A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Olhos assustados

A turma de adultos que foi para a Bahia (só o de óculos e o de camisa branca não cairam do banco...)

No caminho na volta da praia

Os netos ouvindo histórias
        Assisti um ótimo filme chamado "Grandes Olhos", um drama real sobre a pintora Margaret Keane, que fazia pinturas incríveis e únicas de meninas  com olhos muito grandes e tristes. O filme mostra o despertar da artista e a sua luta contra o marido, na maior fraude da história da arte, pois ele se dizia autor das obras da esposa e o mundo todo acreditou.
       Nem sei porque, associei o filme com olhos assustados e espantados que presenciei em cenas que aconteceram na nossa viagem de final de ano. Fomos, num grupo de oito pessoas, visitar a filha que mora na praia de Algodões, BA. Lugar lindo, mas difícil de chegar, com estrada de terra esburacada. Como o trajeto final foi o mais difícil e na escuridão da noite,  com o motorista um pouco perdido e com medo de assalto, o grupo já chegou de olhos assustados. Na hora de dormir, o Zé, meu marido, precisava de uma tomada para ligar o aparelho que usa para respirar melhor. Encontrada a tomada, a cama não dava certo com o cortinado usado para evitar a multidão de pernilongos. Emendou-se duas camas e ele se esparramou. No dia seguinte, estava com os olhos espantados: as camas se separaram, ele caiu no chão e ficou enrolado no cortinado e nos fios do aparelho. Primeiro tombo. Na noite seguinte, fomos comer pizza feita no forno de lenha, na pizzaria simples ao lado da casa da filha: mesas e bancos rústicos debaixo de árvores, chão de areia, velas, redes, um carinhoso cão labrador. Num mesmo banco grande, cinco pessoas sentadas.  Sem nenhum aviso prévio, o banco velho e carcomido pelo tempo foi vergando devagarzinho, quebrou e todos caímos  com olhos espantados. Rimos muito, menos o netinho que estava no meu colo e caiu em prantos. Segundo tombo do Zé. Noutro dia, quando  íamos pelo caminhozinho que chega até a praia, chegamos a uma ribanceira de areia alta. Falei para o Zé que ele não conseguiria descer por ali, que iria cair e eu não conseguiria segurá-lo. Teimoso, disse que era fácil. Escorregou de ponta cabeça, dobrando o joelho operado há pouco tempo. Olhos assustados novamente. Terceiro tombo. Na sequência dos acontecimentos, a bomba que retira água do poço para mandar para a casa, estragou. Assim, passamos a tomar banho de canequinha, esquentando água no fogão, mas o Zé se recusou.  Preferiu usar o chuveiro do quintal do vizinho. Mas, certa noite, depois de limpinho, com uma lanterna que não iluminava muito bem, trombou num formigueiro numa árvore. Formiga entrou pelos "zóio, zoréia e zovido". Não foi tombo, mas foi pior. Olhos assustados outra vez. Penso que ele não volta na Bahia tão cedo...
        Outras cenas que causaram espanto aconteceram na ceia de Natal. Moro no terceiro andar e resolvi fazer a ceia de Natal no décimo terceiro andar, no salão de festas. Fiquei presa no elevador duas vezes, uma delas com o Papai Noel. Um amigo vestiu a roupa calorenta do bom velhinho no meu apartamento. Colocou a barba, a peruca, o bigode, a touca, um travesseiro na barriga, encheu o saco com os presentes e tomamos o elevador. Ele emperrou entre o sexto e o sétimo andar. O Papai Noel suava em bicas. Falei pra ele tirar a roupa, mas não quis. Com os olhos assustados, ficamos presos uns bons minutos. Depois, foi a vez de uma moça que me auxiliava. Ela subia e descia o elevador sem parar (eu também). Levamos o filé ao molho madeira, ele acabou e ela não chegava com o chester com farofa e abacaxi, uma delícia. Claro, estava presa no elevador. Depois de meia hora, chegou com olhos assustados carregando a bandeja. Sem contar que levou uma mordida (não machucou) da minha cachorrinha york que estava com filhotinhos. Penso que ela não volta mais a me ajudar e que terei que trocar de Papai Noel...
        Penso também que muitos não acreditarão em tantas confusões. No caso da pintora, o mundo todo acreditou no marido mentiroso e ela precisou ir a um tribunal para provar que os quadros eram seus. No meu caso, tudo o que contei é a mais pura expressão da verdade.  

