A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Agora é você

Pai da nova geração: Chris com a filha Lia

Pai da velha geração: Zé em 1973 com os filhos Luiz Cláudio e Vinícius

Pai da geração mais antiga ainda: Padrinho Pereira (o primeiro, de branco)


        A crônica de Antônio Prata publicada na Folha e intitulada  "Sua vez", ilustra bem como os pais atuais estão participativos na criação dos filhos.
          Ele conta que estava sonhando. Vinha voando, planando devagarzinho, como naquele banquete no final do filme do "Asterix, só que o banquete era no jardim da sua avó. Voava em direção a um javali e quando estava quase dando uma dentada no glorioso pernil do animal, uma dedada em sua costela o chamou de novo ao mundo dos vivos: "Acorda, é sua vez, vai lá que ele tá chorando faz tempo." Levou uma eternidade para entender que não estava voando, não havia javali nem banquete, eram 4h da madrugada, seu filho estava chorando e ele precisava tomar uma atitude. Respondeu sonolento e com ressaca das cervejas da noite anterior: "Eu fui à uma!". Do outro lado da cama veio a resposta incontornável: "Eu fui às três!". Não teve dúvida de que seria ele a deixar aquela cama quentinha e sair tropeçando na noite escura. Talvez tivesse que fazer mamadeira ou trocar a fralda. Acabaria com cocô nas mãos, nos braços e poderia levar um jato de xixi na testa. Nessa hora, não se sentia mais uma pessoa boa, um pai esforçado, um filho da revolução cultural dos anos 60 que acredita em direitos iguais para homens e mulheres. Se sentia um monstro cujo objetivo era continuar dormindo e só enxergava o travesseiro. Pensou em não ir, mas seria divórcio na certa. Pensou em dizer que não iria porque trabalhava o dia inteiro pra sustentar a família. Mas a mulher também trabalhava e não ia dar certo. Pensou em agir como um homem dizendo que iria até a esquina comprar cigarro e nunca mais voltaria. Mas para isso teria que abrir mão do seu bem mais precioso naquele momento, a cama. Entorpecido pelo sono, pela ressaca e choro de bebê, pensou em tantas pessoas que não teriam trocado uma fralda sequer. Sentiu inveja dos colonizadores europeus. Do exército do Genghis Khan. Dos romanos e gauleses. Homens num mundo de homens, para homens.  Passou então a maldizer  o iluminismo, a psicanálise, o século XX, os hippies, a Yoko, a Leila Diniz, o parto humanizado, as peladonas de protesto.  Recebeu outro cutucão: "Vai! É a sua vez!". E ele foi, praguejando contra a injustiça de um mundo justo.
        Pensei no Zé, meu marido. Nunca ele se levantou à noite para cuidar de filho. Certa vez, com um bebê e quatro crianças de um a seis anos, todas gripadas e de nariz entupido, eu já tinha me levantado quinze vezes. Na décima sexta, dei uma cutucada nele: "Vai, agora é você". Depois de uma eternidade, ele se sentou na beirada da cama e por lá ficou. Dei outra cutucada e ele disse: "Se eu me levantar depressa, fico tonto e caio" . Desisti de vez. 
       Bem, o Zé ao menos tentou. Pior foi o meu padrinho Pereira. Fazendeiro bonachão, quando minha madrinha cutucou-o para cuidar do filho que berrava, virou-se para o outro lado da cama e disse: "Faz assim: você olha a sua banda e deixa a minha banda chorar"...
       Neste mês de agosto, quando se comemora o dia dos pais, parabéns a todos os pais. Aos que cuidam dos filhos à noite, fazem mamadeiras e trocam fraldas. E também aos que não fazem isso, mas que conseguem ser bons pais, cada qual do seu jeito. Que sejam sempre os heróis dos seus filhos e caminhem com eles ao longo da vida, como na música do Fábio Jr: "Pai, você foi meu herói, meu bandido, hoje é muito mais que um amigo; nem você nem ninguém tá sozinho, você faz parte desse caminho,que hoje eu sigo em paz".





