A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

A Noruega Parte II






           

            Na Noruega, há muita preocupação com as crianças. Existe suporte para elas na área da educação, da saúde, do lazer. Fiquei impressionada com o caso que minha norinha contou-me. Ela conhece uma brasileira, casada com um norueguês. O casal tem um filho de 10 anos. Um dia, o menino caiu de bicicleta e se arrebentou todo: machucou os joelhos, os cotovelos, arranhão pra todo lado. Foi aberta uma sindicância para saber se houve negligência por parte dos pais. Inspecionaram a bicicleta e viram que o freio estava gasto. Daí, uma assistente social foi enviada para ficar na casa do menino durante vários dias, para ver como ele era tratado! Por tudo isso, minha norinha tem muito medo do Benício, meu neto de 10 anos, também se arrebentar na bicicleta. Ele anda na cidade pra todo lado, com um relógio que é também um telefone que pode chamar o pai, a mãe e o irmão. Funciona como um GPS, rastreia e mostra a localização. Também possui um botão de pânico.

       As crianças têm muita liberdade, andam de ônibus sozinhas e passeiam pela cidade. Quando nascem, os pais recebem 80.000 kroners para as primeiras necessidades (o NOK ou Kr é a moeda de lá; um real vale dois kroners). A criança ganha de 1200 a 1.600 NOK, até os 18 anos. A licença maternidade é de 12 meses, compartilhada com o pai. Escolhem quanto meses cada um ficará de licença; o pai também precisa cuidar do pequenino, para estreitar os laços. O nome da criança é automaticamente inserido para  vaga na escola pública até os seis anos, na Barnehage, o jardim de infância de lá. Se a mãe não quiser a escola, recebe uma mesada para ficar com a criança. E o aluno perde a vaga com poucas faltas não justificadas. Por lá existe muita seriedade no processo educacional.

        Também os idosos são tratados com carinho e respeito. Os que desejam viver sozinhos usam um relógio que é um GPS e , se necessário, ligam diretamente para uma central de auxílio. São visitados duas vezes por semana por uma assistente social.

        Quanto à saúde, todo o sistema é público e os hospitais são excelentes. Os impostos são muito caros, mas totalmente revertidos para a sociedade. Cada Komuna (bairro) possui o médico da família. As farmácias não vendem remédio sem receita médica, apenas Paracetamol, para evitar que as pessoas fiquem expostas a muitos remédios. Ouvi sobre o caso de um casal de brasileiros que trabalha por lá. A bebê deles nasceu prematura, com 320 gr e sobreviveu, um verdadeiro milagre. Ela ficou na UTI  durante quatro meses e a mãe também, cuidando da criança. O pai teve licença no emprego e ficou hospedado em um anexo de apoio ao hospital, para revezar com a mãe, pois tiveram que ir para Oslo. Tudo pelo sistema público de saúde. Hoje a menininha já fez um ano, é linda e sem sequelas.

       Outras coisas interessantes : 1) Não existem cachorros e gatos de rua por lá. É muito caro ter um cachorro. Precisam ter chip e seguro saúde. Só saem pra rua com os donos e podem entrar em todo lugar. Os gatos dão umas fugidas e olham pelas janelas das casas. 2) Não existe Uber na Noruega, só táxi.  O governo considera que ser motorista de Uber não é um bom emprego para as pessoas. 3)Todos podem saber o que o outro ganha, existe um site especial para isso. E a pessoa que teve o salário consultado fica informada sobre isso. 4) Bebida alcóolica só é vendida até 22h nos bares e restaurantes. Uma cerveja custa de R$30,00 a R$75,00. 5) Várias palavras do norueguês são parecidas com o inglês. Ex: Welcome é velkommen (mas a gente não entende nada) 5) Não existem clubes recreativos particulares, todos são públicos. O que um pode, o outro também pode. Basta comprar um tíquete para desfrutar. 6) O país realmente funciona. Por exemplo, os ônibus nas cidades passam exatamente no minuto divulgado. As passagens são adquiridas por meio de um aplicativo e mesmo não tendo supervisão dentro do ônibus, as pessoas não andam sem pagar. 7) Ninguém pega as coisas dos outros. Meu neto esqueceu um tênis caro na quadra de futebol; ficou lá alguns dias até ele buscar. 8) Os noruegueses são preocupados com o desperdício. Por exemplo, no prazo de validade dos alimentos, escreve-se "melhor consumir até...". E na construção de casas (são de madeira), realizam-se testes enchendo-as de ar. São pressurizadas para ver se tem algum vazamento que poderia prejudicar a calefação e gastar mais energia no inverno. 9) As casas possuem um ou dois banheiros no máximo, mesmo as casas grandes 10) O governo incentiva a construção de casas com um pequeno apartamento independente, para ser alugado para estudantes a preços módicos. Não é cobrado imposto sobre este aluguel. 11) O caminhão de lixo orgânico passa de 15 em 15 dias, o que de certa forma induz as pessoas a diminuírem o lixo. Possui um guindaste para levantar o contêiner, ninguém fica correndo atrás.12) Não existe filtro nas casas. A água das torneiras é potável. 13) Na escola internacional o ensino é em  inglês. Há aluno espanhol, colombiano, inglês, canadense, brasileiro, egípcio. São os filhos de funcionários das empresas de petróleo e da OTAN. Alunos chineses, japoneses e indianos são raros. 15) O sistema de governo é parlamentar, com monarquia constitucional. O Rei Haroldo V e a rainha Sônia estão por todo lado, sorridentes e cheios de medalhas, em cartões postais.

