A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sábado, 2 de junho de 2018

Sobre potes e universos

Potes de plástico
Stephen Hawking


            Estava eu envolvida nos meus afazeres domésticos, guando me deparei com a necessidade de guardar o feijão cozido na geladeira.  Procurei um pote de plástico, de preferência daqueles de sorvete. Incrível como os potes são dinâmicos, parece que têm vida própria. As tampas somem como por encanto ou então aparecem várias tampas sem os potes. Ou de repente aparece uma tampa, vindo não sei de onde, que se encaixa direitinho em um pote guardado há anos sem a  tampa. Ou, sem mais nem menos, passam a existir apenas potes quadrados e tampas redondas. Um mistério. O pior é quando a gente pega um pote de sorvete na geladeira pra esquentar um pouco de feijão e o que tem dentro? Sorvete!
    Consegui guardar o feijão e continuei os meus inúmeros afazeres miudinhos. Fui trocar os jornais com os quais forro o chão pra Duda, minha cachorrinha, fazer xixi.  Sempre uso a "Folha de São Paulo" e como geralmente dou uma olhada no que está escrito, vi um artigo intitulado "Hawking deixou um último estudo sobre o "multiverso." Comecei a ler com interesse. O estudo, resultado de 20 anos de pesquisa, foi enviado para publicação dez dias antes dele morrer, em março agora (nem sabia que ele tinha morrido) e indica um caminho para a busca de universos paralelos. O Big Bang não teria criado apenas um universo, mas incontáveis. Alguns seriam bem parecidos com o nosso, talvez com planetas semelhantes à terra e indivíduos como os daqui; outros poderiam ser totalmente diferentes . Céus, se eu já me sentia menor que um grão de areia no oceano, quando pensava no universo, como me sentir agora, com infinitos universos? Comecei a divagar, pensando na genialidade deste grande físico inglês, Stephen Hawking. Ele foi diagnosticado aos 21 anos com esclerose lateral amiotrófica e lhe deram três anos de vida, mas viveu mais de 50 com a doença. E ainda casou-se duas vezes, teve três filhos, viajou pelo mundo todo e tinha muito senso de humor. Ao longo dos anos, perdeu a voz e todos os movimentos do corpo, até se tornar basicamente um cérebro brilhante em cima de uma cadeira de rodas. Ele tinha uma voz eletrônica e por meio de um sintetizador escolhia as palavras na tela do computador, usando o movimento das bochechas (e eu a, uma reles mortal, contrariada porque meus joanetes não estão cabendo nos meus sapatos). Mesmo com tantas limitações físicas, foi um dos cientistas que mais contribuiu com a física quântica, com os estudos sobre a origem do universo e as radiações dos buracos negros (e eu, sem conseguir encaixar uma tampa redonda num pote quadrado pra guardar o feijão na geladeira).
         Enfim, recortei o artigo sobre o Hawking e guardei, não poderia deixar a Duda fazer xixi num artigo tão importante.  E pra me consolar sobre minha pequenez dentro  destes universos infinitos, fui ouvir a música "Detalhes" do Roberto Carlos: "detalhes tão pequenos de nós dois, são coisas muito grandes pra esquecer e a toda hora vão estar presentes, você vai ver..."  Continuando, ele fala do ronco barulhento do seu carro, da velha calça desbotada, dos erros do seu português ruim. Consolei-me com essa canção tão bonita sobre coisas miudinhas e fui organizar a prateleira dos potes plásticos, já que não tenho mesmo a genialidade do Hawking.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Retalhos da Infância

