É preciso
escrever sobre pessoas que são gente de verdade. Pessoas que semeiam paz e luz onde
estão, que enfrentam desafios com garra silenciosa, que vivem uma vida humilde -mas
cheia de grandeza- e que representam um Brasil que muitos desconhecem. Registrar
suas histórias, suas forças nunca celebradas, mas que, ainda assim, importam.
Por isso escrevo sobre Tim.
Lucilene
Atanásio dos Santos, carinhosamente chamada de Tim, nasceu em Gongogi, interior
da Bahia. É a décima primeira entre 14 filhos de Elizabeth. A mãe tinha nome de
rainha, mas jamais teve qualquer honraria. Os filhos nasceram todos de parto
normal, no mato ou na casinha de chão batido, às vezes com parteira, às vezes sem
ninguém. Três morreram ainda na infância; dois, já adultos.
Hoje, aos 44
anos, Tim é pequenina- mede 1,30 m. Robusta,
de braços e pernas fortes, pele muito negra, olhos bondosos e bonitos,
sobrancelhas espessas. O cabelo, sempre esticado, preso e enfeitado. Um sorriso
largo, mostrando os dentes muito brancos. Mora na comunidade quilombola de
Ambuba, no meio da mata, na península de Maraú, numa casa simples com paredes
de barro. Os pais já faleceram. Sem água
encanada, sem energia e com fogão à lenha.
Conheço Tim há
muitos anos. É irmã de Djalma, pai dos meus três netos baianos. Recentemente, passou uma semana em minha
fazenda e perguntei se poderia escrever sua história. Gostou da ideia. Sentada à mesinha, debaixo de um pé de baru, foi
contando sua vida. Disse que a bisavó materna fora encontrada e capturada no
mato. Já o avô paterno possuía terras em Ambuba; um dia partiu e deixou tudo para
Antônio, seu pai. Esse distribuiu um pedaço de terra para cada filho, menos para
ela (no quilombola, ninguém tem escritura, chegaram e ficaram). Quando a mãe era viva, todos comiam junto. Mãe
e filha cozinhavam para 8, 10 pessoas, buscando água no rio (Tim chama de fonte).
Hoje, três irmãos trabalham por lá extraindo borracha no
seringal e almoçam com ela.
Acorda entre quatro e cinco horas. Varre a
casa e o quintal, depois acende fogo para cozinhar feijão com carne seca, arroz
e mandioca, sempre acompanhados de farinha. Alimentam-se também dos frutos da região: cacau,
coco, dendê, manga, banana. Alguns da família têm os dentes da frente gastos de
tanto rasparem o coco do dendê. Vai a
Maraú apenas uma vez por mês fazer compras, numa canoa com motor, acompanhada
por um irmão. Na volta, carregam tudo morro acima. Com uma risadinha curta e
gostosa, conta que, se o alimento acaba antes do fim do mês, há o mangue para
ajudar. Pescam algum peixe, caranguejo, guaiamum, siri, camarão- pitu. Não
cultivam verduras, pois falta água. Passou a vida carregando lata d’água na
cabeça: meia hora para descer ao rio, meia hora para subir. Conta, alegre, que
a vida dela melhorou muito, pois um irmão instalou placa solar; agora ela tem
água corrente para beber e cozinhar, mas continua indo ao rio para tomar banho,
lavar as louças e a roupa. A energia solar chega das 18h às 20h. Nesse intervalo, assiste às novelas “Êta mundo
melhor” e “Coração acelerado”, da Globo. Perguntei se entendia o enredo todo,
disse que não, que gosta mesmo é das roupas dos personagens e de um casal que
canta junto, aprecia as músicas. Completou que agora tem celular para enviar e
receber áudios e que não usa mais candeeiro, agora pode comprar velas.
Conseguiu, depois de muitos anos tentando, um auxílio do governo. Disse que,
quando a mãe era viva, usavam candeeiro. E quando o óleo para acender acabava,
faziam uma fogueira no meio da casa para iluminar. Está contente porque agora
acende velas.
Continuando a
conversa, perguntei sobre os estudos. Contou que frequentou a escolinha de
Ambuba por cerca de oito anos. Caminhava quarenta minutos por uma trilha no
mato até chegar. A professora, Ildete, ensinava alunos de várias idades na
mesma sala. Quando aprendeu um pouco, aos 12-13 anos, passou a estudar em
Maraú. Ia de barco, juntamente com outros alunos. Saia de casa às quatro e meia
da madrugada e chegava à escola às sete e vinte. Viveu assim por muitos anos, parou
de estudar aos 30 anos. Sempre começava e desistia. Concluiu a quinta e a sexta séries, não
terminou a sétima. Perguntei se sabia ler, disse que lê e escreve um pouco. Perguntei
também se sabia as quatro operações matemáticas, respondeu com um risinho
maroto, que dependia da conta...Disse que os professores eram bons, explicavam
bem; o problema era ela- “dava um branco na cabeça e eu esquecia tudo”. Na sequência, perguntei porque ela era assim
tão pequenina. Respondeu que um médico lhe
dissera que ela era “infantil”. Parece que ficou satisfeita com a resposta e
nunca se preocupou com isso, nem a família, vida que segue. Talvez tenha a síndrome
de Turner, condição genética que afeta apenas mulheres; ocorre quando há uma
ausência total ou parcial do cromossomo X e pode causar baixa estatura e ausência
de menstruação. Mas Tim não sabe disso e nem imagina o que seja um
cromossomo...Perguntei se já teve namorado, se é feliz, se tem algum
sonho. Rindo, respondeu que nunca teve
namorado; nunca pensou nisso. “Sou só eu mesma”. É feliz sim. E já realizou o sonho de viajar, sair um
pouco de Ambuba. No ano passado foi sozinha para Joinville - quase três dias de
ônibus-onde ficou três meses na casa de um irmão. E agora veio para a fazenda,
já conhece Uberlândia, Ilhéus, Itabuna, Serra Grande, está bom. Rimos quando
lhe disse que nunca vi alguém gostar tanto de varrer casa e quintal como
ela. E de lavar roupas, é
impressionante.
Sem pressa de
nada, Tim às vezes fica parada, quieta, parecendo meditar, sentada em algum
canto ou olhando para o céu. Nunca reclama de nada, não discute com ninguém,
está sempre de bom humor, limpinha e arrumada, pronta para trabalhar e
ajudar. Em sua simplicidade- e no desconhecimento
de tanta coisa que existe neste vasto mundo- Tim tem uma rara serenidade. É uma
paz estar perto dela. Acende velas para iluminar sua casinha, mas ela mesma é
luz. Não nasceu para brilhar nos palcos: pequena como uma chama, nasceu para
clarear caminhos.



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