A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A história da Tim

                                                                            Tim
                                                             A casa da Tim
                                           Atravessando o rio São Francisco de balsa: Tim, uma amiga e eu

É preciso escrever sobre pessoas que são gente de verdade. Pessoas que semeiam paz e luz onde estão, que enfrentam desafios com garra silenciosa, que vivem uma vida humilde -mas cheia de grandeza- e que representam um Brasil que muitos desconhecem. Registrar suas histórias, suas forças nunca celebradas, mas que, ainda assim, importam. Por isso escrevo sobre Tim.

Lucilene Atanásio dos Santos, carinhosamente chamada de Tim, nasceu em Gongogi, interior da Bahia. É a décima primeira entre 14 filhos de Elizabeth. A mãe tinha nome de rainha, mas jamais teve qualquer honraria. Os filhos nasceram todos de parto normal, no mato ou na casinha de chão batido, às vezes com parteira, às vezes sem ninguém. Três morreram ainda na infância; dois, já adultos.

Hoje, aos 44 anos, Tim é pequenina- mede 1,30 m.  Robusta, de braços e pernas fortes, pele muito negra, olhos bondosos e bonitos, sobrancelhas espessas. O cabelo, sempre esticado, preso e enfeitado. Um sorriso largo, mostrando os dentes muito brancos. Mora na comunidade quilombola de Ambuba, no meio da mata, na península de Maraú, numa casa simples com paredes de barro.  Os pais já faleceram. Sem água encanada, sem energia e com fogão à lenha.

Conheço Tim há muitos anos. É irmã de Djalma, pai dos meus três netos baianos.  Recentemente, passou uma semana em minha fazenda e perguntei se poderia escrever sua história. Gostou da ideia.  Sentada à mesinha, debaixo de um pé de baru, foi contando sua vida. Disse que a bisavó materna fora encontrada e capturada no mato. Já o avô paterno possuía terras em Ambuba; um dia partiu e deixou tudo para Antônio, seu pai. Esse distribuiu um pedaço de terra para cada filho, menos para ela (no quilombola, ninguém tem escritura, chegaram e ficaram).  Quando a mãe era viva, todos comiam junto. Mãe e filha cozinhavam para 8, 10 pessoas, buscando água no rio (Tim chama de fonte). Hoje, três irmãos   trabalham por lá extraindo borracha no seringal e almoçam com ela.

 Acorda entre quatro e cinco horas. Varre a casa e o quintal, depois acende fogo para cozinhar feijão com carne seca, arroz e mandioca, sempre acompanhados de farinha.  Alimentam-se também dos frutos da região: cacau, coco, dendê, manga, banana. Alguns da família têm os dentes da frente gastos de tanto rasparem o coco do dendê.  Vai a Maraú apenas uma vez por mês fazer compras, numa canoa com motor, acompanhada por um irmão. Na volta, carregam tudo morro acima. Com uma risadinha curta e gostosa, conta que, se o alimento acaba antes do fim do mês, há o mangue para ajudar. Pescam algum peixe, caranguejo, guaiamum, siri, camarão- pitu. Não cultivam verduras, pois falta água. Passou a vida carregando lata d’água na cabeça: meia hora para descer ao rio, meia hora para subir. Conta, alegre, que a vida dela melhorou muito, pois um irmão instalou placa solar; agora ela tem água corrente para beber e cozinhar, mas continua indo ao rio para tomar banho, lavar as louças e a roupa. A energia solar chega das 18h às 20h.  Nesse intervalo, assiste às novelas “Êta mundo melhor” e “Coração acelerado”, da Globo. Perguntei se entendia o enredo todo, disse que não, que gosta mesmo é das roupas dos personagens e de um casal que canta junto, aprecia as músicas. Completou que agora tem celular para enviar e receber áudios e que não usa mais candeeiro, agora pode comprar velas. Conseguiu, depois de muitos anos tentando, um auxílio do governo. Disse que, quando a mãe era viva, usavam candeeiro. E quando o óleo para acender acabava, faziam uma fogueira no meio da casa para iluminar. Está contente porque agora acende velas.  

