A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sábado, 12 de março de 2016

A barata, a drosófila e o Aedes

Periplaneta americana

Drosophila melanogaster

Aedes aegypti
            Dia destes, estava  em um vestuário quando uma senhora entrou e olhou desconfiada, de mansinho, dentro do box do banheiro. Perguntou : "será que tem barata?" Explicou que não tem medo de nada nesta vida, só de barata.
        Concordo com ela que as baratas são nojentas, fétidas, asquerosas, contaminam os alimentos. Com voos desajeitados, podem trombar na cara da gente. Ou podem subir pelas  pernas, dando aflição e arranhando a pele com os espinhos da tíbia. Ou roer com suas mandíbulas pedacinhos dos nossos dedos ou do lábio quando dormimos. Ou fazer um "trec" horripilante quando as pisamos e matamos. Podem atrair escorpiões, pois escorpião adora barata. Elas estão por todo lado em seus vários tipos populares: as "avuadêras", as brancas, as cascudas, as miudinhas, as descascadas. No livro "Insetos no Folclore",  tem até receita com barata para curar alcoolismo: torrar bem a barata, fazer um pó, misturar com pinga e dar para o viciado beber sem perceber. Para indigestão, barata frita em óleo e alho é um santo remédio.
           Já do ponto de vista biológico, a barata é uma maravilha. Existe há cerca de 300 milhões de anos (pode ser que a espécie humana  desapareça e a barata fique).O formato do  corpo é achatado, ideal para se esconder ou passar debaixo de frestas . Possui órgãos sensitivos extremamente especializados, como as longas antenas olfativas e os olhos compostos. É um excelente modelo para se estudar  anatomia interna de inseto (já dissequei inúmeras baratas domésticas como professora de invertebrados). Observando na lupa, é possível ver o tecido adiposo, as traqueias prateadas, ramificadas e cheias de ar; as glândulas salivares, o tubo digestivo com papo, moela, cecos gástricos. Os túbulos de Malpighi , os ovários com ovaríolos, o cordão nervoso ventral com gânglios. Barata tem tudo isso e muito mais. É bonito de se ver a perfeição de um inseto.
         Outro inseto comum e que mereceria uma estátua de ouro pelo bem que faz à humanidade é a mosquinha da banana, Drosophila melanogaster. É o organismo-modelo favorito para pesquisas genéticas. Com cerca de 3mm, é facilmente criada em laboratório. As fases de ovo, larva, pupa e adulto se completam em  duas semanas.  As fêmeas são muito fecundas, podendo colocar centenas de ovos fertilizados em sua breve existência. Isso permite uma rápida análise de transmissão de características hereditárias e análises estatísticas devido ao grande número de descendentes. Além disso, possuem cromossomos gigantes nas glândulas salivares, o que facilita o estudo dos genes. Muito dos avanços na área de engenharia genética,  mapeamento de cromossomas,  projeto genoma,  biotecnologia, melhoramento genético, criação de organismos transgênicos etc, se devem a essa mosquinha.
        Além da drosófila, a grande maioria dos insetos é benéfica ao homem. Mas existem espécies extremamente prejudiciais, como o Aedes aegypti, um díptero como a drosófila. Ver  mães procurando atendimento médico para crianças que nasceram com microcefalia  é um  quadro triste demais,  desesperador. Isso sem falar na dengue e na chikungunya. Quando penso na complexidade da anatomia externa e interna de um inseto, na capacidade de adaptação e sobrevivência das espécies, nos ciclos reprodutivos rápidos, na fecundidade das fêmeas e na capacidade dos ovos resistirem à dessecação, fico a duvidar dos outdoors espalhados pela cidade:" um mosquito não é mais forte que um país inteiro". Por enquanto, ele é.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Yara Ilse

