A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sábado, 8 de julho de 2023

Visitando a Turquia Parte 3- Pumakkale, casa de Maria, Éfeso e Chios

                                                                 O teatro em Hierápolis
                                                               Nas piscinas de Pumakale
                                                      Na casa de Maria
                                                     A biblioteca de Celso em Éfeso


          Logo após o passeio de balão, entramos no nosso ônibus e seguimos para Pamukkale. Foram dez horas de viagem, passando por cidades pequenas, com prédios baixos, padronizados, de cores neutras.  O novo guia era o Ricardo. Claro, olhos azuis, tranquilo, de meia idade, falava sete línguas. Às vezes se confundia, como quando falou: "Atenção, damas e camelos!" Falando em línguas, li em propagandas e  nas ruas várias palavras turcas parecidas com o português, como polis (policia); kursu (curso); pastaneleria(pastelaria); taksi (táxi); tunelli(túnel); sandiviç (sanduiche). Mas é impossível entender algum turco falando.

             Confusões de línguas à parte, no caminho fizemos uma parada. A Genoveva  (minha amiga que tem nome de santa) e eu, aproveitamos pra visitar o Sultanhani-Kervansaray, uma construção enorme, quadrada, com portão gigantesco. Uma antiga pousada para camelos e seus donos, um tipo de hotel do século XVIII. Existiam a cada 30 Km, por toda a Turquia, pois um camelo só conseguia andar esta distância em um dia.

            Mas nós não, e continuamos viajando. As paisagens ao longo da estrada eram maravilhosas. Campos e campos de trigo; plantações de romã, de figo, de pêssego; oliveiras; viveiros de morango. Tudo muito verde, com rebanhos de ovelhas no meio e cavalos. Estradas em perfeito estado de conservação, sem buracos nem solavancos. Torres de energia eólica, com os braços girando lentamente. Enquanto isso, alguns dormiam de roncar dentro do ônibus e outros ouviam o Ricardo falar dos mares, dos lagos salgados, dos rios, da indústria, do comércio, das importações e exportações ...

            Chegando, dormimos o sono dos justos no Hotel Richmond, quatro estrelas. No dia seguinte, fomos visitar o complexo Pumakkale- Hierapolis, um Patrimônio da Humanidade. De um lado, as ruínas de Hierapolis, cidade construída durante o império romano e do outro, as piscinas termais- de origem calcária- de Pumakkale. Vimos o teatro, dos séculos II e III, conservado e na forma de um semicírculo. Ao longe, via-se o local onde está a tumba do apóstolo Felipe e onde ele foi martirizado.  Depois, a piscina térmica de Cleópatra, com sua estátua, árvores e  colunas em volta, onde as pessoas compram ingresso e podem nadar. Indo para o outro lado, mais elevado, nos  deparamos com uma sequência de piscinas com chão branco de carbonato de calcio solidificado em mármore travertino, com águas azuis e quentinhas. Centenas de pessoas descalças caminhando entre elas e crianças nadando. Em volta, muitas rochas brancas, um cenário incrível. 

            À tarde, aproveitamos para nadar na piscina de água quente do hotel e no outro dia seguimos para Izmir. Foram 3,5 h até chegar no alto de uma colina, na casa da Virgem Maria, onde ela teria vivido com o apóstolo João. Uma casa de pedras com dois cômodos, um altar, um local para comprar velas. Uma fila enorme de pessoas entrando na casinha por uma porta e saindo por outra. Algumas se emocionavam e choravam. Do lado de fora, muito verde, paz e tranquilidade. Uma oliveira onde as pessoas tiravam fotos, fontes de água benta, um local para acender as velas. Um muro onde os visitantes amarravam papéis com pedidos e agradecimentos à Virgem. Muito a agradecer mesmo, só de estar ali já era uma uma benção.

            Na sequência, rumamos para Éfeso. Almoçamos no caminho por 10 dólares, comida  à vontade e saborosa. Paramos em uma fábrica de couro que era um luxo,  um deslumbre. Nem sabia que existia tanta coisa bonita em couro...Fizeram um desfile para nós, serviram vinho e chá, convidaram dois do grupo para desfilar. Em seguida, abriram as portas de uma loja imensa e nos perdemos entre tantas peças coloridas, de qualidade e caras. Na promoção, uma blusa de couro preta de homem saia por 300 dólares. Pechinchando, talvez um pouco menos.

            Chegamos em Éfeso, uma cidade que foi fundada quatro vezes. A primeira, por mulheres Amazonas, 2.000 a.C. , num local onde hoje está o túmulo de São João Evangelista. A segunda, por atenienses, 1.500 a.C; a terceira, por Lisímaco, um general do Alexandre, o Grande, 280 a.C., hoje o sítio arqueológico e local turístico que visitamos. A quarta cidade durou até 1.300 d.C e foi importante para o cristianismo. São Paulo viveu dois anos nesta cidade e nela escreveu muitas cartas. Era a quarta maior cidade do mundo naquela época: Roma, Alexandria, Antioquia e Éfeso. Ao longe, avistamos , no alto de uma colina,  as ruinas desta quarta cidade, onde São Paulo teria ficado preso.

            Andamos a tarde toda pelo sítio arqueológico e vimos as três atrações principais:  o Templo de Artemis, com a estátua da deusa;  a Biblioteca de Celso, imensa, chegou a guardar 12.000 pergaminhos, é toda de mármore e só tem a fachada, o restante foi destruído; e o Grande Teatro, onde lutavam os gladiadores e comportava 25.000 pessoas.  Há muitas outras ruinas, algumas bem conservadas: as Termas Romanas, o Palácio da Justiça, o Caminho da Vestais, o Templo de Adriano. O caminho de Mármore, com pedras enormes e escorregadias. As casas da população nobre, com mosaicos, afrescos e pinturas. E as latrinas públicas daquela época,  interessantes demais:  um quadrado grande, com uns 30 vasos enfileirados um ao lado do outro, acima de um pequeno canal onde corria água e levava as fezes para o esgoto da cidade. No meio, uma fonte, para abafar os barulhos característicos. O cemitério dos ricos, com vários mausoléus. O que mais me impressionou foi o Grande Teatro. Ainda hoje é usado para alguns shows, como o de Elton John. Enfim, um lugar fascinante pela sua história e grandiosidade.

            Cansados, entramos no ônibus e dormimos em Kusadasi, no Hotel Signature, com uma linda vista para o mar Egeu. Chegamos justo na hora do por do sol e foi lindo ver o sol se pondo sobre o mar .