Continuando a conversa, perguntei sobre os estudos. Contou que frequentou a escolinha de Ambuba por cerca de oito anos. Caminhava quarenta minutos por uma trilha no mato até chegar. A professora, Ildete, ensinava alunos de várias idades na mesma sala. Quando aprendeu um pouco, aos 12-13 anos, passou a estudar em Maraú. Ia de barco, juntamente com outros alunos. Saia de casa às quatro e meia da madrugada e chegava à escola às sete e vinte. Viveu assim por muitos anos, parou de estudar aos 30 anos. Sempre começava e desistia.  Concluiu a quinta e a sexta séries, não terminou a sétima. Perguntei se sabia ler, disse que lê e escreve um pouco. Perguntei também se sabia as quatro operações matemáticas, respondeu com um risinho maroto, que dependia da conta...Disse que os professores eram bons, explicavam bem; o problema era ela- “dava um branco na cabeça e eu esquecia tudo”.  Na sequência, perguntei porque ela era assim tão pequenina.  Respondeu que um médico lhe dissera que ela era “infantil”. Parece que ficou satisfeita com a resposta e nunca se preocupou com isso, nem a família, vida que segue. Talvez tenha a síndrome de Turner, condição genética que afeta apenas mulheres; ocorre quando há uma ausência total ou parcial do cromossomo X e pode causar baixa estatura e ausência de menstruação. Mas Tim não sabe disso e nem imagina o que seja um cromossomo...Perguntei se já teve namorado, se é feliz, se tem algum sonho.  Rindo, respondeu que nunca teve namorado; nunca pensou nisso. “Sou só eu mesma”. É feliz sim.  E já realizou o sonho de viajar, sair um pouco de Ambuba. No ano passado foi sozinha para Joinville - quase três dias de ônibus-onde ficou três meses na casa de um irmão. E agora veio para a fazenda, já conhece Uberlândia, Ilhéus, Itabuna, Serra Grande, está bom. Rimos quando lhe disse que nunca vi alguém gostar tanto de varrer casa e quintal como ela.  E de lavar roupas, é impressionante.

Sem pressa de nada, Tim às vezes fica parada, quieta, parecendo meditar, sentada em algum canto ou olhando para o céu. Nunca reclama de nada, não discute com ninguém, está sempre de bom humor, limpinha e arrumada, pronta para trabalhar e ajudar.  Em sua simplicidade- e no desconhecimento de tanta coisa que existe neste vasto mundo- Tim tem uma rara serenidade. É uma paz estar perto dela. Acende velas para iluminar sua casinha, mas ela mesma é luz. Não nasceu para brilhar nos palcos: pequena como uma chama, nasceu para clarear caminhos.

 

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Natal, Réveillon e muito mais

 

                                          

                                                    Presépio da Catedral Santa Terezinha- Uberlândia

Terminado mais um ano, fica a frase:  “Adeus ano velho; a Deus ano novo”.  Como escreveu Drummond, quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial. Industrializou a esperança, criou o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que tudo será diferente.  

Assim, aqui estamos todos no começo da fatia de 2026, no tempo depois do Natal e do Réveillon. Depois de comemorar, presentear e ser presenteado, agradecer pelo Menino Jesus que se deu de presente para nós, lembrar dos que se foram e abraçar os que ficaram, realizar atos de bondade e compaixão pelo próximo, fazer promessas para o ano que se inicia. Depois de receber inúmeras mensagens que circularam nas redes sociais. No Natal, mensagens com luzes piscando, anjos voando, estrelas saindo de dentro de um envelope com o seu nome. Impressionou-me a mensagem de um bebê bonito e rechonchudo falando fluentemente da beleza do Natal, com uso da IA (fiquei com medo do bebê).  Outra “sui generis” que recebi foi do Papai Noel a cavalo tocando um rebanho de vacas nelore todas com gorro vermelho, adorei. Algumas mensagens com dizeres curtos e emocionantes: “Afinal, tudo são luzes e a gente se acende é nos outros”.  Ou então: “Naquele dia, fazia um azul tão límpido, meu Deus, que me sentia perdoado pra sempre. Nem sei de que”. Também surgiram aquelas bem humoradas, como o vídeo de um senhor de meia idade explicando como é o Natal : no dia 24 tem uma ceia; no dia 25 esquenta-se o que sobrou; no dia 26 faz-se uma farofa do chester; no dia 27 uma sopinha com o restinho de tudo.                                                                                                                                                                                                                                          Já no Réveillon, circularam mensagens de champanhe estourando, fogos pipocando, textos bonitos,  promessas de emagrecimento e outras, orações de agradecimento a Deus pelo ano que passou. Gostei de uma assim: “O que quer que o ano novo lhe traga? Nada. A única coisa que quero é que não leve. Que não leve o teto que me protege, o prato que me alimenta, a manta que me aquece, o sorriso dos meus amados, a saúde como um tesouro, a companhia, os abraços, os beijos.”   

As comemorações também são interessantes. O tal de “amigo da onça”, quando cada um escolhe um presente embrulhado e depois pode trocar, e cujo objetivo maior é treinar o desapego, sempre dá confusão. O meu irmão certa vez ganhou um pijama. Um outro quis trocar por um jarro, mas meu irmão se negou a entregar o pijama, deu briga e acabou a brincadeira.  Também existe o “amigo oculto”, que pode gerar discórdia quando o valor dos presentes é muito discrepante, daí muitos ficam emburrados. Ou o amigo é tão oculto que a pessoa esquece quem é. 

