia o Yuri será o presidente do Brasil.

sábado, 20 de novembro de 2010

Apresentação dos textos sobre a minha filha

Karine fazendo yoga na Índia


            
              A vida de algumas pessoas é mais emocionante que a de outras. A da minha filha Karine, por exemplo. A vida dela daria um livro e um filme tipo “Comer, rezar, amar.” Mas como ela não quer escrever, eu sempre escrevo sobre ela, da minha maneira e ouvindo seus relatos. Algumas dessas crônicas estão publicadas no meu primeiro livro e outras farão parte do segundo. A partir de hoje, colocarei dez textos sobre sua vida, como uma novela em dez capítulos, ilustrada por fotos. O primeiro texto se chama “Fotografias de uma vida” e foi inspirado em fotos como as anexadas a esta apresentação. Depois escrevo sobre suas viagens, casamento e nascimento dos filhos. Espero que gostem. Ana Maria
Igrejinha onde foi o casamento

Os noivos e as daminhas

  
Chegada da noiva com o pai



               
           Como prometi, escrevo sobre o casamento da filha, Karine. No aeroporto de Confins, onde fizemos escala para Ilhéus, está escrito: ”Minas Gerais. Não dá para explicar. Tem que viver”. Assim foi o casamento. Difícil de explicar, de descrever. Tem que sentir e viver.
            A travessia na balsa de Itacaré, a estrada de terra sacolejante e esburacada. A chegada em Algodões, na casa bonita, com varandas e redes, cobertura de piaçava, janelas enormes com cortinas indianas coloridas (foi construída pela filha, com garra e recursos próprios). A vista para o mar entre mil coqueiros. Pizzas no forno de barro, camarão na água de côco.
            No dia do casamento, o almoço para a grande família do noivo. Apareceu gente de todo lado e de toda idade. Os caldeirões de feijoada evaporararam e os pratos pareciam montanhas de comida (são magros mas comem bem). Depois, o batizado do noivo e às 16:30h, o casamento, em uma capelinha na praia. Minúscula, singela, construída com pedras, sem portas e sem janelas. Com quadros de Nossa Senhora e uma grande cruz de madeira, enfeitada de flores vermelhas.
Com o sol se pondo, a noiva desceu a pequena ponte sobre o rio, de mãos dadas com o pai, e caminhou pela areia ao som da Ave Maria. Linda e radiante, com uma coroa de flores naturais na cabeça. Na frente, as duas daminhas, sobrinhas do noivo, que vieram das casinhas de pau-a-pique e nunca foram a um casamento ou tiraram uma foto. Encantadas e amedrontadas. Atrás, a cachorrinha yorkshire acompanhava.
O pai entregou direitinho a filha ao noivo. O padre falou bonito, enfocando que, no casamento com amor, todas as dificuldades são superadas. A noiva transbordava felicidade, mas chorou emocionada quando repetiu “te prometo ser fiel na alegria e na tristeza.” O noivo gaguejou na hora de prometer fidelidade, mas prometeu. Os convidados, todos do lado de fora da capelinha, jogaram arroz nos noivos. O sino da capelinha repicou e os noivos se beijaram. Ao som da música “Eu sei que vou te amar”, assinaram o livro. Tudo muito simples e encantador.
As fotos com o mar ao fundo, as palmeiras balançando e o sol poente. Pessoas que nunca tiraram uma foto e pessoas com filmadoras de última geração. Algumas descalças por não terem sapato, outras por acharem “chic” estar descalças em um casamento. Algumas que chegaram em avião particular e outras que vieram de longe, a pé. Umas muito brancas, como o francês com o cabelo de um metro de comprimento, enrolado em um turbante tipo abajur. Outros bem morenos e exóticos, como o Bob, também com cabelo de um metro. Acompanhava uma francesa maravilhosa e muito loura, com dois filhos. O marido viajou para a França e pediu ao Bob para tomar conta da esposa. O Bob tomou conta mesmo. Havia também argentinos e espanhóis, todos nós em harmonia com os quilombolas, em um casamento “sui generis”.
Depois, a caminhada pela praia até a pousada onde foi servido o jantar. Salada de bacalhau, catado de siri, muqueca de peixe e cocada. Quando a lua nasceu majestosa e iluminando o mar, a noiva foi para a praia e jogou o buquê. Acenderam uma fogueira. Olhando as labaredas, pensei que agora tenho dois genros: um americano, que já trabalhou para o governo americano e vive na capital da California. O outro, que até agora viveu no meio da floresta, em uma cabaninha suspensa de madeira. Para ter um diálogo decente com eles, estou em apuros: preciso aprimorar meu inglês e aprender o linguajar dos quilombolas. Contrastes da vida.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Aventura na selva

