A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Comentários dos leitores

                                   

                Uma das recompensas ao escrever crônicas  é receber os comentários dos leitores. Alguns são tão interessantes que vale a pena divulgá-los.

                Por exemplo, na última crônica que escrevi, "Brazilian thong", sobre a mania que temos de guardar e usar coisas velhas, os comentários foram divertidos e variados. Muitas leitoras contaram que guardam o umbigo dos filhos e que , de maneira alguma, aconteça o que acontecer, irão descartá-los. Uma, que mora na fazenda, contou que sua mãe enterrou seu umbigo no mourão da porteira do curral, para ter muito gado, mas que ela não conseguiu enterrar o da filha. Outra relatou um caso assustador,  do enterro de um  homem de 33 anos que tinha um bebê de um ano. O bebê estava num quarto ao lado da sala do velório. As pessoas escutavam o choro do bebê, iam olhar e ele estava dormindo tranquilo. Depois de várias repetições desse fato, resolveram olhar nos bolsos do paletó do morto. O umbigo do bebê estava lá! Retiraram o umbigo seco do bolso e o choro parou, cruzes! Já outra escreveu que está é perdida, pois além dos umbigos, guarda todos os escritos dos filhos, desde os rabiscos do pré até as provas do curso superior. E uma professora universitária contou que conserva toda a tonelada de papel de sua vida acadêmica. Caiu na bobagem de perguntar ao marido o que ele faria se ela morresse primeiro, e ele: "Coloco tudo dentro de uma caçamba e jogo fora" . É isso aí, pra que ela foi perguntar...Igual aquela pergunta fatídica que os homens não devem fazer ás mulheres: - " Você tem que escolher: prefere eu ou o cachorro? "  Outra leitora escreveu bonito, que estava fazendo o exercício de guardar apenas memórias e pessoas queridas no coração. E uma contou um longo caso de um enterro no qual o morto estava vestido com o paletó do seu marido. Por precaução, ela resolveu olhar nos bolsos. Encontrou um pacote de notas guardadas, que por pouco não  foram enterradas.

                E as roupas velhas? A maioria dos comentários das leitoras foi de que passariam a usar só calcinhas e camisolas novas e bonitas, pois vai que...Mas uma leitora, teimosa, disse que continuaria com suas camisolas desgastadas e desbotadas mesmo, pois eram as mais confortáveis. E outra contou uma história : a filha estava muito atrasada para a escola, ela levantou-se apressada, com os cabelos desgrenhados, de meia e um pijama velho horrível, quadriculado. Colocou por cima um roupão mais horrível ainda, calçou as chinelas havaianas nos pés com meia, entraram apressadas no carro e lá se foram. Tiveram que parar na casa do ex -marido, que não se conforma com o divórcio, para a filha pegar algo. Ele, o ex,  abriu a porta e quase morreu de susto ao vê-la naqueles trajes. A leitora concluiu que foi ótimo, talvez assim ele a esqueça (a feiura às vezes pode ser útil). Ah, e tem também o relato de um médico, sobre pacientes que chegam pra  consulta bem vestidos e arrumados. Mas quando tiram a roupa para o exame médico, é um susto só. Cada cueca velha, parecendo funil, deixando tudo de fora. Sem falar das mulheres de calça comprida que revelam as pernas cabeludas ou ensebadas de creme que não tem nem como examinar os joelhos, de tão escorregadios. E o caso que contou, do homem que foi acidentado e quando tiraram a roupa dele, no hospital, estava com a calcinha da esposa?  Ainda bem que era da esposa.

                Também apareceram comentários indignados sobre o japonês  que colecionava as calcinhas, sobre as risadas gostosas que os leitores deram, e outros mais genéricos, como este elogio : "Ana, você é uma observadora do aqui e agora, com sua incrível e especial pincelada de alegria. Os assuntos mais doloridos são transmutados em festa".

