A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Açaí, sorvete e Dayana

Delícia de açaí

Um gostoso sorvete de chocolate

Dayana abraçando a filha no parquinho do orfanato Fundana (fonte: Folha de São Paulo, 15/02/18)
       Gosto de escrever textos divertidos para alegrar o leitor. Por exemplo, comentando um vídeo que recebi.  Nele, uma mulher de uns 30 anos, bem morena, rosto redondinho, lábios carnudos e bem maquiada, falando indignada, séria e com voz cristalina, mais ou menos assim: "ôu, esse trem de homem malhado não presta. Ele só te chama pra tomar açaí. O problema é que ele paga o dele e eu pago o meu. E tem mais,  é só açaí com banana, senão engorda.  Ele fica vigiando pra ver se a gente vai colocar  leite condensado e leite em pó, e nem é ele que vai pagar. Hoje o que eu gosto é de homem barrigudo e gordinho, são os melhores que se tem. Ele te chama pra tomar uma e toma todas. E você pode pedir porção de batata com queijo, mandioquinha, peixe, torresmo. Quando você fala que vai embora, ele chama pra tomar a saideira.  Depois paga tudo e ainda te leva em casa. Hoje tá na moda é homem gordinho. Quando vejo homem sarado eu corro".
            Eu ri muito desse vídeo, principalmente porque adoro açaí com leite condensado e leite em pó. Lembrei-me de um texto da Danuza Leão, em que ela fica indignada quando vai a restaurantes e o garçom traz uma bola bem pequenina do seu sorvete preferido. Quanto mais caro o restaurante, menor a bola. Ela escreve sobre vários prazeres que a gente deixa de ter, com tantos deveres, tantas preocupações em acertar, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação. E  aí a vida vai ficando sem tempero e sem graça. Termina pedindo ao garçom, entre outras, cinco bolas de sorvete de chocolate. Enfim, concordo  com as duas de que é bom demais comer o que a gente gosta.
         Mas daí fico pensando em tantas pessoas que passam fome, e não tem como deixar de escrever sobre as tristezas da vida. Como o caso de Dayana e seus quatro filhos. Li sobre ela numa matéria da Folha de São Paulo, de 15/02/2018. O repórter Anthony Faiola, do Washington Post, contou de sua visita ao maior orfanato da Venezuela, em Caracas. O pátio era uma pista de obstáculos de crianças abandonadas. A assistente social que o acompanhava ia explicando sobre as crianças. Passou por ele um menininho robusto em um triciclo, apelidado de "El Gordo", mas quando foi deixado no orfanato meses atrás era pele e osso. E a menininha de vestido florido quase não falava mais. A mãe a tinha abandonado em setembro em uma estação de metrô, com uma bolsa de roupas e um bilhete suplicando que alguém a alimentasse. Centenas de pais têm feito isso na Venezuela, onde a fome e a miséria crescem sem parar. Não têm como alimentar seus filhos e os estão entregando. Não porque não os amem, mas porque os amam (quer coisa mais triste?). E os bebês, que antes eram facilmente adotados, não o são mais, pois os pais adotivos não conseguem arcar com as despesas. No país, cerca de  71% das crianças com menos de cinco anos não têm alimentação  adequada. A fome obriga as famílias a fazer escolhas dolorosas, como no caso de Dayana, 28 anos . Em novembro passado ela perdeu seu emprego de faxineira e entregou seus dois filhos menores para o orfanato. Como a entidade não aceita crianças maiores, ele ainda está tentando alimentar o de 8 e de 11 anos em casa. O orfanato oferece a ela leite, macarrão e sardinha, mas não é suficiente. Contou ao repórter que depois do jantar , os meninos pedem: "Mãe, quero mais". Mas ela não tem mais nada pra dar a eles.
            Acho que eles iriam adorar ter como sobremesa açaí com  leite condensado  ou  sorvete de chocolate. 