terça-feira, 4 de agosto de 2015

Uma estória de amor

Roque com um mês, dormindo tranquilo

Lolla e Tobias juntinhos

Duda amamentando o quinteto

          Há um ano atrás escrevi sobre o drama canino envolvendo  minhas duas filhotes de yorkshire : a Duda, grandalhona e destrambelhada e a Sissy, minúscula e meiga. No meio, o Zé, meu marido, revoltado com a Duda. Acontece que um dia a Sissy encontrou o portão aberto e fugiu. Ficou a Duda, até que um dia o Zé disse a famosa frase: -"Ou eu ou o cachorro ". Com lágrimas nos olhos, troquei a Duda pela "Duda Outra", mais calma e educada (o filho comentou que eu deveria ter trocado era o marido).
         Agora a Duda Outra encontrou um namorado, o Nick. Foi amor à primeira vista. Cruzaram inúmeras vezes e como resultado nasceram cinco filhotes, que estão com um mês: Lolla, Sissy, Tobias, Apollo e Roque. São pretinhos, brilhantes e limpinhos. A mãe os lambe dia e noite, deve ter gasto litros de saliva. E de leite também, não sei como consegue tanto. Eles estão gordinhos e saudáveis e ela, pequenina e acabada, é possível sentir os ossos da costela. As tetas são dez e matematicamente seriam duas para cada um, muito simples. Mas a natureza é complexa. Os cinco filhotes empurram uns aos outros disputando as tetas, todos querem a mesma. Quando a Duda enfeza, sai andando com os cinco dependurados. É uma mãe incrível, impressionante como sabe tudo o que tem a fazer, cachorro é assim. Defende os filhotes das pessoas que não conhece, late, avança e não deixa passar a mão. Tenta carregá-los pelo pescoço quando caem da caminha, mas não tem força e nem jeito pra isso. Quando ouve um ganindo, corre pra acudir, sai derrapando pelo caminho. Pariu sozinha, cortou o cordão umbilical de todos, comeu as placentas sanguinolentas, limpou os filhotinhos, deitou em cima deles para aquecer e já começou a amamentar. Deve ter ficado encantada com  tanto cachorrinho saindo do seu corpo. Não sei se ela consegue perceber o desenvolvimento deles. Levaram 12 dias para abrir os olhos e no começo só dormiam e mamavam. Depois passaram a se arrastar e agora já caminham devagar e tentam brincar uns com os outros. A Lolla é a maior e bem tranquila, deve roubar o leite dos outros. O Roque é pequenino, espevitado e chorão, deve andar estressado com a competição pelas tetas. Logo os dentinhos vão aparecer, machucar as tetas e a Duda vai empurrá-los.
        É lindo ver e acompanhar essa estória de amor incondicional de uma cadelinha com seus filhotes. Mas logo ela não vai querer mais saber deles, vai ignorá-los e seguir com sua vidinha de cão, sem nem se lembrar que eles existiram. Na mãe humana não, o amor pelo filho é para sempre. Por isso cachorro é cachorro e gente é gente. Sei que existem muitos cães abandonados e maltratados, uma maldade e injustiça com o melhor amigo do homem.  Mas existem também muitas crianças que necessitam de um lar, outras que são espancadas pelos pais, outras que passam fome, outras que tem pais que oferecem tudo, menos tempo com os filhos, talvez o que mais precisem. E tem também os velhinhos. Penso que muitos  gostariam de alguém para segurar suas mãos enrugadas e escutar suas estórias, com paciência e sem pressa. Segundo Rubem Alves,  "história" é diferente de "estória".  "História" é aquilo que aconteceu uma vez, pertence ao tempo, é ciência; quem ouve uma "história" fica do mesmo jeito. "Estória" é aquilo que acontece sempre, pertence á eternidade, é magia; quem ouve uma "estória" pode ficar outro.

        Quem sabe um dia encontraremos tempo para ouvir as estórias dos velhinhos, que por certo serão mais bonitas que a estória da Duda com seus filhotes.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Quem procura, acha

