Thaís, Karine, Luiz Cláudio, Vinícius, Paulo Márcio Eu e cinco filhos
Minha mãezinha querida, que Deus a tenha, tinha o hábito de, já velhinha, sentar-se em sua cadeira de balanço e ficar pensando na vida. Em tudo o que já havia vivenciado ao longo de tantos anos. Em suas dores e em seu amores. Depois, começava a dar beliscões nos braços para sentir se ainda estava viva e se era ela mesma quem tinha passado por tudo aquilo...
Lembrando desse episódio, resolvi folhear os diários amarelados pelo tempo, que escrevi durante 23 anos, de 1982 a 2005. Comecei escrevendo diariamente. Depois, um resumo a cada mês e nos anos finais, um registro dos acontecimentos mais marcantes. Há fatos interessantíssimos.
O título dessa crônica poderia ser “Diários
de uma esposa”, enfocando o relacionamento com o Zé, meu finado marido. Existem anotações assim: “É impossível
conversar com o Zé, ele só quer saber de futebol. Neste final de semana, foi a
cinco jogos e assistiu mais três na TV”(11/04/1982).
Poderia também se chamar “Memórias de
uma professora de Biologia”: “ Hoje tive que
ministrar três aulas teóricas porque não consegui as sanguessugas para
as aulas práticas (23/04/1982)”. Jesus, lembrei-me de que colocava iscas em
tanques de peixe para coletar esses anelídeos...
Ou poderia ser: “As confusões de uma
família”, como no dia 26/03/1982, quando anotei : “Fui assistir ao show do Ivan
Lins com a Karine e o Vinícius. A Karine “puxou o ronco” na hora do show. O
Luiz Cláudio ficou sozinho tomando conta da casa, trancou tudo e dormiu. O Zé
chegou, tocou a campainha, gritou, esmurrou a porta e ele não acordou. Teve que
arrombar a janela do nosso quarto”.
Optei por abordar os causos dos filhos,
acontecia de tudo. Por exemplo, nesse mesmo diário de 1982, eu com 33 anos; o
Vinícius com 11; o Luiz Cláudio com 10; a Karine com 9; a Thaís com 7; e o
Paulo Márcio com 5.
Logo no início do ano, o drama da
Karine. Ela estudava na escola Pollyana e eu a transferi para a E.E. Enéas
Guimarães. Já acordava chorando para não ir à aula; daí a Thaís dizia que
também não iria. Eu empurrava as duas para o carro; chegavam na escola e não
desciam; eu voltava e as colocava de castigo. No dia 25/02/82, escrevi, entre outros
assuntos: “Fui com a Karine para a escola e fiquei duas horas sentada na escada
para ver se ela se acostumava na sala; não queria me deixar ir embora”.
Em março, várias anotações sobre o Paulo
Márcio, que também não queria ir para a escola porque tinha medo de que eu o
esquecesse por lá (um dia esqueci mesmo). No dia 10/03: “À noite, a luta para
os cinco fazerem os deveres de casa, o Vinícius chorando porque perdeu o estojo
e a Thaís emburrada”.
Nesse mesmo mês, eu na UFU dando aulas,
telefonam da escola dizendo que a Thaís estava com catapora. Escrevi, no dia
16: “Já acordei cansada. Deitei tarde e não dormi direito; a Thaís chorou. Ela
dormiu na minha cama e eu, no colchão no chão” .
Depois, no dia 17, anotei: “A Thaís está
tristinha e apaixonada com a catapora. Disse que está achando bom só porque o
Paulo Márcio não está batendo nela, pois ele tem medo de pegar catapora. Mas
daí ele disse que vai dar um soco bem rápido nela”.
Acabou que ele pegou catapora
mesmo e também a Janaína, a amiguinha da Thaís. E, no dia 18/04, o Paulo Márcio armou uma
armadilha para derrubar a Thaís quando ela fosse apertar a campainha.
Lendo apenas quatro meses desse ano, é
possível entender minha correria em dar e preparar aulas, levar as crianças para
todo lado, socorrer nas doenças, nas brigas e nos deveres, ser dona de casa,
participar de vários projetos universitários. Algumas frases anotadas: “Hoje o
Luiz Cláudio perguntou por que não fico sendo apenas dona de casa’; “Fiquei em
casa de manhã, o Paulo Márcio fica todo feliz, aproveita e não sai de perto de
mim. E daí vem aquela dor de consciência de ficar tanto tempo longe dos filhos,
mas fazer o quê...”
Bem, li apenas um pouco do primeiro
diário- cansei só de ler. “Pulei” vários
anos e fui folhear o começo de 1999, quando o meu sexto filho, João Lucas,
estava com quase cinco anos.
Encontrei a descrição deste fato: “Aconteceu
uma reunião na escolinha onde o João Lucas estuda, e as mães reclamaram que os
filhos estavam aprendendo palavrões na escola. Concordei com isso, pois lá em
casa ninguém falava palavrões e o João Lucas começou a falar. Por exemplo, o Zé
outro dia estava assistindo ao programa da Tiazinha na TV, ela com um
chicotinho e um collant preto com ligas. O João Lucas entrou na sala, olhou e
disse: - Pai, olha a perereca dela! E o Zé, bravo: -Olha o quê? E o João Lucas: -Ah, não, olha o cu dela! Piorou...”
E
muitas outras anotações interessantes e engraçadas sobre ele, como quando
estava concentrado ouvindo, na TV, uma moça informando as condições
meteorológicas- chove aqui, faz sol ali etc- e ele, indignado: -Por que esta
moça sabe tudo e eu não sei?
Ou então as perguntas difíceis que ele fazia,
nessa idade:- O Deus sonha? Índio escova dente? Porque ladrão não trabalha?
Mãe, o que é canela? E depois que expliquei direitinho sobre a canela (casca de
árvore), ele perguntou: - Então, o que é “bati a canela”?
Enfim, nos diários dos últimos anos, há
anotações sobre os filhos adolescentes, depois universitários, casados... Os
primeiros namoros, as festas, as alegrias e dificuldades na universidade, as
viagens, os casamentos... Daria uma enciclopédia, com muitos volumes.
Concluindo, fiquei impressionada com
tantas coisas que já vivenciei e de que nem lembrava mais. Agora, vou sentar na
cadeira de balanço que herdei da minha mãezinha querida e também vou me
beliscar e perguntar –Santo Deus, será que fui eu mesma quem passou por tudo
isso?



