A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Garrafas quebradas

Os containers de lixo na Praça da Bicota


                Comecei meu domingo com uma cena triste, que se repete diariamente. Em frente à  janela do meu apartamento, na praça Rui Barbosa (praça da Bicota) ficam três containers grandes, verdes, para depósito de lixo doméstico. Mas a grande maioria do lixo ai colocado é formado por garrafas, de todas as cores e tipos de bebida, centenas delas, todas recicláveis. Os bares da praça despejam as garrafas sem nenhuma preocupação com o destino final delas. E a multidão de jovens  que fica na praça à noite, bebendo cerveja no gargalo, deixa  garrafas pra todo canto. Alguns até jogam as garrafas no chão para quebrar e a praça amanhece cheia de cacos de vidro (parecendo o Sérgio Cabral, que quando recebia os amigos para festas espetaculares regadas a vinhos caríssimos, sempre promovia o ritual de chamar os convidados para, todos juntos, estilhaçarem os cascos vazios). De manhã, chegam os varredores de rua e catam pacientemente o lixo espalhado nos canteiros, no chão, nos bancos, na porta das lojas. Depois, à noite, chega o caminhão de lixo da Limpebrás e os funcionários despejam os lixões cheios na caçamba. Muitas garrafas se quebram e o barulho de vidro quebrando, bem alto e perturbador, dura alguns instantes, perturbando os moradores no entorno da praça (no domingo o caminhão passa de manhã). E lá se vai  o caminhão lotado de vidro a ser despejado e compactado no aterro sanitário da cidade, para lá ficar indefinidamente. Uma cena que se repete na cidade toda, acrescida pelos catadores  que acabam remexendo no lixo, todo misturado, para retirar as centenas de garrafas e aumentar sua escassa renda mensal.
         Isso pra mim é um descaso, uma selvageria com o meio ambiente, uma despreocupação com a saúde pública, um desperdício de matéria prima, uma cena de país subdesenvolvido. O vidro é um material valioso, que deveria ser reciclado e assim, auxiliar inúmeras famílias e associações de recicladores de vidro, diminuir o volume de resíduos a ser depositado no aterro e retornar ao ciclo produtivo. Pode ser reciclado inúmeras vezes, conservando suas características. Além disso, os caminhões de lixo são pesados quando chegam ao aterro e o DMAE, empresa responsável pela coleta do lixo urbano em Uberlândia, paga à empresa terceirizada por quilo de lixo coletado. Ou seja, o povo paga pelo desperdício.  
           Bem, depois de ver a triste cena, fui para a missa dominical. O evangelho era Mateus18,15-20, onde há o trecho: “em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. O padre fez um sermão bonito, ressaltando, entre outros, a responsabilidade de cada um por seus atos e a necessidade de envolver a comunidade em diferentes ações, começando  pela conversa com o nosso irmão. Disse que não devemos condenar o outro, que ninguém é dono da verdade, que o amor e a compaixão devem ser os nossos alicerces e que é preciso dar oportunidade aos outros para acertarem. 
           Assim, revigorada pelo evangelho, continuei minha campanha para aumentar a coleta de lixo reciclável nas proximidades onde moro. Já visitei todos os moradores do meu prédio e os donos dos bares por perto. Juntamente com estagiários do DMAE, visitamos três prédios, sendo que dois já separam o lixo.Consegui um contêiner vermelho grande, pra colocar na praça. Fiz adesivos instrutivos, colei e agora fico observando da minha janela se está dando certo. Será necessária uma longa jornada de conscientização das pessoas e de trabalho em conjunto. Como está na lei que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, deve haver responsabilidade compartilhada dos geradores de resíduos e cada um precisa contribuir para que os mesmos tenham um destino final adequado. Mas, como disse o padre em sua homilia, temos que começar conversando com o irmão.
        E agora meu filho, que está em Marrocos, contou-me que lá não tem como beber vinho, pois é proibido bebida alcoólica.Os bares e pubs são lotados, mas de pessoas bebendo chá. Só o barulhinho do tilintar das xícaras, sem garrafas quebradas. Deu vontade de ir pra lá...   