Luiz Cláudio com a família e participando do triatlo em Santos

            O meu filho Luiz Cláudio, atualmente médico ortopedista, triatleta, pai, esposo  e treinador de cachorro perdigueiro, é uma pessoa muito persistente.
            Tudo começou em 1983, quando ele estava com 11 anos. Gorduchinho e com os joelhos um pouco tortos, entrou na natação do UTC. Ia empurrado e desanimado. Um dia, o Zé, meu marido,  prometeu-lhe uma moto se ele fosse campeão mineiro. Virou outro. Passou a treinar todos os dias de madrugada movido pelo sonho da moto XLX250. Aos 14 anos, foi campeão mineiro de nado borboleta em BH e depois participou do campeonato brasileiro no Rio, ficando entre os primeiros. O pai, que não pensava que ele seria campeão, enrolou um ano mas deu a moto.
            Lembro-me de um triatlo no qual ele participou no Parque do Sabiá, aos 16 anos.  Participantes do Brasil inteiro, uma multidão. Os nadadores tinham que atravessar a lagoa  dando uma volta em torno de uma boia e subir em um tablado do outro lado. Tinha um barquinho salvando quem estava se afogando e eu, da ponte,  de olho no barco, com medo do filho se afogar. Os nadadores que não foram atropelados no começo, nadavam em uma formação em V, com um atleta liderando a competição. A turma  começou a  torcer. Só quando o herói subiu no tablado, reconheci o Luiz Cláudio! Quase morri de emoção.
            Depois, na época do vestibular, ele decidiu fazer medicina na UFU. Disse que ia passar no primeiro lugar e passou mesmo, na UFU e na UFMG, aos 17 anos. E quando terminou a residência na USP de Ribeirão, passou em primeiro lugar no exame nacional  da SBOT.
            Agora, aos 43 anos, resolveu ser triatleta. Nada, corre e pedala de domingo a domingo. Treina de madrugada, antes de começar a operar. No sábado pedala 160 km e no domingo também. Começou a treinar em fevereiro do ano passado e já perdeu 26 kg, vai sumir. Em julho, participou do "Troféu Brasil de Triatlo" em São Paulo e ficou em terceiro lugar. Nas três etapas seguintes, já ficou em primeiro lugar. No momento, anda treinando para o Ironman em Zurich e desconfio (mas tenho medo de perguntar) que pretende se classificar para o campeonato no Havaí, coisa de loucos.
            Bem, no meio de tudo isso, aconteceu o seguinte. O Luiz Cláudio tem um cachorro perdigueiro, o Cookie, uma de suas paixões. É criado no apartamento, na cobertura ( destrói tudo). Ele o está treinando com uma coleira de adestramento, ou seja, dá uns choquinhos nele quando desobedece e dá ração quando obedece. Os comandos são para sentar, esperar, ficar junto, dar a pata. Funciona, mas tem hora que dá tudo errado. Por exemplo, dia desses fomos para a fazenda com o Cookie. Foi só descer da camionete e ele, como bom perdigueiro,  estraçalhou duas galinhas e rolou na bosta das vacas, ficando irreconhecível. Mas o pior mesmo foi que ele engoliu uma ruela curva especial, de meio centímetro, do câmbio dianteiro da bicicleta de fibra de carbono, caríssima e importada. O fato aconteceu no apartamento, enquanto o filho dava a manutenção. Sem ela, acabou-se a bicicleta, não é vendida separada.  Ele procurou a ruela por todo lado. Como não a encontrou e o Cookie estava por perto, chegou á conclusão óbvia.
            Quando ele me contou isso, perguntei brincando: "-E aí, você procurou no cocô do Cookie? " E ele respondeu sério: "É, encontrei no décimo cocô...Quem procura, acha." Deus meu, ele passou três dias procurando onde o Cookie fazia cocô e remexendo os montinhos com um pauzinho. Isso é que é perseverança, o resto é bobagem.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