            Continuando a saga, fomos para a ilha grega Chios. Duas horas de ônibus por uma rodovia com canteiros centrais com espirradeiras floridas na cor rosa. No porto de Çesme, entramos numa balsa e navegamos 40 min pelo Mar Egeu e mais uma hora de fila no controle da imigração. A guia grega, Despina, nos esperava. Tiramos fotos ao lado de quatro moinhos de vento e almoçamos carne de porco (na Grécia pode). Fomos para a vila de Mesta e a Despina  foi explicando sobre a Grécia: tem 11 milhões de habitantes, 2.000 ilhas e Chios é a quinta em tamanho, com 55.000 habitantes. Falou dos filósofos gregos, da mitologia, de Homero, do mar Egeu, da salada e churrasco grego, da produção de azeite de oliva. Das estátuas gregas fortes, musculosas e com pênis pequeno, que mostram força e virilidade sem destacar a parte sexual.  Contou que Chios é a única ilha onde se cultiva a mastica, exportada para 45 países e usada na fabricação de cremes, pasta de dente e outros.

            Chegando à vila de Mesta, andamos pelas ruas labirínticas da época bizantina e visitamos uma igreja ortodoxa cristã , com lustres de cristal imensos e com os Arcanjos Gabriel e Miguel representados em muitos quilos de prata. Uma vila pequenina, do sec. XIV, cercada por grandes muralhas e com 165 moradores. Desta vila, partimos para outra, Pyrgi, chamada de Aldeia Pintada porque as casas possuem arte em grafite preto e branco. Os moradores idosos deixam a chave do lado externo da porta, porque têm medo de que aconteça algo com eles e ninguém os encontrem. Depois disto, voltamos para o barco. As duas vilas são interessantes sim, mas esse passeio não compensa, é muito longe e resta pouco tempo pra conhecer a ilha.

            No domingo foi a volta para Istambul, levantamos às 5 da manhã, oito horas de ônibus. Paramos em Bursa, a quarta maior cidade do país e com dois milhões de habitantes. Visitamos uma das mais belas mesquitas da Turquia. E também o Mercado da Seda, com 3 andares e mercadorias luxuosas, lindas e coloridas. No caminho até Istambul, o Ricardo falou de diversos aspectos da Turquia: 84 milhões de habitantes ,  formada por diferentes povos,  várias culturas e várias religiões. A taxa de desemprego é muito alta; apenas 10% possuem curso de graduação e muitos graduados estão desempregados; apenas 2 % do orçamento familiar é gasto em educação ; 9 % falam outra língua; há muitas mulheres analfabetas; a inflação disparou e está em quase 80%. Dados tristes para um país tão bonito e tão hospitaleiro.

            No último dia, no ônibus, na ida para o aeroporto, a Synai fez uma oração agradecendo a viagem e as amizades conquistadas. A Raquel cantou a Ave Maria. A Mônica, Secretária de Cultura de Uberlândia, ressaltou a necessidade de conhecermos e participarmos mais da vida cultural da nossa cidade. Em todos, ficou aquele sentimento de despedida de uma coisa boa que ficou para trás.

            Enfim, foram muitas as experiências. De pessoas boas, fazendo gestos de bondade, como a Lílian, que me emprestou o xale de cashmere , quando perdi minha mala e estava com frio. A Pamela e o Vanilson, sempre tão solícitos e com vontade de ajudar. De conversas agradáveis , como da Genoveva. Conversamos tanto que, em São Paulo, de pernas pra cima e relaxadas porque chegamos ao querido Brasil, perdemos o voo pra Uberlândia! Daí ficamos a tarde toda no aeroporto e resolvemos classificar a turma da excursão. O motorista foi eleito o mais bonito. Teve também o mais comunicativo, o mais atrasado, a mais charmosa, os mais reclamadores, os mais comilões e daí por diante.

            Depois de tudo, termino com um trecho da Oração do Turista: "... e quando a viagem terminar, dai-nos a graça de encontrar alguém que queira ver nossos filmes, nossas fotos e ouvir nossas histórias, para que nossa vida de turista não seja vivida em vão. Amém"


            

 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Visitando a Turquia Parte 2: Capadócia: Goreme, monastério, safari, passeio de balão

                                                      Vista do mirante em Goreme
                                                      Monastério
                                                      O passeio de balão

                                                      A paisagem vista do balão


             Fomos de avião de Istambul para a Capadócia, uma região da Anatólia Central. As malas deveriam ir no ônibus da excursão, com o qual visitaríamos vários locais. Acontece que o Arhmed, o primeiro guia, aprontou a maior confusão quando foi buscar as malas no hotel.  Ninguém quis entregar, apenas um grupo que tinha chip dentro da mala (nem sabia que existia) e poderia acompanhar a viagem. Daí, na troca desencontrada de informações e dificuldades da língua, justo a minha mala e da minha amiga, companheira de quarto, ficaram esquecidas no hotel. Nós duas tínhamos preparado tudo direitinho, as roupas combinando, cada dia um conjunto. Ficamos três dias com a mesma roupa, até as malas aparecerem. A minha amiga até queria usar a saia do avesso , pra variar...

            Bem, confusões à parte, levamos o dia todo para chegarmos na Capadócia, embora o voo fosse de apenas uma hora. Desembarcamos em Kacire e fomos recebidos pelos guias Maria, brasileira, e o esposo turco, Savas. Ela maranhense, bonita, agradável e elegante numa calça preta de couro, blusa vermelha e chapéu. Fomos no ônibus para o hotel Alf, em Havana, uma cidade com muitas fábricas de cerâmica.  Esse hotel não era bom, era feito de pedras para se harmonizar com as outras edificações. Os quartos tinham cheiro de mofo e várias pessoas tiveram alergias e dor de cabeça. Aliás, sempre tinha alguém sentindo alguma dor: no nervo ciático, na coluna, no joelho, no pé; dor de barriga, dor de garganta (mas dor de dente, não). Também sempre tinha alguém perdendo alguma coisa: celular, garrafinha d´água, óculos, sacola com todas as compras do Duty Free...Mas o recorde penso que foi meu: perdi meu passaporte português (mas encontrei), perdi a mala (mas apareceu) e perdi o voo de São Paulo para Uberlândia (mas cheguei sã e salva).