          Mas nem tudo são flores . A Noruega é um dos países  mais caros do mundo. O litro de óleo diesel custa R$12,00, mesmo o petróleo sendo uma das principais riquezas da Noruega. Na alimentação, uma garrafinha de coca de 500 ml custa R$18,00; um quilo de carne moída R$75,00 e de carne de primeira, R$300,00. Comer em restaurantes é caríssimo. E a gente sente falta de frutas tropicais gostosas como o mamão, banana prata e banana maçã. Tem manga, mas é importada e sem gosto.           

         Outra coisa importante: este sol nosso de todo dia, quentinho, caloroso, gostoso, que aquece a alma e o coração, independente da estação do ano, por lá  praticamente só aparece no verão. E às vezes nem isso... Por do sol o ano todo, lindo como o nosso, nem pensar (é verdade que existe a aurora boreal, mas só ao norte, em condições especiais e temperaturas abaixo de zero). É um país onde tudo tem que se adequar a cada estação do ano. Fiquei pensando: como lá tem muito leite e queijo de cabra, o que será que fazem com as cabras no inverno? Será que ficam presas em barracões?        

        Também vale lembrar o comportamento dos noruegueses. Eles são cuidadosos em demonstrar emoções para os outros e não gostam de ficar muito perto. Parece que precisam de espaço, não querem perturbar e nem serem perturbados. Falam baixo, são educados, não  puxam conversa com desconhecidos. Mas achei que falta algo, talvez calor humano...  

         Bem, meu filho morou  três anos na Noruega, com a esposa e dois filhos. Adoraram morar lá, gostaram de tudo, fizeram muitas amizades. Agora irão morar dois anos em Singapura, pois meu filho precisa acompanhar a construção de um navio para extração de petróleo. Estão partindo com aquele sentimento de perda, de terem deixado algo bom para trás da qual não se despediram direito.  O Benício, meu neto,  não está preocupado com o calor úmido de lá, com o regime de ditadura e nem com a obrigatoriedade do uso de máscara. Depois de ficar indignado quando soube que lá é proibido mascar chicletes, quer é saber se tem lugar para jogar futebol e se na nova escola  terá mais dever de casa que na escola da Noruega. Que Deus o proteja e á família toda.

 

A Noruega- Parte 1




 

            Recentemente, estive em Stavanger, na Noruega. Fui passar 15 dias com o filho que mora nesse país com a família e trabalha na empresa de petróleo Equinor. Vi e aprendi muita coisa.