Ladeira no caminho de Ambuba

Travessia do rio na canoinha
              
No dia anterior ao casamento da minha filha, na península de Maraú, BA, fomos conhecer a comunidade de Ambuba, onde vivem os pais e irmãos do meu genro. O Zé, meu marido, achava que lhe faltava preparo físico para a aventura. Mas penso que ficou tentado a ir, ao saber que prepararam para nós um almoço com camarão pitú e galinha caipira. Criou coragem e lá fomos nós, um grupo de oito pessoas.
Os carros ficaram parados numa “currutela” e pegamos o “caminho da roça”, um atrás do outro. Passamos por uma vegetação densa e pelo seringal. Chegamos ao manguezal escorregadio, cinzento e pegajoso. Fotos com lama até o joelho, para a posteridade. Depois, a travessia no rio, dois a dois na canoinha. A subida no morro com inclinação de 45°, usando os pés e as mãos (ou seja, de “gatinhas”). Chegamos à casinha humilde, de pau-a-pique, limpinha e aconchegante. Chão de terra, fogão à lenha, água de mina para beber. Galinhas no quintal, pés de cacau , de côco e de graviola. Conhecemos a grande família do genro: a mãe, falante e disposta, com nome de rainha: Elizabeth. O pai, oito irmãos, as sobrinhas, primos. As casinhas suspensas de madeira, tipo Tarzan, no meio da vegetação exuberante, onde os homens solteiros dormem. O rio bonito, onde tomam banho, buscam água e lavam roupa. As pinguelas roliças de dois paus, cada um rolando para um lado. O almoço gostoso debaixo de árvores, sentados nos banquinhos de “tauba”, como dizem por lá.
Depois, o retorno. Optou-se por subir o rio de canoa e chegar até nas proximidades dos carros, ao invés de voltar pelo mangue. Acontece que a canoa é simplesmente um tronco de madeira, comprido e grosso, com um buraco esculpido no centro, no sentido longitudinal. E deveria transportar oito pessoas, entre elas o Zé, que tem pavor de água e medo de morrer afogado. No que entramos cinco pessoas na canoa, a água entrou também. O Zé começou a falar: “Pára, pára, tô fora”, mas não conseguia sair porque estava bem encaixadinho no buraco talhado na madeira, ocupando todo o espaço. Pânico, gritos de “pare a canoa” (mas ela ainda nem tinha saído do lugar). Resolveu-se o problema com dois indo de caiaque, embora sem saber remar muito bem. No final, salvaram-se todos. De barriga cheia, mas suados, sujos, cansados e com pernas cortadas por capim navalha.
Um outro mundo. As moças da cidade, que foram para o casamento, passaram uma noite em Ambuba. Dormiram em uma casinha suspensa de madeira e acharam a glória passar uma noite na floresta (mas vai viver lá, vai). Uma delas escovou os dentes e passou fio dental. Toda ecológica, não querendo poluir a floresta, perguntou ao moço, dono da casinha, onde havia um cestinho de lixo. O moço ficou boquiaberto: além de não ter cestinho, jamais ouviu falar em fio dental.
Outro caso foi quando o Zé queria consertar o chuveiro da casa da minha filha e precisava de um ajudante. Perguntou para os presentes quem entendia de eletricidade. O genro respondeu: “Ninguém” (lá na comunidade vivem sem energia, acendem fogueira à noite). Mesmo assim,  genro e sogro trabalharam em uníssono, consertaram o chuveiro e ninguém morreu eletrocutado.
Este foi mais um capítulo da novela da vida da minha filha. O enredo e as tramas vão acontecendo e quando a gente percebe, mesmo sem querer, está no elenco dos atores principais. Haja coração e preparo físico.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Uma história incrível