sábado, 3 de março de 2018

Para as mulheres, com carinho







            Em  oito de março comemora-se o Dia Internacional das Mulheres. Escrevo então um texto para elas, de presente, com algumas passagens que achei muito lindas.
       Sempre que perguntavam a Einstein se ele acreditava em Deus, respondia que acreditava no Deus de Spinoza. Quem não conhecia Spinoza ficava sem entender. Ele, Spinoza, foi um filósofo holandês do século XVII e que escreveu um texto como se Deus estivesse falando com os homens,  com trechos assim: "O que eu quero é que saias pelo mundo e desfrutes da sua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que fiz para ti. Minha casa está nas montanhas, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e expresso meu amor por ti. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho...Não me encontrarás em nenhum livro!Para de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem  te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor. Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz...Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se sou Eu quem te fez?Que tipo de Deus pode fazer isso? Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho de mar. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás...Procura-me dentro...Aí é que estou, batendo em ti".
          Outro texto que gostei foi do Rubem Alves. No seu livro "Ostra feliz não faz pérola", ele conta que de vez em quando lhe perguntam se acredita em Deus. Ele responde que  acredita mais que a maioria das pessoas e que tem até 33 nomes para Ele. É só falar o nome, sentir na imaginação o que o nome diz e a alma se enche de tanta alegria que isso só pode ser um pedaço de Deus. Mas é preciso falar devagarzinho e ir pensando...Por exemplo: o mar de manhã. O perfume do capim. O olhar e tudo o que ele olha. O sono na cama. A cadela e os cãezinhos. Um relâmpago silencioso. O silêncio entre dois amigos. Morder uma jabuticaba. O canto do sabiá. A terra boa. Ele cita vários outros pedaços de Deus que conhece . Acrescenta que a marca do Divino é o milagre cotidiano que é este mundo: a vida, o olho, a asa de uma libélula, a chuva, a sopa de fubá, o pão quentinho, o perfume do jasmim, a teia de aranha, um poema, o amor entre duas pessoas. Conclui , assim como Spinoza, que não precisamos de mais milagres, Deus já espalhou muitos pelo mundo.
       Assim, neste dia dedicado às mulheres, desejo que o Deus de puro amor proteja e abençõe a todas. E que cada uma consiga, todo dia e à sua maneira, encontrar os pedaços de Deus  ao longo desta vida que, por si só, já é um milagre.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Olhos assustados

A turma de adultos que foi para a Bahia (só o de óculos e o de camisa branca não cairam do banco...)

No caminho na volta da praia

Os netos ouvindo histórias
        Assisti um ótimo filme chamado "Grandes Olhos", um drama real sobre a pintora Margaret Keane, que fazia pinturas incríveis e únicas de meninas  com olhos muito grandes e tristes. O filme mostra o despertar da artista e a sua luta contra o marido, na maior fraude da história da arte, pois ele se dizia autor das obras da esposa e o mundo todo acreditou.
       Nem sei porque, associei o filme com olhos assustados e espantados que presenciei em cenas que aconteceram na nossa viagem de final de ano. Fomos, num grupo de oito pessoas, visitar a filha que mora na praia de Algodões, BA. Lugar lindo, mas difícil de chegar, com estrada de terra esburacada. Como o trajeto final foi o mais difícil e na escuridão da noite,  com o motorista um pouco perdido e com medo de assalto, o grupo já chegou de olhos assustados. Na hora de dormir, o Zé, meu marido, precisava de uma tomada para ligar o aparelho que usa para respirar melhor. Encontrada a tomada, a cama não dava certo com o cortinado usado para evitar a multidão de pernilongos. Emendou-se duas camas e ele se esparramou. No dia seguinte, estava com os olhos espantados: as camas se separaram, ele caiu no chão e ficou enrolado no cortinado e nos fios do aparelho. Primeiro tombo. Na noite seguinte, fomos comer pizza feita no forno de lenha, na pizzaria simples ao lado da casa da filha: mesas e bancos rústicos debaixo de árvores, chão de areia, velas, redes, um carinhoso cão labrador. Num mesmo banco grande, cinco pessoas sentadas.  Sem nenhum aviso prévio, o banco velho e carcomido pelo tempo foi vergando devagarzinho, quebrou e todos caímos  com olhos espantados. Rimos muito, menos o netinho que estava no meu colo e caiu em prantos. Segundo tombo do Zé. Noutro dia, quando  íamos pelo caminhozinho que chega até a praia, chegamos a uma ribanceira de areia alta. Falei para o Zé que ele não conseguiria descer por ali, que iria cair e eu não conseguiria segurá-lo. Teimoso, disse que era fácil. Escorregou de ponta cabeça, dobrando o joelho operado há pouco tempo. Olhos assustados novamente. Terceiro tombo. Na sequência dos acontecimentos, a bomba que retira água do poço para mandar para a casa, estragou. Assim, passamos a tomar banho de canequinha, esquentando água no fogão, mas o Zé se recusou.  Preferiu usar o chuveiro do quintal do vizinho. Mas, certa noite, depois de limpinho, com uma lanterna que não iluminava muito bem, trombou num formigueiro numa árvore. Formiga entrou pelos "zóio, zoréia e zovido". Não foi tombo, mas foi pior. Olhos assustados outra vez. Penso que ele não volta na Bahia tão cedo...
        Outras cenas que causaram espanto aconteceram na ceia de Natal. Moro no terceiro andar e resolvi fazer a ceia de Natal no décimo terceiro andar, no salão de festas. Fiquei presa no elevador duas vezes, uma delas com o Papai Noel. Um amigo vestiu a roupa calorenta do bom velhinho no meu apartamento. Colocou a barba, a peruca, o bigode, a touca, um travesseiro na barriga, encheu o saco com os presentes e tomamos o elevador. Ele emperrou entre o sexto e o sétimo andar. O Papai Noel suava em bicas. Falei pra ele tirar a roupa, mas não quis. Com os olhos assustados, ficamos presos uns bons minutos. Depois, foi a vez de uma moça que me auxiliava. Ela subia e descia o elevador sem parar (eu também). Levamos o filé ao molho madeira, ele acabou e ela não chegava com o chester com farofa e abacaxi, uma delícia. Claro, estava presa no elevador. Depois de meia hora, chegou com olhos assustados carregando a bandeja. Sem contar que levou uma mordida (não machucou) da minha cachorrinha york que estava com filhotinhos. Penso que ela não volta mais a me ajudar e que terei que trocar de Papai Noel...
        Penso também que muitos não acreditarão em tantas confusões. No caso da pintora, o mundo todo acreditou no marido mentiroso e ela precisou ir a um tribunal para provar que os quadros eram seus. No meu caso, tudo o que contei é a mais pura expressão da verdade.  