No ônibus


Maíra e a cobra
          "Educação, boa e velha" é o nome de um texto da psicóloga Rosely Sayão.  A autora comenta que na sociedade atual os velhos perderam importância e que os pais das crianças não acreditam que os avós tenham algo a acrescentar à formação dos netos . Mas os avós insistem, porque acham que vale a pena ensinar aos netos coisas como  certo e errado, falso e verdadeiro e que ter liberdade é muita responsabilidade. Rosely acrescenta que antes, os avós mimavam os netos, mas que agora não podem mais fazer isso, pois são os pais é que mimam, satisfazendo todas as vontades dos filhos. Daí, muitos avós da atualidade conseguiram inovar o sentido da palavra "mimar". Para esses velhos, mimar passou a ser dedicar tempo aos netos e ter paciência com eles (penso que estou nesse grupo). A isso, eu acrescentaria que mimar também é aprender com os netos e se divertir com eles.
       Como num dia desses, quando realizei o sonho da Maíra, minha netinha de quatro anos. O sonho dela era passear de ônibus. Assim, decidi levá-la ao Campus Umuarama, onde eu trabalhava, e fomos para a praça Tubal Vilela. Depois de esperarmos 20 min, ela entrou no ônibus animadíssima, conversando com os passageiros e de olho na janela. Ficou preocupada com uma moça de pé ao lado de um assento vazio e falou várias vezes: "-Moça, senta aí", mas a moça não sentou. Quando chegamos ao campus, uma amiga minha, professora de répteis, levou a Maíra para conhecer o serpentário e deixou que ela passasse a mão em uma cobra inofensiva. Ela ficou fascinada. Na volta, pegamos o ônibus no ponto mais perto. Assim que a porta abriu e a Maíra subiu os degraus, parou no meio do corredor, antes da roleta, colocou as mãos em volta da boca e gritou a plenos pulmões, com seu vozeirão característico:"-Geeeente! Geeeente! Eu passei a mão na cobra!". Alguns passageiros riram, outros devem ter pensado que ela estava mentindo, outros  continuaram dormindo. Eu, meio sem jeito, tentei explicar alguma coisa. Mas logo o ônibus deu um safanão e consegui segurar a Maíra pela gola da blusa. Na sequência, no afã de pegar rápido um lugar com janela, ela entalou debaixo da roleta, tentando passar por baixo. Pegamos o ônibus errado e tivemos que parar no terminal para pegar outro, que estava lotado. Consegui um assento e a coloquei no colo, mas ela ficou indignada porque tinha uma moça sentada ao lado, na janela, e a Maíra tinha certeza que o lugar deveria ser para ela. No dia seguinte, fomos ao bairro Guarani, na casa da minha ajudante, e para ela foi outra aventura. Voltou de cabelo lavado e escovado e de unhas pintadas. Minha ajudante tem um salão de beleza e a Maíra usufruiu de tudo. Entrou linda no ônibus, sentamos nos assentos da frente e ela contou toda a sua curta vidinha de quatro anos para o motorista, sempre com um olho nele e outro na janela. Não falou da cobra, mas ao descer falou bem alto: "-Brigaaaaado, motorista"!
       Acho as crianças incríveis e por isso ainda pretendo mimar muito meus onze netos. Como escreveu Adélia Prado: "Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande..." Ou como no texto de Rubem Alves: "são as crianças que veem as coisas -porque elas as veem sempre pela primeira vez com espanto, com assombro de que elas sejam do jeito como são. Os adultos, de tanto vê-las, já não as veem mais. As coisas -as mais maravilhosas- ficam banais. Ser adulto é ser cego."

        Penso que a Maíra viu muita coisa pela janela do ônibus que eu não vi...

terça-feira, 2 de junho de 2015

Frases interessantes



            Gosto de frases criativas e bem humoradas, tanto das escritas por pessoas famosas quanto das escritas por vestibulandos na hora do desespero. E também gosto de provérbios divertidos e de frases de para-choques de caminhões. Acho-as geniais, lógicas, filosóficas e cheias de humor.
            Algumas são tão erradas que se tornam interessantes.Como as frases que circulam na internet como sendo de correção de vestibular: "as glândulas salivares só trabalham quando temos vontade de cuspir"; "antes de ser criada a justiça, todo mundo era injusto";"todo farmacêutico é um médico fracassado"; "quando um animal não tem água para beber, só sobrevive se for empalhado"; "o maior matrimônio do país é a educação"; "o nervo óptico transmite ideias luminosas ao cérebro"; "o sol nos dá luz, calor e turistas"; "as constelações servem para esclarecer a noite";  "oceano é onde nasce o sol: onde ele nasce é o nascente e onde desce é o decente". E por ai vai...
            Já entre as frases anônimas e sábias, existem estas: "diga-me com que andas que eu te direi se vou contigo"; "na vida tudo é relativo: um fio de cabelo na cabeça é pouco; na sopa é muito"; "eu cavo, tu cavas, ele cava: não é bonito, mas é profundo"; "eu bebo pouco, mas esse pouco me transforma em outro homem, e esse outro homem bebe pra caramba!"; "por maior que seja o buraco em que você se encontra, pense que, por enquanto, ainda não há terra em cima". E aquela escrita em um motel no Rio:"antes à tarde do que nunca".
            Quanto aos provérbios engraçados, temos, entre outros: "meia verdade é uma mentira inteira" ; "não se deve emprestar nem livros nem mulheres: nunca devolvem os livros; as mulheres, sempre"; "há males que vêm para pior";"errar é humano; colocar a culpa em alguém, então, nem se fala"; "às vezes é melhor ficar quieto e deixar que pensem que você é um idiota do que abrir a boca e confirmar a suspeita".
            Existem também as frases de certas pessoas, como: "a seleção brasileira é uma seleção sem vícios: não fuma, não bebe e não joga" (José Simão); "quem disse que ganhar ou perder não importa, provavelmente perdeu" (Martina Navratilova); "bom de briga é aquele que cai fora" (Adoniran Barbosa);"os homens mentiriam muito menos se as mulheres fizessem menos perguntas"(Max Nunes); "a Academia Brasileira de Letras se compõe de 39 membros e um morto rotativo"(Millôr Fernandes); "nunca confie em uma mulher que diz sua verdadeira idade, pois se ela diz isso, é capaz de dizer qualquer coisa"(Oscar Wilde).
            Mas bom mesmo são as frases nos para-choques dos caminhões. Simples e diretas. Exemplos: "feliz foi Adão que não teve sogra nem caminhão"; "nas curvas do seu corpo capotei meu coração"; "cabelo ruim é igual bandido: ou tá preso ou tá armado"; "a fé remove montanhas, mas prefiro dinamite"; "amor sem beijo é como macarrão sem queijo"; "aqui é como o World Trade Center: só entra avião"; "coceira de rico é alergia; de pobre é sarna"; "eu sou imortal, pois não tenho onde cair morto"; "marido de mulher feia sempre acorda assustado"; "rico tem veia poética, pobre tem varizes". Quanta criatividade...
             Depois de tantas frases divertidas, é melhor encerrar com duas lindas: "as mães não envelhecem: elas entardecem, viram nuvens e se transformam no pôr do sol" e "filhos não são pedaços de nós; são pedaços de Deus que estavam em nós". Enfim, é bom saber que existem pessoas de bom humor que criam frases que alegram nossa vida.
            