            Voltando à excursão, saímos cedo no ônibus e atravessamos paisagens de origem vulcânica. Muitas montanhas e rochas claras, bem bonito. Paramos em um mirante com vista para o Parque Nacional de Goreme, uma vista de tirar o fôlego: centenas de rochas claras, na forma de cones, torres e chaminés de fada, esculpidos pela erosão, parecendo uma paisagem lunar. No meio delas, ao longe, viam-se vários hotéis de pedras e casinhas escavadas nas rochas. Ninguém mora no local, é só turístico e patrimônio da humanidade. Tiramos fotos e mais fotos. E compras, nas lojas estrategicamente situadas nos locais turísticos.

            Do mirante, seguimos no ônibus para visitar o Monastério, o segundo lugar mais visitado da Turquia (o primeiro é a Mesquita de Santa Sofia). O Monastério é um grande museu a céu aberto, com casinhas nas rochas para as freiras, de um lado, e   para os monges, do outro. Igrejinhas dentro das rochas, com pinturas coloridas: Igreja de São Jorge, de Santa Bárbara, da Maçã, escavadas entre o séc. VIII e XIII. O guia ia explicando que os cristãos lá chegaram nos sec. II e III, eram perseguidos e tinham que se esconder para rezarem. Falou dos governadores Augustus, Maximiliano, Emiliano; de Constantino... Séculos e séculos de história, não é possível aprender correndo atrás do guia, se desvencilhando das centenas de turistas e tentando observar os monumentos. Confundi tudo. Mas me maravilhei com a pintura da Santa Ceia, com os apóstolos com sandálias delicadas de tirinhas amarradas. Entramos no ônibus e o guia continuou explicando: já passaram 13 nacionalidades na formação da Turquia; a terra vulcânica é muito bem aproveitada; existe muito comércio de pedras preciosas, como  de turquesa; 36 sultões governaram a Turquia na era Otomana; passou a ser República Tcheca em 1923; Capadócia significa a terra dos belos cavalos, etc. Aliás, vimos muitos cavalos pelo caminho. Ovelhas também. Porco, nem pensar. É proibido comer carne de porco na Turquia. Mas,  boi e vaca, será que não existem por lá? Não vi nenhum.

            Paramos em uma fábrica de joias. Serviram vinho e chá de romã e mostraram joias com a pedra sultanita, que muda de cor conforme o ângulo. Os sultões presenteavam suas amadas preferidas com esta joia. Alguns homens da excursão aproveitaram a história, compraram joia para a esposa e se declararam para elas, ao som dos aplausos da plateia. Também visitamos uma fábrica de tapetes. Maravilhosos, tecidos à mão. Nos sentamos em um grande salão, bebemos chá e vinho e desenrolaram, com grande habilidade, dezenas de tapetes para ver se alguém comprava.

            Depois, paramos em um restaurante imenso com comida gostosa: abobrinha e pimentão recheado, carneiro, coalhada seca, doces divinos...O melhor é que foi grátis. Aliás, as bebidas eram pagas: uma cerveja, 160 LS (liras turcas; 40 reais) e uma coca, 50 LS (12 reais). Ganhamos o almoço como cortesia da empresa de turismo, se desculpando por causa das confusões do guia Arhmed.  

             Do almoço, saímos direto para jeeps quatro por quatro, para participar de um safari. Quatro pessoas em cada veículo, podendo ser com emoção ou sem emoção. O motorista, um turco bonito que com certeza já tinha feito plástica no nariz, não explicava nada, pois só falava turco.  E o safari não era para ver bicho não, só se fosse gato, pois havia gatos em profusão em todo local turístico, comendo salame que as pessoas levavam. Era para ver "three points: first, second, third", andando em  estrada lamacenta, esburacada e escorregadia, debaixo de chuva forte e frio intenso (pra andar em estrada lamacenta, ando na Bahia mesmo,  quando vou na casa da filha). No " first point", não deu nem pra descer do jipe. No "second point", paramos em um mirante e tiramos fotos de uma paisagem bonita, com rochas vulcânicas brancas. No "third point", paramos em um local alto pra tomar café, todos tiritando de frio. Não gostei deste safari... Talvez seja porque pedimos sem emoção.

            Á noite, fomos para uma casa de festas, com bebidas á vontade e alguns aperitivos. Teve várias apresentações de danças.  Uma bailarina, que dançava muito bem e com um gingado especial, era bem desinibida e sabia se entrosar com a plateia. Chamava pessoas que estavam assistindo, para dançarem a dança do ventre com ela . Demos boas risadas ao ver como os homens eram desengonçados para imitá-la. Foi a atração do show.  

            No dia seguinte, acordamos às 4:00 h para  o famoso passeio de balão (por 275 dólares). Muitos carros levando turistas, mas tudo bem organizado. Primeiro esperamos ao lado do nosso balão até ele ficar cheio. Usam o gás propano. Uma moça, a baleeira, e um ajudante, ligavam e desligavam o fogaréu . Dentro do balão o ar precisa estar mais quente do que o ar externo, para ficar mais leve que o ar e subir. Tudo pronto, entramos 20 no cesto e lá ficamos, apertadinhos. Subir na cesta é difícil, quase como ficar no alto de um muro  pensando se pula ou não.  É muito lindo olhar as terras vulcânicas esbranquiçadas, lá do céu, parecendo paisagem lunar. O sol nascendo, cerca de 130 a 150 balões colorindo o céu, cidades pequeninas passando devagar, gratidão por estar ali naquele momento. Depois de uma hora , a baleeira foi diminuindo o fogo e não sei como, a  cesta com todos nós pousou exatamente em cima de um tablado  puxado por uma camionete que estava seguindo o balão. Aterrissamos em um local com barro e tivemos que andar bastante até chegar no carro.   Valeu o passeio, as emoções , a beleza e a paz lá no céu.

            No próximo e último capítulo, tem muito mais:  visita à casa de Maria, às ruínas de Éfeso e à uma ilha grega. 

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Visitando a Turquia Parte 1: Istambul

                                            O grupo na chegada em Istambul
                                                     Passeio no Estreito de Bósforo
                                                      A Mesquita Azul
                                                      Café no bairro Taksin
                                                      Ouro no Gran Bazar


             No último mês de maio estive na Turquia, com um grupo de vários casais e mulheres . Foram 12 dias de aventuras, andanças, emoções, cansaços, comilanças, conversas agradáveis e novos conhecimentos. E muitas historias para contar.