Lia escrevendo sobre a fadinha do dente

Uma das obras de arte da Lia


As quatro mães e alguns filhos, a Maíra no meio


           Como escreveu Cora Coralina, nós somos feitos de retalhos, de pedaços coloridos de cada vida que passa pela nossa e que a gente vai costurando na alma. Nem sempre são felizes, nem sempre são bonitos, mas sempre acrescentam e fazem a gente ser como a gente é. Em cada retalho, uma lição, um carinho, uma saudade, uma lembrança que nos torna mais pessoas, mais humanos, mais completos. E de retalho em retalho nos tornamos um imenso bordado de nós mesmos.
          Na minha colcha de retalhos, os que mais gosto são os acrescentados pelas crianças da minha vida. São retalhos bem coloridos, divertidos, originais. Por exemplo, um retalho recente acrescentado pela Lia, minha netinha de sete anos que mora nos States. Ela é uma  artista, faz desenhos e artes incríveis, combina as roupas como uma estilista, faz cartões lindos todo dia para o pai, enfeita a casa com  bilhetes coloridos, faz toucas e cachecóis de crochê, uma graça. Mas acontece que agora ela perdeu seu primeiro dentinho de leite. No começo, com o dente bem mole, estava entusiasmada esperando a chegada da fadinha do dente que iria pegar o dentinho debaixo do travesseiro e trocar por uma nota de cinco dólares. No entanto, quando a fadinha chegou na calada da noite e fez isso mesmo, caiu em prantos . Queria o dentinho de volta para guardar para sempre. Daí, tentou cativar a fadinha e fez um tipo de altar pra ela, com flores, guloseimas, bugigangas e escreveu uma cartinha (com alguns errinhos de inglês) pedindo o dentinho de volta. A fadinha aceitou.
           Depois, foi a confusão do terrário.  Tudo começou quando estive lá e construímos a três (ela, o irmão Enzo e eu) um terrário fechado  para observar aranhas, minhocas, insetos, a formação da chuva, as plantinhas crescendo. Adoravam coletar os animais e colocar dentro, mas a Lia ficou com pena das minhocas, remexeu a terra e soltou todas. Antes, fez uma casinha de folhas e barro para elas. O Enzo ficou indignado. O problema piorou no dia em que foram ao parque e encontraram um besouro bonito, grande, preto luzidio. O pai teve que carregar o besouro na mão por vários quarteirões. A Lia não quis colocar o inseto dentro do terrário, preferiu montar um local  para ele, decorado com pedrinhas, flores e grama. O Enzo ficou bravo novamente. A mãe foi apaziguar a briga e dar uma olhada no besouro, todo confortável no seu recanto florido. E, surpresa, na verdade era uma barata, e das grandes! Foi a vez dela ficar brava e indignada com o marido, que nem conhecia uma barata e levou uma pra dentro de casa. Ele ficou com nojo de ter carregado a barata na mão. A Lia caiu em prantos novamente porque não queria que matassem a barata. Ânimos acalmados, optaram por soltar a barata no parque onde a haviam encontrado.
       A minha outra netinha de sete anos, Maíra, também é uma graça e sempre acrescenta retalhos coloridos na minha colcha. No almoço do último dia das mães, estávamos quatro mães reunidas para tirar a foto clássica, quando ela chegou rápido e  se posicionou bem na frente do grupo para sair na foto. A turma mandou ela sair, pois  não era mãe . Ela respondeu que era futura mãe e não arredou pé, foi a mais sorridente do grupo.
       E tem também as crianças dos vizinhos, dos parentes, dos amigos. São muitos retalhos coloridos. Lembro-me de uma vizinha que tinha quatro meninos. Um deles era meu amiguinho inseparável. Um dia, a filha pequena de uma amiga da vizinha estava tomando banho no chuveiro . Ele ficou olhando escondido a menina peladinha. A mãe o pegou no flagra e disse: "Mas que coisa feia!"  E ele, com os olhinhos brilhando: "Não é feio não, mamãe, é só um rachadinho assim..." E fez um sinal vertical com a mãozinha, de cima pra baixo.
            Enfim, parafraseando a poetisa, é assim mesmo que a vida se faz, de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também. E nunca estaremos prontos e acabados, pois sempre haverá um retalho novo para se adicionar à alma.