            Por exemplo, o país é lindo.  Tem montanhas altas com picos cobertos de gelo e por onde descem cachoeiras cristalinas e esverdeadas, formadas pelo gelo que derrete. Trilhas que passam por paisagens de tirar o fôlego. Fiordes, que são braços de mar que entram pelo continente e recortam todo o país.  Rochedos  imensos ladeando os fiordes, onde as pessoas sobem e parecem ficar acima das nuvens, observando  o mar lá do alto. Entre os pontos turísticos destaca-se  a Preikestolen, que fica em Forsand. É uma uma falésia de 604m, por onde se chega após uma subida que leva de 2 a 3 horas, por uma trilha de 4 km cheia de pedras. O topo do rochedo é quadrado, com cerca de 25x25 m, chamado de Púlpito do Pregador. A vista lá de cima é uma das coisas mais incríveis de se ver na vida (eu não fui, mas os filhos e netos foram e contaram). As pessoas mais ousadas sentam-se na beirada da rocha e balançam as pernas. Já o meu neto de 14 anos, bom de bola, ficou no platô, com a camisa do Brasil, fazendo embaixadinha...Tem até uma cena do filme "Missão Impossível" filmada na Preikestolen. É de arrepiar, com o Tom Cruise dependurado no precipício, lutando com o vilão . No inverno não é possível subir, a trilha fica coberta de neve e tem pouca luz, é perigoso.                                                                                                                                               Outro ponto turístico famoso é a Trolltunga, mas não subimos até lá, apenas visitamos a região.  É uma pedra esticada horizontalmente a 700 m de altura, sobre um precipício, com um lago abaixo. Noruegueses e turistas enfrentam uma caminhada de 22 km ida e volta, numa subida intensa, onde tem neve na trilha até no verão. O nome significa "língua do Troll". O Troll é uma figura do folclore da Noruega. Segundo a lenda, é feio, grandalhão, pouco inteligente, mas desperta simpatia. Habita a escuridão das florestas e as cavernas das montanhas. Ele está em toda parte na forma de estátuas, pinturas, histórias. É vendido como cartões postais, bonecos, brinquedos, canecas, etc. Ele e a família toda: filhos, mulher, avô, avó. Troll pra todo lado e pra todo gosto. Esquiando, andando de moto, abraçado no alce. Comprei um pregador de geladeira com toda a família Troll, de lembrança.                                                                                                                                               Vimos uma escadaria de madeira de 4.444 degraus. A maior do mundo em madeira, equivalente a um prédio de 28 andares. Foi construída há cem anos, para os trabalhadores levarem nas costas o material para fazer uma hidrelétrica, hoje desativada. Não subimos, Deus me livre! Olhamos por baixo, quando fizemos um passeio de barco por um fiorde para apreciar as cachoeiras, as rochas imensas, a mansidão azul das águas do mar. E com um vento gelado batendo no rosto, em pleno verão com temperatura entre 7 a 14 graus.

            Também as rodovias e estradas na Noruega são incríveis. Tudo lá é muito intenso. Cheias de altos e baixos, muitas curvas, pontes sobre o mar, túneis imensos. Atravessamos um de 14,6 Km perto de Stavanger. Passa debaixo do fiorde. Primeiro o túnel desce para passar pelas rochas debaixo do mar, depois sobe. Uma loucura, e tudo com qualidade e segurança. Nas estradas que ligam pequenas cidades ou chegam a pontos turísticos, é um eterno zigue-zague , sobe e desce, e precipícios. Ovelhas e cabras pastam nas margens. São estradas estreitas de mão dupla,  mas só passa um carro de cada vez. Quando um  encontra outro, um precisa dar marcha a ré e encostar em local mais largo. A gente reza pra não encontrar nenhum carro na curva. Achei estas estradas perigosas demais, em alguns pontos nem tem proteção perto dos precipícios. No inverno ficam interditadas, cheias de neve e os motoristas não sabem onde é a estrada. Talvez por tudo isso seja muito difícil tirar carteira de motorista na Noruega. Leva de seis meses a um ano. É um processo muito sério, o que contribui para reduzir a quase zero o número de acidentes.   As provas são feitas nessas estradas estreitas e numa pista escorregadia, onde são simuladas situações de risco.

            Mas bonito mesmo é uma ilha que visitamos, a Flor &Fjaere. Ela foi transformada em um imenso jardim e aberta ao público em 1995. Flores, rosas, árvores, arbustos, trepadeiras, cactus, lagos...Tudo misturado em uma emocionante profusão de cheiros e cores. Com o mar e o céu azul ao fundo.

            Outra coisa que chama a atenção na Noruega é o  silêncio . Uma calmaria que faz bem ao espírito. Contemplar e admirar a natureza  em silêncio, para os noruegueses, é quase como fazer uma oração. Mesmo nas cidades, há pouco barulho.  Andando pelas ruas do bairro, não ouvi grito ou choro de criança, música tocando, cachorro latindo . Até os carros deslizam sem fazer barulho, a maioria deles é elétrico. Mesmo os cortadores de grama  foram substituídos por pequenos robôs achatados, pretos luzidios, que podam a grama silenciosamente, com perfeição. Têm até um sensor para não passar no mesmo lugar duas vezes...

            Enfim, além da natureza exuberante, das estradas incríveis, do silêncio e da paz, existem muitas coisas interessantes na Noruega, que abordarei no próximo capítulo.

 

 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Pequenas felicidades e a terceira idade

 

                Existem vários exemplos de pequenas felicidades que podemos ter, a cada dia e a cada hora. Como chegar em casa e calçar um sapato velho, passear com o cachorro, rir com os netos, comer goiabada com queijo ou pão quentinho com manteiga. Acordar de manhã e ver que pode dormir mais um pouco. A alegria quando o avião pousa, quando um amigo se cura, quando o médico diz que foi só um susto, quando rola um beijo, quando o abraço aperta, quando se encontra dinheiro esquecido no bolso, quando o bebê ri. Ou então o cheiro do mato molhado ou do café fresquinho; uma foto antiga no álbum, o banho gostoso no verão quente.

