A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sábado, 12 de agosto de 2017

Não é a cegonha

Enzo e o seu pai

Lia

Maira

              Este texto é um pouco pornográfico, mas é baseado em fatos verídicos. Envolve os questionamentos de crianças que querem saber de onde vieram, de como foram feitas e os apuros das mães para explicar. Mais precisamente, trata da curiosidade do meu neto Enzo, americano, de nove anos e da solução encontrada pela minha filha para explicar tudo.
              Preocupada com tantas perguntas, ela resolveu se aconselhar com uma amiga que tem filhos da mesma idade e mora em uma fazenda de criação de porcos e ovelhas. Os seus dois filhos estavam acostumados a ver os animais cruzando e os filhotes nascendo. A amiga comprou o livro "It's not the stork" (não é a cegonha) e leu para eles. Os meninos entenderam tudinho, sem dramas e sem muitas perguntas.
               Animada, a filha comprou o livro, um bestseller sobre as diferenças entre meninos e meninas, transformações no corpo, bebês, famílias e sexo, indicado para crianças de quatro a seis anos e escrito por especialistas (isso de acordo com as informações sobre o livro). Assim, quando o Enzo começou novamente com aquelas perguntas difíceis, ela leu o livro para ele. Aliás, tentou. Foi lendo e mostrando as ilustrações (ela nem tinha aberto o livro antes para ver como era).  Chegou a netinha Lia, de seis anos, e ela continuou a ler, não tinha como parar. O Enzo ouvia todo concentrado. Nas explicações sobre diferenças entre meninos e meninas, tinha esquemas de pênis e vagina. Depois, o desenho do papai e da mamãe deitados na cama, abraçados, cobertos com um lençol. De repente, o Enzo teve um insight, ficou vermelho, começou a pular e a gritar várias vezes: -"The penis goes inside the vagina!" Minha filha pensou que ele ia ter um enfarte e queria encontrar um buraco onde se enfiar. A Lia foi mais direta ainda:-" Oh! Did the daddy put his penis in your vagina?!?" Ela, a filha, sem saber o que falar ou fazer, mandou que calassem a boca pra continuar a ler o livro, mas não foi possível. Assim, a inocência deles foi perdida para sempre.
           O pior é que ela teve que contar para o marido o acontecido. Ele até recebeu a narração dos fatos com serenidade. Apenas argumentou que o Enzo não precisava saber disso agora, pois ele ainda acredita no coelhinho da Páscoa. É verdade. Eu estava lá na última páscoa. A filha sempre coloca duas cestinhas de ovos escondidas e uma trilha de ovinhos para levar até a cestinha. Faz isso depois que ele e a Lia dormem. E o Enzo não queria dormir, pra pegar o coelhinho no flagra...
             Depois disso, a conversa dos dois girava em torno de pênis e vagina. A filha implorou para que não contassem nada na escola. A Lia seria até expulsa, falando desses assuntos com a sua turminha de cinco e seis anos. Quando estive lá recentemente, com um neto de 10 anos e outra netinha de seis, o tema ainda estava no auge. Um dia a Lia brigou com a priminha, fechou-a do lado de fora da casa e gritou (ela fala português também): "Ih, se você quiser um bebê o pênis vai na sua vagina!' A priminha, que vive em outro mundo e não sabia nada do livro, gritou de volta: "-Na minha não, na sua!"

          No meio de toda a confusão, os adultos ficam olhando angelicamente para cima, fingindo  não escutar e não ter nada a ver com isso. E provavelmente preferindo explicar para as crianças que a responsabilidade de trazer os bebês ao mundo é mesmo das cegonhas.

quinta-feira, 16 de março de 2017

O Dia Internacional da Mulher

As bonitas bombeiras de Uberlândia

Dra Mayana Zatz, bióloga molecular, geneticista, pesquisadora, professora da USP, coordenadora do projeto Genoma Humano