quinta-feira, 8 de março de 2018

Açaí, sorvete e Dayana

Delícia de açaí

Um gostoso sorvete de chocolate

Dayana abraçando a filha no parquinho do orfanato Fundana (fonte: Folha de São Paulo, 15/02/18)
       Gosto de escrever textos divertidos para alegrar o leitor. Por exemplo, comentando um vídeo que recebi.  Nele, uma mulher de uns 30 anos, bem morena, rosto redondinho, lábios carnudos e bem maquiada, falando indignada, séria e com voz cristalina, mais ou menos assim: "ôu, esse trem de homem malhado não presta. Ele só te chama pra tomar açaí. O problema é que ele paga o dele e eu pago o meu. E tem mais,  é só açaí com banana, senão engorda.  Ele fica vigiando pra ver se a gente vai colocar  leite condensado e leite em pó, e nem é ele que vai pagar. Hoje o que eu gosto é de homem barrigudo e gordinho, são os melhores que se tem. Ele te chama pra tomar uma e toma todas. E você pode pedir porção de batata com queijo, mandioquinha, peixe, torresmo. Quando você fala que vai embora, ele chama pra tomar a saideira.  Depois paga tudo e ainda te leva em casa. Hoje tá na moda é homem gordinho. Quando vejo homem sarado eu corro".
            Eu ri muito desse vídeo, principalmente porque adoro açaí com leite condensado e leite em pó. Lembrei-me de um texto da Danuza Leão, em que ela fica indignada quando vai a restaurantes e o garçom traz uma bola bem pequenina do seu sorvete preferido. Quanto mais caro o restaurante, menor a bola. Ela escreve sobre vários prazeres que a gente deixa de ter, com tantos deveres, tantas preocupações em acertar, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação. E  aí a vida vai ficando sem tempero e sem graça. Termina pedindo ao garçom, entre outras, cinco bolas de sorvete de chocolate. Enfim, concordo  com as duas de que é bom demais comer o que a gente gosta.
         Mas daí fico pensando em tantas pessoas que passam fome, e não tem como deixar de escrever sobre as tristezas da vida. Como o caso de Dayana e seus quatro filhos. Li sobre ela numa matéria da Folha de São Paulo, de 15/02/2018. O repórter Anthony Faiola, do Washington Post, contou de sua visita ao maior orfanato da Venezuela, em Caracas. O pátio era uma pista de obstáculos de crianças abandonadas. A assistente social que o acompanhava ia explicando sobre as crianças. Passou por ele um menininho robusto em um triciclo, apelidado de "El Gordo", mas quando foi deixado no orfanato meses atrás era pele e osso. E a menininha de vestido florido quase não falava mais. A mãe a tinha abandonado em setembro em uma estação de metrô, com uma bolsa de roupas e um bilhete suplicando que alguém a alimentasse. Centenas de pais têm feito isso na Venezuela, onde a fome e a miséria crescem sem parar. Não têm como alimentar seus filhos e os estão entregando. Não porque não os amem, mas porque os amam (quer coisa mais triste?). E os bebês, que antes eram facilmente adotados, não o são mais, pois os pais adotivos não conseguem arcar com as despesas. No país, cerca de  71% das crianças com menos de cinco anos não têm alimentação  adequada. A fome obriga as famílias a fazer escolhas dolorosas, como no caso de Dayana, 28 anos . Em novembro passado ela perdeu seu emprego de faxineira e entregou seus dois filhos menores para o orfanato. Como a entidade não aceita crianças maiores, ele ainda está tentando alimentar o de 8 e de 11 anos em casa. O orfanato oferece a ela leite, macarrão e sardinha, mas não é suficiente. Contou ao repórter que depois do jantar , os meninos pedem: "Mãe, quero mais". Mas ela não tem mais nada pra dar a eles.
            Acho que eles iriam adorar ter como sobremesa açaí com  leite condensado  ou  sorvete de chocolate. 

sábado, 3 de março de 2018

Para as mulheres, com carinho







            Em  oito de março comemora-se o Dia Internacional das Mulheres. Escrevo então um texto para elas, de presente, com algumas passagens que achei muito lindas.
       Sempre que perguntavam a Einstein se ele acreditava em Deus, respondia que acreditava no Deus de Spinoza. Quem não conhecia Spinoza ficava sem entender. Ele, Spinoza, foi um filósofo holandês do século XVII e que escreveu um texto como se Deus estivesse falando com os homens,  com trechos assim: "O que eu quero é que saias pelo mundo e desfrutes da sua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que fiz para ti. Minha casa está nas montanhas, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e expresso meu amor por ti. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho...Não me encontrarás em nenhum livro!Para de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem  te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor. Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz...Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se sou Eu quem te fez?Que tipo de Deus pode fazer isso? Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho de mar. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás...Procura-me dentro...Aí é que estou, batendo em ti".
          Outro texto que gostei foi do Rubem Alves. No seu livro "Ostra feliz não faz pérola", ele conta que de vez em quando lhe perguntam se acredita em Deus. Ele responde que  acredita mais que a maioria das pessoas e que tem até 33 nomes para Ele. É só falar o nome, sentir na imaginação o que o nome diz e a alma se enche de tanta alegria que isso só pode ser um pedaço de Deus. Mas é preciso falar devagarzinho e ir pensando...Por exemplo: o mar de manhã. O perfume do capim. O olhar e tudo o que ele olha. O sono na cama. A cadela e os cãezinhos. Um relâmpago silencioso. O silêncio entre dois amigos. Morder uma jabuticaba. O canto do sabiá. A terra boa. Ele cita vários outros pedaços de Deus que conhece . Acrescenta que a marca do Divino é o milagre cotidiano que é este mundo: a vida, o olho, a asa de uma libélula, a chuva, a sopa de fubá, o pão quentinho, o perfume do jasmim, a teia de aranha, um poema, o amor entre duas pessoas. Conclui , assim como Spinoza, que não precisamos de mais milagres, Deus já espalhou muitos pelo mundo.
       Assim, neste dia dedicado às mulheres, desejo que o Deus de puro amor proteja e abençõe a todas. E que cada uma consiga, todo dia e à sua maneira, encontrar os pedaços de Deus  ao longo desta vida que, por si só, já é um milagre.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Olhos assustados