Casinha de barro no quilombola, onde moram os pais

Casa suspensa onde morava o genro

Travessia do rio para chegar ao quilombola       



                  
            É difícil acreditar no relato que se segue, mas tudo o que escrevo é a mais pura expressão da verdade.
            Tenho escrito sobre minha filha, que sempre viaja para a Índia, faz meditação e ioga, tem uma profunda fé em Deus, cursou Direito e passa o verão na Bahia, com sua loja de roupas indianas. Agora ela é protagonista de uma história daquelas que só acontecem nos filmes, tipo Jane e Tarzan. Acontece que, depois de ter chegado aos mais de trinta anos, resolveu que era hora de casar e ter filhos, antes que fosse tarde demais. Mas a percepção dela de homem ideal é completamente diferente da percepção de uma mulher civilizada (embora ela fale três linguas e conheça boa parte do mundo). Queria um homem simples, puro, voltado para a natureza, sem emprego em tempo integral e que ajudasse a cuidar dos filhos. Encontrou um no meio da selva, numa comunidade de quilombolas na Península de Maraú, BA. Foi paixão à primeira vista.
Para quem não sabe (eu não sabia, andei pesquisando sobre o assunto), quilombolas são comunidades negras de descendentes de escravos que viviam nos quilombos. Na Bahia existem mais de trezentas destas comunidades, algumas seculares, com cultura e histórias próprias. Geralmente sobrevivem da agricultura de subsistência e do cultivo e venda de fibras, como piaçava e do óleo de dendê. A maioria não tem certidão de nascimento, CPF, carteira de identidade, título de eleitor.
Em Ambuba, na comunidade quilombola do meu genro, a família dele vive em harmonia (uma das coisas que encantou a minha filha). O pai é branco e a mãe é negra. Ele é moreno, olhos e traços bonitos, cabelo rastafari. São dez irmãos que cultivam a terra e repartem o que colhem. Vivem em cabanas de madeira, buscam água no rio, pescam peixe e camarão pitú, caçam tatu e paca, fazem um chocolate delicioso com o cacau que cultivam. Não existe energia elétrica e cozinham em fogão de lenha (minha filha me conta tudo). Vivem praticamente sem dinheiro, o pouco que ganham é com a venda de borracha, extraida da plantação de seringueiras. Usam para comprar  óleo, carne seca, sal, café, açucar. Ele, o genro, nunca tomou uma cerveja, assistiu um filme, leu um livro, usou um computador, nada. Ela, a filha, o levou para conhecer um shopping em Itabuna. Ele ficou impressionado com tanta gente e com tanta loja. E eu, como mãe e sogra, estou abobalhada com tudo isso.   
  O casamento será na praia de Algodões, perto da casa de minha filha, em uma capelinha na beira da praia, onde só cabem quinze pessoas. Foi construida por um ricaço de São Paulo, ao lado de sua mansão. É uma réplica de uma capela da Itália. Depois do casamento, haverá um jantar na beira da praia, com vários tipos de peixes, pois será época do Festival da Tainha. O local é paradisíaco, a praia é linda, cheia de coqueiros, muito limpa e com mar morno.
            Meu marido e eu vamos conhecer o noivo e sua grande família no dia do casamento. Está também programada uma visita à comunidade. Como é muito isolada, carro não chega até lá. É preciso atravessar um mangue, com água pelos joelhos, e depois entrar em uma canoinha. Para terminar, é necessário galgar um morro com inclinação de 45°, sob o sol escaldante da Bahia. Meu marido, o Zé, disse que não vai. Eu vou. Depois conto como foi o casamento e a aventura na selva.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Índios brasileiros