sábado, 28 de outubro de 2017

A gota

Zé depois da artroscopia, repousando
        De acordo com o dicionário Aurélio, "gota é a porção mínima de líquido suficientemente pesada para cair em forma de esfera ou pera". Temos assim a gota de chuva, de orvalho, de suor, a lágrima.
        Mas não vou escrever sobre nenhuma delas e sim sobre a doença gota, um tipo de artrite que ocorre quando o ácido úrico se acumula no sangue e causa inflamação das articulações. E que dói, dói muito. Curiosamente, também é chamada Doença dos Reis, pois antigamente acometia as pessoas mais abastadas da sociedade que possuíam fartura na mesa (ou seja, os comilões). Uma das causas da gota é o alto consumo de carne bovina, que favorece a produção de ácido úrico no organismo.
          E como o Zé, meu marido, já deve ter comido uma centena de bois ao longo da sua vida, ele é uma pessoa gotosa (não confundir com gostosa). Sofre de gota crônica, que acomete o pé esquerdo, o pé direito, o joelho esquerdo, o joelho direito, vai variando. Ocorre inflamação, dor, inchaço, aumento de temperatura no local. E a articulação pode travar e ele não andar. Um calvário. 
        Acontece que o último e recente ataque de gota na verdade foi um massacre. Ele ficou tão mal do joelho esquerdo que os dois filhos médicos, que lhe dão total assistência, começaram a pensar em outras possibilidades. Pediram uma batelada de exames. E a perna só inchando e doendo. O Zé andando mancando. Depois pulando apoiado em mim. Depois comprei um par de muletas. Depois consegui uma cadeira de rodas emprestada, mas que na verdade era uma cadeira de usar no banheiro, difícil demais de empurrar. E ele imóvel, com a perna inchada e doendo, só pedindo pra mim: traz água com gelo; preciso do óculos;  cadê meu celular; põe minha perna pra cima; preciso ir no banheiro; tenho que escovar os dentes; põe meu celular pra carregar; está na hora de tomar os remédios; preciso de um travesseiro; fecha a cortina pra mim; pega o controle da TV, etc.  Daí, no sétimo dia, eu disse pra ele: "Zé, acho que vou te bater..." Quase fiz como a D. Esperança, uma antiga vizinha que eu tive. Ela era uma velhinha  forte, de pele clara enrugada e bem brava. Cuidava do marido, um velho miudinho que de vez em quando surtava, pulava a janela e fugia. Ela o agarrava e dava-lhe umas boas palmadas. A meninada da vizinhança, que vivia solta pelas ruas, vinha correndo me contar e eu ia defender o velhinho. Quase apanhava também.
           Bem, mas voltando para a gota, o Zé acabou sendo operado pelo filho ortopedista, fez uma artroscopia  no joelho. Estava com o menisco lesionado, com cisto de Baker, acúmulo de líquido gotoso e umas coisinhas mais. Teve que aprender a usar as muletas, pois estava andando errado. Eu também aprendi, caso algum dia precise (foi o filho que ensinou). É assim: coloca-se as duas muletas para a frente, sem abrir muito o espaço entre elas. Depois puxa-se a perna lesionada  para frente até emparelhar com as muletas. Apoia-se o pé no chão. Depois dá o passo com a perna sã. Começa tudo novamente e vai indo...
           Dois dias depois da operação, o Zé deu os primeiros passinhos sem as muletas, até filmei. Os olhos dele ficaram marejados de lágrimas. Talvez estivesse pensando que nunca mais andaria. Lembrei-me daquele vídeo sobre um bebê, com cerca de quatro meses , que não escutava. Colocaram um aparelho auditivo nos seus ouvidos e foi emocionante a expressão do bebê quando ele ouviu a mãe conversando com ele. Ficou quietinho, prestando atenção, com uma carinha maravilhada e incrédula, piscando os olhos. Depois deu um sorrisinho torto.
           Enfim, a vida é bonita, mesmo com suas dores. E cheia de emoções, como o primeiro som que um bebê ouve ou os primeiros passos de um bebê e de um velhinho gotoso entrevado que recuperou a liberdade.