            De São Paulo a Istambul são 12 h de voo, mais o tempo de espera nos aeroportos, os atrasos, a diferença de fuso horário ( lá são 6h a mais que no Brasil). Saímos em um dia e chegamos na noite do outro, exaustos. E ainda demoramos a encontrar, no aeroporto que é o maior da Europa, o turco que falava português e que seria o nosso guia, o Arhmed. Começamos a visita, na manhã seguinte,  com um tour de ônibus pela cidade e com outro guia, o Mehmet. Um turco de olhos azuis, que falava depressa, "puxando o xis", pois aprendeu a falar português em uma favela no Rio. Disse que 10% dos turcos têm olhos azuis por causa dos cruzamentos com os russos.  Contou que Istambul tem 16 milhões de habitantes, é banhada por três mares- Egeu, Mediterrâneo e Negro- e pertence a dois continentes, 97% na parte asiática e 3% na parte europeia. As partes são ligadas por enormes pontes, a primeira inaugurada em 1973. Passamos da parte histórica da cidade para a parte moderna e entramos em um barco para um passeio no Estreito de Bósforo. Esse estreito tem cerca de 33 km de extensão, liga o Mar Negro ao Mar de Mármara e tem grande valor estratégico. O nome significa "passagem do boi" , em referência a uma jovem da mitologia grega que era amada por Zeus e foi por ele transformada em boi (céus, que amor era esse? ).

            Enquanto íamos navegando, todos com cabeças enroladas em xales ( não por fé em Maomé, mas de frio mesmo), vimos mesquitas ( templos islâmicos) pra todo lado, com suas tradicionais torres altas- os minaretes- e as cúpulas. Existem cerca de 3.000 em Istambul. Bandeiras da Turquia de todo tamanho, vermelhas, com uma lua crescente e uma estrela. O guia explicou que depois da queda da cidade de Constantinopla, em 1453, o nome foi mudado para Istambul. E que o turco conquistador chamava-se Mehmet, o mesmo nome dele! Ia mostrando as construções da época do período romano, bizantino, otomano ( mas fui confundindo tudo). Explicou que o fundador do Império Turco -Otomano foi o sultão Othman, daí o nome.  Vimos um palácio transformado em hotel, com diárias de 10.000 a 30.000 euros; outro hotel lindo, o Mandarim, um dos mais famosos do mundo; várias construções dos séculos XVI e XVII; um palácio de 1850 transformado em museu; a réplica de um navio de guerra com helicópteros e turistas visitando. Dos dois lados do estreito, havia restaurantes e barcos com cúpula dourada.

            Depois do barco, fomos visitar a Mesquita de Santa Sophia, a mais antiga da Turquia, a que serve de modelo para as outras e o lugar mais visitado do país. Foi construida entre 532 e 537, no império Bizantino, para ser a Catedral de Constantinopla, depois transformada em mesquita. Todos que entram tiram os sapatos (senti odor de chulé dentro da mesquita) e as mulheres cobrem a cabeça. Na sala de oração, os homens ficam de quatro e beijam o chão. Para adorarem o Deus Alá, os muçulmanos precisam orar ao menos cinco vezes por dia. Podem orar sozinhos, mas a oração comunitária na mesquita é considerada mais eficaz. As mulheres podem orar em qualquer lugar, mas não nas mesquitas, para não distrair os homens. Antes da oração, lavam as mãos e os pés, precisam estar limpos. E se entre uma oração e outra, tiverem tido relações sexuais, precisam tomar banho (foi o guia quem contou). As mesquitas- e as orações- são orientadas em direção a Meca, cidade na Arábia Saudita onde teria sido edificada a primeira mesquita e teria vivido o profeta Maomé. Os cantos das rezas, parecendo lamento, ecoam à mesma hora pela cidade toda, pelos alto falantes (começam às 5h da madrugada).

            Na sequência, fomos visitar a Mesquita Azul, situada na frente da Santa Sofia. Linda, grandiosa, com seis minaretes e um pátio imenso lotado de turistas tirando fotos. Filas e filas de pessoas de todas as nacionalidades, impressionante o número de turistas que tem por lá (muitos japoneses e espanhóis). No interior da mesquita, um maravilhoso piso de mármore, 20.000 azulejos azuis esculpidos à mão, janelas  com mosaicos coloridos, medalhões com nome de profetas, lustres enormes de cristal e muitas riquezas mais. Mas a visita foi muito rápida, muita gente e não foi possível admirar melhor tanta beleza.

            Depois, caminhamos até o Palácio de Topkapi, com o guia Mehmet apressadinho na frente, com uma bandeira vermelha levantada. O palácio  foi construído no período otomano por Maomé II, o Conquistador, e os sultões otomanos moraram neste palácio durante quatro séculos. Hoje é um museu, com extensos jardins e várias salas de exposições. Passamos em fila por várias salas com coleções de armas antigas, armaduras, relógios, relíquias sagradas, vestimentas, jóias, ouro e mais ouro. Tem até berço e sofá em puro ouro, cravejados de pedras preciosas.  O segundo maior diamante do mundo está lá exposto, deslumbrante. Do lado externo, uma varanda com vista para o estreito de Bósforo e para o Mar Mármara. Um luxo só. Os sultões viviam mesmo muito bem.

            Continuando a maratona das visitas, fomos para o famoso Gran Bazar. Á pé, quase correndo , durante 20 min,  atrás do Mehmet. Teve gente que se perdeu no caminho e passou apuros. O Gran Bazar é o maior mercado coberto do mundo, com quase 4.000 lojas pequenas e 60 ruas e becos, um labirinto complexo onde é muito fácil se perder. Por isso marcamos um portão de entrada e ficamos explorando por perto. Impressionante o número de lojas vendendo joias grandes e pesadas de ouro puro, uma rua inteira de lojas de ouro, dos dois lados. Perguntei o preço de uma medalha: 2.000 dólares. Ou 40.000 liras turcas. Ou 10.000 reais, só que ninguém aceita real... Minha amiga brincou que levou R$100,00  e voltou com R$100,00, não gastou nada...É possível comprar de tudo no Gran Bazar, desde perfume Coco Chanel falsificado a enormes tapetes bordados à mão. Mas é preciso pechinchar e , às vezes, tomar chá de romã.