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A certidão de nascimento

Meus pais, Dr. Luiz e Maria Minelvira

A cartinha escrita em 1957

O túmulo em Campos Altos

                Li em algum local que quando a gente pensa que já sabe todas as respostas, a vida muda todas as perguntas. Acrescento que quando a gente pensa que  já passou por todas as surpresas que a vida poderia nos reservar, pode surgir outra. Passei por isso dia destes.
        Tudo começou porque o Consulado Geral de Portugal modificou, em julho, o Regimento de Nacionalidade, tornando mais fácil a obtenção da nacionalidade portuguesa  para netos e bisnetos de portugueses. Como obter o passaporte europeu é um sonho para o meu irmão Lúcio e um dos meus filhos, eles começaram a desenterrar todos os documentos necessários. A certidão de nascimento do meu avô Antônio, que nasceu na região de Trás dos Montes, em Portugal, eles já haviam encontrado depois de um verdadeiro trabalho de detetive que durou dois anos. Faltava a certidão de nascimento do meu pai, que nasceu em Canta Galo, no Rio,  e a minha, que nasci em Campos Altos, Minas. Encarregaram um sobrinho( apelidado carinhosamente de Canini e traduzido pelo Lúcio pra Cão Nini) de procurar a certidão na minha cidade natal. Passado uns dias, recebi um telefonema do Lúcio. Alarmado, contou que eu era filha só da Minelvira, mãe solteira, não era filha do Dr. Luiz, primeiro médico de Campos Altos! Levei um susto na hora, mas eu tinha certeza que tinha pai sim e que sempre usei minha identidade e certidão de casamento com o nome dele. O Lúcio contestou, afirmando que no livrão do cartório tinha só o nome Ana Maria, sem sobrenome. Enviou a foto da certidão de inteiro teor, manuscrita,  sem o sobrenome Souza Coelho mesmo.  Afirmou que todos os meus descendentes tinham se lascado, porque eu não era neta de português coisa nenhuma. E como sempre fui muito avoada e distraída, não devia ter percebido isso. E quando me casei, certamente passei as informações apenas verbalmente. Mandou mensagens imensas, contando que o Cão Nini estava se esforçando muito, mas não encontrou nada; que o pai dele, o Afrânio, também teve problemas com o sobrenome, pois era Lemos Coelho e queria que fosse Souza Coelho, para ser como os príncipes de Portugal. Assim, quando adulto, mudou o sobrenome.  Só que na busca, descobriram que meu avô se chamava apenas Antônio de Souza e que o Coelho era do padrinho dele, um costume em Portugal. Ou seja, nunca existiu príncipe nenhum. Contou que também ele, Lúcio, queria trocar o sobrenome Teixeira Coelho, colocado em homenagem à nossa mãe, mas ela chorava tanto que ele desistiu. Acrescentou que eu e meu outro irmão escrevemos um livro a quatro mãos contando que ele tinha sido encontrado no cocho do quintal onde os cavalos comiam sal. E que agora as pedras voltaram, pois Deus castiga e eu não tinha nem sobrenome (nessa parte, ele colocou "risos, risos" e eu também ri, ri muito).
            Depois de todo este terrorismo, fui procurar uma certidão de nascimento antiga que eu sabia que possuia. Encontrei-a junto com vários documentos amarelados pelo tempo. Estava correta, com sobrenome e número de registro, folha e livro do cartório. Encontrei até uma cartinha que escrevi pra minha mãe em 11 de maio de 1957, convidando-a para a festa do dia das mães (como disse o Lúcio, retirei do túmulo dos faraós...). Descobri também um documento original  assinado pelo governador Benedito Valadares nomeando meu pai para primeiro prefeito de Campos Altos, uma relíquia.
          Continuando a saga, resolvi ir a Campos Altos ver o que tinha acontecido no cartório e visitar o túmulo do meu pai. A averbação na minha certidão, acrescentando meu sobrenome, estava lá, feita 12 anos depois do meu nascimento, pelo meu próprio pai. Rezei para ele no cemitério e o agradeci. Fui à prefeitura doar o documento do Benedito Valadares e lá estava a foto dele, na galeria dos ex-prefeitos, de longe o mais bonito de todos.
              Agora, é providenciar o passaporte português e, quem sabe, passar uns tempos em Portugal para voltar às raízes. E talvez encontrar algum Souza Coelho por lá, que com certeza não será nenhum príncipe.




segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Garrafas quebradas

Os containers de lixo na Praça da Bicota


                Comecei meu domingo com uma cena triste, que se repete diariamente. Em frente à  janela do meu apartamento, na praça Rui Barbosa (praça da Bicota) ficam três containers grandes, verdes, para depósito de lixo doméstico. Mas a grande maioria do lixo ai colocado é formado por garrafas, de todas as cores e tipos de bebida, centenas delas, todas recicláveis. Os bares da praça despejam as garrafas sem nenhuma preocupação com o destino final delas. E a multidão de jovens  que fica na praça à noite, bebendo cerveja no gargalo, deixa  garrafas pra todo canto. Alguns até jogam as garrafas no chão para quebrar e a praça amanhece cheia de cacos de vidro (parecendo o Sérgio Cabral, que quando recebia os amigos para festas espetaculares regadas a vinhos caríssimos, sempre promovia o ritual de chamar os convidados para, todos juntos, estilhaçarem os cascos vazios). De manhã, chegam os varredores de rua e catam pacientemente o lixo espalhado nos canteiros, no chão, nos bancos, na porta das lojas. Depois, à noite, chega o caminhão de lixo da Limpebrás e os funcionários despejam os lixões cheios na caçamba. Muitas garrafas se quebram e o barulho de vidro quebrando, bem alto e perturbador, dura alguns instantes, perturbando os moradores no entorno da praça (no domingo o caminhão passa de manhã). E lá se vai  o caminhão lotado de vidro a ser despejado e compactado no aterro sanitário da cidade, para lá ficar indefinidamente. Uma cena que se repete na cidade toda, acrescida pelos catadores  que acabam remexendo no lixo, todo misturado, para retirar as centenas de garrafas e aumentar sua escassa renda mensal.
         Isso pra mim é um descaso, uma selvageria com o meio ambiente, uma despreocupação com a saúde pública, um desperdício de matéria prima, uma cena de país subdesenvolvido. O vidro é um material valioso, que deveria ser reciclado e assim, auxiliar inúmeras famílias e associações de recicladores de vidro, diminuir o volume de resíduos a ser depositado no aterro e retornar ao ciclo produtivo. Pode ser reciclado inúmeras vezes, conservando suas características. Além disso, os caminhões de lixo são pesados quando chegam ao aterro e o DMAE, empresa responsável pela coleta do lixo urbano em Uberlândia, paga à empresa terceirizada por quilo de lixo coletado. Ou seja, o povo paga pelo desperdício.  
           Bem, depois de ver a triste cena, fui para a missa dominical. O evangelho era Mateus18,15-20, onde há o trecho: “em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. O padre fez um sermão bonito, ressaltando, entre outros, a responsabilidade de cada um por seus atos e a necessidade de envolver a comunidade em diferentes ações, começando  pela conversa com o nosso irmão. Disse que não devemos condenar o outro, que ninguém é dono da verdade, que o amor e a compaixão devem ser os nossos alicerces e que é preciso dar oportunidade aos outros para acertarem. 
           Assim, revigorada pelo evangelho, continuei minha campanha para aumentar a coleta de lixo reciclável nas proximidades onde moro. Já visitei todos os moradores do meu prédio e os donos dos bares por perto. Juntamente com estagiários do DMAE, visitamos três prédios, sendo que dois já separam o lixo.Consegui um contêiner vermelho grande, pra colocar na praça. Fiz adesivos instrutivos, colei e agora fico observando da minha janela se está dando certo. Será necessária uma longa jornada de conscientização das pessoas e de trabalho em conjunto. Como está na lei que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, deve haver responsabilidade compartilhada dos geradores de resíduos e cada um precisa contribuir para que os mesmos tenham um destino final adequado. Mas, como disse o padre em sua homilia, temos que começar conversando com o irmão.
        E agora meu filho, que está em Marrocos, contou-me que lá não tem como beber vinho, pois é proibido bebida alcoólica.Os bares e pubs são lotados, mas de pessoas bebendo chá. Só o barulhinho do tilintar das xícaras, sem garrafas quebradas. Deu vontade de ir pra lá...   