sábado, 12 de agosto de 2017

Não é a cegonha

Enzo e o seu pai

Lia

Maira

              Este texto é um pouco pornográfico, mas é baseado em fatos verídicos. Envolve os questionamentos de crianças que querem saber de onde vieram, de como foram feitas e os apuros das mães para explicar. Mais precisamente, trata da curiosidade do meu neto Enzo, americano, de nove anos e da solução encontrada pela minha filha para explicar tudo.
              Preocupada com tantas perguntas, ela resolveu se aconselhar com uma amiga que tem filhos da mesma idade e mora em uma fazenda de criação de porcos e ovelhas. Os seus dois filhos estavam acostumados a ver os animais cruzando e os filhotes nascendo. A amiga comprou o livro "It's not the stork" (não é a cegonha) e leu para eles. Os meninos entenderam tudinho, sem dramas e sem muitas perguntas.
               Animada, a filha comprou o livro, um bestseller sobre as diferenças entre meninos e meninas, transformações no corpo, bebês, famílias e sexo, indicado para crianças de quatro a seis anos e escrito por especialistas (isso de acordo com as informações sobre o livro). Assim, quando o Enzo começou novamente com aquelas perguntas difíceis, ela leu o livro para ele. Aliás, tentou. Foi lendo e mostrando as ilustrações (ela nem tinha aberto o livro antes para ver como era).  Chegou a netinha Lia, de seis anos, e ela continuou a ler, não tinha como parar. O Enzo ouvia todo concentrado. Nas explicações sobre diferenças entre meninos e meninas, tinha esquemas de pênis e vagina. Depois, o desenho do papai e da mamãe deitados na cama, abraçados, cobertos com um lençol. De repente, o Enzo teve um insight, ficou vermelho, começou a pular e a gritar várias vezes: -"The penis goes inside the vagina!" Minha filha pensou que ele ia ter um enfarte e queria encontrar um buraco onde se enfiar. A Lia foi mais direta ainda:-" Oh! Did the daddy put his penis in your vagina?!?" Ela, a filha, sem saber o que falar ou fazer, mandou que calassem a boca pra continuar a ler o livro, mas não foi possível. Assim, a inocência deles foi perdida para sempre.
           O pior é que ela teve que contar para o marido o acontecido. Ele até recebeu a narração dos fatos com serenidade. Apenas argumentou que o Enzo não precisava saber disso agora, pois ele ainda acredita no coelhinho da Páscoa. É verdade. Eu estava lá na última páscoa. A filha sempre coloca duas cestinhas de ovos escondidas e uma trilha de ovinhos para levar até a cestinha. Faz isso depois que ele e a Lia dormem. E o Enzo não queria dormir, pra pegar o coelhinho no flagra...
             Depois disso, a conversa dos dois girava em torno de pênis e vagina. A filha implorou para que não contassem nada na escola. A Lia seria até expulsa, falando desses assuntos com a sua turminha de cinco e seis anos. Quando estive lá recentemente, com um neto de 10 anos e outra netinha de seis, o tema ainda estava no auge. Um dia a Lia brigou com a priminha, fechou-a do lado de fora da casa e gritou (ela fala português também): "Ih, se você quiser um bebê o pênis vai na sua vagina!' A priminha, que vive em outro mundo e não sabia nada do livro, gritou de volta: "-Na minha não, na sua!"