sábado, 9 de maio de 2015

Perfume de mãe

Minha mãe, Maria, aos 82 anos (faleceu aos 88)

A magnólia

Meu irmão, minha sobrinha e eu, de cachinhos, no jardim da minha infância
               No excelente filme "Perfume de mulher",  Al Pacino representa um militar cego que sonha em passar um fim de semana inesquecível em Nova York antes de morrer. A cena mais bonita do filme é um tango que ele dança com uma jovem, ao som da música de Carlos Gardel. Mas o interessante é a extrema sensibilidade do militar, como pessoa cega,  em sentir e definir com precisão o perfume usado por cada mulher que se aproxima dele.
                Pensei então que existem perfumes que nos fazem lembrar de certas pessoas ou de lugares. O perfume da flor de magnólia sempre me lembra a minha mãe  e o jardim da minha infância. Na nossa antiga casa, numa cidadezinha de interior, existia um belo jardim com hortências, rosas, antúrios, ciprestes e palmeiras. No meio, majestoso em sua simplicidade, um pé de magnólia. Quando as flores brancas se abriam, perfumavam todo o ambiente, com um aroma adocicado e penetrante. Minha mãe cuidava do jardim e tinha um carinho especial pelo pé de magnólia: podava, tirava as flores e folhas velhas, colocava terra e esterco. E quando sinto cheiro de goiaba também me lembro dela. Todo ano fazíamos goiabada. Eram dias de labuta e minha mãe ficava com cheiro de goiaba. E eu também, pois ajudava em todas as etapas, desde subir no pé para apanhar as goiabas, até ficar horas mexendo o tacho de cobre na trempe de lenha, com uma grande colher de pau, com medo do doce de goiaba molinho e escaldante, que borbulhava no tacho, cair nas minhas pernas. Sinto saudades dela. Mãe é para sempre e não deveria morrer. Como escreveu  Drumond : "-Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será sempre pequenino feito grão de milho".
                Mas não tem como e um dia as mães vão-se embora. Mas deixam seus ensinamentos,  exemplos e a lembrança de algum perfume só seu. E com certeza, se amor tivesse perfume, todas as mães teriam o perfume do amor. Um perfume resultante do amor de  todos os tipos de mãe:  a mãe de barriga ou a mãe de vida; a mãe alegria e a mãe sofredora; a mãe educadora e a mãe analfabeta; a mãe corajosa, a mãe oprimida, a mãe carinhosa, a mãe-pai , a mãe desde sempre e a mãe escolhida; a mãe que se acaba junto com o filho viciado, a mãe que pede pão para os filhos. E tantos outros, pois os  tipos mudam, mas o amor não.
                Como exemplo de tipo de mãe dos tempos modernos, temos a mãe de aluguel,  que surgiu com o aperfeiçoamento das técnicas de reprodução humana. Li na "Folha" (28/04/15) uma reportagem sobre o terremoto no Nepal, enfocando o resgate pelo governo de Israel de 26 bebês recém-nascidos  de barriga de aluguel. São filhos de solteiros e gays israelenses que utilizaram a inseminação artificial e o embrião foi implantado no útero da mãe de aluguel. Há mais de 100 mulheres nepalesas grávidas de filhos de israelenses; o processo custa em torno de US$20 mil no Nepal e US$ 100 mil nos EUA. Com medo de tremores secundários, estão resgatando os bebês e 20 mães de aluguel em adiantado estado de gestação, mas  não há preocupação com as  80 mães que ficarão e nem com aquelas que acabaram de dar a luz.
                Ser mãe de aluguel é um assunto complexo demais para dar opinião. Só sei que minha mãe nunca sonharia que isso seria possível e não entenderia nada do processo,         mas mesmo assim envolveria todas as mãe com seu perfume de magnólia.  

