A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sábado, 18 de abril de 2026

Diários de uma mãe

 

                                          Thaís, Karine, Luiz Cláudio, Vinícius, Paulo Márcio
                                                     Eu e cinco filhos              


                                            João Lucas, eu e Zé
                                                                  Os diários


         Minha mãezinha querida, que Deus a tenha, tinha o hábito de, já velhinha, sentar-se em sua cadeira de balanço e ficar pensando na vida. Em tudo o que já havia vivenciado ao longo de tantos anos. Em suas dores e em seu amores. Depois, começava a dar beliscões nos braços para sentir se ainda estava viva e se era ela mesma quem tinha passado por tudo aquilo...

          Lembrando desse episódio, resolvi folhear os diários amarelados pelo tempo, que escrevi durante 23 anos, de 1982 a 2005. Comecei escrevendo diariamente. Depois, um resumo a cada mês e nos anos finais, um registro dos acontecimentos mais marcantes. Há fatos interessantíssimos.

O título dessa crônica poderia ser “Diários de uma esposa”, enfocando o relacionamento com o Zé, meu finado marido.  Existem anotações assim: “É impossível conversar com o Zé, ele só quer saber de futebol. Neste final de semana, foi a cinco jogos e assistiu mais três na TV”(11/04/1982).

Poderia também se chamar “Memórias de uma professora de Biologia”: “ Hoje tive que  ministrar três aulas teóricas porque não consegui as sanguessugas para as aulas práticas (23/04/1982)”. Jesus, lembrei-me de que colocava iscas em tanques de peixe para coletar esses anelídeos...

Ou poderia ser: “As confusões de uma família”, como no dia 26/03/1982, quando anotei : “Fui assistir ao show do Ivan Lins com a Karine e o Vinícius. A Karine “puxou o ronco” na hora do show. O Luiz Cláudio ficou sozinho tomando conta da casa, trancou tudo e dormiu. O Zé chegou, tocou a campainha, gritou, esmurrou a porta e ele não acordou. Teve que arrombar a janela do nosso quarto”.

Optei por abordar os causos dos filhos, acontecia de tudo. Por exemplo, nesse mesmo diário de 1982, eu com 33 anos; o Vinícius com 11; o Luiz Cláudio com 10; a Karine com 9; a Thaís com 7; e o Paulo Márcio com 5.  

Logo no início do ano, o drama da Karine. Ela estudava na escola Pollyana e eu a transferi para a E.E. Enéas Guimarães. Já acordava chorando para não ir à aula; daí a Thaís dizia que também não iria. Eu empurrava as duas para o carro; chegavam na escola e não desciam; eu voltava e as colocava de castigo. No dia 25/02/82, escrevi, entre outros assuntos: “Fui com a Karine para a escola e fiquei duas horas sentada na escada para ver se ela se acostumava na sala; não queria me deixar ir embora”.

Em março, várias anotações sobre o Paulo Márcio, que também não queria ir para a escola porque tinha medo de que eu o esquecesse por lá (um dia esqueci mesmo). No dia 10/03: “À noite, a luta para os cinco fazerem os deveres de casa, o Vinícius chorando porque perdeu o estojo e a Thaís emburrada”.

Nesse mesmo mês, eu na UFU dando aulas, telefonam da escola dizendo que a Thaís estava com catapora. Escrevi, no dia 16: “Já acordei cansada. Deitei tarde e não dormi direito; a Thaís chorou. Ela dormiu na minha cama e eu, no colchão no chão” .

Depois, no dia 17, anotei: “A Thaís está tristinha e apaixonada com a catapora. Disse que está achando bom só porque o Paulo Márcio não está batendo nela, pois ele tem medo de pegar catapora. Mas daí ele disse que vai dar um soco bem rápido nela”.

                Acabou que ele pegou catapora mesmo e também a Janaína, a amiguinha da Thaís.  E, no dia 18/04, o Paulo Márcio armou uma armadilha para derrubar a Thaís quando ela fosse apertar a campainha.

Lendo apenas quatro meses desse ano, é possível entender minha correria em dar e preparar aulas, levar as crianças para todo lado, socorrer nas doenças, nas brigas e nos deveres, ser dona de casa, participar de vários projetos universitários. Algumas frases anotadas: “Hoje o Luiz Cláudio perguntou por que não fico sendo apenas dona de casa’; “Fiquei em casa de manhã, o Paulo Márcio fica todo feliz, aproveita e não sai de perto de mim. E daí vem aquela dor de consciência de ficar tanto tempo longe dos filhos, mas fazer o quê...”

Bem, li apenas um pouco do primeiro diário- cansei só de ler.  “Pulei” vários anos e fui folhear o começo de 1999, quando o meu sexto filho, João Lucas, estava com quase cinco anos.