Por falar em esquecimento, organizei no Natal, no meu apartamento, uma confraternização para oito amigas de longa data, desde a época do curso de Biologia na UFU, as sobreviventes da primeira turma. Idosas, animadas e esquecidas. A primeira que chegou já disse: “Ih, esqueci o presente!” Outra perdeu uma unha postiça, nunca mais encontrou. E eu, que tinha arrumado tudo com esmero e carinho, inclusive borrifado perfume no apto todo, esqueci as torradas no forno. Torrou mesmo. O apartamento ficou todo enfumaçado, cheirando (fedendo) queimado... Outra, na saída, foi buscar o carro para dar carona para a amiga. Foi e não voltava. Chegou cansada, estava procurando o carro na rua errada, tinha esquecido onde estacionou! Ah, e quando tudo sossegou, tarde da noite, tocou o interfone. Era uma delas, tinha esquecido a bolsa , o celular e o presente no sofá... Resta o consolo que esquecimento não é problema só de velhice . Por exemplo , um dos meu filhos,  novo e saudável, esquece  tudo. Dia desses, chegou para almoçar comigo trazendo um saquinho de remédios. Na saída, não encontrou a chave do carro. Desapareceu . Depois de muito procurarmos, ele  chamou um Uber, pegou o saquinho de remédios e lá se foi. No dia seguinte, voltou com a chave reserva e levou o carro. Dias depois, foi tomar um remédio do saquinho. Surpresa: a chave do carro estava lá dentro! Foi ele mesmo quem elaborou um plano: como sempre esquecia as coisas pra trás, se deixasse a chave junto com os remédios, quando fosse pegar a chave, lembraria dos remédios! Só que esqueceu onde colocou a chave...

Mas, voltando ao Natal e ao Réveillon, no momento da comemoração do Natal com minha família, todos colocaram uma estrelinha aos pés do Menino Jesus e fizeram um agradecimento ou um pedido. A minha neta de 14 anos, Maíra, pediu: “eu quero me transformar em uma pessoa melhor”.  Quem sabe nesse novo ano a gente também se transforme para melhor. Em gente mais humana, que saiba sonhar, ter esperança, ser luz. Gente de verdade, que saiba fazer valer a pena o tempo que passamos aqui neste mundo de Deus.  Para que a passagem de ano não seja apenas uma mudança no calendário...

Enfim, comecei citando Carlos Drummond de Andrade e termino com uma frase dele : -“Para você, desejo todas as cores desta vida, todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar.”

Feliz 2026 para todos!


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

A paz no campo

                                                                   A perereca no vaso sanitário
                                                                          O rio Jequitaí                               

                                                           

Todos nós procuramos encontrar a paz. O descanso da alma cansada, o respiro depois da tempestade, o abraço que acalma, o caminho de volta pra dentro de si mesmo. A tranquilidade, o equilíbrio, a harmonia. Essa paz suplicada em orações, como a de São Francisco: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”. Ou como naquela oração quando reconhecemos que a paz é Deus em nós: “...e Tu, que és a paz, dá-nos esperança em cada momento, Senhor!”

 Assim, alguns procuram a paz em retiros espirituais, nas montanhas, na contemplação da natureza, na oração em um quarto silencioso, na meditação, nas igrejas e templos. Outros tiram férias dos filhos barulhentos.  Uns arrumam as tralhas e partem para uma pescaria. E os mais diretos simplesmente gritam: “Pelo amor de Deus, me deixa em paz!” 

Mas interessantes são aqueles que acreditam que a paz está nos campos. No vento batendo nas folhas, no canto dos passarinhos, na sombra das árvores, no verde por todo lado, nas estrelas brilhando na noite escura, no silêncio das matas. Tem tudo isso sim, mas a paz no campo vem com um pacote completo de bichos diversos.