sábado, 11 de abril de 2015

O joão-de-barro, o louva-a-deus e o leão

Casal de joão-de-barro construindo o ninho

Fêmea de louva-a-deus devorando a cabeça do macho


Casal homossexual de leões


                Sempre que caminho em um clube, converso com um funcionário troncudinho e gentil. Dia desses, estava ele envolvido na observação de um casal de joão-de-barro construindo o ninho. Fiquei observando também. Um deles chegava com a pelota de barro no bico, colocava na parede do ninho, o outro vinha e alisava o barro, se revezando. O ninho estava quase pronto, na forma de um forno e com uma portinha caprichada. O funcionário comentou que o casal de joão-de-barro é muito fiel um ao outro e que, se o macho for traído pela fêmea, que voa até uma grande altura e depois despenca do alto, se esborrachando no chão. Ou seja, um suicídio por desgosto amoroso. Uma amiga entrou na conversa e disse que não era  assim, que na verdade o macho traído fechava a porta do ninho e prendia a fêmea lá dentro. Eu disse que isso devia ser lenda, pois imagina se a fêmea ia ficar quietinha dentro do ninho, esperando durante uns dois dias  o macho pegar cada pelotinha de barro para tampar a entrada e prendê-la. Ainda mais que o joão-de-barro  é considerado um pássaro inteligente...
                Não encontrei na literatura nada que confirmasse nem o suicídio, nem o instinto assassino do joão-de-barro. Mas existem muitos fatos comprovados e interessantes sobre o comportamento sexual dos animais. Como no caso do louva-a-deus e do leão. A malvada fêmea do louva-a-deus pratica o canibalismo sexual, uma forma de predação em que a fêmea devora o macho na cópula. Quando ainda estão realizando o ato sexual, a fêmea, que é maior que o macho, começa a devorâ-lo pela cabeça, pedacinho por pedacinho, com suas potentes mandíbulas. Isso porque precisa de proteínas para amadurecer seus ovos e já começa a aproveitar as do macho, coitado. Um caso típico de macho perdendo a cabeça pela fêmea. Mas existem invertebrados mais espertos, como em espécies de aranhas onde o macho é bem menor que a fêmea. Ele pode ser confundido com uma presa se chegar muito depressa, afoito demais para copular. Assim, o macho leva uma presa de presente para a fêmea e enquanto ela come a presa, ele copula.  Depois, sai rapidinho. Melhor dar um presente do que ser devorado.
                Quanto ao leão, o rei dos animais, ele é um dos muitos exemplos de espécie onde existe homossexualidade. Machos abandonam as fêmeas disponíveis para formar seu próprio grupo homossexual. O biólogo canadense Bruce Bagemihl, no livro "Biological exuberance: animal homosexuality and natural diversity", com 750 páginas resultantes de dez anos de pesquisa, cita o comportamento homossexual cientificamente documentado de cerca de 300 espécies de mamíferos e pássaros. Entra essas, o leão. E outras como pinguins machos, que tentam roubar o ovo de casais heterossexuais;   galos-da- serra com comportamento gay devido à alta densidade populacional e enorme competição pelas fêmeas; girafas machos jovens que formam pares homossexuais temporários, para treinar técnicas de acasalamento; baleias brancas machos em brincadeiras eróticas que sugerem uma orgia; macacas japonesas que se tornam agressivas quando tentam separar o casal de fêmeas. O biólogo deixa claro que é muito variado o repertório sexual encontrado na natureza e que não podemos estabelecer conexões entre animais e seres humanos.
                Quando comentei com meu irmão grandalhão, com alma de criança, o comportamento homossexual dos leões, ele reagiu indignado e boquiaberto, falando desanimado: -"Mas não é possível, até o leão? " Pois é, até o leão.