                Acontece que as pequenas felicidades mudam de acordo com a época da vida. Por exemplo, como estou na terceira idade (melhor idade?), fico feliz demais quando tropeço, quase caio, mas não caio! Evito assim esborrachar o rosto no chão, quebrar a perna , quebrar o braço, quebrar a cabeça do fêmur. Fico feliz também quando encontro os óculos perdidos. Ou encontro as chaves do carro,  esquecidas ou perdidas em algum canto. Aliás, tem até aquela  piada sobre esquecimento de chaves e envelhecimento.  Uma mulher  procurava a chave do carro, na bolsa, depois de umas compras no shopping. Não estava lá. Voltou nas lojas e nada. Concluiu que tinha deixado a chave na ignição do carro. O marido vivia brigando com ela para não fazer isso, pois o carro seria roubado. Mas ela achava que era o melhor lugar para não perdê-la. Correu ao estacionamento e o carro não estava lá! O marido estava certo, o carro tinha sido roubado! Ela chamou a polícia, deu todas as informações e fez a chamada mais difícil da sua vida, para o marido. Começou falando "Amooor", pois sempre falava assim em situações difíceis. Explicou toda a situação. Houve um grande silêncio do outro lado e depois um berro do marido: "-Eu deixei você no shopping!!" Envergonhada e feliz, ela pediu baixinho para  ele ir buscá-la . E ele, nervoso: "Eu vou, assim que convencer este policial que não roubei seu carro!"

                Outra pequena felicidade, em qualquer idade, é quando a dor passa. Dor de dente, de ouvido, de coluna, de joelho, de cabeça, de barriga, no nervo ciático-dor de cotovelo também. Mas na terceira idade essa felicidade é maior, pois é aquela idade em que tudo dói e o que não doi, não funciona. Dia desses mesmo, estava eu sofrendo com dores no nervo ciático. Fui mancando até o Banco do Brasil, pertinho de casa, sonhando com uma muleta ou uma bengala.  Sentei-me na primeira cadeira que encontrei , depois de pegar a senha preferencial (ao menos isso). Na frente, um cartaz com os desenhos explicando quem era preferencial. No "idoso acima de 60 anos", um homenzinho curvado, com uma bengala e a mãozinha na cintura como se estivesse sentindo dor. Ô raiva, igualzinho eu!

                Também são pequenas felicidades: apreciar o belo, ouvir e cantar lindas canções, ler textos bonitos. Como o texto do Padre Fábio de Melo, "A inutilidade e o amor". Ele escreve que muitas vezes a gente acha que o outro gosta da gente, mas não. Ele está é interessado naquilo que a gente faz por ele. Por isso a velhice é esse tempo em que a utilidade passa e aí fica só o seu significado como pessoa. Ele afirma que deseja ter alguém que olhe para ele sabendo que ele não servirá para muita coisa, mas que continuará tendo seu valor. Acrescenta que deseja ter a graça, ao final da vida, de ser olhado nos olhos e ouvir do outro: -"Você não serve para nada, mas eu não sei viver sem você!"

                 Essa graça, todos nós desejamos.

 

 

 

segunda-feira, 21 de março de 2022

Sonhos, desvios, mala vermelha e onça



Cookie com os espinhos

Sede da fazenda

            Como já escrevi, estou tentando organizar e manter uma fazendinha, a Ouro Verde, nas proximidades de Pirapora. O verde é sua riqueza: possui belas árvores do cerrado e vegetação conservada na beira do rio. Quero deixá-la de herança para as três netinhas, para a posteridade. Talvez fazer uma casinha para brincarmos, na majestosa árvore de tamboril ao lado da casa. Fazer trilhas ecológicas com as crianças das pequenas cidades próximas. Formar um centro de estudos do cerrado para alunos de Biologia. Organizar um retiro para velhinhos que gostam de pescar e que poderiam ajudar nas trilhas ecológicas. Mas a primeira coisa a levar, nesse último caso, seria um desfibrilador...De qualquer forma, sonhar é preciso. E não basta ter apenas um sonho, é preciso ter vários. 