Como aconteceu recentemente comigo e com a filha Thaís, que mora nos States e ansiava por conhecer a minha fazendinha no norte de Minas e ter uns dias de paz. Acontece que foi um susto atrás do outro. Primeiro: assim que chegamos à casa da sede, ela foi ao banheiro. Deu um grito estridente. Havia uma perereca verde e branca luzidia dentro do vaso, prontinha para grudar suas patas com discos adesivos nas “partes íntimas” de algum desavisado que ali se sentasse. Eu, como já estou especialista em pegar sapos e pererecas com um pano de chão, apanhei-a e joguei-a na grama (ainda peguei mais umas seis). Segundo: estava a Thaís concentrada, á noite, trabalhando no laptop. Outro grito: passou um morcego em voo rasante rente à sua cabeça (ela nem se maravilhou com a perfeição do voo e com a aerodinâmica das asas do morcego, o único mamífero que voa).  Na sequência, um besouro escaravelho bem grande, dentre os vários que estavam na sala, veio com seu voo desajeitado, usando as asas membranosas e os élitros duros, e bateu de frente nos óculos dela. Outro susto. Terceiro: no dia seguinte, fomos no curral ver o gado. A Thaís logo notou um bezerro com sangue escorrendo pelo pescoço. O encarregado da fazenda explicou que foi um morcego que o mordeu à noite. Ela, impressionada, pois não sabia que existiam morcegos hematófagos por ali, dormiu á noite com o quarto bem fechado. Acordou de madrugada, sentindo umas mordidinhas pelo corpo. Acendeu a luz e viu que estava compartilhando a cama com quatro besouros grandes. Pegou os quatro, abriu a porta e jogou-os no corredor. Mas assim que abriu a porta, entrou algum ser voador. Ficou aterrorizada, poderia ser um morcego-vampiro que iria grudar em seu pescoço, fazer um pequeno corte e ficar lambendo seu sangue, se dormisse. Resolveu procurar pelo quarto e encontrou uma mariposa enorme atrás do armário. Menos mal. Deixou-a  lá, a mariposa estava quieta, pousada com as grandes asas abertas (borboletas pousam de asas fechadas). E quando pensou: -“Agora eu durmo!”, começou , às quatro da manhã, a ouvir um canto alto, exasperante, uma sequência repetitiva de ‘ah-ah-ah-ah-ah”, parecendo uma gargalhada.  Um pássaro cantando direto, sem nem tomar fôlego. Era o Acauã, um tipo de gavião pequeno, um dos falconídeos mais comuns no Brasil. É bonito mas irritante, e dizem que é uma ave de mau agouro. Canta feio a qualquer hora do dia ou da noite. Lá se foi o sono reconfortante. Quarto: durante o dia, também adeus soneca. Além do Acauã, existia o canto das cigarras. Impressionante a altura do som, pode atingir até 120 decibéis, o que é classificado como um som ensurdecedor. São os machos que cantam para atrair as fêmeas, é um canto de amor. Como eles vivem apenas uns 30 dias como adultos, cantam o mais alto possível e o máximo de tempo que conseguem. E adeus silêncio. Pior: sempre que a sinfonia começava, a Duda, minha cachorrinha Yorkshire, latia freneticamente. Como a audição dos cães é melhor e mais aguçada   que a dos homens, ela estava enlouquecendo. Quinto: num final de tarde, estávamos na varanda de uma vizinha; escureceu e apareceram centenas de aleluias atraídas pela lâmpada que foi acesa. E com elas, no mesmo instante, surgiram quatro sapos enormes e corpulentos, com patas traseiras curtas e robustas, pele seca e rugosa característica dos sapos.  Moviam-se com pequenos pulos para capturar, com suas línguas longas e pegajosas, as aleluias do chão, bem aos pés da Thaís. Outro susto. Sexto: estávamos caminhando tranquilas na estradinha no meio do pasto, quando a Thaís , sem mais nem menos, perguntou : _”Aqui não tem onça, não é? “ E eu: “O pior é que tem!” Contei das pegadas de onça em volta da lagoa e do funcionário que viu uma dormindo e correu como louco. Acabou o encanto da caminhada.  Sétimo: a Thaís estava nadando no rio Jequitai, que contorna a fazenda. Um rio bonito, raso e límpido. Só que a moradora da fazenda avisou, quando ela estava bem no meio do rio, que não entrava na água porque aparecia jiboia.  Corajosa, a Thaís não saiu, mas ficou vigilante caso aparecesse uma jiboia para enrolar em seu corpo e quebrar os seus ossos. Felizmente, não apareceu.

Bem, estes foram apenas alguns bichos que povoaram os nossos três dias de paz no campo. Sem falar naqueles que sempre insistem em ir embora conosco, como carrapatos e bichos de pé...  

Enfim, pra encontrar paz no campo é preciso saber conviver com a bicharada e ter o coração preparado. Para aprendermos, no meio de tantos sustos, que o sossego está, não na ausência de barulho, mas sim na aceitação da natureza como ela é.  Para entendermos que a vida é bela, diversificada e pulsa de todas as formas: canta, voa, pula, rasteja, corre. E que a paz encontra-se dentro de nós quando estamos com Deus. 

 

 


 

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Viajando pela Europa- Parte 2


 

Na viagem pela Europa, aconteceram vários momentos e cenas interessantes. Por exemplo,  escolher as refeições era sempre uma confusão. No grupo tinha vegetariano, carnívoro demais, celíaco, guloso, chato, todas as nuances possíveis. Uns querendo pagar tudo e outros não querendo pagar nada. E a situação piorava porque não entendíamos os cardápios, mesmo com o auxílio do Google translation. Dentro deste contexto, em Freibourg, na Alemanha, entramos esfomeados em uma lanchonete onde só falavam turco ou alemão. O único modo de escolher o prato era sacudindo a cabeça, com sim ou não, de acordo com um atendente que apontava, com uma varinha, em um cartaz, os tipos de pratos. Nada de tirar isso, acrescentar aquilo. Comemos sem saber bem o que era, mas na hora da fome, tudo é gostoso.