          No meio de toda a confusão, os adultos ficam olhando angelicamente para cima, fingindo  não escutar e não ter nada a ver com isso. E provavelmente preferindo explicar para as crianças que a responsabilidade de trazer os bebês ao mundo é mesmo das cegonhas.

quinta-feira, 16 de março de 2017

O Dia Internacional da Mulher

As bonitas bombeiras de Uberlândia

Dra Mayana Zatz, bióloga molecular, geneticista, pesquisadora, professora da USP, coordenadora do projeto Genoma Humano

         No dia 8 de março, como era de se esperar, surgiram na mídia vários textos, reportagens, poesias e homenagens para as mulheres. Gostei sobretudo de um vídeo da policia militar. Começa com várias pessoas andando em uma avenida larga e algumas tentando atravessar na faixa de pedestres. Dois policiais militares se aproximam educadamente de uma mulher bonita, de uns quarenta anos, que estava atravessando a rua. Pedem que apresente sua identidade, explicando que é uma operação de rotina e a conduzem para a calçada. Ela parece surpresa e enquanto procura a carteira em sua bolsa, ganha uma flor vermelha do policial. Chega outro com uma flor amarela.  Surgem policiais de todos os lados, passam no meio dos transeuntes e entregam flores pra ela, que fica com um buquê enorme e com lágrimas nos olhos, enxugando-as  disfarçadamente. Aparece a banda da policia militar, tocando no meio da rua e um policial com um vozeirão cantando "dizem que a mulher é sexo frágil, mas que mentira absurda, eu que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas..." As pessoas vão parando e se aglomerando e os policiais distribuem flores pra todas as mulheres que estavam  no local. Achei linda esta homenagem.
        Mas também fiquei boquiaberta com o pronunciamento do  Temer. Penso que ele até queria elogiar as mulheres, mas só disse impropriedades e, pelo visto, pensa mesmo como falou. Ou seja, pra ele a mulher é a rainha do lar  e acabou. Tipo bela, recatada e que fica em casa pra educar os filhos. Tipo anos 1950 ou tipo mulher Amélia. Como escreveu José Simão, cronista da Folha, só faltou o Temer dizer que a maior conquista da mulher foi a máquina de lavar. O presidente até disse uma frase que parecia bem atual, sobre a importância da mulher na economia, mas quando se pensou que ele iria abordar isso de uma forma correta, disse que ela é importante porque faz compras no supermercado e compara os preços. Meu Deus, ele não entende nada do papel da mulher na sociedade, de suas conquistas, de suas lutas, de sua  garra, de seu amor incondicional, de sua versatilidade, de sua dignidade e  humanidade, de sua capacidade de chorar ao ganhar uma flor...Deixa pra lá, o Temer não vai mudar mesmo...
       Por coincidência, no Dia Internacional da Mulher, fui mesmo fazer compras no supermercado. No açougue, uma atendente negra, alta, uniforme branco, lábios carnudos com batom vermelho, cabelos presos com esmero, cortando com maestria um pedaço de acém. Usava a faca enorme com habilidade, enquanto ia contando um caso e descarregando sua raiva. Estava revoltada porque uma mulher foi comprar carne e ela explicou que o acém cortado estava em promoção por R$12,00, mas se fosse moído era o preço normal, R$17,00. A mulher queria moído por R$12,00. Ela explicou direitinho, mas a mulher ficou possessa e a chamou de "VACA". Daí ela "rodou a baiana" e foram as duas  pra gerência.  A mulher disse ao gerente que a funcionária estava mentindo, mas o gerente conhecia o trabalho dela e a defendeu. Enfim, foi um bafafá no supermercado. Ela contava o caso pra mim, rodava a faca, dizia que saia cedo de casa, deixava os filhos, ficava o dia todo trabalhando na câmara fria, não ia aguentar desaforo. Chamou até uma testemunha, uma freguesa que sempre comprava lá, pra me confirmar como ela atendia bem. Dei todo apoio pra ela, quase a abracei e levei dois quilos de acém picado .
                 Gostaria muito de ter, na hora, umas flores para oferecer  para ela.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Hoje só amanhã