            Acontece que, entre o sonho e a realidade, existe uma grande diferença. Por exemplo, as dificuldades já começam com a viagem para chegar até lá. Geralmente, vou de carona com o filho que tem uma fazenda por perto.  Na última, em fevereiro, fomos os três filhos, eu, a minha cachorrinha e a perdigueira Dama, no carro Kia Mohave ( que tem costume de estragar no caminho e voltar de guincho). A viagem deveria ser de 5h. Durou 7h e dormimos em um hotelzinho na beira da estrada, para continuar mais 2h no dia seguinte. A ponte estava interditada nas proximidades de Patos de Minas e tivemos que entrar no desvio, uma estradinha de terra. Barro, chuva, escuridão e carros voltando. As pessoas avisavam que só caminhão grande passava na lagoa onde o rio transbordou. Chegando lá, observamos os caminhões imensos e carregados atravessando , as rodas afundando. O filho disse que dava para "ir no vácuo" de um caminhão. Eu não queria ir. Mas, como ficar por lá, sozinha em cima do barranco, na chuva, perdida na noite escura? Fomos. O carro conseguiu sair do outro lado da lagoa, mas passou a fazer um barulho esquisito, de lataria solta. Na volta, saímos às 5h da manhã. Logo depois, na primeira curva da estradinha de terra da fazenda, o pneu do carro caiu em uma cratera feita pela enxurrada.  Mas não quebrou e lá fomos. Pegamos o desvio novamente e , de súbito, o carro travou. Não andava. Estávamos perto de Serra do Salitre e não tinha sinal de celular. A solução foi  pegar carona para a cidade e chamar um guincho. Os três filhos foram pra estrada pedir carona, mas ninguém parou. Peguei minha cachorrinha no colo ( ela charmosa, com lacinho) e fiz o sinal característico. O primeiro carro parou e entrei com um filho. Era um senhor simpático com a filha, que fazia medicina em Divinópolis. Ficaram felizes em nos ajudar e nós, mais ainda. Deixaram-nos no centro da cidade, agradecemos e o filho  desceu do carro, puxando com força a mala vermelha que estava perto de sua perna, presa entre o assento da frente e o banco de trás. Saiu empurrando-a pela calçada rapidamente,  atrás de um táxi velho que tinha virado a esquina. A moça, a estudante de medicina, olhava boquiaberta. Eu também, pois não sabia que ele tinha uma mala vermelha. A moça, constrangida, conseguiu falar que a mala era dela! Ele desculpou-se, sem jeito, explicando que ia chamar o táxi e automaticamente já pegou a mala. Foi um quase roubo. Depois, ele ligou para o motorista do guincho, explicando onde o carro estava e descrevendo a cor do Kia como dourada. Eu disse que o Kia era prateado, que o motorista não iria encontrar um Kia dourado. Daí ele explicou-me que fazia confusão com as cores, pois era daltônico. O pior é que ele é daltônico mesmo e, sinceramente, não sei como ele enxerga a cor do carro...Enfim, nós dois viemos 4h de taxi, com o motorista ouvindo jogo de futebol a toda altura, e chegamos no final da festa de 70 anos do sogro do meu filho. Os outros dois , a cachorrinha e a Dama vieram em cima do caminhão guincho e chegaram à noitinha em Uberlândia.

            Bom, se fosse só a viagem, tudo bem. Mas lá na Ouro Verde acontece cada uma... Isso, sem considerar que tudo que precisa ter em uma fazenda, lá ainda não tem. E o que tem, estraga diariamente. E mesmo tendo só uma vaca, um bezerro, um cachorro e um cavalo, tem muita emoção. Por exemplo, o Cookie, o cachorro perdigueiro, literalmente enfiou o nariz onde não era chamado. Atacou um porco espinho. Ficou de dar pena. O caseiro teve que levá-lo às pressas para o veterinário, que tirou mais de duzentos espinhos da boca, focinho e lingua. Não morreu, mas ficou tristinho, tristinho.  Agora, tem uma onça pintada imensa andando por lá, deixando pegadas pra todo lado. Atacou o bezerro de um vizinho e comeu só a metade, deixou a presa ainda viva. Comeu um veado pertinho da minha casa, o crânio ficou no meio do mato (decerto a próxima vítima serei eu). Andou em volta da casa do vizinho, que mora sozinho e ficou apavorado. O ajudante do meu caseiro, que estava fazendo cerca, foi tirar uns galhos e viu a onça deitada. Correu como louco e ficou branquinho. Ah, e o Canarinho, coitado! Aquele cavalo que vivia fugindo. Está por lá, mas não dorme mais, tem que deixar as luzes das varandas acesas à noite e ele só fica perto da casa.

            Já avisei ao caseiro que não pode matar a onça, o espaço é dela, nós é que somos os invasores. Mas com certeza agora ele vai embora e o Canarinho deverá arranjar outro plano mirabolante de fuga.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 23 de novembro de 2021

O Príncipe, o Canarinho e o Holdini

                                                      Príncipe Holdini
                                                     Canarinho Holdini

                   

            Antes, preciso apresentar os personagens. O Príncipe é um bezerro nelorado, de dois meses, branco com mancha marrom na testa, filho da Daisy. Quando ele nasceu, foi um espanto geral, ninguém esperava. Já o Canarinho é um cavalo amarelo (como o próprio nome indica), baixinho, manso, sem raça e de pernas grossas. Sua especialidade é passar debaixo das cercas e fugir.  E o Holdini é um húngaro que migrou para os Estados Unidos e lá desenvolveu sua carreira, sendo considerado o maior mágico e ilusionista de todos os tempos (faleceu em 1926). Escapava de qualquer tipo de algema e fazia truques e acrobacias impressionantes, amarrado com correntes debaixo d´agua, do gelo, dependurado em guindastes. Revolucionou o mundo da mágica.