            Depois de uma merecida noite de descanso, o dia seguinte, um domingo, foi  livre e os grupos se dividiram. Minha amiga e eu resolvemos pegar um Uber e visitar Taksin , um bairro na parte asiática da cidade e com uma rua de pedestres sempre superlotada. O motorista do Uber era muito gentil e colocou música espanhola para nós (ele nem sabia que existia português). Usou o google, traduziu para nós uma mensagem do turco para o espanhol e mostrou no celular: "las chicas curdas son muy alegres e parecen tener 18 años". Não sabíamos se "curdas" era elogio ou não, mas gostamos da mensagem. Pagamos 390 liras turcas (100 reais) para andar quase meia hora de Uber. No bairro, visitamos lojas, restaurantes, mesquita, parques. Andamos em um bondinho vermelho , pequeno e charmoso, que descia até o final da rua e subia novamente. Foi árduo entender como comprar os bilhetes, tudo é aprendizado. Como não sabíamos os pontos de embarque, entramos em um ponto e o motorista mandou descer no outro, junto com todos. Mas insistimos e conseguimos usar o bilhete novamente, subindo toda a rua. Minha amiga detestou, eu adorei!

             Bem, chegamos no hotel á noite e depois ainda fomos conhecer um shopping nas proximidades. Mas antes, deixamos as malas no hall do hotel para serem colocadas no ônibus , conforme instruções recebidas.

             A partir daí, aconteceu um drama , que contarei no próximo capítulo.

 

 

sábado, 15 de outubro de 2022

O boi Diamante





                                     

            Já aceitei o fato de que jamais vou obter algum lucro da minha fazendinha. Mas terei muitas histórias para contar. Por exemplo, o caso do boi.

      Tudo começou quando precisei de um boi para cruzar com as vacas que comprei. São onze: sete já prenhas, duas com bezerros e duas entrando no cio. Não seria possível fazer inseminação artificial, pois é necessário curral adequado, com tronco, e lá não tem (não tem nada, só problema). A vaca pode ficar muito brava e dar coices no veterinário. Como as coisas andam, provavelmente isso iria acontecer. Além do mais, eu queria conhecer o boi que seria o pai de todos os bezerrinhos da fazenda. Saber se seriam  parecidos com o pai, de boa genética, etc. Inseminação artificial é muito vago, muito abstrato. E como vaca não se reproduz por partenogênese,  o encarregado e eu começamos a procurar um boi bom e barato. Um absurdo o preço de um reprodutor: de R$15.000,00 a R$20.000,00 e sem P.O. ( registro que atesta qualidade). Por sorte, encontramos uma fazendeira vizinha que precisava vender um boi. Grande, bonitão, orelhas bem compridas, nelore, todo branco, com 3 anos. Negociei por R$8.500,00,  pra pagar quando entregassem. Fiz uma votação na família para escolher o nome: Araújo, Bumbá ou Sansão. Ganhou Araújo. No entanto, a vizinha contou que ele já se chamava Diamante, era manso e atendia pelo nome. Resolvi não trocar, para não causar confusão mental no Diamante. O tempo foi passando e o boi não chegava. Avisaram que ele estava escondido no pasto do vizinho e não estavam encontrando. Um mês e meio depois da negociação, o Diamante chegou na minha fazendinha. Justo no dia primeiro de outubro, quando eu lá estava, fiquei emocionada. Ele foi sendo tocado pela estrada por dois cavaleiros e junto com duas vacas no cio. Sozinho ele não iria, de forma alguma. Prenderam o Diamante no curral e  tentaram colocar as minhas vacas com ele, para irem se enturmando. Mas as vacas dispararam e ele ficou sozinho. E depois que os cavaleiros foram embora, não tinha como buscar as vacas novamente, pois à pé o encarregado não conseguiria, já que o bendito Canarinho, meu único cavalo, tinha fugido pela oitava vez (ele passa debaixo de qualquer cerca). Apreciei o Diamante, tirei fotos de todos os ângulos; e ele sozinho, bufando no curral. E, não sei o porque, o encarregado abriu a porteira e soltou o Diamante, sem nenhum tipo de adaptação ao novo ambiente. Ele saiu trotando majestoso, olhando pra lá e pra cá, parou perto da casa da sede. Eu da varanda olhei nos olhos dele, ele olhou nos meus. Depois , vagarosamente, virou a traseira para mim e, balançando o rabo, entrou no pasto sujo, cheio de árvores e arbustos e desapareceu. Ainda falei para o encarregado: _"Tião, este boi vai sumir!".  Ele argumentou que não, que o boi iria procurar as vacas e o cocho d'água. Como meu conhecimento nesta área é zero, acreditei. E não é que o boi sumiu mesmo? Desapareceu sem deixar rastros. O pior é que , sem o Canarinho, como procurar o Diamante? Resolvi dar uma recompensa para quem devolvesse o Canarinho. Colocamos a foto dos dois em todos os grupos de whatsApp da região. Em dois dias, o Canarinho apareceu. Paguei uma recompensa de  R$300,00 . Voltou de crina feita e com os cabelos da orelha aparados, bem bonitinho. O encarregado montou nele e andou quatro dias procurando o Diamante. Com a graça de Deus, foi encontrado, junto com vacas no cio, em uma fazenda ao lado. Parece que pulou a cerca e tudo indicava que estava bem e feliz. Quando, em Uberlândia, recebi a notícia que o Diamante tinha sido encontrado, fiquei em êxtase e contei para todos que estavam torcendo para ele aparecer. Regozijo geral. Mas a alegria durou pouco, apenas 3h. Recebi várias fotos do Diamante morto, mortinho, caído no chão! E uma foto tétrica, com um furo perto do pescoço, com sangue saindo (sangraram para ver se podiam depois aproveitar a carne). Contaram que ele estava sendo tocado, junto com duas vacas paridas, para o curral. De repente, ele  começou a tremer as pernas, caiu no chão, estrebuchou, virou os olhos e morreu!! Um filme de terror. Consternação geral. Parece que teve um ataque cardíaco. Especulando-se sobre a causa da morte, foram levantadas 5 hipóteses: estresse por ter deixado as vacas no cio; excesso de ingestão de ureia com sal; paralisia respiratória causada por botulismo; picada de cobra; ingestão de ervas venenosas seguida de excesso de movimento, como corrida.  

            Analisando-se os sintomas e as circunstâncias, a mais provável "causa mortis" é a ingestão de ervas venenosas. Ou então o estresse. O Diamante mudou de fazenda, ficou perdido, deve ter passado sede, foi arrancado dos seus amores (Jesus, será que o boi morreu de paixão?). Descobri que boi pode morrer de estresse sim, tem boi bravo que morre quando é amarrado ao tronco, sofre um ataque cardíaco. Enfim, lá se foi o Diamante, não aproveitamos nem a carninha dele. E ainda fiquei traumatizada e com pesadelos. Lembrei-me do Zé, meu finado marido: mandava para o matadouro 50 bois de uma só vez e dormia feliz, sonhando com o dinheiro que iria ganhar. Eu não, só faltou receber pêsames pela morte do boi...