         No dia 8 de março, como era de se esperar, surgiram na mídia vários textos, reportagens, poesias e homenagens para as mulheres. Gostei sobretudo de um vídeo da policia militar. Começa com várias pessoas andando em uma avenida larga e algumas tentando atravessar na faixa de pedestres. Dois policiais militares se aproximam educadamente de uma mulher bonita, de uns quarenta anos, que estava atravessando a rua. Pedem que apresente sua identidade, explicando que é uma operação de rotina e a conduzem para a calçada. Ela parece surpresa e enquanto procura a carteira em sua bolsa, ganha uma flor vermelha do policial. Chega outro com uma flor amarela.  Surgem policiais de todos os lados, passam no meio dos transeuntes e entregam flores pra ela, que fica com um buquê enorme e com lágrimas nos olhos, enxugando-as  disfarçadamente. Aparece a banda da policia militar, tocando no meio da rua e um policial com um vozeirão cantando "dizem que a mulher é sexo frágil, mas que mentira absurda, eu que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas..." As pessoas vão parando e se aglomerando e os policiais distribuem flores pra todas as mulheres que estavam  no local. Achei linda esta homenagem.
        Mas também fiquei boquiaberta com o pronunciamento do  Temer. Penso que ele até queria elogiar as mulheres, mas só disse impropriedades e, pelo visto, pensa mesmo como falou. Ou seja, pra ele a mulher é a rainha do lar  e acabou. Tipo bela, recatada e que fica em casa pra educar os filhos. Tipo anos 1950 ou tipo mulher Amélia. Como escreveu José Simão, cronista da Folha, só faltou o Temer dizer que a maior conquista da mulher foi a máquina de lavar. O presidente até disse uma frase que parecia bem atual, sobre a importância da mulher na economia, mas quando se pensou que ele iria abordar isso de uma forma correta, disse que ela é importante porque faz compras no supermercado e compara os preços. Meu Deus, ele não entende nada do papel da mulher na sociedade, de suas conquistas, de suas lutas, de sua  garra, de seu amor incondicional, de sua versatilidade, de sua dignidade e  humanidade, de sua capacidade de chorar ao ganhar uma flor...Deixa pra lá, o Temer não vai mudar mesmo...
       Por coincidência, no Dia Internacional da Mulher, fui mesmo fazer compras no supermercado. No açougue, uma atendente negra, alta, uniforme branco, lábios carnudos com batom vermelho, cabelos presos com esmero, cortando com maestria um pedaço de acém. Usava a faca enorme com habilidade, enquanto ia contando um caso e descarregando sua raiva. Estava revoltada porque uma mulher foi comprar carne e ela explicou que o acém cortado estava em promoção por R$12,00, mas se fosse moído era o preço normal, R$17,00. A mulher queria moído por R$12,00. Ela explicou direitinho, mas a mulher ficou possessa e a chamou de "VACA". Daí ela "rodou a baiana" e foram as duas  pra gerência.  A mulher disse ao gerente que a funcionária estava mentindo, mas o gerente conhecia o trabalho dela e a defendeu. Enfim, foi um bafafá no supermercado. Ela contava o caso pra mim, rodava a faca, dizia que saia cedo de casa, deixava os filhos, ficava o dia todo trabalhando na câmara fria, não ia aguentar desaforo. Chamou até uma testemunha, uma freguesa que sempre comprava lá, pra me confirmar como ela atendia bem. Dei todo apoio pra ela, quase a abracei e levei dois quilos de acém picado .
                 Gostaria muito de ter, na hora, umas flores para oferecer  para ela.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Hoje só amanhã