            A história dos três se entrelaça porque parece que existe alguma mágica no nascimento do Príncipe e nos sumiços do Canarinho. A Daisy, mãe do Príncipe, é a vaca da minha neta Lia e a única vaca da minha fazendinha. Quando ela lá chegou, sumiu. A neta foi avisada e ficou triste. Passado alguns dias, apareceu, irmanada com as vacas do vizinho. Depois, pensou-se que ela estava prenhe e a neta ficou esperando o bezerrinho. Passado alguns meses e depois de uma análise minuciosa, concluiu-se que não havia bezerro algum. A neta ficou triste novamente. Passado poucos dias do veredicto da não prenhez, desceu uma barrigona na Daisy e, uns três dias depois, nasceu um lindo bezerrinho. Com tudo isso acontecendo, a neta concluiu que o nome dele deveria ser Holdini, pois a vaca sumia e aparecia. E o bezerro, que nem existia mais, de repente nasceu. Argumentei que o pessoal da fazenda não se acostumaria com este nome e, como ela estava na dúvida entre Holdini e Príncipe, combinamos Príncipe Holdini. O nome ficou grandioso.

            Quanto ao Canarinho, também o único cavalo da fazendinha, tudo começou quando concluí que precisava de uma carroça e logicamente, de um cavalo para puxá-la. Daí surgiu um senhor com um cavalo numa carretinha. Ele tinha telefonado antes e fez uma propaganda incrível do cavalo: mansinho, forte, novo, com todos os dentes, ótimo para puxar carroça e campear gado, bom para crianças montarem, bem cuidado, etc. (só não contou que o cavalo era mestre em fugas, um escapologista como o Holdini). Pareceu-me o melhor cavalo do mundo e combinamos do senhor levá-lo para eu vê-lo. Quando eu o vi, mesmo não entendendo nada de cavalo, achei-o um pangaré e fiquei decepcionada, só gostei da cor.  O senhor abriu a boca do cavalo,  mostrou os seus dentes e exaltou tanto as suas qualidades que fiquei sem jeito e acabei comprando. Ficou faltando só a carroça. Mas, poucos dias depois, o Canarinho desapareceu. Procura daqui, procura dali, dias depois apareceu longe, num pasto verdinho, comendo capim humidícola em terras alheias. Ele deveria ter passado debaixo de uma seis cercas, segundo relato do funcionário da fazenda, para chegar onde estava. Só mágica mesmo, nem sabia que cavalo passa debaixo de cerca. Fiquei feliz demais quando apareceu. No entanto, a alegria durou pouco, pois o Canarinho desapareceu novamente. Ele estava com uma canga no pescoço (uma forquilha de madeira para evitar passar na cerca) e fugiu mesmo assim. Sem cavalo, sem carroça, sem meios de transportar e plantar as mudas de capim tangola, sem pasto...Fazenda é assim, uma roda viva, até tudo dar errado...Bem, lamúrias à parte, uns vinte dias depois da fuga, o Canarinho foi avistado atravessando o asfalto, rápido e lampeiro! O vizinho o laçou e o devolveu . Chegou  marcado com ferro em brasa com a letra  "O", ainda cicatrizando no couro, coitadinho. Qual seria o nome do larápio? Orlando? Otávio? Ovídio? Alguém o "adotou",  o marcou e ele fugiu! Talvez estivesse até amarrado com correntes...Se cavalo falasse, decerto ele teria uma boa história para contar.

            Agora ele se chama Canarinho Holdini e por enquanto está por lá, até que invente outras mágicas e acrobacias para desaparecer novamente.

 

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Daisy e Dama: histórias cruzadas




             Em tempos de pandemia, com tantas tristezas e problemas acontecendo, é bom escrever sobre assuntos leves e insignificantes, para diminuir o stress. Jerry Seinfeld, por exemplo, o famoso comediante, ator e escritor americano, escreveu o divertido bestseller "Melhor livro sobre nada", abordando assuntos variados como pedaços grandes de pães, sobrancelhas desiguais, bolsos de paletó de pijama, sanduiches de atum em aeroportos, coisas fritas em forma de pauzinhos, etc. Também vou escrever sobre quase nada: a história verídica  de uma vaca e de uma cadela.