            Agora, não quero mais comprar boi. Vou alugar algum quando precisar.  E esperar o meu bezerro, o Príncipe Houdini, crescer. Ele já está com um ano, saudável, bem adaptado na fazenda e conseguindo escapar das inúmeras cobras venenosas que rastejam por lá. Quem sabe algum dia nasçam lindos bezerros e eu possa falar:   -"Parece com o pai"! A esperança é a última que morre.

       

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

História de uma árvore




                                      

            Tudo começou em 1985, quando a muda de Sibipiruna- Caesalpinia pluviosa  - foi plantada na calçada em frente ao meu sobrado recém construído, na Rua Johen Carneiro, no bairro Lidice de Uberlândia. Para ter o habite-se da nova moradia, era obrigatório, por parte da Prefeitura, esse plantio de árvore na calçada (ainda é). Ela foi crescendo dentro de um cercadinho que a protegia dos vândalos. Na frente e ao lado dela, havia mais quatro lindas e frondosas Sibipirunas, que formavam um lindo tapete de flores amarelas no asfalto preto. Ao longo do tempo, todas foram cortadas. É assim mesmo, o homem diz amar as flores, mas arranca; diz amar as árvores, mas corta. E cortar dói... É triste ver a beleza que perdemos a cada dia. Solitária, a minha Sibipiruna foi crescendo forte e saudável. A copa ficou frondosa e arredondada. Quando florescia, entre agosto e outubro, os cachos  em forma de espigas, com florzinhas amarelo ouro, contrastavam com o verde escuro das folhas. Lindo de se ver. Depois, surgiam os frutos em forma de vagem, verdes no começo e escuros no final. As folhinhas miúdas caiam, a árvore ficava com os galhos quase nus e começava tudo de novo: folhas nascendo, flores se abrindo, frutos surgindo, sementes caindo. Penso que todos deveriam plantar árvores para ver de quantas vidas é feita uma árvore.  Ou para deixar ao menos uma árvore como herança para o mundo. Rubem Alves escreveu: " Amo aqueles que plantam árvores mesmo sabendo que nunca se sentarão em sua sombra. Plantam árvores para dar sombra e frutos para aqueles que ainda não nasceram".

            Também plantar árvore para que filhos e netos possam brincar e descansar na sua sombra...Para abraçar seu tronco e conversar com ela... Para entender que uma árvore não é "apenas" uma árvore, é todo um ecossistema... Só para dar alguns exemplos, nos seu tronco e galhos podemos encontrar centenas de outros seres vivos:    aranhas, opiliões, pseudoescorpiões, formigas de todos tipo, cupins, larvas de besouros, cogumelos e outros fungos, líquens, trepadeiras, orquídeas, samambaias. Ninhos de pássaros, de abelhas, de cupins, de formigas; casulos e borboletas nascendo. Abelhas, vespas, besouros e moscas nas flores. Lagartixas correndo ligeiras. Micos comendo frutos. Ah, e tem os pássaros cantando! Sabiá, bem-te-vi, pardais. Pombinhas arrulhando.  Ouvi-los cantar faz bem à alma e ao coração. Na minha Sibipiruna, sempre havia uma sinfonia às seis da manhã e às seis da tarde... Era bom dormir de janela aberta olhando a copa da árvore e acordar com o canto dos passarinhos. Era bom também saber que a árvore estava lá, na frente da casa, enraizada. Árvores são assim: ficam onde nascem, são felizes onde estão. Uma presença constante, aquela amiga de todas as horas. Quando chegava em casa, às vezes não tinha ninguém...Mas a Sibipiruna lá estava, majestosa, silenciosa, companheira e cheia de vida.

            Os anos foram passando. A Sibipiruna teve os galhos cortados várias vezes  porque encostavam nos fios elétricos e escureciam a rua. As raízes levantavam o passeio e muitas foram retiradas e o passeio consertado. A tudo ela resistia e continuava com suas flores amarelo ouro, enfeitando o quarteirão. Fez 37 anos em 2022, mas esta espécie pode viver mais de 100. Há quase seis anos, mudei-me para um apartamento e ela continuou na calçada, dando sombra e beleza para o inquilino que mora no local.

            Mas no dia 11 de agosto ela morreu. Foi cortada, restou apenas o vestígio do tronco largo cortado rente ao chão. Simplesmente apareceram, bem cedo, quatro caminhões da prefeitura, com vários homens, guindaste e motosserra. Cortaram a árvore rapidamente,  sem dó nem piedade. Não me deram nem a oportunidade da dor da despedida. Sequer fui avisada e o inquilino também não. Jogaram os galhos imensos nos caminhões e foram embora. Descobri depois que houve uma denúncia, peritos foram ao local e condenaram a árvore porque ela estava com cupins e oferecia perigo de queda. Ainda falaram que eu deveria ter cuidado dela, pois há dois anos foi emitido pelo Horto Municipal um laudo informando sobre a infestação de cupins. Nunca recebi tal laudo. E quando me mudei da casa, não havia sinais externos dos mesmos.

             Os cupins se alimentam de celulose, são silenciosos e discretos, pode levar  anos até serem detectados numa árvore. Talvez o destino da árvore culminasse mesmo com o corte. Mas não é assim que se faz. O laudo é da Defesa Civil da PMU. Que "defesa" é essa? Total desrespeito ao cidadão...Por outro lado, devem existir dezenas de árvores com cupins pelas ruas e nem por isso são cortadas, felizmente. Também não podemos culpar os cupins, pois o homem é igual a eles: vai corroendo o planeta com cortes e podas drásticas desnecessárias de árvores, desmatamentos, poluição de rios e mares, queimadas, aquecimento global e muito mais. E de repente, na calada da noite ou da manhã, tudo vai terminar...Como disse Kalil Gibran: " Árvores são poemas que a Terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar todo o nosso vazio".   

             Enfim, só me resta agora plantar outra árvore. Aliás, duas: uma vizinha já consentiu em plantar na calçada dela também. Mas, novamente citando Rubem Alves: "Antes que qualquer árvore seja plantada ou que qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardim por dentro , não planta jardins por fora e nem passeia por eles." 