         O José Simão é cronista da Folha de S. Paulo. Escreve  de forma irreverente,  espirituosa e bem humorada, com textos cheios de pontos de exclamação e de trocadilhos. Começa sempre se intitulando como Macaco Simão, o esculhambador-geral da república e termina com: "Nóis sofre, mas nóis goza! Hoje só amanhã!"
          Nenhum político escapa de seu sarcasmo. O Temer então, coitado, está em todas. Escreveu que depois do Temer receber 10 milhões da Odebrech, o "Fora Temer" virou "Por fora Temer" e a popularidade dele cresceu nas delações, onde foi citado 44 vezes e por isso vai pro Guinness da Delação. Assim, é citado até em lista de supermercado: arroz, feijão, granola , creme de leite e Temer! E continua: "Mudanças no Mundo dos Vampiros! Michel Temer passará a se chamar Michel Treme nas bases! Que também estão tremendo! Rarará!" E o Temer ficou tão indignado com a delação que reagiu em latim: "Pimentorium in anus outrem, refrescus est. Repudio-lo-ei". Concluiu que o Franstemer está indo pro Odebrejo...
           O Lula também é um dos seus preferidos. Comentou que o Lulalelé parece massa de pão: quanto mais bate, mais cresce! E que o Lula é como o Corinthians: o povo gosta mesmo apanhando! Ironiza o relacionamento dele com o Moro: "Lula e Moro em 50 Tons de Curitiba! Com cenas inéditas de sadomasoquismo!  Amor e ódio encruado!"
          Até a Carmem Lúcia, do STF, é chamada de Bento Carneiro Vampiro Brasileiro. E nem a Marina escapa, chamada de Tartaruga Sem Casco: "se árvore votasse, ela levava no primeiro turno! E com aquela vozinha de teatro infantil! A voz da Marina é mais irritante que despertador de segunda feira! E ela tem cara de "acima do bem e do mal"!
          E a lista da Odebrecht, com os apelidos da turma do congresso que recebia propina?  Parece time de várzea: Santo, Caju, Todo Feio, Caranguejo, Gripado, Primo, Decrépito, Boca Mole, Angorá. Segundo José Simão, o Primo é o ministro Padilha, o mais popular porque distribuía a grana: "E ai, primo". "Chegou a grana, primo?" E o Boca Mole é o Heráclito, com boca de véia bater bolacha! Já a Lídice da Mata é a Feia; propineira tudo bem, mas Feia é a mãe! E ainda tem outros, como Aécio, que é o Mineirinho, embolsa quieto.
         O Renan também caiu na desgraça. José Simão escreveu que o Supremo decidiu que Renan passaria  de Réunan para Reinan. E ele, o Reinan, disse:  "Se é para a felicidade do Temer e para votar a PEC do Teto, digo ao povo que fico! Pra sempre! Daqui não saio, daqui ninguém me tira!" No caso Renan, a casa não caiu por causa do Teto...
        Outro assunto que ele tem abordado com humor é a reforma da Previdência, que prevê aposentadoria após a terceira reencarnação. Se o Niemeyer estivesse vivo, teria que trabalhar mais dez anos. No Brasil, agora nem Matusalém se aposenta. Sugere então aderir ao PMV, Programa de Morte Voluntária: morre e continua pagando o carnê! E o Frankstemer deu um recado ao povo brasileiro: 'Posterga-lhes-ei a aposentadoria" (como é bom ter um presidente que fale bem o português).
          Quanto ao casal Cabral, esculhambou com ele. O casal inaugurou a revista "Celas", só para presas ricas, com a manchete: "Adriana Anselmo mostra sua coleção de joias Bangu Stern!" Ela abriu sua cela para a revista , mostrando o colchonete com penas de urubu! E no verão vai ter ilha de "Celas", com os convidados sendo levados por um camburão anfíbio!
       De qualquer forma, concordo com ele que a situação está psicoesculhambativa-escalafobética! Hoje só amanhã mesmo!

                