          A Daisy é uma vaca nelorada branca, com cerca de dois anos, que nasceu na Fazenda Olhos D'Água, município de Buritizeiro. Pertence à minha netinha americana, a Lia, que a comprou do avô Zé (meu finado marido), depois de passar um longo tempo juntando sua mesadinha em dólares. Deu-lhe o nome de Daisy, que significa margarida, em inglês. A vaca foi marcada com o nome "LIA" e foi crescendo feliz da vida no pasto que parecia um jardim. Mas eis que, de repente, a fazenda foi vendida, juntamente com todo o gado que por lá vivia. Menos a Daisy. A Lia não vendia, não dava, não emprestava. Queria que ela desse um bezerrinho. Assim, o comprador da fazenda deixou que ela ficasse por lá, de favor. Uns dois meses depois,  o  encarregado da fazenda avisou que ela  tinha cruzado. Portanto, deveria estar  grávida, prenhe ou mojando, sei lá. De qualquer forma, um bezerrinho estava a caminho. Resolvi levá-la para a outra fazendinha, Ouro Verde, que não tinha sido vendida.  Lá se foi ela, sozinha, parecendo uma rainha,  no caminhão contratado só para  levá-la. Chegando no local, foi um duro aprendizado. Teve que ser aceita no bando das vacas selvagens do vizinho (empresto o pasto para umas oito vacas dele), procurar o seu alimento roendo frutinhos no chão e mascando folhas das árvores, beber água no rio sem cair dentro. Nada de água no cocho e capim braquiária verdinho, acabou a mordomia. Emagreceu e ficou abatida, os ossos das costelas aparecendo. Mas reagiu, foi uma sobrevivente.  Adaptou-se à vida dura sem pasto e começou a engordar. Com isso, o bezerrinho deveria estar crescendo saudável na barriga, para alegria da Lia. Mas certo dia o caseiro avisou-me que a vaca tinha sumido, não estava na fazenda. Como assim? A fazenda só tinha uma vaca, não era minha e ainda sumia? Depois de muita procura e confusão, encontraram a Daisy e as companheiras do vizinho, entranhadas no meio do mato.  Tudo bem, até dia desses, em agosto agora, quando estive na fazenda. Fui tirar fotos da Daisy para mostrar para a Lia e fiquei encabulada com a barriga dela. Aliás, com a falta de barriga. Fiz as contas: quando ela foi para a Ouro Verde, deveria estar prenhe de dois meses. Mais três meses que está lá, cinco meses de prenhez. A barriga deveria estar aparecendo. Chamei o caseiro, ele analisou e concluiu que ela não estava prenhe. Nem grávida, nem mojando.  Deus do céu, lá se foi o bezerrinho. Não tenho coragem de contar para a Lia. Para piorar, não tem nenhum boi por lá.

           Bem, agora entra em cena a Dama, a cadela perdigueira de estimação do meu filho. É lisinha, branca com cabeça e orelhas pretas, educada e amiga. Vive em um cercadinho na casa dele e sempre que vai para a fazenda de eucaliptos, que  possui em Várzea da Palma, a Dama vai junto, presa  na sua gaiolinha na parte de trás do carro. Dessa última vez, ela  ficou comigo na Ouro Verde e o filho seguiu para a outra fazenda. Penso que estranhou o local, mesmo correndo e pulando sem parar, porque á noite dava voltas na casa e gemia debaixo da minha janela. Por precaução, eu a levei  pra todo canto onde fui. Numa fazendinha perto da minha, onde fui olhar duas vacas pra comprar,  deixei-a  descer da gaiolinha e ficar correndo por ali. Mas na hora de voltar, ela tinha desaparecido. Chamamos, procuramos na estrada, o morador montou a cavalo e procurou pelos pastos. Nada. Passei a noite preocupada em como contar para a Lia que o bezerrinho não existia mais e como contar para o filho que sua cadela de estimação já era. Foi assim que a história da Daisy e da Dama se cruzaram: perdi um bezerro e uma cadela no mesmo dia. Mas no dia seguinte, inconformada, levantei-me ás seis da manhã e fui andando por perto chamando a Dama, quem sabe. Daí avistei o carro do caseiro  vindo devagarzinho pela estrada. Com a cabeça e a língua pra fora da janela, lá estava a Dama! Fiquei até com lágrimas nos olhos e penso que ela também, quando pulou estabanada em cima de mim. Havia passado a noite gemendo em volta da casa da outra fazendinha onde tinha desaparecido. O morador tentou ajudar, guardando-a  dentro de casa, mas ela é ensinada a não entrar . Tentou laçá-la para não fugir, mas ela disparava pelo pasto. No entanto, quando ela viu o carro do caseiro, correu para ele e entrou. Cachorro é inteligente mesmo. Voltou manca, sedenta e faminta, mas voltou. Fiquei feliz demais.