 Encontrei a descrição deste fato: “Aconteceu uma reunião na escolinha onde o João Lucas estuda, e as mães reclamaram que os filhos estavam aprendendo palavrões na escola. Concordei com isso, pois lá em casa ninguém falava palavrões e o João Lucas começou a falar. Por exemplo, o Zé outro dia estava assistindo ao programa da Tiazinha na TV, ela com um chicotinho e um collant preto com ligas. O João Lucas entrou na sala, olhou e disse: - Pai, olha a perereca dela! E o Zé, bravo: -Olha o quê?  E o João Lucas: -Ah, não, olha o cu dela! Piorou...”

 E muitas outras anotações interessantes e engraçadas sobre ele, como quando estava concentrado ouvindo, na TV, uma moça informando as condições meteorológicas- chove aqui, faz sol ali etc- e ele, indignado: -Por que esta moça sabe tudo e eu não sei?

 Ou então as perguntas difíceis que ele fazia, nessa idade:- O Deus sonha? Índio escova dente? Porque ladrão não trabalha? Mãe, o que é canela? E depois que expliquei direitinho sobre a canela (casca de árvore), ele perguntou: - Então, o que é “bati a canela”?

Enfim, nos diários dos últimos anos, há anotações sobre os filhos adolescentes, depois universitários, casados... Os primeiros namoros, as festas, as alegrias e dificuldades na universidade, as viagens, os casamentos... Daria uma enciclopédia, com muitos volumes.

Concluindo, fiquei impressionada com tantas coisas que já vivenciei e de que nem lembrava mais. Agora, vou sentar na cadeira de balanço que herdei da minha mãezinha querida e também vou me beliscar e perguntar –Santo Deus, será que fui eu mesma quem passou por tudo isso?

                            

 

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A história da Tim

                                                                            Tim
                                                             A casa da Tim
                                           Atravessando o rio São Francisco de balsa: Tim, uma amiga e eu

É preciso escrever sobre pessoas que são gente de verdade. Pessoas que semeiam paz e luz onde estão, que enfrentam desafios com garra silenciosa, que vivem uma vida humilde -mas cheia de grandeza- e que representam um Brasil que muitos desconhecem. Registrar suas histórias, suas forças nunca celebradas, mas que, ainda assim, importam. Por isso escrevo sobre Tim.

Lucilene Atanásio dos Santos, carinhosamente chamada de Tim, nasceu em Gongogi, interior da Bahia. É a décima primeira entre 14 filhos de Elizabeth. A mãe tinha nome de rainha, mas jamais teve qualquer honraria. Os filhos nasceram todos de parto normal, no mato ou na casinha de chão batido, às vezes com parteira, às vezes sem ninguém. Três morreram ainda na infância; dois, já adultos.

Hoje, aos 44 anos, Tim é pequenina- mede 1,30 m.  Robusta, de braços e pernas fortes, pele muito negra, olhos bondosos e bonitos, sobrancelhas espessas. O cabelo, sempre esticado, preso e enfeitado. Um sorriso largo, mostrando os dentes muito brancos. Mora na comunidade quilombola de Ambuba, no meio da mata, na península de Maraú, numa casa simples com paredes de barro.  Os pais já faleceram. Sem água encanada, sem energia e com fogão à lenha.

Conheço Tim há muitos anos. É irmã de Djalma, pai dos meus três netos baianos.  Recentemente, passou uma semana em minha fazenda e perguntei se poderia escrever sua história. Gostou da ideia.  Sentada à mesinha, debaixo de um pé de baru, foi contando sua vida. Disse que a bisavó materna fora encontrada e capturada no mato. Já o avô paterno possuía terras em Ambuba; um dia partiu e deixou tudo para Antônio, seu pai. Esse distribuiu um pedaço de terra para cada filho, menos para ela (no quilombola, ninguém tem escritura, chegaram e ficaram).  Quando a mãe era viva, todos comiam junto. Mãe e filha cozinhavam para 8, 10 pessoas, buscando água no rio (Tim chama de fonte). Hoje, três irmãos   trabalham por lá extraindo borracha no seringal e almoçam com ela.