Yara na juventude

Paulo e Yara, o casal eterno

                Uma pessoa especial, a começar pelo nome.  Yara, nome indígena que significa rainha das águas, foi escolhido pela mãe brasileira e Ilse,  escolhido pelo pai alemão. Com um nome composto homenageando duas nacionalidades, Yara Ilse foi um anjo de bondade, luz e beleza que desceu á terra em 28/08/ 1922 e voltou ao céu em 23/12/2015.
         Ela era minha cunhada, minha amiga e meu  ídolo. Um exemplo de esposa, de mãe, de pessoa íntegra, realizada e feliz. Casada com o meu irmão Paulo, formaram um casal que conseguiu caminhar ao longo de 70 anos de mãos dadas e com os pés na mesma estrada. Era bom ver a harmonia entre os dois, o companheirismo, o respeito, a admiração de um pelo outro. Sempre unidos pelo momento sagrado e diário de rezarem juntos o terço. Tiveram nove filhos e vinte e três netos. Desses, cinco filhos e dois netos (o clã Zech Coelho) foram campeões de vôlei e fizeram história no Minas Tênis e na Seleção Brasileira. Os filhos herdaram dos pais qualidades como honestidade e determinação e cuidaram dos pais  velhinhos com muito amor.  Um deles escreveu no santinho que foi distribuído na missa de sétimo dia : " Saudade do seu doce colo, Mãe, de suas sábias palavras, do seu sorriso amoroso, de sua mão que acalentava, da sua voz que educava e repreendia na medida certa. Que Deus envie mais anjos como você pois, se assim for, a Humanidade será muito melhor".
       Realmente, a saudade vai ser doída. Principalmente saudades do seu eterno sorriso, da sua serenidade, da sua sabedoria.  Tive o prazer de morar com ela em Belo Horizonte, durante três anos, quando fiz o curso normal no Colégio de Aplicação. Éramos quinze pessoas: o casal, os nove filhos, um sobrinho, eu e meus dois irmãos. A casa parecia elástica e o carinho da Yara para com todos também. Nunca a vi elevar a voz e reclamar da vida. Ou deixar de dar conselhos ou orientar os filhos quando precisavam. Sempre foi uma dama. Parecia uma deusa com seus cabelos claros, a figura esguia, a fala mansa e serena, a risada gostosa. Lembro-me dela de avental molhado, pois todos os dias, de manhã, lavava na máquina a roupa da família inteira e colocava no varal para secar. Depois, ia ajudar com o almoço, pois a turma comia paneladas de comida. Ela gostava de assistir ao programa da Jovem Guarda, com o Roberto Carlos. Eu também gostava, principalmente de ficar sentada perto da Yara, desfrutando de seu calor humano. Agora sentirei falta da sua figura já velhinha (mas ainda uma dama)  sentada no sofá da sala, com batom nos lábios, arrumadinha e perfumada, acariciando seu gato. Eu gostava de pegar em suas mãos macias e de conversar com ela. Todos nós que a amávamos perdemos um porto seguro, um colo contra as agruras da vida.

         Como lembrança da mãe, os filhos distribuíram aos amigos uma foto  com um poema de Santo Agostinho. Há trechos assim: "Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador. Porque eu estaria fora de seus pensamentos agora que estou apenas fora de suas vistas? Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho. Você que aí ficou, siga em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi".  É verdade, a vida continua, a Yara está apenas do outro lado, na forma de um anjo de luz, ela e o Paulo juntinhos. Do lado de cá, ela estará  sempre em nossos pensamentos, pois pessoas especiais como ela são eternas. E mesmo com saudades, agradecemos  a Deus por ela ter existido. Descanse em paz, Yara Ilse.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Ben & Boni