A turma de adultos que foi para a Bahia (só o de óculos e o de camisa branca não cairam do banco...)

No caminho na volta da praia

Os netos ouvindo histórias
        Assisti um ótimo filme chamado "Grandes Olhos", um drama real sobre a pintora Margaret Keane, que fazia pinturas incríveis e únicas de meninas  com olhos muito grandes e tristes. O filme mostra o despertar da artista e a sua luta contra o marido, na maior fraude da história da arte, pois ele se dizia autor das obras da esposa e o mundo todo acreditou.
       Nem sei porque, associei o filme com olhos assustados e espantados que presenciei em cenas que aconteceram na nossa viagem de final de ano. Fomos, num grupo de oito pessoas, visitar a filha que mora na praia de Algodões, BA. Lugar lindo, mas difícil de chegar, com estrada de terra esburacada. Como o trajeto final foi o mais difícil e na escuridão da noite,  com o motorista um pouco perdido e com medo de assalto, o grupo já chegou de olhos assustados. Na hora de dormir, o Zé, meu marido, precisava de uma tomada para ligar o aparelho que usa para respirar melhor. Encontrada a tomada, a cama não dava certo com o cortinado usado para evitar a multidão de pernilongos. Emendou-se duas camas e ele se esparramou. No dia seguinte, estava com os olhos espantados: as camas se separaram, ele caiu no chão e ficou enrolado no cortinado e nos fios do aparelho. Primeiro tombo. Na noite seguinte, fomos comer pizza feita no forno de lenha, na pizzaria simples ao lado da casa da filha: mesas e bancos rústicos debaixo de árvores, chão de areia, velas, redes, um carinhoso cão labrador. Num mesmo banco grande, cinco pessoas sentadas.  Sem nenhum aviso prévio, o banco velho e carcomido pelo tempo foi vergando devagarzinho, quebrou e todos caímos  com olhos espantados. Rimos muito, menos o netinho que estava no meu colo e caiu em prantos. Segundo tombo do Zé. Noutro dia, quando  íamos pelo caminhozinho que chega até a praia, chegamos a uma ribanceira de areia alta. Falei para o Zé que ele não conseguiria descer por ali, que iria cair e eu não conseguiria segurá-lo. Teimoso, disse que era fácil. Escorregou de ponta cabeça, dobrando o joelho operado há pouco tempo. Olhos assustados novamente. Terceiro tombo. Na sequência dos acontecimentos, a bomba que retira água do poço para mandar para a casa, estragou. Assim, passamos a tomar banho de canequinha, esquentando água no fogão, mas o Zé se recusou.  Preferiu usar o chuveiro do quintal do vizinho. Mas, certa noite, depois de limpinho, com uma lanterna que não iluminava muito bem, trombou num formigueiro numa árvore. Formiga entrou pelos "zóio, zoréia e zovido". Não foi tombo, mas foi pior. Olhos assustados outra vez. Penso que ele não volta na Bahia tão cedo...
        Outras cenas que causaram espanto aconteceram na ceia de Natal. Moro no terceiro andar e resolvi fazer a ceia de Natal no décimo terceiro andar, no salão de festas. Fiquei presa no elevador duas vezes, uma delas com o Papai Noel. Um amigo vestiu a roupa calorenta do bom velhinho no meu apartamento. Colocou a barba, a peruca, o bigode, a touca, um travesseiro na barriga, encheu o saco com os presentes e tomamos o elevador. Ele emperrou entre o sexto e o sétimo andar. O Papai Noel suava em bicas. Falei pra ele tirar a roupa, mas não quis. Com os olhos assustados, ficamos presos uns bons minutos. Depois, foi a vez de uma moça que me auxiliava. Ela subia e descia o elevador sem parar (eu também). Levamos o filé ao molho madeira, ele acabou e ela não chegava com o chester com farofa e abacaxi, uma delícia. Claro, estava presa no elevador. Depois de meia hora, chegou com olhos assustados carregando a bandeja. Sem contar que levou uma mordida (não machucou) da minha cachorrinha york que estava com filhotinhos. Penso que ela não volta mais a me ajudar e que terei que trocar de Papai Noel...
        Penso também que muitos não acreditarão em tantas confusões. No caso da pintora, o mundo todo acreditou no marido mentiroso e ela precisou ir a um tribunal para provar que os quadros eram seus. No meu caso, tudo o que contei é a mais pura expressão da verdade.  