 Acorda entre quatro e cinco horas. Varre a casa e o quintal, depois acende fogo para cozinhar feijão com carne seca, arroz e mandioca, sempre acompanhados de farinha.  Alimentam-se também dos frutos da região: cacau, coco, dendê, manga, banana. Alguns da família têm os dentes da frente gastos de tanto rasparem o coco do dendê.  Vai a Maraú apenas uma vez por mês fazer compras, numa canoa com motor, acompanhada por um irmão. Na volta, carregam tudo morro acima. Com uma risadinha curta e gostosa, conta que, se o alimento acaba antes do fim do mês, há o mangue para ajudar. Pescam algum peixe, caranguejo, guaiamum, siri, camarão- pitu. Não cultivam verduras, pois falta água. Passou a vida carregando lata d’água na cabeça: meia hora para descer ao rio, meia hora para subir. Conta, alegre, que a vida dela melhorou muito, pois um irmão instalou placa solar; agora ela tem água corrente para beber e cozinhar, mas continua indo ao rio para tomar banho, lavar as louças e a roupa. A energia solar chega das 18h às 20h.  Nesse intervalo, assiste às novelas “Êta mundo melhor” e “Coração acelerado”, da Globo. Perguntei se entendia o enredo todo, disse que não, que gosta mesmo é das roupas dos personagens e de um casal que canta junto, aprecia as músicas. Completou que agora tem celular para enviar e receber áudios e que não usa mais candeeiro, agora pode comprar velas. Conseguiu, depois de muitos anos tentando, um auxílio do governo. Disse que, quando a mãe era viva, usavam candeeiro. E quando o óleo para acender acabava, faziam uma fogueira no meio da casa para iluminar. Está contente porque agora acende velas.  

Continuando a conversa, perguntei sobre os estudos. Contou que frequentou a escolinha de Ambuba por cerca de oito anos. Caminhava quarenta minutos por uma trilha no mato até chegar. A professora, Ildete, ensinava alunos de várias idades na mesma sala. Quando aprendeu um pouco, aos 12-13 anos, passou a estudar em Maraú. Ia de barco, juntamente com outros alunos. Saia de casa às quatro e meia da madrugada e chegava à escola às sete e vinte. Viveu assim por muitos anos, parou de estudar aos 30 anos. Sempre começava e desistia.  Concluiu a quinta e a sexta séries, não terminou a sétima. Perguntei se sabia ler, disse que lê e escreve um pouco. Perguntei também se sabia as quatro operações matemáticas, respondeu com um risinho maroto, que dependia da conta...Disse que os professores eram bons, explicavam bem; o problema era ela- “dava um branco na cabeça e eu esquecia tudo”.  Na sequência, perguntei porque ela era assim tão pequenina.  Respondeu que um médico lhe dissera que ela era “infantil”. Parece que ficou satisfeita com a resposta e nunca se preocupou com isso, nem a família, vida que segue. Talvez tenha a síndrome de Turner, condição genética que afeta apenas mulheres; ocorre quando há uma ausência total ou parcial do cromossomo X e pode causar baixa estatura e ausência de menstruação. Mas Tim não sabe disso e nem imagina o que seja um cromossomo...Perguntei se já teve namorado, se é feliz, se tem algum sonho.  Rindo, respondeu que nunca teve namorado; nunca pensou nisso. “Sou só eu mesma”. É feliz sim.  E já realizou o sonho de viajar, sair um pouco de Ambuba. No ano passado foi sozinha para Joinville - quase três dias de ônibus-onde ficou três meses na casa de um irmão. E agora veio para a fazenda, já conhece Uberlândia, Ilhéus, Itabuna, Serra Grande, está bom. Rimos quando lhe disse que nunca vi alguém gostar tanto de varrer casa e quintal como ela.  E de lavar roupas, é impressionante.

Sem pressa de nada, Tim às vezes fica parada, quieta, parecendo meditar, sentada em algum canto ou olhando para o céu. Nunca reclama de nada, não discute com ninguém, está sempre de bom humor, limpinha e arrumada, pronta para trabalhar e ajudar.  Em sua simplicidade- e no desconhecimento de tanta coisa que existe neste vasto mundo- Tim tem uma rara serenidade. É uma paz estar perto dela. Acende velas para iluminar sua casinha, mas ela mesma é luz. Não nasceu para brilhar nos palcos: pequena como uma chama, nasceu para clarear caminhos.

 

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Natal, Réveillon e muito mais

 

                                          

                                                    Presépio da Catedral Santa Terezinha- Uberlândia

Terminado mais um ano, fica a frase:  “Adeus ano velho; a Deus ano novo”.  Como escreveu Drummond, quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial. Industrializou a esperança, criou o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que tudo será diferente.  