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

A Noruega Parte II






           

            Na Noruega, há muita preocupação com as crianças. Existe suporte para elas na área da educação, da saúde, do lazer. Fiquei impressionada com o caso que minha norinha contou-me. Ela conhece uma brasileira, casada com um norueguês. O casal tem um filho de 10 anos. Um dia, o menino caiu de bicicleta e se arrebentou todo: machucou os joelhos, os cotovelos, arranhão pra todo lado. Foi aberta uma sindicância para saber se houve negligência por parte dos pais. Inspecionaram a bicicleta e viram que o freio estava gasto. Daí, uma assistente social foi enviada para ficar na casa do menino durante vários dias, para ver como ele era tratado! Por tudo isso, minha norinha tem muito medo do Benício, meu neto de 10 anos, também se arrebentar na bicicleta. Ele anda na cidade pra todo lado, com um relógio que é também um telefone que pode chamar o pai, a mãe e o irmão. Funciona como um GPS, rastreia e mostra a localização. Também possui um botão de pânico.

       As crianças têm muita liberdade, andam de ônibus sozinhas e passeiam pela cidade. Quando nascem, os pais recebem 80.000 kroners para as primeiras necessidades (o NOK ou Kr é a moeda de lá; um real vale dois kroners). A criança ganha de 1200 a 1.600 NOK, até os 18 anos. A licença maternidade é de 12 meses, compartilhada com o pai. Escolhem quanto meses cada um ficará de licença; o pai também precisa cuidar do pequenino, para estreitar os laços. O nome da criança é automaticamente inserido para  vaga na escola pública até os seis anos, na Barnehage, o jardim de infância de lá. Se a mãe não quiser a escola, recebe uma mesada para ficar com a criança. E o aluno perde a vaga com poucas faltas não justificadas. Por lá existe muita seriedade no processo educacional.

        Também os idosos são tratados com carinho e respeito. Os que desejam viver sozinhos usam um relógio que é um GPS e , se necessário, ligam diretamente para uma central de auxílio. São visitados duas vezes por semana por uma assistente social.

        Quanto à saúde, todo o sistema é público e os hospitais são excelentes. Os impostos são muito caros, mas totalmente revertidos para a sociedade. Cada Komuna (bairro) possui o médico da família. As farmácias não vendem remédio sem receita médica, apenas Paracetamol, para evitar que as pessoas fiquem expostas a muitos remédios. Ouvi sobre o caso de um casal de brasileiros que trabalha por lá. A bebê deles nasceu prematura, com 320 gr e sobreviveu, um verdadeiro milagre. Ela ficou na UTI  durante quatro meses e a mãe também, cuidando da criança. O pai teve licença no emprego e ficou hospedado em um anexo de apoio ao hospital, para revezar com a mãe, pois tiveram que ir para Oslo. Tudo pelo sistema público de saúde. Hoje a menininha já fez um ano, é linda e sem sequelas.

       Outras coisas interessantes : 1) Não existem cachorros e gatos de rua por lá. É muito caro ter um cachorro. Precisam ter chip e seguro saúde. Só saem pra rua com os donos e podem entrar em todo lugar. Os gatos dão umas fugidas e olham pelas janelas das casas. 2) Não existe Uber na Noruega, só táxi.  O governo considera que ser motorista de Uber não é um bom emprego para as pessoas. 3)Todos podem saber o que o outro ganha, existe um site especial para isso. E a pessoa que teve o salário consultado fica informada sobre isso. 4) Bebida alcóolica só é vendida até 22h nos bares e restaurantes. Uma cerveja custa de R$30,00 a R$75,00. 5) Várias palavras do norueguês são parecidas com o inglês. Ex: Welcome é velkommen (mas a gente não entende nada) 5) Não existem clubes recreativos particulares, todos são públicos. O que um pode, o outro também pode. Basta comprar um tíquete para desfrutar. 6) O país realmente funciona. Por exemplo, os ônibus nas cidades passam exatamente no minuto divulgado. As passagens são adquiridas por meio de um aplicativo e mesmo não tendo supervisão dentro do ônibus, as pessoas não andam sem pagar. 7) Ninguém pega as coisas dos outros. Meu neto esqueceu um tênis caro na quadra de futebol; ficou lá alguns dias até ele buscar. 8) Os noruegueses são preocupados com o desperdício. Por exemplo, no prazo de validade dos alimentos, escreve-se "melhor consumir até...". E na construção de casas (são de madeira), realizam-se testes enchendo-as de ar. São pressurizadas para ver se tem algum vazamento que poderia prejudicar a calefação e gastar mais energia no inverno. 9) As casas possuem um ou dois banheiros no máximo, mesmo as casas grandes 10) O governo incentiva a construção de casas com um pequeno apartamento independente, para ser alugado para estudantes a preços módicos. Não é cobrado imposto sobre este aluguel. 11) O caminhão de lixo orgânico passa de 15 em 15 dias, o que de certa forma induz as pessoas a diminuírem o lixo. Possui um guindaste para levantar o contêiner, ninguém fica correndo atrás.12) Não existe filtro nas casas. A água das torneiras é potável. 13) Na escola internacional o ensino é em  inglês. Há aluno espanhol, colombiano, inglês, canadense, brasileiro, egípcio. São os filhos de funcionários das empresas de petróleo e da OTAN. Alunos chineses, japoneses e indianos são raros. 15) O sistema de governo é parlamentar, com monarquia constitucional. O Rei Haroldo V e a rainha Sônia estão por todo lado, sorridentes e cheios de medalhas, em cartões postais.

          Mas nem tudo são flores . A Noruega é um dos países  mais caros do mundo. O litro de óleo diesel custa R$12,00, mesmo o petróleo sendo uma das principais riquezas da Noruega. Na alimentação, uma garrafinha de coca de 500 ml custa R$18,00; um quilo de carne moída R$75,00 e de carne de primeira, R$300,00. Comer em restaurantes é caríssimo. E a gente sente falta de frutas tropicais gostosas como o mamão, banana prata e banana maçã. Tem manga, mas é importada e sem gosto.           

         Outra coisa importante: este sol nosso de todo dia, quentinho, caloroso, gostoso, que aquece a alma e o coração, independente da estação do ano, por lá  praticamente só aparece no verão. E às vezes nem isso... Por do sol o ano todo, lindo como o nosso, nem pensar (é verdade que existe a aurora boreal, mas só ao norte, em condições especiais e temperaturas abaixo de zero). É um país onde tudo tem que se adequar a cada estação do ano. Fiquei pensando: como lá tem muito leite e queijo de cabra, o que será que fazem com as cabras no inverno? Será que ficam presas em barracões?        

        Também vale lembrar o comportamento dos noruegueses. Eles são cuidadosos em demonstrar emoções para os outros e não gostam de ficar muito perto. Parece que precisam de espaço, não querem perturbar e nem serem perturbados. Falam baixo, são educados, não  puxam conversa com desconhecidos. Mas achei que falta algo, talvez calor humano...  