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A certidão de nascimento

Meus pais, Dr. Luiz e Maria Minelvira

A cartinha escrita em 1957

O túmulo em Campos Altos

                Li em algum local que quando a gente pensa que já sabe todas as respostas, a vida muda todas as perguntas. Acrescento que quando a gente pensa que  já passou por todas as surpresas que a vida poderia nos reservar, pode surgir outra. Passei por isso dia destes.
        Tudo começou porque o Consulado Geral de Portugal modificou, em julho, o Regimento de Nacionalidade, tornando mais fácil a obtenção da nacionalidade portuguesa  para netos e bisnetos de portugueses. Como obter o passaporte europeu é um sonho para o meu irmão Lúcio e um dos meus filhos, eles começaram a desenterrar todos os documentos necessários. A certidão de nascimento do meu avô Antônio, que nasceu na região de Trás dos Montes, em Portugal, eles já haviam encontrado depois de um verdadeiro trabalho de detetive que durou dois anos. Faltava a certidão de nascimento do meu pai, que nasceu em Canta Galo, no Rio,  e a minha, que nasci em Campos Altos, Minas. Encarregaram um sobrinho( apelidado carinhosamente de Canini e traduzido pelo Lúcio pra Cão Nini) de procurar a certidão na minha cidade natal. Passado uns dias, recebi um telefonema do Lúcio. Alarmado, contou que eu era filha só da Minelvira, mãe solteira, não era filha do Dr. Luiz, primeiro médico de Campos Altos! Levei um susto na hora, mas eu tinha certeza que tinha pai sim e que sempre usei minha identidade e certidão de casamento com o nome dele. O Lúcio contestou, afirmando que no livrão do cartório tinha só o nome Ana Maria, sem sobrenome. Enviou a foto da certidão de inteiro teor, manuscrita,  sem o sobrenome Souza Coelho mesmo.  Afirmou que todos os meus descendentes tinham se lascado, porque eu não era neta de português coisa nenhuma. E como sempre fui muito avoada e distraída, não devia ter percebido isso. E quando me casei, certamente passei as informações apenas verbalmente. Mandou mensagens imensas, contando que o Cão Nini estava se esforçando muito, mas não encontrou nada; que o pai dele, o Afrânio, também teve problemas com o sobrenome, pois era Lemos Coelho e queria que fosse Souza Coelho, para ser como os príncipes de Portugal. Assim, quando adulto, mudou o sobrenome.  Só que na busca, descobriram que meu avô se chamava apenas Antônio de Souza e que o Coelho era do padrinho dele, um costume em Portugal. Ou seja, nunca existiu príncipe nenhum. Contou que também ele, Lúcio, queria trocar o sobrenome Teixeira Coelho, colocado em homenagem à nossa mãe, mas ela chorava tanto que ele desistiu. Acrescentou que eu e meu outro irmão escrevemos um livro a quatro mãos contando que ele tinha sido encontrado no cocho do quintal onde os cavalos comiam sal. E que agora as pedras voltaram, pois Deus castiga e eu não tinha nem sobrenome (nessa parte, ele colocou "risos, risos" e eu também ri, ri muito).
            Depois de todo este terrorismo, fui procurar uma certidão de nascimento antiga que eu sabia que possuia. Encontrei-a junto com vários documentos amarelados pelo tempo. Estava correta, com sobrenome e número de registro, folha e livro do cartório. Encontrei até uma cartinha que escrevi pra minha mãe em 11 de maio de 1957, convidando-a para a festa do dia das mães (como disse o Lúcio, retirei do túmulo dos faraós...). Descobri também um documento original  assinado pelo governador Benedito Valadares nomeando meu pai para primeiro prefeito de Campos Altos, uma relíquia.
          Continuando a saga, resolvi ir a Campos Altos ver o que tinha acontecido no cartório e visitar o túmulo do meu pai. A averbação na minha certidão, acrescentando meu sobrenome, estava lá, feita 12 anos depois do meu nascimento, pelo meu próprio pai. Rezei para ele no cemitério e o agradeci. Fui à prefeitura doar o documento do Benedito Valadares e lá estava a foto dele, na galeria dos ex-prefeitos, de longe o mais bonito de todos.
              Agora, é providenciar o passaporte português e, quem sabe, passar uns tempos em Portugal para voltar às raízes. E talvez encontrar algum Souza Coelho por lá, que com certeza não será nenhum príncipe.




segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Garrafas quebradas

Os containers de lixo na Praça da Bicota


                Comecei meu domingo com uma cena triste, que se repete diariamente. Em frente à  janela do meu apartamento, na praça Rui Barbosa (praça da Bicota) ficam três containers grandes, verdes, para depósito de lixo doméstico. Mas a grande maioria do lixo ai colocado é formado por garrafas, de todas as cores e tipos de bebida, centenas delas, todas recicláveis. Os bares da praça despejam as garrafas sem nenhuma preocupação com o destino final delas. E a multidão de jovens  que fica na praça à noite, bebendo cerveja no gargalo, deixa  garrafas pra todo canto. Alguns até jogam as garrafas no chão para quebrar e a praça amanhece cheia de cacos de vidro (parecendo o Sérgio Cabral, que quando recebia os amigos para festas espetaculares regadas a vinhos caríssimos, sempre promovia o ritual de chamar os convidados para, todos juntos, estilhaçarem os cascos vazios). De manhã, chegam os varredores de rua e catam pacientemente o lixo espalhado nos canteiros, no chão, nos bancos, na porta das lojas. Depois, à noite, chega o caminhão de lixo da Limpebrás e os funcionários despejam os lixões cheios na caçamba. Muitas garrafas se quebram e o barulho de vidro quebrando, bem alto e perturbador, dura alguns instantes, perturbando os moradores no entorno da praça (no domingo o caminhão passa de manhã). E lá se vai  o caminhão lotado de vidro a ser despejado e compactado no aterro sanitário da cidade, para lá ficar indefinidamente. Uma cena que se repete na cidade toda, acrescida pelos catadores  que acabam remexendo no lixo, todo misturado, para retirar as centenas de garrafas e aumentar sua escassa renda mensal.
         Isso pra mim é um descaso, uma selvageria com o meio ambiente, uma despreocupação com a saúde pública, um desperdício de matéria prima, uma cena de país subdesenvolvido. O vidro é um material valioso, que deveria ser reciclado e assim, auxiliar inúmeras famílias e associações de recicladores de vidro, diminuir o volume de resíduos a ser depositado no aterro e retornar ao ciclo produtivo. Pode ser reciclado inúmeras vezes, conservando suas características. Além disso, os caminhões de lixo são pesados quando chegam ao aterro e o DMAE, empresa responsável pela coleta do lixo urbano em Uberlândia, paga à empresa terceirizada por quilo de lixo coletado. Ou seja, o povo paga pelo desperdício.  
           Bem, depois de ver a triste cena, fui para a missa dominical. O evangelho era Mateus18,15-20, onde há o trecho: “em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. O padre fez um sermão bonito, ressaltando, entre outros, a responsabilidade de cada um por seus atos e a necessidade de envolver a comunidade em diferentes ações, começando  pela conversa com o nosso irmão. Disse que não devemos condenar o outro, que ninguém é dono da verdade, que o amor e a compaixão devem ser os nossos alicerces e que é preciso dar oportunidade aos outros para acertarem. 
           Assim, revigorada pelo evangelho, continuei minha campanha para aumentar a coleta de lixo reciclável nas proximidades onde moro. Já visitei todos os moradores do meu prédio e os donos dos bares por perto. Juntamente com estagiários do DMAE, visitamos três prédios, sendo que dois já separam o lixo.Consegui um contêiner vermelho grande, pra colocar na praça. Fiz adesivos instrutivos, colei e agora fico observando da minha janela se está dando certo. Será necessária uma longa jornada de conscientização das pessoas e de trabalho em conjunto. Como está na lei que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, deve haver responsabilidade compartilhada dos geradores de resíduos e cada um precisa contribuir para que os mesmos tenham um destino final adequado. Mas, como disse o padre em sua homilia, temos que começar conversando com o irmão.
        E agora meu filho, que está em Marrocos, contou-me que lá não tem como beber vinho, pois é proibido bebida alcoólica.Os bares e pubs são lotados, mas de pessoas bebendo chá. Só o barulhinho do tilintar das xícaras, sem garrafas quebradas. Deu vontade de ir pra lá...   