           Quanto ao bezerrinho, quem sabe a barriga da Daisy é murcha mesmo e ele ainda está por lá. Ou algum boi do vizinho pode pular a cerca e resolver o problema. A esperança é a última que morre.

 

                

sábado, 27 de março de 2021

Fazendo o bem



                Folheando uma revista chamada "Todos", distribuida por drogarias  para auxiliar  ONGs diversas, lí vários exemplos de pessoas realizando atos de bondade pelo Brasil afora. Por exemplo, a Cristina Harumi, veterinária em Jundiaí, passou um mês no Pantanal socorrendo os animais vítimas das recentes queimadas. A Ivanilde Bandeira, historiadora e indigenista de Porto Velho, enfrenta criminosos ambientais e já morou mais de 20 anos em uma aldeia na Floresta Amazônica. O Diego de Melo, vendedor de frutas em Colombo, PR, mora em uma casa onde, nos fundos, corre o rio Atuba. Impressionado com o volume de lixo que desce pelo rio todos os dias, construiu uma barreira flutuante com 25 galões de 50 litros e já retirou mais de seis toneladas de lixo do rio. A Maria de Fátima Santos, jardineira de Arapiraca, AL, criou um parque ecológico, onde recebe estudantes e público diverso para atividades de Educação Ambiental.  Já o Nereu Rios, de Campo Grande, criou um viveiro de mudas e  planta  as árvores em ruas, praças e margens dos rios.

                Outro exemplo é o que li na última edição da revista "Veja",  o caso do Eduardo Kobra. Ele é paulista e o mais famoso muralista brasileiro. Terminou agora de pintar uma obra de 22 m de altura e 300 m quadrados, no paredão de uma escola pública de Sorocaba, para celebrar a importância da educação. É a imagem de um menino subindo uma escada para apanhar um livro na estante. A subida simboliza o esforço pelo conhecimento e a vitória de cada degrau superado. Mas a obra gigantesca simboliza também a superação do próprio autor, que passou por vários problemas pessoais em 2020: a perda da filha recém nascida,  depressão e agravamento do seu quadro de intoxicação por tintas. Foi parar no hospital quatro vezes.  Sem poder ir para a rua , está criando os painéis no estúdio e  leiloando. Com o dinheiro que arrecada, está auxiliando os moradores de rua, os refugiados e as usinas de oxigênio em Manaus. Ainda fará doações de suas obras ao Instituto Butantan e à Fiocruz, em homenagem às campanhas de vacinação. Uma pessoa tão franzina fazendo tão grandes gestos de amor.

                Exemplos como esses, de bondade e  doação, existem por todo lado e de todo o tipo. Podem ser gestos simples, como palavras de consolo, ouvir o desabafo de alguém, contar uma piada para uma pessoa que está triste. Outros que exigem um pouco mais de esforço, como bordar enxovais para bebês necessitados, confeccionar e doar máscaras contra a Covid, fazer e entregar cestas básicas, cuidar de animais abandonados , auxiliar em creches e asilos, dar aulas de recuperação para crianças carentes, abrigar moradores de rua. Ou contribuir com doações para igrejas, Ongs, hospitais, associações, membros da família. Pessoas por toda parte doando seu trabalho,  sua arte,  seu dom, seu tempo, seu coração, seu apoio, sua compaixão, seu amor. Como isso é bonito. E em tempos de pandemia, médicos e enfermeiros, na linha de frente no combate ao coronavírus, têem doado mais que isso, têem doado suas vidas. 

                Todos estes exemplos de amor  nos fazem lembrar da  Madre Tereza de Calcutá, que também pequenina e frágil como o Eduardo Kobra, passou a vida servindo aos mais pobres dos pobres, ficando conhecida como a Santa das Sarjetas. Recebeu o Nobel da Paz em 1979 e conseguiu fundar uma congregação hoje presente em 139 países. É dela esta frase: " por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no oceano. Mas o oceano ficaria menor se lhe faltasse essa gota".

                Então, façamos o bem, mesmo que seja uma gota no oceano.  Existem milhares de oportunidades para isso. A enfermeira Roziele Oliveira, outro exemplo, encontrou uma forma mais profunda de cuidar das pessoas: escreve poesias para os seus pacientes da Santa Casa, em São Carlos, SP. Disse que ninguém espera ganhar uma poesia feita especificamente para ele, e quando lê e entrega para os pacientes, é algo sublime.  Eu mesma, no momento, ando escrevendo o meu quinto livro de crônicas para editar uns 500 exemplares e dar de presente. Como geralmente as crônicas são leves e divertidas, se despertarem nos leitores ao menos uma boa risada, já terá valido a pena.