         Bem, meu filho morou  três anos na Noruega, com a esposa e dois filhos. Adoraram morar lá, gostaram de tudo, fizeram muitas amizades. Agora irão morar dois anos em Singapura, pois meu filho precisa acompanhar a construção de um navio para extração de petróleo. Estão partindo com aquele sentimento de perda, de terem deixado algo bom para trás da qual não se despediram direito.  O Benício, meu neto,  não está preocupado com o calor úmido de lá, com o regime de ditadura e nem com a obrigatoriedade do uso de máscara. Depois de ficar indignado quando soube que lá é proibido mascar chicletes, quer é saber se tem lugar para jogar futebol e se na nova escola  terá mais dever de casa que na escola da Noruega. Que Deus o proteja e á família toda.

 

A Noruega- Parte 1




 

            Recentemente, estive em Stavanger, na Noruega. Fui passar 15 dias com o filho que mora nesse país com a família e trabalha na empresa de petróleo Equinor. Vi e aprendi muita coisa.

            Por exemplo, o país é lindo.  Tem montanhas altas com picos cobertos de gelo e por onde descem cachoeiras cristalinas e esverdeadas, formadas pelo gelo que derrete. Trilhas que passam por paisagens de tirar o fôlego. Fiordes, que são braços de mar que entram pelo continente e recortam todo o país.  Rochedos  imensos ladeando os fiordes, onde as pessoas sobem e parecem ficar acima das nuvens, observando  o mar lá do alto. Entre os pontos turísticos destaca-se  a Preikestolen, que fica em Forsand. É uma uma falésia de 604m, por onde se chega após uma subida que leva de 2 a 3 horas, por uma trilha de 4 km cheia de pedras. O topo do rochedo é quadrado, com cerca de 25x25 m, chamado de Púlpito do Pregador. A vista lá de cima é uma das coisas mais incríveis de se ver na vida (eu não fui, mas os filhos e netos foram e contaram). As pessoas mais ousadas sentam-se na beirada da rocha e balançam as pernas. Já o meu neto de 14 anos, bom de bola, ficou no platô, com a camisa do Brasil, fazendo embaixadinha...Tem até uma cena do filme "Missão Impossível" filmada na Preikestolen. É de arrepiar, com o Tom Cruise dependurado no precipício, lutando com o vilão . No inverno não é possível subir, a trilha fica coberta de neve e tem pouca luz, é perigoso.                                                                                                                                               Outro ponto turístico famoso é a Trolltunga, mas não subimos até lá, apenas visitamos a região.  É uma pedra esticada horizontalmente a 700 m de altura, sobre um precipício, com um lago abaixo. Noruegueses e turistas enfrentam uma caminhada de 22 km ida e volta, numa subida intensa, onde tem neve na trilha até no verão. O nome significa "língua do Troll". O Troll é uma figura do folclore da Noruega. Segundo a lenda, é feio, grandalhão, pouco inteligente, mas desperta simpatia. Habita a escuridão das florestas e as cavernas das montanhas. Ele está em toda parte na forma de estátuas, pinturas, histórias. É vendido como cartões postais, bonecos, brinquedos, canecas, etc. Ele e a família toda: filhos, mulher, avô, avó. Troll pra todo lado e pra todo gosto. Esquiando, andando de moto, abraçado no alce. Comprei um pregador de geladeira com toda a família Troll, de lembrança.                                                                                                                                               Vimos uma escadaria de madeira de 4.444 degraus. A maior do mundo em madeira, equivalente a um prédio de 28 andares. Foi construída há cem anos, para os trabalhadores levarem nas costas o material para fazer uma hidrelétrica, hoje desativada. Não subimos, Deus me livre! Olhamos por baixo, quando fizemos um passeio de barco por um fiorde para apreciar as cachoeiras, as rochas imensas, a mansidão azul das águas do mar. E com um vento gelado batendo no rosto, em pleno verão com temperatura entre 7 a 14 graus.

            Também as rodovias e estradas na Noruega são incríveis. Tudo lá é muito intenso. Cheias de altos e baixos, muitas curvas, pontes sobre o mar, túneis imensos. Atravessamos um de 14,6 Km perto de Stavanger. Passa debaixo do fiorde. Primeiro o túnel desce para passar pelas rochas debaixo do mar, depois sobe. Uma loucura, e tudo com qualidade e segurança. Nas estradas que ligam pequenas cidades ou chegam a pontos turísticos, é um eterno zigue-zague , sobe e desce, e precipícios. Ovelhas e cabras pastam nas margens. São estradas estreitas de mão dupla,  mas só passa um carro de cada vez. Quando um  encontra outro, um precisa dar marcha a ré e encostar em local mais largo. A gente reza pra não encontrar nenhum carro na curva. Achei estas estradas perigosas demais, em alguns pontos nem tem proteção perto dos precipícios. No inverno ficam interditadas, cheias de neve e os motoristas não sabem onde é a estrada. Talvez por tudo isso seja muito difícil tirar carteira de motorista na Noruega. Leva de seis meses a um ano. É um processo muito sério, o que contribui para reduzir a quase zero o número de acidentes.   As provas são feitas nessas estradas estreitas e numa pista escorregadia, onde são simuladas situações de risco.

            Mas bonito mesmo é uma ilha que visitamos, a Flor &Fjaere. Ela foi transformada em um imenso jardim e aberta ao público em 1995. Flores, rosas, árvores, arbustos, trepadeiras, cactus, lagos...Tudo misturado em uma emocionante profusão de cheiros e cores. Com o mar e o céu azul ao fundo.

            Outra coisa que chama a atenção na Noruega é o  silêncio . Uma calmaria que faz bem ao espírito. Contemplar e admirar a natureza  em silêncio, para os noruegueses, é quase como fazer uma oração. Mesmo nas cidades, há pouco barulho.  Andando pelas ruas do bairro, não ouvi grito ou choro de criança, música tocando, cachorro latindo . Até os carros deslizam sem fazer barulho, a maioria deles é elétrico. Mesmo os cortadores de grama  foram substituídos por pequenos robôs achatados, pretos luzidios, que podam a grama silenciosamente, com perfeição. Têm até um sensor para não passar no mesmo lugar duas vezes...

            Enfim, além da natureza exuberante, das estradas incríveis, do silêncio e da paz, existem muitas coisas interessantes na Noruega, que abordarei no próximo capítulo.