         O José Simão é cronista da Folha de S. Paulo. Escreve  de forma irreverente,  espirituosa e bem humorada, com textos cheios de pontos de exclamação e de trocadilhos. Começa sempre se intitulando como Macaco Simão, o esculhambador-geral da república e termina com: "Nóis sofre, mas nóis goza! Hoje só amanhã!"
          Nenhum político escapa de seu sarcasmo. O Temer então, coitado, está em todas. Escreveu que depois do Temer receber 10 milhões da Odebrech, o "Fora Temer" virou "Por fora Temer" e a popularidade dele cresceu nas delações, onde foi citado 44 vezes e por isso vai pro Guinness da Delação. Assim, é citado até em lista de supermercado: arroz, feijão, granola , creme de leite e Temer! E continua: "Mudanças no Mundo dos Vampiros! Michel Temer passará a se chamar Michel Treme nas bases! Que também estão tremendo! Rarará!" E o Temer ficou tão indignado com a delação que reagiu em latim: "Pimentorium in anus outrem, refrescus est. Repudio-lo-ei". Concluiu que o Franstemer está indo pro Odebrejo...
           O Lula também é um dos seus preferidos. Comentou que o Lulalelé parece massa de pão: quanto mais bate, mais cresce! E que o Lula é como o Corinthians: o povo gosta mesmo apanhando! Ironiza o relacionamento dele com o Moro: "Lula e Moro em 50 Tons de Curitiba! Com cenas inéditas de sadomasoquismo!  Amor e ódio encruado!"
          Até a Carmem Lúcia, do STF, é chamada de Bento Carneiro Vampiro Brasileiro. E nem a Marina escapa, chamada de Tartaruga Sem Casco: "se árvore votasse, ela levava no primeiro turno! E com aquela vozinha de teatro infantil! A voz da Marina é mais irritante que despertador de segunda feira! E ela tem cara de "acima do bem e do mal"!
          E a lista da Odebrecht, com os apelidos da turma do congresso que recebia propina?  Parece time de várzea: Santo, Caju, Todo Feio, Caranguejo, Gripado, Primo, Decrépito, Boca Mole, Angorá. Segundo José Simão, o Primo é o ministro Padilha, o mais popular porque distribuía a grana: "E ai, primo". "Chegou a grana, primo?" E o Boca Mole é o Heráclito, com boca de véia bater bolacha! Já a Lídice da Mata é a Feia; propineira tudo bem, mas Feia é a mãe! E ainda tem outros, como Aécio, que é o Mineirinho, embolsa quieto.
         O Renan também caiu na desgraça. José Simão escreveu que o Supremo decidiu que Renan passaria  de Réunan para Reinan. E ele, o Reinan, disse:  "Se é para a felicidade do Temer e para votar a PEC do Teto, digo ao povo que fico! Pra sempre! Daqui não saio, daqui ninguém me tira!" No caso Renan, a casa não caiu por causa do Teto...
        Outro assunto que ele tem abordado com humor é a reforma da Previdência, que prevê aposentadoria após a terceira reencarnação. Se o Niemeyer estivesse vivo, teria que trabalhar mais dez anos. No Brasil, agora nem Matusalém se aposenta. Sugere então aderir ao PMV, Programa de Morte Voluntária: morre e continua pagando o carnê! E o Frankstemer deu um recado ao povo brasileiro: 'Posterga-lhes-ei a aposentadoria" (como é bom ter um presidente que fale bem o português).
          Quanto ao casal Cabral, esculhambou com ele. O casal inaugurou a revista "Celas", só para presas ricas, com a manchete: "Adriana Anselmo mostra sua coleção de joias Bangu Stern!" Ela abriu sua cela para a revista , mostrando o colchonete com penas de urubu! E no verão vai ter ilha de "Celas", com os convidados sendo levados por um camburão anfíbio!
       De qualquer forma, concordo com ele que a situação está psicoesculhambativa-escalafobética! Hoje só amanhã mesmo!