Outra cena divertida aconteceu no charmoso bairro Soho, em Paris. A  norinha e eu rimos muito quando passamos por uma calçada onde saia, por uma tela, o ar do metrô. As nossas saias foram levantadas, tipo aquela cena famosa do filme “ O pecado mora ao lado”, com a Marilyn Monroe. Nos sentimos como ela. Depois ficamos por ali, rindo das outras mulheres ...Também me diverti com a Maíra, minha neta, com sua bolsa preta de correntes. Com quatorze anos, vaidosa e cheia de charme, saiu do Brasil com tudo programado e pesquisado para comprar tal bolsa em Paris, na loja Zadig & Voltaire. Sabia o endereço, o preço, economizou o dinheiro. De posse da bolsa, exibia as mil e uma maneiras que podia jogar no corpo a corrente maior e a menor. Fiquei temerosa dela acabar se enforcando. O irmão requebrava e a imitava, era arrelia na certa!

Também com os netos, na Alemanha, aconteceu uma cena pitoresca. Resolvemos alugar um carro para visitar as cidades na região da Floresta Negra. Foi um espanto quando descobrimos que a carteira de motorista do filho e da norinha estavam vencidas! Assim a filha, com carteira válida, teria que dirigir um carro para nove pessoas. Daí eu me candidatei, disse que tinha carteira também e poderia dirigir outro carro. Perguntei: “Quem vai comigo?” E os quatro netos, juntinhos: “Euuu!” Isso é que é apoio incondicional... A proposta não vingou, mas senti-me realizada.

Outro momento em que fiquei feliz demais foi no metrô de Paris. Todos nós apressados, cada um puxando sua mala, subindo e descendo escadas rolantes, corredores a perder de vista. De repente, uma escadaria normal que pareceu-me ter uns duzentos degraus. Nunca que eu chegaria ao topo, com minha mala de 13 kg. Enquanto eu olhava desanimada, um francês, que estava acabando de descer, ofereceu-me ajuda e voltou, subindo com minha mala! Que Deus o abençoe sempre...Tem muita gente boa neste mundo.

Até entrar em supermercados era um aprendizado. Havia iguarias de todo tipo e os queijos era uma tentação para nós, mineiros. O preço dos ovos das galinhas variava de acordo com a felicidade das mesmas: quanto mais livres de gaiola, mais caros eram. Li no rótulo de uma caixa de ovos que as matrizes eram originadas da Patagônia e selecionadas geneticamente para produzirem ovos mais ricos, com gema amarelo profundo. Pensei nos ovos das galinhas da minha fazendinha, criadas livres, leves e soltas, comendo milho e minhocas. Valeriam ouro nos supermercados de Paris...

Outra experiência interessante foi andar de táxi em Londres, nos famosos “black cabs”, espaçosos e onde as pessoas se sentam de frente umas para as outras. No Reino Unido, o trânsito funciona do lado esquerdo. Temos a impressão de que vamos colidir a qualquer hora e de que o motorista está do lado errado. E andando a pé, via-se de tudo por lá. Por exemplo, na ponte do rio Tâmisa, um homem vestido de Homem Aranha pedia esmolas. Pensei: a fantasia foi mal escolhida, jamais o Homem Aranha, com sua valentia e super poderes, iria pedir esmola...

 Também as visitas aos museus proporcionaram emoções e encantamento. Por exemplo, no Museu da Ciência, em Londres, havia uma vitrine com a foto famosa da menina vietnamita Kim Phúc. Nessa foto, que correu o mundo em 1972, na época da guerra do Vietnã, ela estava com 9 anos e corria nua, chorando de dor, com o corpo queimado por uma bomba de napalm lançada por aviões sul-vietnamitas. Na vitrine, contava-se a história do fotógrafo, que ganhou o prêmio Pulitzer, e da vida de Kim Phúc. Ela ficou 14 meses internada, passou por 17 cirurgias, tem dores crônicas e cicatrizes imensas. Hoje ela vive no Canadá, é avó e usa sua história para fazer palestras sobre perdão, reconciliação e paz. Um exemplo emocionante de superação.

Já no Museu do Louvre, havia muitos quadros de Nossa Senhora. Adorei um da Virgem Maria amamentando o Menino Jesus com o seio direito. Ele, Jesus, vestido de rosa e coçando o pezinho. E outro quadro com uma criança de cabelos anelados, estendendo uma roupa branca para o Menino Jesus peladinho, nos braços de Maria. Que lindos momentos da intimidade de Jesus e Maria estavam ali retratados!

Outro momento importante foi quando, andando pelas ruas de Paris com o filho e o neto, sentamos em um banco numa praça. Na frente, um prédio claro, simples, uma escola pública. Uma porta grande e uma placa de cada lado. Em uma das placas estava escrito que 260 crianças judias foram retiradas daquela escola na época da Segunda Guerra Mundial e exterminadas nos campos de concentração nazista. Termina com a frase: “Jamais esqueceremos”. Na outra placa, um agradecimento a Joseph Migneret, diretor da escola, que por sua coragem salvou dezenas de crianças judias da deportação. Meu Deus, pensar que naquele exato lugar, naquela praça, tantas crianças foram arrastadas para a morte...Vontade de ficar ali para sempre, rezando para elas...