Assim, aqui estamos todos no começo da fatia de 2026, no tempo depois do Natal e do Réveillon. Depois de comemorar, presentear e ser presenteado, agradecer pelo Menino Jesus que se deu de presente para nós, lembrar dos que se foram e abraçar os que ficaram, realizar atos de bondade e compaixão pelo próximo, fazer promessas para o ano que se inicia. Depois de receber inúmeras mensagens que circularam nas redes sociais. No Natal, mensagens com luzes piscando, anjos voando, estrelas saindo de dentro de um envelope com o seu nome. Impressionou-me a mensagem de um bebê bonito e rechonchudo falando fluentemente da beleza do Natal, com uso da IA (fiquei com medo do bebê).  Outra “sui generis” que recebi foi do Papai Noel a cavalo tocando um rebanho de vacas nelore todas com gorro vermelho, adorei. Algumas mensagens com dizeres curtos e emocionantes: “Afinal, tudo são luzes e a gente se acende é nos outros”.  Ou então: “Naquele dia, fazia um azul tão límpido, meu Deus, que me sentia perdoado pra sempre. Nem sei de que”. Também surgiram aquelas bem humoradas, como o vídeo de um senhor de meia idade explicando como é o Natal : no dia 24 tem uma ceia; no dia 25 esquenta-se o que sobrou; no dia 26 faz-se uma farofa do chester; no dia 27 uma sopinha com o restinho de tudo.                                                                                                                                                                                                                                          Já no Réveillon, circularam mensagens de champanhe estourando, fogos pipocando, textos bonitos,  promessas de emagrecimento e outras, orações de agradecimento a Deus pelo ano que passou. Gostei de uma assim: “O que quer que o ano novo lhe traga? Nada. A única coisa que quero é que não leve. Que não leve o teto que me protege, o prato que me alimenta, a manta que me aquece, o sorriso dos meus amados, a saúde como um tesouro, a companhia, os abraços, os beijos.”   

As comemorações também são interessantes. O tal de “amigo da onça”, quando cada um escolhe um presente embrulhado e depois pode trocar, e cujo objetivo maior é treinar o desapego, sempre dá confusão. O meu irmão certa vez ganhou um pijama. Um outro quis trocar por um jarro, mas meu irmão se negou a entregar o pijama, deu briga e acabou a brincadeira.  Também existe o “amigo oculto”, que pode gerar discórdia quando o valor dos presentes é muito discrepante, daí muitos ficam emburrados. Ou o amigo é tão oculto que a pessoa esquece quem é. 

Por falar em esquecimento, organizei no Natal, no meu apartamento, uma confraternização para oito amigas de longa data, desde a época do curso de Biologia na UFU, as sobreviventes da primeira turma. Idosas, animadas e esquecidas. A primeira que chegou já disse: “Ih, esqueci o presente!” Outra perdeu uma unha postiça, nunca mais encontrou. E eu, que tinha arrumado tudo com esmero e carinho, inclusive borrifado perfume no apto todo, esqueci as torradas no forno. Torrou mesmo. O apartamento ficou todo enfumaçado, cheirando (fedendo) queimado... Outra, na saída, foi buscar o carro para dar carona para a amiga. Foi e não voltava. Chegou cansada, estava procurando o carro na rua errada, tinha esquecido onde estacionou! Ah, e quando tudo sossegou, tarde da noite, tocou o interfone. Era uma delas, tinha esquecido a bolsa , o celular e o presente no sofá... Resta o consolo que esquecimento não é problema só de velhice . Por exemplo , um dos meu filhos,  novo e saudável, esquece  tudo. Dia desses, chegou para almoçar comigo trazendo um saquinho de remédios. Na saída, não encontrou a chave do carro. Desapareceu . Depois de muito procurarmos, ele  chamou um Uber, pegou o saquinho de remédios e lá se foi. No dia seguinte, voltou com a chave reserva e levou o carro. Dias depois, foi tomar um remédio do saquinho. Surpresa: a chave do carro estava lá dentro! Foi ele mesmo quem elaborou um plano: como sempre esquecia as coisas pra trás, se deixasse a chave junto com os remédios, quando fosse pegar a chave, lembraria dos remédios! Só que esqueceu onde colocou a chave...

Mas, voltando ao Natal e ao Réveillon, no momento da comemoração do Natal com minha família, todos colocaram uma estrelinha aos pés do Menino Jesus e fizeram um agradecimento ou um pedido. A minha neta de 14 anos, Maíra, pediu: “eu quero me transformar em uma pessoa melhor”.  Quem sabe nesse novo ano a gente também se transforme para melhor. Em gente mais humana, que saiba sonhar, ter esperança, ser luz. Gente de verdade, que saiba fazer valer a pena o tempo que passamos aqui neste mundo de Deus.  Para que a passagem de ano não seja apenas uma mudança no calendário...

Enfim, comecei citando Carlos Drummond de Andrade e termino com uma frase dele : -“Para você, desejo todas as cores desta vida, todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar.”

Feliz 2026 para todos!