                

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A balsa do São Francisco

A balsa

Singrando o Velho Chico

O neto Théo, Júlia e o filho Luiz Cláudio na beiro do rio


          O rio São Francisco esteve em destaque na mídia devido à novela "Velho Chico" e ao fim trágico de um dos atores. Eu acompanhava alguns capítulos para ver as cenas com o rio bonito, majestoso, largo e perigoso.
           Gosto desse rio e já passei por muitas aventuras ao atravessá-lo de balsa, para chegar até a fazenda que temos na margem esquerda, no município de Buritizeiro. A balsa pertence à essa prefeitura e carrega de uma vez até 10 carros. Navega da margem direita para a esquerda nos horários ímpares (Ponto Chique para Cachoeira do Manteiga) e faz o trajeto inverso nos horários pares. Assim, a viagem deve  ser programada de acordo com esses horários, para ficar na fila. O drama é que a balsa quase sempre está estragada, com problemas no motor, na hélice ou no casco. Ou então o rio está raso demais e a balsa encalha, como  aconteceu com a camionete do Zé, meu marido. Ele ficou 2h encalhado olhando pro rio. Também há acidentes. Um dia a balsa carregava um caminhão e ele caiu no rio. Na época da chuva, os carros atolam no barreiro e todos têm que empurrar.  E as pessoas também atolam, eu e meus netos inclusive. Mesmo assim, é um alivio quando a balsa está funcionando. Caso contrário, temos que dar volta pela estrada chamada Poeirão (nem precisa explicar o porque do nome) ou atravessar no barquinho do Di, que cobra R3,00 por pessoa e vai singrando corajosamente as águas do Velho Chico. Nesse caso a camionete não atravessa, é preciso descarregar tudo e colocar cada pacotinho no barco, uma luta. Há tempos, nem o Di quis nos levar, pois ventava muito, o rio estava revolto e o barquinho poderia virar (e mesmo se ele quisesse o Zé não iria, não quer morrer afogado).
             Além de tudo, a travessia é demorada quando o rio está muito raso. Os barqueiros precisam ir sondando o leito do rio para passar nos locais mais fundos. Conversaram com o Zé sobre isso, freguês assíduo da balsa e que sempre tem boas ideias. Concluíram que era preciso mudar o sistema de impulsão da balsa, acoplando a ela um rebocador, que mudaria a direção da  balsa nos trechos rasos. Mas, para isso, era preciso calcular qual o peso da balsa quando estava vazia e quando estava cheia, para então saber qual a  potência do motor do rebocador. O Zé armou a resolução do problema, usando o principio do empuxo de Arquimedes (peso do corpo igual ao volume de líquido deslocado). Chamaram o João, gente boa, que trabalha na nossa fazenda e tem muita disposição e vontade de aprender. Ele usou uma vara, mediu a largura e o comprimento da balsa. Mediu o quanto ela submergia quando estava vazia e quando estava com a lotação completa. O Zé fez os cálculos e concluiu que a potência do motor seria de 200 cv. Levaram para o prefeito de Buritizeiro, que engavetou o processo. Não adiantou a descoberta do Arquimedes, nem a boa vontade do João, nem os cálculos do Zé. Faltou vontade política, como, aliás, se vê muito por aí.
           Mas o Zé continua a associar  a teoria com a prática: há pouco tempo , ensinou os funcionários da fazenda a fazerem ângulos retos para construir um galpão,  usando o teorema de Pitágoras. Certa vez, adaptou um freezer para usar  potencial hidráulico ao invés de energia elétrica. O freezer ficava no meio do mato, perto da roda dágua  e fazia 60kg de gelo da noite para o dia, um espanto. Mas isso já é outra história...
      Enquanto isso, continuamos torcendo pra balsa não encalhar. Quem sabe alguma fórmula do Einsten resolve o problema.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cão bravo