Recentemente, foi divulgado na TV um possível caso de canibalismo, praticado por índios de uma tribo do Amazonas. Filmaram a aldeia e mostraram costumes dos índios. Interessei-me pelo assunto e comecei a olhar algumas fotos incríveis que tenho, de índios de aldeias no interior do Amazonas, perto da Bolívia. Foram tiradas por minha filha, quando ela lá esteve durante um mês, com uma equipe da Funai, participando como assistente de dentista. De São Gabriel da Cachoeira, partiram em um barco e chegaram no interior da selva. Dormiam em redes e comiam o que levaram. Depois, ela entrou em uma canoinha com a dentista, dois ajudantes indígenas e embrenharam-se no meio dos igarapés. Andaram dentro da selva, à noite, cortando galhos com facão (coisas do seriado “Lost”) até alcançar uma aldeia de etnia hupda.
Os indígenas que moram nessa aldeia têm pouco contato com os brancos, não falam português, usam poucas roupas e não comem açucar. Vivem em palhoças com parede de barro e existe uma maior, comunitária, onde se juntam para comer bijú e peixe. A alimentação é baseada na mandioca. As mulheres trabalham duro, mesmo as grávidas e as idosas. Cuidam da lavoura, plantam, colhem, capinam, carregam coisas, descascam mandioca, fazem farinha. Os homens pescam, fazem redes e canoas. Quando o peixe é abundante, ele é defumado e se transforma em peixe “muqueado”. Em datas festivas, cada família faz a sua bebida alcóolica, em panela própria, de mandioca fermentada, chamada caxiri. Trocam a bebida entre eles, para ver qual está melhor e bebem na cabaça (é um rito social). Ficam bêbados, dançam, pulam e cantam, uma loucura e uma bebedeira geral.
            Os idosos, quando não podem mais contribuir com as atividades da aldeia, são deixados para morrer. Não são tratados e ninguém tenta curá-los. Por sua vez, eles entendem que já cumpriram seu papel e aceitam com naturalidade. Minha filha viu uma velhinha que passava o tempo todo numa rede, numa palhoça afastada, e só recebia uma sopa ralinha uma vez por dia e pronto (ficou chocada).
            O tratamento dentário é precário, consistindo na extração de dentes e em demontrações coletivas de técnicas de escovação. Olhei fotos interessantes de todos os indígenas escovando os dentes, mas sem pasta dental (ganham as escovas do projeto). Aprendem também a limpar os dentes com um fio vegetal.
            As crianças indígenas são fascinantes, dóceis e independentes. Nas fotos, crianças maiores cuidando das menores. Um grupo de meninos e meninas peladinhos , nadando no rio. Correndo na água. Pulando das árvores e mergulhando no rio. Remando sozinhas na canoa. Sentadas na grama. Mamando no peito. Dando birra e rolando no chão. Rostinhos bonitos, parecendo bolivianas. Muitas barrigudinhas, provavelmente cheias de vermes intestinais. Mas o fato incrível e maravilhoso é que as crianças indígenas não apanham de seus pais. Nas aldeias, elas não são castigadas e ninguém bate nas crianças (esse exemplo deveria ser seguido pelos homens “civilizados”).
Ainda sobre costumes em tribos, em certa tribo da África, cada criança que nasce tem uma canção. Cantam a canção para ela em várias ocasiões importantes. Recordam a beleza da pessoa quando ela se sente feia, sua totalidade quando se sente quebrada, sua inocência quando se sente culpada e seu propósito quando está confusa. Gostaria de ter uma canção assim.