Finalmente, quando a viagem termina, a gente percebe que não ficaram apenas as lembranças, mas também um pouco de cada lugar, de cada risada em família, de cada silêncio diante de uma obra de arte. E que voltamos um pouco diferentes porque vimos a vida por outras janelas.

 


               


Viajando pela Europa- Parte 1



 

             Neste último mês de julho, fui com um filho, norinha e dois netos para Paris. Lá nos encontramos com a minha filha, dois netos e outro filho. Formado o grupo de nove, começaram as peripécias, os aprendizados, as andanças sem fim. Andamos de avião, ônibus, metrô, Uber, táxi com motorista do lado direito , do lado esquerdo, trem comum, trem a 300 km por hora e debaixo do mar, a pé puxando malas, a pé sem puxar malas, subindo escadas e puxando malas. É preciso ter saúde e preparo físico.  Entre uma andança e outra, eu pensava na maravilha da invenção das rodas: e se não existissem malas de rodinhas?

Foram 18 dias viajando.  Em Paris, a emoção do passeio de barco no rio Sena, o Museu do Louvre com tantos quadros e esculturas impressionantes, a catedral de Notre Dame , que leva os visitantes ao assombro  com tanta beleza, arte e fé. A torre Eiffel, com seus 330 m de altura, encantando a todos com sua arquitetura ousada. A Basílica de Sacré-Coeur, de onde é possível, do alto de seus degraus, contemplar  Paris inteira; e nos seus arredores, apreciar os pintores desenhando com maestria o rosto das pessoas.  As lojas sofisticadas, com objetos de última geração, como os óculos inteligentes Ray Ban Meta, capazes de ouvir e traduzir várias línguas em tempo real. Em Strasbourg, uma pequena cidade francesa, a monumental Igreja de Notre Dame, que levou 500 anos para ser construída; o canal rodeado de trilhas e flores, as pontes cheias de cadeados dos enamorados, o centro “Petit France”, charmoso com seus restaurantes debaixo das árvores .

Na Alemanha, ficamos em Freibourg, na região da Floresta Negra, e visitamos pequenas cidades medievais, cada uma com seu encanto. Colmar, por exemplo, a pequena Veneza, com seus canais, onde era possível dar uma volta de barquinho por 8,50 euros. Ou saborear um joelho de porco, “haxe vom Schewein’ por 19,90 euros.

Na Inglaterra, visitamos Londres, uma cidade vibrante onde o velho e o novo convivem em harmonia.  A tradição na troca da guarda no Palácio de Buckingham contrastando com a modernidade dos pubs com pessoas bem vestidas bebendo cerveja no final de tarde. Pessoas de todas as nacionalidades andando pelas ruas, principalmente indianos e chineses. O metrô, imenso e bem cuidado, onde se sente a vida colorida e pulsante, com milhares de pessoas apressadas nos corredores imensos e nos trens apinhados e pontuais. O fascinante Museu do Bunker do Churchill, subterrâneo, construído durante a Segunda Guerra Mundial, para resistir a bombardeios e onde foram tomadas importantes decisões para o futuro da Europa. Mostra a trajetória política de Churchill, seus discursos marcantes, seus hábitos, sua liderança. É dele a frase, quando os aliados Rússia e Estados Unidos entraram na guerra: “Pior do que ir para uma guerra com aliados, é ir para uma guerra sem eles”. O Museu de História Natural, onde é possível ficar horas e sair com aquela sensação de quero mais. Invertebrados, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos em profusão. Identificados, bem taxidermizados e conservados.  Fósseis de dinossauros enormes.  No hall de entrada, em destaque, o gorila mais amado, o Guy, que tem importância cultural e científica. Ele nasceu no zoológico de Paris e vivia no zoológico de Londres, onde morreu em 1978 de ataque cardíaco quando fazia tratamento dentário. E na ala da evolução humana, um banho de cultura, despertando curiosidade e deixando várias perguntas sem respostas. No Museu da Ciência, cinco andares de maravilhas.  A primeira máquina a vapor, a evolução das máquinas; modelos e material didático sobre energia elétrica, eólica, nuclear, aquecimento global. Inúmeras réplicas de aviões primitivos e as histórias dos aviadores; turbinas e hélices gigantes dos aviões modernos. Um andar inteiro levando as pessoas a pensarem na pergunta : “Quem sou eu?” . O pior é que a gente pensa tanto, analisa, interage e sai de lá sem saber...

Em Londres, vale ressaltar ainda o Boroughs Market, com o burburinho da multidão procurando comida de todo tipo. Gônadas de ouriço do mar, paella, pepino do mar tostado, ostras gosmentas, 50g de caviar de beluga por 150 libras esterlinas (a cotação da libra estava a R$7,30; será que alguém compra?). E a London Eye, a roda gigante de onde se olha a placidez e a beleza do rio Tâmisa, ladeado por construções antigas e imponentes. 