Benjamim Franklin

José Bonifácio de Andrada e Silva

             Roberto Pompeu de Toledo publicou na revista Veja (30/12/2015) um artigo  comparando o americano Benjamim Franklin com o brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva.
            Ben nasceu em Boston, em 1706 e poderia ser avô de Boni, que nasceu em 1763, em Santos.  A mente dos dois foi formada no Iluminismo do século XVIII e envolveram-se em lutas semelhantes, movidos pelos mesmos ideais. Foram heróis, cultuados como sábios, estratégicos para a independência de seus países e a trajetória deles  é importante para entender as nações que deixaram como herança. Enquanto para os americanos Ben é um personagem familiar, com vários livros escritos sobre ele, os brasileiros aprendem apenas duas ou três coisas sobre Boni e esquecem assim que saem da escola.
            Ben era filho de um comerciante de velas e sabão e fugiu de casa aos 17 anos . Não tinha curso superior, mas com 23 anos já era dono de uma impressora e do jornal Pennsylvania Gazette, além de grande  escritor. Com quase 1,80m e porte atlético, era simpático, sociável e sem nenhuma timidez. Criou um clube de comerciantes, ingressou na maçonaria em 1751 e na política como deputado da Pensilvânia.
             Já  Boni nasceu em uma colônia onde uma impressora era considerada um artefato subversivo. Filho de rico comerciante, aos 20 anos ingressou na Universidade de Coimbra. De temperamento irritadiço e estatura abaixo da média, cursou filosofia e direito, mas a sua paixão era a ciência e a mineralogia. Como membro  da Academia das Ciências de Portugal, ganhou uma bolsa de estudos para se aprimorar nos principais centros europeus.
            A entrega à ciência uniu estes dois grandes homens. Ben, mesmo sem formação acadêmica, era um inventor. Estudou, entre outros, o trajeto dos ventos e das tempestades.  Criou chaminés e fogões que não espalhavam fuligem no ambiente. Inventou até a lente bifocal, colando duas metades de lentes. Ganhou celebridade internacional aos 46 anos, com seus estudos sobre eletricidade e a invenção do para-raios. 
         Quanto a Boni, tinha prestígio nos meios científicos.  Visitou minas de vários países europeus e encontrou e descreveu quatro espécies e oito subespécies de minerais até então desconhecidos. Ao voltar a Portugal, em 1800, foi professor de Mineralogia e intendente geral das Minas.
           Os dois foram protagonistas importantes na transformação de territórios coloniais gigantescos em nações. Ben foi o único a subscrever os quatro documentos fundadores da nação americana: a Declaração de Independência, o tratado de amizade com a França, o tratado de paz com a Inglaterra e a Constituição.
         Por seu lado, Boni retornou ao Brasil  aos 56 anos, um velho para a época. Em 1822, depois do famoso "Fico" de  Dom Pedro I, passou a ter poderes de primeiro ministro. Foi o autor principal na proeza de formar um país continental, unindo as províncias sob o governo do Rio. Lutou para abolir a escravidão e para incorporar os índios á sociedade. Vítima de intrigas e  ciumeiras, foi  preso e deportado.
          Ben morreu com 84 anos. Trinta anos de sua vida foram dedicados a causas da independência, ajudando a criar uma nação de sucesso. Boni morreu com 74 anos e sua atuação política não chegou a dois anos. Teve sucesso para criar um país grande e unido, mas fracassou no projeto de estabelecer condições para uma sociedade mais justa .

          Enfim, aprendi fatos interessantes com esse artigo. Lamento apenas pelo Boni, pois a nação com a qual sonhou ainda não existe.                             