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A certidão de nascimento

Meus pais, Dr. Luiz e Maria Minelvira

A cartinha escrita em 1957

O túmulo em Campos Altos

                Li em algum local que quando a gente pensa que já sabe todas as respostas, a vida muda todas as perguntas. Acrescento que quando a gente pensa que  já passou por todas as surpresas que a vida poderia nos reservar, pode surgir outra. Passei por isso dia destes.
        Tudo começou porque o Consulado Geral de Portugal modificou, em julho, o Regimento de Nacionalidade, tornando mais fácil a obtenção da nacionalidade portuguesa  para netos e bisnetos de portugueses. Como obter o passaporte europeu é um sonho para o meu irmão Lúcio e um dos meus filhos, eles começaram a desenterrar todos os documentos necessários. A certidão de nascimento do meu avô Antônio, que nasceu na região de Trás dos Montes, em Portugal, eles já haviam encontrado depois de um verdadeiro trabalho de detetive que durou dois anos. Faltava a certidão de nascimento do meu pai, que nasceu em Canta Galo, no Rio,  e a minha, que nasci em Campos Altos, Minas. Encarregaram um sobrinho( apelidado carinhosamente de Canini e traduzido pelo Lúcio pra Cão Nini) de procurar a certidão na minha cidade natal. Passado uns dias, recebi um telefonema do Lúcio. Alarmado, contou que eu era filha só da Minelvira, mãe solteira, não era filha do Dr. Luiz, primeiro médico de Campos Altos! Levei um susto na hora, mas eu tinha certeza que tinha pai sim e que sempre usei minha identidade e certidão de casamento com o nome dele. O Lúcio contestou, afirmando que no livrão do cartório tinha só o nome Ana Maria, sem sobrenome. Enviou a foto da certidão de inteiro teor, manuscrita,  sem o sobrenome Souza Coelho mesmo.  Afirmou que todos os meus descendentes tinham se lascado, porque eu não era neta de português coisa nenhuma. E como sempre fui muito avoada e distraída, não devia ter percebido isso. E quando me casei, certamente passei as informações apenas verbalmente. Mandou mensagens imensas, contando que o Cão Nini estava se esforçando muito, mas não encontrou nada; que o pai dele, o Afrânio, também teve problemas com o sobrenome, pois era Lemos Coelho e queria que fosse Souza Coelho, para ser como os príncipes de Portugal. Assim, quando adulto, mudou o sobrenome.  Só que na busca, descobriram que meu avô se chamava apenas Antônio de Souza e que o Coelho era do padrinho dele, um costume em Portugal. Ou seja, nunca existiu príncipe nenhum. Contou que também ele, Lúcio, queria trocar o sobrenome Teixeira Coelho, colocado em homenagem à nossa mãe, mas ela chorava tanto que ele desistiu. Acrescentou que eu e meu outro irmão escrevemos um livro a quatro mãos contando que ele tinha sido encontrado no cocho do quintal onde os cavalos comiam sal. E que agora as pedras voltaram, pois Deus castiga e eu não tinha nem sobrenome (nessa parte, ele colocou "risos, risos" e eu também ri, ri muito).
            Depois de todo este terrorismo, fui procurar uma certidão de nascimento antiga que eu sabia que possuia. Encontrei-a junto com vários documentos amarelados pelo tempo. Estava correta, com sobrenome e número de registro, folha e livro do cartório. Encontrei até uma cartinha que escrevi pra minha mãe em 11 de maio de 1957, convidando-a para a festa do dia das mães (como disse o Lúcio, retirei do túmulo dos faraós...). Descobri também um documento original  assinado pelo governador Benedito Valadares nomeando meu pai para primeiro prefeito de Campos Altos, uma relíquia.
          Continuando a saga, resolvi ir a Campos Altos ver o que tinha acontecido no cartório e visitar o túmulo do meu pai. A averbação na minha certidão, acrescentando meu sobrenome, estava lá, feita 12 anos depois do meu nascimento, pelo meu próprio pai. Rezei para ele no cemitério e o agradeci. Fui à prefeitura doar o documento do Benedito Valadares e lá estava a foto dele, na galeria dos ex-prefeitos, de longe o mais bonito de todos.
              Agora, é providenciar o passaporte português e, quem sabe, passar uns tempos em Portugal para voltar às raízes. E talvez encontrar algum Souza Coelho por lá, que com certeza não será nenhum príncipe.




segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Garrafas quebradas

Os containers de lixo na Praça da Bicota


                Comecei meu domingo com uma cena triste, que se repete diariamente. Em frente à  janela do meu apartamento, na praça Rui Barbosa (praça da Bicota) ficam três containers grandes, verdes, para depósito de lixo doméstico. Mas a grande maioria do lixo ai colocado é formado por garrafas, de todas as cores e tipos de bebida, centenas delas, todas recicláveis. Os bares da praça despejam as garrafas sem nenhuma preocupação com o destino final delas. E a multidão de jovens  que fica na praça à noite, bebendo cerveja no gargalo, deixa  garrafas pra todo canto. Alguns até jogam as garrafas no chão para quebrar e a praça amanhece cheia de cacos de vidro (parecendo o Sérgio Cabral, que quando recebia os amigos para festas espetaculares regadas a vinhos caríssimos, sempre promovia o ritual de chamar os convidados para, todos juntos, estilhaçarem os cascos vazios). De manhã, chegam os varredores de rua e catam pacientemente o lixo espalhado nos canteiros, no chão, nos bancos, na porta das lojas. Depois, à noite, chega o caminhão de lixo da Limpebrás e os funcionários despejam os lixões cheios na caçamba. Muitas garrafas se quebram e o barulho de vidro quebrando, bem alto e perturbador, dura alguns instantes, perturbando os moradores no entorno da praça (no domingo o caminhão passa de manhã). E lá se vai  o caminhão lotado de vidro a ser despejado e compactado no aterro sanitário da cidade, para lá ficar indefinidamente. Uma cena que se repete na cidade toda, acrescida pelos catadores  que acabam remexendo no lixo, todo misturado, para retirar as centenas de garrafas e aumentar sua escassa renda mensal.
         Isso pra mim é um descaso, uma selvageria com o meio ambiente, uma despreocupação com a saúde pública, um desperdício de matéria prima, uma cena de país subdesenvolvido. O vidro é um material valioso, que deveria ser reciclado e assim, auxiliar inúmeras famílias e associações de recicladores de vidro, diminuir o volume de resíduos a ser depositado no aterro e retornar ao ciclo produtivo. Pode ser reciclado inúmeras vezes, conservando suas características. Além disso, os caminhões de lixo são pesados quando chegam ao aterro e o DMAE, empresa responsável pela coleta do lixo urbano em Uberlândia, paga à empresa terceirizada por quilo de lixo coletado. Ou seja, o povo paga pelo desperdício.  
           Bem, depois de ver a triste cena, fui para a missa dominical. O evangelho era Mateus18,15-20, onde há o trecho: “em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. O padre fez um sermão bonito, ressaltando, entre outros, a responsabilidade de cada um por seus atos e a necessidade de envolver a comunidade em diferentes ações, começando  pela conversa com o nosso irmão. Disse que não devemos condenar o outro, que ninguém é dono da verdade, que o amor e a compaixão devem ser os nossos alicerces e que é preciso dar oportunidade aos outros para acertarem. 
           Assim, revigorada pelo evangelho, continuei minha campanha para aumentar a coleta de lixo reciclável nas proximidades onde moro. Já visitei todos os moradores do meu prédio e os donos dos bares por perto. Juntamente com estagiários do DMAE, visitamos três prédios, sendo que dois já separam o lixo.Consegui um contêiner vermelho grande, pra colocar na praça. Fiz adesivos instrutivos, colei e agora fico observando da minha janela se está dando certo. Será necessária uma longa jornada de conscientização das pessoas e de trabalho em conjunto. Como está na lei que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, deve haver responsabilidade compartilhada dos geradores de resíduos e cada um precisa contribuir para que os mesmos tenham um destino final adequado. Mas, como disse o padre em sua homilia, temos que começar conversando com o irmão.
        E agora meu filho, que está em Marrocos, contou-me que lá não tem como beber vinho, pois é proibido bebida alcoólica.Os bares e pubs são lotados, mas de pessoas bebendo chá. Só o barulhinho do tilintar das xícaras, sem garrafas quebradas. Deu vontade de ir pra lá...