sábado, 28 de outubro de 2017

A gota

Zé depois da artroscopia, repousando
        De acordo com o dicionário Aurélio, "gota é a porção mínima de líquido suficientemente pesada para cair em forma de esfera ou pera". Temos assim a gota de chuva, de orvalho, de suor, a lágrima.
        Mas não vou escrever sobre nenhuma delas e sim sobre a doença gota, um tipo de artrite que ocorre quando o ácido úrico se acumula no sangue e causa inflamação das articulações. E que dói, dói muito. Curiosamente, também é chamada Doença dos Reis, pois antigamente acometia as pessoas mais abastadas da sociedade que possuíam fartura na mesa (ou seja, os comilões). Uma das causas da gota é o alto consumo de carne bovina, que favorece a produção de ácido úrico no organismo.
          E como o Zé, meu marido, já deve ter comido uma centena de bois ao longo da sua vida, ele é uma pessoa gotosa (não confundir com gostosa). Sofre de gota crônica, que acomete o pé esquerdo, o pé direito, o joelho esquerdo, o joelho direito, vai variando. Ocorre inflamação, dor, inchaço, aumento de temperatura no local. E a articulação pode travar e ele não andar. Um calvário. 
        Acontece que o último e recente ataque de gota na verdade foi um massacre. Ele ficou tão mal do joelho esquerdo que os dois filhos médicos, que lhe dão total assistência, começaram a pensar em outras possibilidades. Pediram uma batelada de exames. E a perna só inchando e doendo. O Zé andando mancando. Depois pulando apoiado em mim. Depois comprei um par de muletas. Depois consegui uma cadeira de rodas emprestada, mas que na verdade era uma cadeira de usar no banheiro, difícil demais de empurrar. E ele imóvel, com a perna inchada e doendo, só pedindo pra mim: traz água com gelo; preciso do óculos;  cadê meu celular; põe minha perna pra cima; preciso ir no banheiro; tenho que escovar os dentes; põe meu celular pra carregar; está na hora de tomar os remédios; preciso de um travesseiro; fecha a cortina pra mim; pega o controle da TV, etc.  Daí, no sétimo dia, eu disse pra ele: "Zé, acho que vou te bater..." Quase fiz como a D. Esperança, uma antiga vizinha que eu tive. Ela era uma velhinha  forte, de pele clara enrugada e bem brava. Cuidava do marido, um velho miudinho que de vez em quando surtava, pulava a janela e fugia. Ela o agarrava e dava-lhe umas boas palmadas. A meninada da vizinhança, que vivia solta pelas ruas, vinha correndo me contar e eu ia defender o velhinho. Quase apanhava também.
           Bem, mas voltando para a gota, o Zé acabou sendo operado pelo filho ortopedista, fez uma artroscopia  no joelho. Estava com o menisco lesionado, com cisto de Baker, acúmulo de líquido gotoso e umas coisinhas mais. Teve que aprender a usar as muletas, pois estava andando errado. Eu também aprendi, caso algum dia precise (foi o filho que ensinou). É assim: coloca-se as duas muletas para a frente, sem abrir muito o espaço entre elas. Depois puxa-se a perna lesionada  para frente até emparelhar com as muletas. Apoia-se o pé no chão. Depois dá o passo com a perna sã. Começa tudo novamente e vai indo...
           Dois dias depois da operação, o Zé deu os primeiros passinhos sem as muletas, até filmei. Os olhos dele ficaram marejados de lágrimas. Talvez estivesse pensando que nunca mais andaria. Lembrei-me daquele vídeo sobre um bebê, com cerca de quatro meses , que não escutava. Colocaram um aparelho auditivo nos seus ouvidos e foi emocionante a expressão do bebê quando ele ouviu a mãe conversando com ele. Ficou quietinho, prestando atenção, com uma carinha maravilhada e incrédula, piscando os olhos. Depois deu um sorrisinho torto.
           Enfim, a vida é bonita, mesmo com suas dores. E cheia de emoções, como o primeiro som que um bebê ouve ou os primeiros passos de um bebê e de um velhinho gotoso entrevado que recuperou a liberdade.