Enfim, foram muitas as emoções e aprendizados. Valeu por tantos momentos em família, pelas risadas gostosas das primas que vivem tão longe, pelas fotos bonitas em tantos locais diferentes, pelo prazer de aprender “in loco” algo mais sobre o velho continente, pelo privilégio de poder viajar quando tantos não têm nem o que comer...   

 Mas bom mesmo é o Brasil.  Quando cheguei no meu lar, doce lar, lembrei-me da minha finada mãezinha: ela sempre beijava a porta da casa quando voltava de uma viagem. Beijei também.

No próximo capítulo, contarei sobre alguns momentos e cenas interessantes da viagem.

 


 

 

 

                       

A saga dos touros e o Sansão

 

                                                   O Sansão 1, que foi trocado pelo Sansão 2

                                              

O Sansão, um dos personagens dessa história, não é o Sansão da Bíblia, aquele conhecido por sua força física extraordinária, que matou um leão com suas próprias mãos, que tinha uma aliança com Deus e que nunca cortava o cabelo, pois no cabelo residia sua força. Aquele que foi consagrado a Deus para libertar Israel dos Filisteus.

 Esse Sansão é simplesmente um boi da minha fazenda (ou melhor, um touro, pois aprendi que boi é um macho castrado).  Semelhante ao Sansão da Bíblia, tinha uma missão extraordinária: ser o reprodutor oficial do meu rebanho e resgatar toda uma série de tragédias que aconteceram com os touros anteriores, como se segue, e tudo verdade.

A primeira tragédia aconteceu com o Príncipe Houdini. Um tourinho nelore, , o primeiro que nasceu na fazenda, filho da Dayse, a vaca da minha neta. O nome é porque estava sendo criado como príncipe, para ser o futuro reprodutor, e porque nasceu como num passe de mágica, nem sabíamos que a Dayse estava grávida. Acontece que na época também nasceu um tourinho gabiru, sem raça, baixinho, de cabeça grande. E quando comprei umas vacas e vendi o gabiru, por engano colocaram no caminhão o belo Príncipe Houdini. Lá se foi, nunca mais o vi. Ficou o tourinho, que de tão ruim, nem tinha nome. Tive que castrá-lo. Sem nome, sem testículos, sem raça, sem graça, foi vendido para o açougue, coitado. Outra tragédia.

Daí, com 30 vacas e sem nenhum touro, não nasceria nenhum bezerro. Vaca não se reproduz por partenogênese. Assim, comprei o Diamante, caro e nelore puro. Durou na fazenda apenas um dia, dá para acreditar? Fugiu para a fazenda do vizinho, atrás de vacas no cio. Foi encontrado depois de uma semana. E quando estava sendo tocado de volta, trotando rápido, começou a tremer, caiu no chão, estrebuchou e morreu ali mesmo, na estrada, um horror. Pensei até que poderia ser de paixão, por o terem tirado de suas vaquinhas, mas a hipótese mais provável é que tenha comido ervas (plantas venenosas); o metabolismo aumentou com a corrida e o Diamante teve um ataque cardíaco. Coitado, terceira tragédia.

Como consequência, as vacas estavam sem touro novamente. A Duquesa, a Bonita, a Fantasia, a Mimosa...Todas elas. Sem ânimo e sem nenhum lucro na fazenda para comprar outro touro, pedi um emprestado para um fazendeiro amigo. Ele até mandou várias fotos para eu escolher qual queria, nem acreditei. Escolhi o Trovão, de barbela e cupim grande. Ficou feliz na fazenda, reinando sozinho entre as vacas. Enquanto isso, o Sansão crescia saudável, seria forte como o Sansão da Bíblia. Até que, depois de seis meses de sua chegada, o Trovão foi encontrado mortinho no pasto, com a barriga inchada! Céus, deve ter comido ervas também. Mas, e as vacas, como não tiveram nada? Mistério. O mais difícil foi contar para o dono, mas ele até me consolou, disse que boi morre mesmo e não quis cobrar nada. Que Deus o abençoe sempre. Coitado do Trovão, lá se foi. Quarta tragédia.

Novamente sem touro, pois o Sansão ainda estava novo, fiquei sabendo que uma vizinha estava sem pasto para três vacas e- glória a Deus- para um touro também.  Movida pela necessidade, ofereci a ela uma troca: o pasto pelo touro. Ela ficou relutante, com certeza pensando que nunca mais veria o touro, mas aceitou. O Diamante II ficou na fazenda por seis meses e, acreditem ou não, foi devolvido são e salvo! Sem tragédia e deixando várias vacas enxertadas.

Com o retorno do Diamante II para sua fazenda e o Sansão já adulto para assumir as suas responsabilidades, criado e adaptado na fazenda, gerado por inseminação artificial no útero da Sofia, estava tudo tranquilo e em paz, felicidade geral. Até o dia em que o encarregado da fazenda me enviou uma mensagem surpreendente. Pois o Sansão, que nasceu em novembro/22 e que já estava adulto quando o Diamante II retornou ao seu lar, não se interessava pelas vacas. Era gay! A Vermelha, a Malhada, a Mansinha, passavam perto dele no cio, abanando o rabo e ele bonachão, sem libido. E agora?