sábado, 28 de outubro de 2017

A gota

Zé depois da artroscopia, repousando
        De acordo com o dicionário Aurélio, "gota é a porção mínima de líquido suficientemente pesada para cair em forma de esfera ou pera". Temos assim a gota de chuva, de orvalho, de suor, a lágrima.
        Mas não vou escrever sobre nenhuma delas e sim sobre a doença gota, um tipo de artrite que ocorre quando o ácido úrico se acumula no sangue e causa inflamação das articulações. E que dói, dói muito. Curiosamente, também é chamada Doença dos Reis, pois antigamente acometia as pessoas mais abastadas da sociedade que possuíam fartura na mesa (ou seja, os comilões). Uma das causas da gota é o alto consumo de carne bovina, que favorece a produção de ácido úrico no organismo.
          E como o Zé, meu marido, já deve ter comido uma centena de bois ao longo da sua vida, ele é uma pessoa gotosa (não confundir com gostosa). Sofre de gota crônica, que acomete o pé esquerdo, o pé direito, o joelho esquerdo, o joelho direito, vai variando. Ocorre inflamação, dor, inchaço, aumento de temperatura no local. E a articulação pode travar e ele não andar. Um calvário. 
        Acontece que o último e recente ataque de gota na verdade foi um massacre. Ele ficou tão mal do joelho esquerdo que os dois filhos médicos, que lhe dão total assistência, começaram a pensar em outras possibilidades. Pediram uma batelada de exames. E a perna só inchando e doendo. O Zé andando mancando. Depois pulando apoiado em mim. Depois comprei um par de muletas. Depois consegui uma cadeira de rodas emprestada, mas que na verdade era uma cadeira de usar no banheiro, difícil demais de empurrar. E ele imóvel, com a perna inchada e doendo, só pedindo pra mim: traz água com gelo; preciso do óculos;  cadê meu celular; põe minha perna pra cima; preciso ir no banheiro; tenho que escovar os dentes; põe meu celular pra carregar; está na hora de tomar os remédios; preciso de um travesseiro; fecha a cortina pra mim; pega o controle da TV, etc.  Daí, no sétimo dia, eu disse pra ele: "Zé, acho que vou te bater..." Quase fiz como a D. Esperança, uma antiga vizinha que eu tive. Ela era uma velhinha  forte, de pele clara enrugada e bem brava. Cuidava do marido, um velho miudinho que de vez em quando surtava, pulava a janela e fugia. Ela o agarrava e dava-lhe umas boas palmadas. A meninada da vizinhança, que vivia solta pelas ruas, vinha correndo me contar e eu ia defender o velhinho. Quase apanhava também.
           Bem, mas voltando para a gota, o Zé acabou sendo operado pelo filho ortopedista, fez uma artroscopia  no joelho. Estava com o menisco lesionado, com cisto de Baker, acúmulo de líquido gotoso e umas coisinhas mais. Teve que aprender a usar as muletas, pois estava andando errado. Eu também aprendi, caso algum dia precise (foi o filho que ensinou). É assim: coloca-se as duas muletas para a frente, sem abrir muito o espaço entre elas. Depois puxa-se a perna lesionada  para frente até emparelhar com as muletas. Apoia-se o pé no chão. Depois dá o passo com a perna sã. Começa tudo novamente e vai indo...
           Dois dias depois da operação, o Zé deu os primeiros passinhos sem as muletas, até filmei. Os olhos dele ficaram marejados de lágrimas. Talvez estivesse pensando que nunca mais andaria. Lembrei-me daquele vídeo sobre um bebê, com cerca de quatro meses , que não escutava. Colocaram um aparelho auditivo nos seus ouvidos e foi emocionante a expressão do bebê quando ele ouviu a mãe conversando com ele. Ficou quietinho, prestando atenção, com uma carinha maravilhada e incrédula, piscando os olhos. Depois deu um sorrisinho torto.
           Enfim, a vida é bonita, mesmo com suas dores. E cheia de emoções, como o primeiro som que um bebê ouve ou os primeiros passos de um bebê e de um velhinho gotoso entrevado que recuperou a liberdade.