A netinha Lia com a Lolla

            Adoro ovo caipira, desses com  gema bem amarela e casca azul.  Tempos atrás descobri uma placa em uma casa na vizinhança: "Vende-se ovos caipira". Ao lado, outra placa: "Cuidado! Cão bravo".  A tentação de comer os ovos foi mais forte e  toquei o interfone.  Imediatamente surgiu um cão enorme parecido com doberman , preto, latindo raivoso e dando saltos incríveis para pular o murinho baixo e me devorar viva. Fiquei petrificada onde estava. Apareceu um  homem que não era mentalmente muito normal, mandou o cão ficar quieto e buscou os meus ovos. Voltei mais duas vezes, tentada pelos ovos. Na última vez, cheguei justo no momento em que o cão começou a latir e pulou para cima de uma senhora distraída que passava na calçada com o filhinho. O cão bravo foi detido pelo murinho, mas parte do tronco dele passou por cima e ele quase mordeu a mulher. Ela levou um susto enorme, mas era mais brava que o cão e fez um escândalo na rua. O homem com problema tomou o partido do seu cão raivoso e ameaçou acertar umas pedradas na mulher. Vendo os ânimos exaltados, antes de levar uma pedrada ou uma mordida, dei meia volta e fiquei sem os deliciosos ovinhos caipira.  
            Passado um ano do episódio, criei coragem e  voltei lá. Só vi a placa  dos ovos. Onde estaria o cão bravo?  Seria uma armadilha? Toquei o interfone pronta para correr, se necessário. Apareceu uma senhorinha amável , eu disse que queria ovos e ela me convidou para entrar e ver as galinhas. Eu me neguei veementemente, o cachorro deveria estar lá em algum lugar, de tocaia. Mas ela explicou que tinham dado o cachorro porque ele atacara o senhor idoso e grandalhão, que morava na casa com o seu filho, e ela estava lá para cuidar dele. Eu vi o braço do senhor, todo machucado, com inúmeros pontos, dilacerado, inchado e vermelho, um horror. Também vi as galinhas gordas, livres, ciscando no quintal e de papo cheio. Levei meus ovinhos caipiras, mas fiquei impressionada  ao ver que eu tinha razão de ter medo, o cão era uma fera e ficava solto. Ainda bem que não comeu as galinhas.
            Semanas depois passei por outro episódio envolvendo  cão bravo, mas dessa vez com final feliz. Minha cadelinha yorkshire, a Duda, teve três filhotinhos em junho: Lolla, Milla e Tobias, lindos. Fiquei com a Milla, dei o Tobias e vendi a Lolla. Mas não havia como entregar os cãezinhos para os donos, pois estavam sete netos pequenos passando férias aqui em casa. Eles fizeram um complô para esconder os filhotes e para chorarem juntos como protesto. A compradora da Lolla era insistente e conseguiu levá-la, deixando as crianças aos prantos. Horas depois ela voltou para devolvê-la. Explicou que a Lolla só chorava, não comia e estava sendo aterrorizada por sua outra cachorra, uma filhote de rottweiler que queria engolir a Lolla.  Devolveu a cachorrinha, insistiu em pagar uma multa e ainda deixou um saco de ração e duas vasilhas de metal. As crianças ficaram muito felizes, a Duda deitou de lado e a Lolla mamou até ficar prostrada.

            Agora estou tentando socializar a Duda e a Milla, para que se tornem adultos mais equilibrados. E para que a Duda pare de latir tanto, pois é mentira que cão que ladra não morde. O doberman latia muito e mordeu o dono. Mas não vou julgar o doberman.  Penso que talvez não o ensinaram, desde pequeno, a obedecer a comandos, a respeitar as pessoas, a ser obediente e não brincaram com ele. Talvez o tenham ensinado a atacar mesmo. De qualquer forma, com cão bravo o melhor mesmo é se prevenir.