sábado, 2 de janeiro de 2016

Jantar em Punta Cana

Entrada do Hotel Bávaro Princess

A dança dos golfinhos

A turma no restaurante


                Em novembro  passado conheci  Punta Cana, uma praia adorável no mar do Caribe, na República Dominicana.
                O local é um sonho e o hotel era "all inclusive", com comida e bebida a vontade. Repleto de coqueiros onde  funcionários educados subiam com destreza e ofereciam água de coco aos hóspedes. Com mangue bem preservado e animais soltos: coelhos, pavões, iguanas, araras, flamingos. Os apartamentos , num total de 800, localizavam-se em grupos de oito por bangalô, todos bem cuidados e confortáveis. Uma trilha com vegetação exuberante desembocava na praia de areia branca e fina e no mar morno de um azul sem fim . Ao lado, uma piscina imensa. Hóspedes americanos, russos, canadenses, franceses e poucos brasileiros. Como passeios turísticos, a ida de catamarã até a ilha Saona ( linda mas infestada de mosquitos), a noitada na boate Coco Bongo e a observação dos golfinhos nos tanques de criação. A boate é imensa, na forma de uma arena, com música de muitos decibéis. Para cada música, um show diferente. Ao som de "Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro...", sambistas com plumas coloridas rebolaram no palco, balões foram distribuídos pra plateia delirante  e a boate quase desabou. Até o Gusttavo Lima, com "Tchê Tchê Rere", apareceu por lá, em um telão gigantesco.
                 E os golfinhos, que coisa mais linda! São criados em tanques enormes, onde os turistas chegam em barcos e entram em grupos dentro dos tanques.  Cada golfinho é ensinado para fazer acrobacias e se exibir para apenas um grupo. Depois de cada tarefa ganham um peixe. Rodam, saltam, batem palmas, beijam, cantam. É emocionante, mas preferia que estivessem livres na imensidão do mar azul.
                Dentro desse contexto, aconteceu um  jantar especial na noite do "Thanksgiving", uma data importante para os americanos. O hotel convidou alguns hóspedes  e estávamos entre os convidados. O traje deveria ser condizente com o luxo do Restaurante Chopin. Assim, sem alternativas, o Zé necessitou calçar o único par de sapatos que possui: um de couro marrom, bastante gasto e quadrado na frente, pra caber os dedos confortavelmente (como já contei, ele gosta é de botina).  Percorrendo o longo caminho entre o nosso bangalô e o restaurante, o Zé começou a mancar e a arrastar o pé:  a sola de um dos sapatos estava se soltando. Precisou de muito cuidado e perícia para chegar com o sapato quase intacto. Sentou-se á mesa  e não se levantou mais, tive que servi-lo . Ele nem  viu a fartura do "buffet" e o primor da decoração dos pratos, tinha de tudo: peru, camarão, casquinha de marisco, salmão,  porco com molho de maçã, feijão agridoce, costela ao molho barbecue. Na volta, o Zé mancando novamente. Já no quarto, a surpresa: a sola tinha ficado pelo caminho. Daí, no outro dia ele teve uma "brilhante" ideia: pediu-me pra ir na seção de "Achados e perdidos"  na chiquérrima recepção do hotel, perguntar se alguém tinha devolvido a sola  (pensei que era gozação, mas não era).  Fiquei com vergonha e não fui. Ele foi e lógico, ninguém devolveu.

                Assim, em meio a tantas coisas inesquecíveis que ficaram dessa viagem -as conversas descontraídas, os momentos com os netinhos, o tempo que passei abraçada com a filha que mora distante, o canto e a dança dos golfinhos, a comida gostosa, a beleza da areia e do mar, a gentileza dos funcionários haitianos do hotel, a loucura da boate -ficou também, perdida em algum canto, a sola velha do único par de sapatos do Zé.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Bondade se aprende

Cora Coralina, que faleceu aos 95 anos


      Cora Coralina escreveu o emocionante poema "Bondade também se aprende". Começa assim: "Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice. E digo pra você: não pense. Nunca diga estou envelhecendo ou estou ficando velho. Eu não digo que estou ouvindo pouco. É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso. Também não diga pra você que está ficando esquecido, porque assim você fica mais". Há trechos como: "Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velho não. Você acha que eu sou? Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo o que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes." É um longo e belo poema, que termina assim:" Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende".
       Versos tão simples e tão profundos, tão verdadeiros. Dá vontade de abraçar alguns velhinhos desamparados. Então, sempre que posso, vou visitar alguns em um asilo da cidade. Tem muitos por lá: alguns na cadeira de rodas, outros acamados, uns  contando suas histórias de vida. Uns emburrados e sem conversa. Outros  amargurados e que não abrem seus corações. Alguns emocionados por ter alguém segurando suas mãos. Um casal no qual o velhinho gosta de cantar e tocar violão e a esposa é arredia e de cara fechada. Uma que adora bonecas, o quarto está repleto delas, dá vontade de ficar por lá brincando. Outra magrinha, de traços bonitos, que foi professora e que tem vontade de comer peixe bem temperado, pois reclama que a comida do asilo não tem gosto. E o Sr. Antônio,  que tem vontade de alguém para sair com ele e dar uma voltinha no quarteirão. Alguns confusos, como a senhora bonitinha, de olhos brilhantes, que pede para procurar  sua filha para levá-la de lá, pois não quer mais ficar estudando naquela escola. Todos limpinhos e bem cuidados. Muitos esperando os filhos que não vem visitá-los; outros cercados por parentes. Ou por crianças, como aconteceu dia destes, quando uma escola levou as crianças para alegrarem os velhinhos. Uma boa ideia e um ato de bondade.
          Enfim, ficar velho é o destino de todos nós, uma  opção  melhor do que morrer novo. E como disse Cora Coralina, mesmo tendo muitos anos, é preciso lutar, ter fé, fazer tudo com amor e bondade. E encontrar, cada velhinho à sua maneira, a melhor forma de viver os últimos anos. Como Florisbela, a mãe do cronista Jairo Marquez, da Folha. Ele conta que a mãe, já velhinha, sempre reunia a família para dar a benção. Na hora da reza, invocava São Cosme, São Damião, São Miguel Arcanjo, São Jorge Guerreiro, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Até inventava alguns santos, para alongar a reza  e o tempo do cafezinho. O autor comenta que velhos criam inteligentes maneiras para encompridar a prosa rala com os filhos que aparecem de vez em quando e com os netos que não se desgrudam dos joguinhos eletrônicos. Como a  Florisbela, que emendava a reza com canções do Lupicínio Rodrigues. Todos ficavam mais um pouco ao som da música : "Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora..." Assim, a Florisbela conseguia, com bondade e sabedoria, exercer seu importante papel:  agregar a família e fazer com que os mais jovens cuidassem dela, o patrimônio vivo da sua geração.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O golpe do mico