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A balsa do São Francisco

A balsa

Singrando o Velho Chico

O neto Théo, Júlia e o filho Luiz Cláudio na beiro do rio


          O rio São Francisco esteve em destaque na mídia devido à novela "Velho Chico" e ao fim trágico de um dos atores. Eu acompanhava alguns capítulos para ver as cenas com o rio bonito, majestoso, largo e perigoso.
           Gosto desse rio e já passei por muitas aventuras ao atravessá-lo de balsa, para chegar até a fazenda que temos na margem esquerda, no município de Buritizeiro. A balsa pertence à essa prefeitura e carrega de uma vez até 10 carros. Navega da margem direita para a esquerda nos horários ímpares (Ponto Chique para Cachoeira do Manteiga) e faz o trajeto inverso nos horários pares. Assim, a viagem deve  ser programada de acordo com esses horários, para ficar na fila. O drama é que a balsa quase sempre está estragada, com problemas no motor, na hélice ou no casco. Ou então o rio está raso demais e a balsa encalha, como  aconteceu com a camionete do Zé, meu marido. Ele ficou 2h encalhado olhando pro rio. Também há acidentes. Um dia a balsa carregava um caminhão e ele caiu no rio. Na época da chuva, os carros atolam no barreiro e todos têm que empurrar.  E as pessoas também atolam, eu e meus netos inclusive. Mesmo assim, é um alivio quando a balsa está funcionando. Caso contrário, temos que dar volta pela estrada chamada Poeirão (nem precisa explicar o porque do nome) ou atravessar no barquinho do Di, que cobra R3,00 por pessoa e vai singrando corajosamente as águas do Velho Chico. Nesse caso a camionete não atravessa, é preciso descarregar tudo e colocar cada pacotinho no barco, uma luta. Há tempos, nem o Di quis nos levar, pois ventava muito, o rio estava revolto e o barquinho poderia virar (e mesmo se ele quisesse o Zé não iria, não quer morrer afogado).
             Além de tudo, a travessia é demorada quando o rio está muito raso. Os barqueiros precisam ir sondando o leito do rio para passar nos locais mais fundos. Conversaram com o Zé sobre isso, freguês assíduo da balsa e que sempre tem boas ideias. Concluíram que era preciso mudar o sistema de impulsão da balsa, acoplando a ela um rebocador, que mudaria a direção da  balsa nos trechos rasos. Mas, para isso, era preciso calcular qual o peso da balsa quando estava vazia e quando estava cheia, para então saber qual a  potência do motor do rebocador. O Zé armou a resolução do problema, usando o principio do empuxo de Arquimedes (peso do corpo igual ao volume de líquido deslocado). Chamaram o João, gente boa, que trabalha na nossa fazenda e tem muita disposição e vontade de aprender. Ele usou uma vara, mediu a largura e o comprimento da balsa. Mediu o quanto ela submergia quando estava vazia e quando estava com a lotação completa. O Zé fez os cálculos e concluiu que a potência do motor seria de 200 cv. Levaram para o prefeito de Buritizeiro, que engavetou o processo. Não adiantou a descoberta do Arquimedes, nem a boa vontade do João, nem os cálculos do Zé. Faltou vontade política, como, aliás, se vê muito por aí.
           Mas o Zé continua a associar  a teoria com a prática: há pouco tempo , ensinou os funcionários da fazenda a fazerem ângulos retos para construir um galpão,  usando o teorema de Pitágoras. Certa vez, adaptou um freezer para usar  potencial hidráulico ao invés de energia elétrica. O freezer ficava no meio do mato, perto da roda dágua  e fazia 60kg de gelo da noite para o dia, um espanto. Mas isso já é outra história...
      Enquanto isso, continuamos torcendo pra balsa não encalhar. Quem sabe alguma fórmula do Einsten resolve o problema.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cão bravo


A netinha Lia com a Lolla

            Adoro ovo caipira, desses com  gema bem amarela e casca azul.  Tempos atrás descobri uma placa em uma casa na vizinhança: "Vende-se ovos caipira". Ao lado, outra placa: "Cuidado! Cão bravo".  A tentação de comer os ovos foi mais forte e  toquei o interfone.  Imediatamente surgiu um cão enorme parecido com doberman , preto, latindo raivoso e dando saltos incríveis para pular o murinho baixo e me devorar viva. Fiquei petrificada onde estava. Apareceu um  homem que não era mentalmente muito normal, mandou o cão ficar quieto e buscou os meus ovos. Voltei mais duas vezes, tentada pelos ovos. Na última vez, cheguei justo no momento em que o cão começou a latir e pulou para cima de uma senhora distraída que passava na calçada com o filhinho. O cão bravo foi detido pelo murinho, mas parte do tronco dele passou por cima e ele quase mordeu a mulher. Ela levou um susto enorme, mas era mais brava que o cão e fez um escândalo na rua. O homem com problema tomou o partido do seu cão raivoso e ameaçou acertar umas pedradas na mulher. Vendo os ânimos exaltados, antes de levar uma pedrada ou uma mordida, dei meia volta e fiquei sem os deliciosos ovinhos caipira.  
            Passado um ano do episódio, criei coragem e  voltei lá. Só vi a placa  dos ovos. Onde estaria o cão bravo?  Seria uma armadilha? Toquei o interfone pronta para correr, se necessário. Apareceu uma senhorinha amável , eu disse que queria ovos e ela me convidou para entrar e ver as galinhas. Eu me neguei veementemente, o cachorro deveria estar lá em algum lugar, de tocaia. Mas ela explicou que tinham dado o cachorro porque ele atacara o senhor idoso e grandalhão, que morava na casa com o seu filho, e ela estava lá para cuidar dele. Eu vi o braço do senhor, todo machucado, com inúmeros pontos, dilacerado, inchado e vermelho, um horror. Também vi as galinhas gordas, livres, ciscando no quintal e de papo cheio. Levei meus ovinhos caipiras, mas fiquei impressionada  ao ver que eu tinha razão de ter medo, o cão era uma fera e ficava solto. Ainda bem que não comeu as galinhas.
            Semanas depois passei por outro episódio envolvendo  cão bravo, mas dessa vez com final feliz. Minha cadelinha yorkshire, a Duda, teve três filhotinhos em junho: Lolla, Milla e Tobias, lindos. Fiquei com a Milla, dei o Tobias e vendi a Lolla. Mas não havia como entregar os cãezinhos para os donos, pois estavam sete netos pequenos passando férias aqui em casa. Eles fizeram um complô para esconder os filhotes e para chorarem juntos como protesto. A compradora da Lolla era insistente e conseguiu levá-la, deixando as crianças aos prantos. Horas depois ela voltou para devolvê-la. Explicou que a Lolla só chorava, não comia e estava sendo aterrorizada por sua outra cachorra, uma filhote de rottweiler que queria engolir a Lolla.  Devolveu a cachorrinha, insistiu em pagar uma multa e ainda deixou um saco de ração e duas vasilhas de metal. As crianças ficaram muito felizes, a Duda deitou de lado e a Lolla mamou até ficar prostrada.