sábado, 12 de agosto de 2017

Não é a cegonha

Enzo e o seu pai

Lia

Maira

              Este texto é um pouco pornográfico, mas é baseado em fatos verídicos. Envolve os questionamentos de crianças que querem saber de onde vieram, de como foram feitas e os apuros das mães para explicar. Mais precisamente, trata da curiosidade do meu neto Enzo, americano, de nove anos e da solução encontrada pela minha filha para explicar tudo.
              Preocupada com tantas perguntas, ela resolveu se aconselhar com uma amiga que tem filhos da mesma idade e mora em uma fazenda de criação de porcos e ovelhas. Os seus dois filhos estavam acostumados a ver os animais cruzando e os filhotes nascendo. A amiga comprou o livro "It's not the stork" (não é a cegonha) e leu para eles. Os meninos entenderam tudinho, sem dramas e sem muitas perguntas.
               Animada, a filha comprou o livro, um bestseller sobre as diferenças entre meninos e meninas, transformações no corpo, bebês, famílias e sexo, indicado para crianças de quatro a seis anos e escrito por especialistas (isso de acordo com as informações sobre o livro). Assim, quando o Enzo começou novamente com aquelas perguntas difíceis, ela leu o livro para ele. Aliás, tentou. Foi lendo e mostrando as ilustrações (ela nem tinha aberto o livro antes para ver como era).  Chegou a netinha Lia, de seis anos, e ela continuou a ler, não tinha como parar. O Enzo ouvia todo concentrado. Nas explicações sobre diferenças entre meninos e meninas, tinha esquemas de pênis e vagina. Depois, o desenho do papai e da mamãe deitados na cama, abraçados, cobertos com um lençol. De repente, o Enzo teve um insight, ficou vermelho, começou a pular e a gritar várias vezes: -"The penis goes inside the vagina!" Minha filha pensou que ele ia ter um enfarte e queria encontrar um buraco onde se enfiar. A Lia foi mais direta ainda:-" Oh! Did the daddy put his penis in your vagina?!?" Ela, a filha, sem saber o que falar ou fazer, mandou que calassem a boca pra continuar a ler o livro, mas não foi possível. Assim, a inocência deles foi perdida para sempre.
           O pior é que ela teve que contar para o marido o acontecido. Ele até recebeu a narração dos fatos com serenidade. Apenas argumentou que o Enzo não precisava saber disso agora, pois ele ainda acredita no coelhinho da Páscoa. É verdade. Eu estava lá na última páscoa. A filha sempre coloca duas cestinhas de ovos escondidas e uma trilha de ovinhos para levar até a cestinha. Faz isso depois que ele e a Lia dormem. E o Enzo não queria dormir, pra pegar o coelhinho no flagra...
             Depois disso, a conversa dos dois girava em torno de pênis e vagina. A filha implorou para que não contassem nada na escola. A Lia seria até expulsa, falando desses assuntos com a sua turminha de cinco e seis anos. Quando estive lá recentemente, com um neto de 10 anos e outra netinha de seis, o tema ainda estava no auge. Um dia a Lia brigou com a priminha, fechou-a do lado de fora da casa e gritou (ela fala português também): "Ih, se você quiser um bebê o pênis vai na sua vagina!' A priminha, que vive em outro mundo e não sabia nada do livro, gritou de volta: "-Na minha não, na sua!"