                .
           Certa vez cai no golpe das ciganas que vendiam grossos colares de ouro trançado, mas que não eram de ouro coisíssima nenhuma. E pouco tempo atrás cai no golpe do mico. Como tive notícias de que o larápio continua agindo, resolvi divulgar o caso. Sei que muitos vão pensar que fiz papel de tola, mas é porque não conhecem o larápio. Ele é  ardiloso, insistente, envolvente, astuto. E talvez um pouco louco, pois fica agressivo e ameaçador se a gente não concorda com ele.
         Tudo começou numa bela manhã, com o interfone tocando. Era um senhor de meia idade, claro, mais pra gordinho, camiseta vermelha e calças jeans, bem aparentado. Disse que tinha um macaquinho de estimação, o Kiko, que andava  com ele pra todo lado, no seu ombro. E que o mico tinha pulado quando passavam na calçada da minha  casa e  estava  em cima do telhado. Do passeio, o homem assobiava e chamava " Kiko, Kiko". Nisso, apareceram dois dos meus netinhos, atraídos pela confusão, e todos ficamos olhando pra cima. Um disse que estava mesmo vendo o mico. Começamos a chamar e nada. O homem então pediu para eu abrir o portão para ele entrar no jardim e chamar mais de perto, pois o mico só atendia a ele. Com pena do macaquinho, acabei abrindo. O homem chamou algumas vezes e depois foi entrando resoluto e determinado pela casa adentro, afirmando que o mico já devia estar no quintal e que iria procurar por lá. Em uma das mãos, carregava um saquinho de ração (ainda bem que não era um revolver). Atrás dele, a minha cachorrinha york latindo freneticamente, eu e os dois netinhos ajudando a procurar. Na sala de TV o Zé, meu marido, assistia a um noticiário e não percebeu nada (devia estar cochilando). Depois do quintal, o homem subiu as escadas para os quartos com o cortejo atrás, olhando tudo e fingindo ver o macaquinho. Eu indignada, mandando ele sair e avisando que ia chamar meu marido e a polícia. Ele ficou agressivo, dizendo que eu não queria ajudá-lo a encontrar seu bichinho. Só saiu quando quis, não estava nem um pouco intimidado com o cortejo. Fiquei pasma e boquiaberta com o ocorrido.  Passado um tempo, o interfone tocou novamente. Eram minhas duas vizinhas, com os olhos arregalados. Vieram confirmar se um homem tinha entrado na minha casa para procurar o Kiko. Ele tinha entrado lá também, com a mesma história e procurou o Kiko até dentro das gavetas. Ficamos as três impressionadas, mas ele não roubou nada.
        E agora, recentemente, uma amiga que mora no meu bairro, Lídice, contou-me a mesma história. Ele entrou na casa da vizinha e roubou o laptop quando ela, a vizinha, foi no quintal ver se o Tito estava lá. Ele só trocou o nome do mico e agora chega de moto, está mais sofisticado. A minha amiga tem câmera de segurança, que filma a rua toda e vi a  filmagem. Nela, o mesmo larápio safado sai rapidamente carregando o laptop, sobe na moto e foge, um filme de ação...
        Bem, este é apenas mais um golpe que circula por ai, ao lado, por exemplo, do bilhete premiado. Conheço uma pessoa que caiu nesse golpe e perdeu um bom dinheiro. E na época do Natal, tem o golpe do envelope,  quando aparece gente estranha para recolher o envelope com o dinheiro dos lixeiros e dos varredores de rua, mas já estou esperta nesses casos.