sábado, 12 de agosto de 2017

Não é a cegonha

Enzo e o seu pai

Lia

Maira

              Este texto é um pouco pornográfico, mas é baseado em fatos verídicos. Envolve os questionamentos de crianças que querem saber de onde vieram, de como foram feitas e os apuros das mães para explicar. Mais precisamente, trata da curiosidade do meu neto Enzo, americano, de nove anos e da solução encontrada pela minha filha para explicar tudo.
              Preocupada com tantas perguntas, ela resolveu se aconselhar com uma amiga que tem filhos da mesma idade e mora em uma fazenda de criação de porcos e ovelhas. Os seus dois filhos estavam acostumados a ver os animais cruzando e os filhotes nascendo. A amiga comprou o livro "It's not the stork" (não é a cegonha) e leu para eles. Os meninos entenderam tudinho, sem dramas e sem muitas perguntas.
               Animada, a filha comprou o livro, um bestseller sobre as diferenças entre meninos e meninas, transformações no corpo, bebês, famílias e sexo, indicado para crianças de quatro a seis anos e escrito por especialistas (isso de acordo com as informações sobre o livro). Assim, quando o Enzo começou novamente com aquelas perguntas difíceis, ela leu o livro para ele. Aliás, tentou. Foi lendo e mostrando as ilustrações (ela nem tinha aberto o livro antes para ver como era).  Chegou a netinha Lia, de seis anos, e ela continuou a ler, não tinha como parar. O Enzo ouvia todo concentrado. Nas explicações sobre diferenças entre meninos e meninas, tinha esquemas de pênis e vagina. Depois, o desenho do papai e da mamãe deitados na cama, abraçados, cobertos com um lençol. De repente, o Enzo teve um insight, ficou vermelho, começou a pular e a gritar várias vezes: -"The penis goes inside the vagina!" Minha filha pensou que ele ia ter um enfarte e queria encontrar um buraco onde se enfiar. A Lia foi mais direta ainda:-" Oh! Did the daddy put his penis in your vagina?!?" Ela, a filha, sem saber o que falar ou fazer, mandou que calassem a boca pra continuar a ler o livro, mas não foi possível. Assim, a inocência deles foi perdida para sempre.
           O pior é que ela teve que contar para o marido o acontecido. Ele até recebeu a narração dos fatos com serenidade. Apenas argumentou que o Enzo não precisava saber disso agora, pois ele ainda acredita no coelhinho da Páscoa. É verdade. Eu estava lá na última páscoa. A filha sempre coloca duas cestinhas de ovos escondidas e uma trilha de ovinhos para levar até a cestinha. Faz isso depois que ele e a Lia dormem. E o Enzo não queria dormir, pra pegar o coelhinho no flagra...
             Depois disso, a conversa dos dois girava em torno de pênis e vagina. A filha implorou para que não contassem nada na escola. A Lia seria até expulsa, falando desses assuntos com a sua turminha de cinco e seis anos. Quando estive lá recentemente, com um neto de 10 anos e outra netinha de seis, o tema ainda estava no auge. Um dia a Lia brigou com a priminha, fechou-a do lado de fora da casa e gritou (ela fala português também): "Ih, se você quiser um bebê o pênis vai na sua vagina!' A priminha, que vive em outro mundo e não sabia nada do livro, gritou de volta: "-Na minha não, na sua!"

          No meio de toda a confusão, os adultos ficam olhando angelicamente para cima, fingindo  não escutar e não ter nada a ver com isso. E provavelmente preferindo explicar para as crianças que a responsabilidade de trazer os bebês ao mundo é mesmo das cegonhas.