 Comecei então a estudar o assunto. O comportamento homossexual animal já foi descrito cientificamente em mais de 1.500 espécies e ocorre por diversas razões, como para criar laços sociais e coesão do grupo, para aprendizado da prática sexual, para redução de tensões ou conflitos e outros. No caso de touros, eles podem subir uns nos outros, exibir comportamentos de corte e simular cópula, o que serve como demonstração de dominância. Ou podem mesmo apresentar preferência exclusiva por machos. Mas, logo o Sansão? Só tinha ele de macho na fazenda. Exibir comportamento de dominância para quem? Preferir qual outro macho?

Li também que estudos realizados com carneiros mostram uma diferença estrutural em certa área do cérebro, associada à orientação sexual, o que sugere uma base neurobiológica, sendo que bovinos também mostram padrões semelhantes. Enfim, complicado demais, desisti de entender o Sansão, meu touro de estimação que realizaria o meu sonho. Troquei-o este mês (juntamente com um garrote) pelo Sansão II, um touro maravilhoso, corpulento, nelore P.O, com filhos na outra fazenda, bem manso e que gosta de carinho. Já me avisaram para não fazer muito carinho, vai que ele também deixa as vacas de lado...

Agora é esperar os próximos capítulos, seja o que Deus quiser.


 

                     

 

 

 

 

 

 

 


quinta-feira, 20 de março de 2025

Vamos virar torresmo?


 

Na mídia, notícias sobre calor extremo são constantes. Por exemplo: 2024 foi o ano mais quente já registrado; o Rio Grande do Sul, recentemente, registrou temperaturas extremamente altas, acima de 40 °C; na América do Sul, o número de mortes relacionadas ao calor aumentou 160% entre 2018-2022; os efeitos na saúde são marcantes: entre 2000 e 2019, cerca de 489.000 mortes relacionadas ao calor ocorreram a cada ano no mundo. E por aí vai.

Esse é um assunto extremamente sério e preocupante. No entanto, José Simão, colunista da Folha, consegue abordá-lo de maneira divertida. No artigo “70  °C? Vou virar torresmo!” escreveu que mora em um país tropical, mas não tem uma nega chamada Tereza. Que em fevereiro avisaram que a sensação térmica poderia chegar a 70 °C, então o mês deveria se chamar “fervereiro” . E que grau já era,  vale agora é a sensação térmica, aquela sensação de quero ficar pelado. Conta que o marido perguntou pra mulher: -“Se eu dormir no terraço pelado o que os vizinhos vão dizer?”  A mulher respondeu: -“Que eu casei com você por dinheiro”. Rarará! Comenta que a nossa pele vai fritar, virar torresmo e vamos todos morrer de overdose de suor. E o Brasil vai derreter e virar uma poça de suor, a chamada frente frita. A gente acorda pra torrar! O calor é tanto que o poste da rua de um amigo dele  pegou fogo sozinho. E ele também pegou fogo sozinho! Fala que não são as calotas polares que estão derretendo, são as calotas do seu carro! E conta de um cartaz onde estava escrito: “ Faz merda não, hein! Sensação de 60 °C na praia, imagina na cadeia!” Deseja até mesmo ir para o inferno, onde é mais fresquinho. Argumenta que o traje oficial do Brasil, daqui pra frente, será bermudão e chinelo! Conta que o presídio da Papuda, onde estão ensaiando as marchinhas “Unidos da Papuda” e “Me dá um golpe aí”, já é chamada de Nova Dubai: muito quente e cheia de milionários! Conclui que o bom mesmo é dormir na gôndola de congelados do Pão de Açúcar, de conchinha com um chester!

Além do mundo todo, há pessoas derretendo, mas não pelo calor. Li esta noticia : “O Lula está derretendo, reflexo da indignação das pessoas. Os partidos de centro já começaram a pular fora”. Ah, e sobre o Lula, José Simão escreveu : “Lula diz para o povo parar de comprar o que está caro, e supermercados dão férias coletivas. Rarará! E o preço do ovo? O problema do Lula não é o mercado, é o supermercado!”

Bem, brincadeiras à parte, o problema do aquecimento global é muito sério. Cada qual precisa fazer a sua parte, com ações dentro da possibilidade de cada um.  Por exemplo, nas cidades, as ilhas de calor urbano com pouca vegetação e dominadas por asfalto, retêm o calor. Que tal plantar uma árvore na calçada e cuidar dela com carinho? Em áreas de pobreza e habitação precária, as escolas geralmente não têm ar condicionado, o que torna as crianças mais vulneráveis aos efeitos do calor. Que tal doar um ar condicionado para uma escola carente?

 Enfim, mitigar os efeitos do calor extremo exigem ações globais, locais e individuais. Todos nós devemos fazer a nossa parte. Caso contrário, vamos mesmo virar torresmo, daqueles bem crocantes e moreninhos.