         Em  tempos de crise, é preciso redobrar a vigilância, pois provavelmente surgirão golpes  mais mirabolantes do que o do Kiko (ou Tito). E sempre existirão pessoas como eu para acreditar...

domingo, 20 de setembro de 2015

Os velhos e os novos tempos



Sou de uma época antiga, nem tão antiga assim, mas o suficiente para  minha geração presenciar transformações incríveis. Naquela época, as geladeiras eram brancas e os telefones eram pretos, imensos e pesados. Aliás, na minha casa da infância e adolescência nunca tivemos geladeira, nem telefone, nem TV. Assisti TV pela primeira vez aos 17 anos, na casa do vizinho, em preto e branco. De diversão, apenas o rádio onde meus irmãos e eu ouvíamos a eletrizante saga do "Jerônimo, o herói do sertão". Filmes, só nas matinês de domingo, quando assistíamos seriados,  Rin-tin-tin,  Zorro, Tarzan e Mazzaropi. De luxo, uma roupa nova no dia de ano e frango caipira com angu e quiabo aos domingos. Dos brinquedos, eram especiais  os bonequinhos de argila que a gente inventava e brincava com eles até desmanchar. Dinheiro para nós, crianças, comprarmos algo diferente, somente quando meus irmãos e eu apanhávamos  jabuticaba ou manga no pé e vendíamos pelas ruas (o meu pai era o único médico na pequena cidade, a família até tinha "status", mas não tinha dinheiro). Era um tempo bom, simples, sem tanta pressa e sem tanta poluição. Não existiam garrafas Pet e nem copos descartáveis. As crianças eram criadas com fraldas de pano e não com centenas de fraldas  jogadas no lixo. Também iam à pé, de bicicleta ou de ônibus pra escola, as mães não eram motoristas. Os filhos pediam a benção antes de se deitarem, os pais eram chamados de senhor e senhora e havia muito respeito.
Mas vivemos em um mundo em transformação e tudo vai mudando, surgindo coisas e tecnologias fantásticas. Como o vidro, por exemplo. O  aprimoramento do seu processo de produção, em torno do século XIII, permitiu a invenção das lentes e dos óculos. As lentes permitiram os telescópios e os microscópios. Esses últimos permitiram as vacinas, os antibióticos, o desenvolvimento da medicina, a diminuição da mortalidade infantil. E do vidro por fim surgiu a fibra de vidro e a fibra óptica, que permitiu a internet e a comunicação global. E com isso, o telefone celular. A partir dai, nos transformamos de Homo sapiens (e não de Mulher sapiens, que isso!) em Homo connectus. Mudaram-se as profissões e os hábitos. Como a nova profissão dos vigilantes de teatro que bombardeiam os transgressores que ligam seus celulares na hora do espetáculo. Semelhantes a atiradores de elite, apontam o feixe luminoso da canetinha de raio laser no aparelho (não miram na cara) e as pessoas, envergonhadas, desligam na hora.
E agora, o importante  é "bombar" no facebook, curtir fotos e postagens, instalar aplicativos de aniversário, conhecer redes sociais, fazer cadastramento biométrico, digitar caracteres esquisitos para se logar em sistemas, atualizar softwares, aprender a usar mais um controle remoto, etc. E as senhas, meu Deus! Vivo perdida nelas. Algumas são o nome dos netos mais a data de aniversário, outras a placa do carro mais o número da casa, algumas o nome da cadelinha mais os três primeiros números do telefone. Dai misturo tudo, não sei se é cachorro mais aniversário ou cachorro mais placa. O melhor é escrever todas as senhas e guardar. Mas, onde guardar? Como lembrar onde estão guardadas? O melhor mesmo, mais seguro, é esquecer todas e ficar protegido inclusive contra nós mesmos. Mas sem senha a gente nem existe. Ai, que saudades de subir em um pé de jabuticabas, apanhar algumas bem grandes e docinhas, colocar num cesto e vender na rua. Simples assim.