          No meio de toda a confusão, os adultos ficam olhando angelicamente para cima, fingindo  não escutar e não ter nada a ver com isso. E provavelmente preferindo explicar para as crianças que a responsabilidade de trazer os bebês ao mundo é mesmo das cegonhas.

quinta-feira, 16 de março de 2017

O Dia Internacional da Mulher

As bonitas bombeiras de Uberlândia

Dra Mayana Zatz, bióloga molecular, geneticista, pesquisadora, professora da USP, coordenadora do projeto Genoma Humano

         No dia 8 de março, como era de se esperar, surgiram na mídia vários textos, reportagens, poesias e homenagens para as mulheres. Gostei sobretudo de um vídeo da policia militar. Começa com várias pessoas andando em uma avenida larga e algumas tentando atravessar na faixa de pedestres. Dois policiais militares se aproximam educadamente de uma mulher bonita, de uns quarenta anos, que estava atravessando a rua. Pedem que apresente sua identidade, explicando que é uma operação de rotina e a conduzem para a calçada. Ela parece surpresa e enquanto procura a carteira em sua bolsa, ganha uma flor vermelha do policial. Chega outro com uma flor amarela.  Surgem policiais de todos os lados, passam no meio dos transeuntes e entregam flores pra ela, que fica com um buquê enorme e com lágrimas nos olhos, enxugando-as  disfarçadamente. Aparece a banda da policia militar, tocando no meio da rua e um policial com um vozeirão cantando "dizem que a mulher é sexo frágil, mas que mentira absurda, eu que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas..." As pessoas vão parando e se aglomerando e os policiais distribuem flores pra todas as mulheres que estavam  no local. Achei linda esta homenagem.
        Mas também fiquei boquiaberta com o pronunciamento do  Temer. Penso que ele até queria elogiar as mulheres, mas só disse impropriedades e, pelo visto, pensa mesmo como falou. Ou seja, pra ele a mulher é a rainha do lar  e acabou. Tipo bela, recatada e que fica em casa pra educar os filhos. Tipo anos 1950 ou tipo mulher Amélia. Como escreveu José Simão, cronista da Folha, só faltou o Temer dizer que a maior conquista da mulher foi a máquina de lavar. O presidente até disse uma frase que parecia bem atual, sobre a importância da mulher na economia, mas quando se pensou que ele iria abordar isso de uma forma correta, disse que ela é importante porque faz compras no supermercado e compara os preços. Meu Deus, ele não entende nada do papel da mulher na sociedade, de suas conquistas, de suas lutas, de sua  garra, de seu amor incondicional, de sua versatilidade, de sua dignidade e  humanidade, de sua capacidade de chorar ao ganhar uma flor...Deixa pra lá, o Temer não vai mudar mesmo...
       Por coincidência, no Dia Internacional da Mulher, fui mesmo fazer compras no supermercado. No açougue, uma atendente negra, alta, uniforme branco, lábios carnudos com batom vermelho, cabelos presos com esmero, cortando com maestria um pedaço de acém. Usava a faca enorme com habilidade, enquanto ia contando um caso e descarregando sua raiva. Estava revoltada porque uma mulher foi comprar carne e ela explicou que o acém cortado estava em promoção por R$12,00, mas se fosse moído era o preço normal, R$17,00. A mulher queria moído por R$12,00. Ela explicou direitinho, mas a mulher ficou possessa e a chamou de "VACA". Daí ela "rodou a baiana" e foram as duas  pra gerência.  A mulher disse ao gerente que a funcionária estava mentindo, mas o gerente conhecia o trabalho dela e a defendeu. Enfim, foi um bafafá no supermercado. Ela contava o caso pra mim, rodava a faca, dizia que saia cedo de casa, deixava os filhos, ficava o dia todo trabalhando na câmara fria, não ia aguentar desaforo. Chamou até uma testemunha, uma freguesa que sempre comprava lá, pra me confirmar como ela atendia bem. Dei todo apoio pra ela, quase a abracei e levei dois quilos de acém picado .
                 Gostaria muito de ter, na hora, umas flores para oferecer  para ela.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Hoje só amanhã