            Agora estou tentando socializar a Duda e a Milla, para que se tornem adultos mais equilibrados. E para que a Duda pare de latir tanto, pois é mentira que cão que ladra não morde. O doberman latia muito e mordeu o dono. Mas não vou julgar o doberman.  Penso que talvez não o ensinaram, desde pequeno, a obedecer a comandos, a respeitar as pessoas, a ser obediente e não brincaram com ele. Talvez o tenham ensinado a atacar mesmo. De qualquer forma, com cão bravo o melhor mesmo é se prevenir.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Lições das Olimpíadas

Majlinda e sua medalha de ouro
Diego e sua medalha de prata

             Duas reportagens publicadas na revista Veja, sobre as Olimpíadas Rio-16, me chamaram a atenção. A primeira é um depoimento de Majlinda Kelmendi, 25 anos, ouro no judô e primeira medalhista olímpica da história de Kosovo, país em guerra com a  Sérvia por sua independência. Majlinda contou que foi a primeira vez que participou, com uma delegação de apenas oito atletas, com o seu país reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional. As crianças de Kosovo a veem como heroína e essa adoração é emocionante, pois quem vem de onde ela veio não tem muitas oportunidades na vida. Tinha apenas oito anos quando a guerra começou. Disse: " Foi desse país que saiu uma campeã olímpica e isso é gigantesco pra todos nós. Sou apenas uma atleta, mas sinto que estou ajudando meu país como um todo.  O esporte é a melhor arma da diplomacia ".
        A segunda reportagem é sobre o brasileiro Diego Hypolito, 30 anos, que foi medalha de prata na ginástica artística. Na Olimpíada em Pequim era o favorito, mas perdeu a concentração, desequilibrou-se e caiu sentado. Sentiu-se um lixo. E na Olimpíada em Londres, durante a apresentação ele tombou de cara. Entrou em depressão profunda e foi internado em clínica psicológica. Recuperou-se lentamente e passou por 10 cirurgias, devido a lesões nos joelhos, pés e ombros e ficou cinco anos parado. Não dirige mais devido às dores que sente no corpo. Afirma que treina com dor e vai além do limite do seu corpo. Apesar de tudo, com sua garra e determinação, subiu ao pódio na Rio-16 e levou a prata. E chorou muito, tanto que a reportagem é intitulada "Chorão, sim, e daí?" '
       Majlinda e Diego mostraram que só se consegue subir ao pódio com muito trabalho, treinos desgastantes, sacrifícios pessoais, dores no corpo e vontade de vencer. Sabem que participar dos jogos olímpicos é uma forma de fazer parte da máquina do mundo, e sem dúvida o mundo é competitivo. E apesar do espírito esportivo, a Olimpíada premia os vencedores, os ganhadores de medalhas. De preferência, de ouro. Como disse José Simão, cronista da Folha: "E chega de levar bronze! Bronzeado a gente já é! Bronze a gente pega na praia de Ipanema!"
          Mas mesmo de bronze, era uma glória (aliás, a medalha parecia bolacha e os atletas mordiam nela!) . Por exemplo, dois técnicos mongóis ficaram indignados porque o atleta de luta olímpica que eles treinaram sofreu uma penalidade e perdeu o bronze. Em protesto, invadiram o tapete e tiraram a roupa, ficando de sunga, enquanto parte do público aplaudia e a outra vaiava. Por outro lado, também teve comportamento nobre que mereceu medalha de honra, como a recebida pela fundista da Nova Zelândia que parou de correr para ajudar a atleta dos EUA que  caiu na pista.
          Apesar das Olimpíadas mostrarem que os melhores é que vencem e que é preciso muito esforço para subir ao pódio, muitas escolas básicas e de natação premiam todos os que participam de determinada competição. A preocupação é que a criança ou adolescente não sinta nenhum sentimento de exclusão ou de derrota, para não diminuir sua autoestima. Mas penso que ser o último a chegar , apesar de doloroso, pode mostrar que a criança não é boa naquele esporte e precisa se direcionar para outro. Ou então, que precisa se esforçar muito mais. Além do que, pessoas com autoestima elevada demais se julgam superiores às outras.
         Enfim, depois de assistir a vários atletas se superando, fico com a frase: "quem disse que ganhar ou perder não importa, com certeza perdeu."






sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Adeus Rio 16




         Acabou tudo. Foram duas semanas de assombros, de surpresas e de encantamento, com a torcida brasileira dando show com sua alegria. A Rio-16 passou no teste. Mas lá se foi o colorido e a alegria que os 350 mil turistas estrangeiros deram ao Rio, o desfile de diferentes sotaques, a garra e o exemplo dos 11.544 atletas de 205 países que  deram o melhor de si em busca do ouro, as transmissões ao vivo pela TV de 45  modalidades esportivas (algumas tão desconhecidas pra mim como arremesso de martelo). Ficou este sentimento de ressaca, como se a gente  estivesse vendo a partida de um grande amor.
        Apesar da ironia pessimista do José Simão, cronista da Folha, ao  escrever que o Brasil já tinha três medalhas de ouro garantidas- assalto triplo com AK-47, corrida de 1.500 m com bolsa de gringo e revezamento de celular roubado- as olimpíadas cumpriram seu papel de espetáculo multinacional e multicultural. Ocorreram problemas sim, e o custo foi altíssimo, 40 bilhões de reais!! Mas foi emocionante e aconteceu de tudo. Por exemplo, nunca tanta gente chorou em disputas esportivas na TV. O Neymar chorou muito, ajoelhado na grama, quando a seleção conquistou o ouro. O Serginho chorou demais, ficou com olhos inchados, foi campeão de vôlei e de choro.  A Marta chorou, deitada na grama, depois da derrota contra a Suécia; a boxeadora Yin Junhua chorou ao receber a medalha de prata, luta boxe mas é bem feminina. Outros sorriram sempre, como Simone Biles, que encantou a plateia ao dançar ao som de "Mas que nada". E o Guga, sem dúvida a grande atração da Globo, riu o tempo todo. Foi contratado para comentar o tênis, mas comentava tudo. Já o  Isaquias, o fenômeno baiano que ganhou três medalhas na canoagem, era bem falante e foi apelidado de Sem Rim pelos colegas (já  perdeu um rim). O José Simão gostou do desempenho dele, escreveu que se o Brasil afundar, o Isaquias salva (também escreveu que o Moro contratou o Bolt pra pegar o Lula e que o Frankstemer não foi no encerramento por medo de vaias).
         Quanto ao aspecto físico, havia atletas de todo tipo ( mas todos com barriga tanquinho). Os gigantes do vôlei, como o russo Dmitriy  com 2,18m e a chinesa  Ting Zhu, com 1,95m. Os magrelos, como o queniano Eliud Kipchoge, com 1,67m e 57kg, vencedor da maratona e que ficou milionário com os prêmios que já recebeu. Os gordinhos e simpáticos, como a goleira angolana de 98 kg e o judoca Rafael Silva, com 170 kg. Os bonitos, como Darya Klishina, do atletismo russo, eleita "a mais gata" e Thiago Braz, ouro no salto com vara, "o mais gato".
       Havia também atletas excepcionais, como  Phelps e Bolt. Como escreveram, "pelos números e pela longevidade, Phelps é o maior atleta olímpico de todos os tempos. Maior do que Bolt. Mas Bolt é muito mais legal". Também surgiram  heróis brasileiros improváveis, como Maicon Siqueira, que trabalhava como pedreiro e ganhou medalha no taekwondo e Rafaela Silva, favelada da Cidade de Deus e ouro no judô.
            Na linda cerimônia de encerramento, crianças cantaram o Hino Nacional ao som de tambores, mulheres rendeiras dançaram, o Pão de Açúcar foi representado no gramado, o primeiro ministro do Japão  "brotou" do chão vestido de Super Mário, a pira olímpica foi apagada, atletas dançaram com as escolas de samba.  Um show de arte, luzes, tecnologia e magia. E as luzes se apagaram.
            Parabéns, Rio, você merece a medalha de ouro!Parabéns, Brasil!