Li,
na revista Veja Rio, em agosto/26, um texto de Kika Gama Lobo. A autora escreve
que existe uma nova religião circulando por aí: a longevidade. Todos fascinados
pela ideia de chegar aos 90, aos100 anos, encarando o envelhecimento como ele
aparece nas redes sociais: cabelos brancos charmosos, corpos sarados, viagens,
vinhos, sexo, pilates, empreendedorismo depois dos 60 anos. E aquela frase
perigosa:” A idade está apenas na cabeça”.
Mas não. A idade está por toda parte:
na conta bancária, no plano de saúde, na solidão da noite, na memória que
falha, na filha que mora em outro país, no filho que não tem tempo de cuidar de
ninguém, no remédio caro, no cuidador que custa uma fortuna, nas dores no
corpo.
A autora argumenta que, para quem
quiser viver muito, é preciso começar seu planejamento bem antes dos 70: construir
patrimônio, cuidar do corpo e da cabeça, discutir herança, organizar
documentos. E, sobretudo, aprender a pedir ajuda, construir uma rede, pois
ninguém envelhece sozinho. Caso contrário, o tão sonhado presente da
longevidade pode se transformar em uma longa travessia de abandono.
Já a médica e
escritora Ana Cláudia Quintana, autora do best-seller A morte é um
dia que vale a pena viver, afirma, sem rodeios, que todos deveriam se
preparar para a própria morte e falar sobre esse assunto com naturalidade com
amigos e familiares. Pode ser no almoço do domingo, na pizza de sábado à
noite...Uma conversa difícil, mas necessária, e que pode mudar para melhor o
desfecho de uma vida.
Ainda
sobre velhice e morte, recentemente assisti a uma palestra cujo tema era o
perdão. O palestrante ressaltou o quanto é inútil e prejudicial guardar mágoas
e ressentimentos de alguém. Você fica sofrendo, remoendo a raiva, enquanto, muitas
vezes, a outra pessoa nem sabe que você está magoado com ela. Disse que a
velhice precisa nos ensinar, precisa nos corrigir. E lançou uma pergunta:
-Quantos anos você tem?
Ressaltou que deveríamos responder pensando
nos anos que ainda temos pela frente: oito? cinco? um? Então, não podemos
desperdiçar este tempo precioso guardando raiva e rancor. Continuando, disse
que não adianta deixar de pensar na morte. Ela vai chegar. E perguntou:
-Quando você morrer, quem vai chorar?
Respondeu que provavelmente os filhos e talvez
alguns netos, se você tiver. Bisnetos já não se importam tanto. E, daqui a 100
anos, se você não tiver sido uma pessoa famosa, ninguém se lembrará que você existiu.
Concluiu que os velhos não podem perder tempo
com coisas inúteis ou ruins, como guardar rancor e mágoa. O melhor caminho é o
perdão, para seguir o restante da vida com mansidão, paz e amor no coração.
Assim, prometi a mim mesma começar a fazer
algum planejamento para minha velhice e minha morte. Iniciaria pelo item
“organizar documentos”, sugerido no texto de Kika Gama.
Era hora de
limpar as gavetas entulhadas de papéis e documentos desnecessários. Abri uma delas
e logo vi um pequeno pacote de folhas amareladas, preso por um elástico. Peguei
duas folhas dobradinhas e as abri.
Deus do céu!
Era uma carta
que eu havia escrito para o Zé, meu finado marido, que, naquela época, morava
em Uberlândia.
No alto, com letra caprichada, estava escrito:
“Campos Altos, 1º de outubro de 1969”.
Quase sessenta
anos!
Uma relíquia.
E logo abaixo, na saudação: “Querido
noivinho:”
No corpo da
carta, eu combinava com ele, detalhadamente, os últimos arranjos para o nosso
casamento, que seria no dia 18 daquele mês, em Pará de Minas. Havia até um
acróstico que escrevi com o nome dele: José.
Expliquei que provavelmente
aquela seria a nossa última carta, pois, depois, “viveremos juntos até que a
morte nos separe”, conforme escrevi.
Nossa, como
fiz uma previsão dessa e deu certo mesmo?
Só nos separamos 51 anos depois, com a morte
dele.
Como eu poderia jogar no lixo uma carta assim?
Ainda mais
porque, por acaso, havia lido recentemente um texto intitulado Do fundo do
baú, em que se exaltava a maravilhosa forma de comunicação que é uma carta.
Por exemplo, pelo lado afetivo, a emoção de
pensar que alguém, em algum cantinho do mundo, escolheu um papel, uma caneta e
escreveu uma carta só para você.
Pelo lado histórico, cartas são capazes de
registrar acontecimentos extraordinários, como a de Pero Vaz de Caminha e as do
padre Manoel da Nóbrega, importantes documentos dos primeiros tempos do Brasil.
Do ponto de
vista literário, podem ser verdadeiros tesouros, como as cartas trocadas entre
Machado de Assis e Joaquim Nabuco, que revelam o diálogo entre dois grandes espíritos.
Por tudo isso,
nunca que eu jogaria fora uma carta
Ainda mais uma carta de amor de quase 60 anos!
E assim, todos
os meus planejamentos de velhice e morte foram por água abaixo.
Guardei a
carta cuidadosamente de volta e fechei a gaveta. Afinal, há gavetas que não guardam papéis.
Guardam pedaços da nossa vida.
Lembrei-me, então,
de um texto atribuído a Mário Quintana:
“Eu moro em mim. Deixo sempre as janelas
entreabertas para sentir o sopro de raros afetos. A porta? Só abro para poucos.
Todos os dias percorro meus cômodos, corredores e contemplo a vida pela
varanda. Mas as gavetas...Ah...As gavetas? Ainda não dá para abri-las. Senão,
acabo tendo que morar dentro delas”.
E talvez seja
exatamente isso. Há gavetas que não devemos esvaziar.
Porque, às
vezes, quando abrimos uma delas, não encontramos papéis velhos.
Encontramos
quem fomos.

