         O José Simão é cronista da Folha de S. Paulo. Escreve  de forma irreverente,  espirituosa e bem humorada, com textos cheios de pontos de exclamação e de trocadilhos. Começa sempre se intitulando como Macaco Simão, o esculhambador-geral da república e termina com: "Nóis sofre, mas nóis goza! Hoje só amanhã!"
          Nenhum político escapa de seu sarcasmo. O Temer então, coitado, está em todas. Escreveu que depois do Temer receber 10 milhões da Odebrech, o "Fora Temer" virou "Por fora Temer" e a popularidade dele cresceu nas delações, onde foi citado 44 vezes e por isso vai pro Guinness da Delação. Assim, é citado até em lista de supermercado: arroz, feijão, granola , creme de leite e Temer! E continua: "Mudanças no Mundo dos Vampiros! Michel Temer passará a se chamar Michel Treme nas bases! Que também estão tremendo! Rarará!" E o Temer ficou tão indignado com a delação que reagiu em latim: "Pimentorium in anus outrem, refrescus est. Repudio-lo-ei". Concluiu que o Franstemer está indo pro Odebrejo...
           O Lula também é um dos seus preferidos. Comentou que o Lulalelé parece massa de pão: quanto mais bate, mais cresce! E que o Lula é como o Corinthians: o povo gosta mesmo apanhando! Ironiza o relacionamento dele com o Moro: "Lula e Moro em 50 Tons de Curitiba! Com cenas inéditas de sadomasoquismo!  Amor e ódio encruado!"
          Até a Carmem Lúcia, do STF, é chamada de Bento Carneiro Vampiro Brasileiro. E nem a Marina escapa, chamada de Tartaruga Sem Casco: "se árvore votasse, ela levava no primeiro turno! E com aquela vozinha de teatro infantil! A voz da Marina é mais irritante que despertador de segunda feira! E ela tem cara de "acima do bem e do mal"!
          E a lista da Odebrecht, com os apelidos da turma do congresso que recebia propina?  Parece time de várzea: Santo, Caju, Todo Feio, Caranguejo, Gripado, Primo, Decrépito, Boca Mole, Angorá. Segundo José Simão, o Primo é o ministro Padilha, o mais popular porque distribuía a grana: "E ai, primo". "Chegou a grana, primo?" E o Boca Mole é o Heráclito, com boca de véia bater bolacha! Já a Lídice da Mata é a Feia; propineira tudo bem, mas Feia é a mãe! E ainda tem outros, como Aécio, que é o Mineirinho, embolsa quieto.
         O Renan também caiu na desgraça. José Simão escreveu que o Supremo decidiu que Renan passaria  de Réunan para Reinan. E ele, o Reinan, disse:  "Se é para a felicidade do Temer e para votar a PEC do Teto, digo ao povo que fico! Pra sempre! Daqui não saio, daqui ninguém me tira!" No caso Renan, a casa não caiu por causa do Teto...
        Outro assunto que ele tem abordado com humor é a reforma da Previdência, que prevê aposentadoria após a terceira reencarnação. Se o Niemeyer estivesse vivo, teria que trabalhar mais dez anos. No Brasil, agora nem Matusalém se aposenta. Sugere então aderir ao PMV, Programa de Morte Voluntária: morre e continua pagando o carnê! E o Frankstemer deu um recado ao povo brasileiro: 'Posterga-lhes-ei a aposentadoria" (como é bom ter um presidente que fale bem o português).
          Quanto ao casal Cabral, esculhambou com ele. O casal inaugurou a revista "Celas", só para presas ricas, com a manchete: "Adriana Anselmo mostra sua coleção de joias Bangu Stern!" Ela abriu sua cela para a revista , mostrando o colchonete com penas de urubu! E no verão vai ter ilha de "Celas", com os convidados sendo levados por um camburão anfíbio!
       De qualquer forma, concordo com ele que a situação está psicoesculhambativa-escalafobética! Hoje só amanhã mesmo!