                Quanto às coisas velhas que vamos guardando nas gavetas,  gostei sobretudo de um texto do Mário Quintana, enviado por uma leitora que justificava o porque de não esvaziar suas gavetas: "Eu moro em mim. Deixo sempre as janelas entreabertas pra sentir o sopro de raros afetos. A porta? Só abro para poucos. Todos os dias, eu percorro meus cômodos, corredores e contemplo a vida pela varanda. Mas, as gavetas...Ah...As gavetas? Ainda não dá para abri-las. Senão, acabo tendo que morar dentro delas". Lembrei-me do Pedro Bial, que no seu poema  "A morte", também fala sobre esvaziar gavetas. Argumenta que morrer, só mesmo quando se tem mais de cem anos, quando o sono eterno pode ser bem vindo, já que não há mais quase nada guardado nas gavetas. Ou seja, o Pedro Bial pensa que só em torno dos cem anos poderemos ter as gavetas vazias... Mas uma  leitora enviou-me texto de uma escritora sueca que escreveu o livro  "Limpeza da morte: a prática sueca de se livrar de bens acumulados em vida".  A  autora aconselha a começar a descartar coisas que não se usa e a esvaziar as gavetas a partir dos 65 anos e ressalta : "comece cedo, antes que você fique velho e fraco demais para fazer isso, nunca é cedo demais".

                Assim, penso que a partir de certa idade, ou esvaziamos as gavetas ou passamos a morar dentro delas. Simples assim.

                

 

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Brazilian thong


                                                           BRAZILIAN THONG

 

                 Desapegar de alguns objetos pode ser um problema enorme. Ou pelas lembranças boas que eles trazem, ou por não saber como e onde descartar, ou por preguiça e comodismo, ou por pensar que podemos achar outro uso para eles. E até mesmo por nostalgia, pois podem ser uma fonte de consolo e de conforto em tempos de saudades , como penso que foi o caso da minha mãe. Velhinha, sentada no banco do quintal, certo dia separava algumas tranqueiras de uma gaveta. Encontrou uma caixinha branca, sacudiu, abriu e me perguntou: -"Sabe o que tem aqui?" Na hora, por intuição e conhecendo como ela gostava de guardar coisas velhas, respondi: "- Deve ser o meu umbigo, sequinho!" Jesus, e era! Ficamos as duas boquiabertas, ela por eu ter adivinhado e eu por ela ter guardado meu umbigo por mais de 50 anos! Enterrei-o no canteiro do jardim e encerrei o assunto.

                Mas ás vezes guardar e usar coisas velhas pode causar complicações. Como na caso de minha filha. Em uma de suas andanças como mochileira pelo mundo, com uma amiga, foi da Índia para o norte da Tailândia, para um vilarejo bucólico com piscinas termais. Hospedou-se em uma pousada, num chalé entre árvores, mais afastado. A dona do chalé, uma tailandesa pequenina, avisou-a que  tinha aparecido por ali um ladrão de calcinhas. Explicou que minha filha não precisava se preocupar, pois ela já havia preparado uma armadilha para pegar o larápio sem-vergonha: iria dependurar várias calcinhas novas e coloridas no varal e ficar de tocaia. Assim, depois do banho, minha filha, tranquila,  lavou e dependurou na varandinha do chalé a calcinha velha, com a rendinha rasgada, elástico relaxado e vários buraquinhos na malha. Pensou que estava na hora de jogá-la fora, mas como ainda teria alguns dias de viagem e na Tailândia só se encontra calçolas esquisitas pra comprar, resolveu conservá-la por mais um tempo, jamais encontraria uma calcinha confortável como as brasileiras. Dormiu com os anjos e no dia seguinte, quando olhou no varal, a calcinha tinha desaparecido! E ao longe avistou o varal da tailandesa com as calcinhas novas e coloridas tremulando ao vento, intactas.  Dias depois, a tailandesa avisou que a policia local tinha desconfiado de um turista japonês que estava hospedado lá por perto. Deram uma batida na casa dele e encontraram calcinhas de todo tipo. Assim, estavam precisando de testemunhas para reconhecer as calcinhas e a minha filha precisava ir até a delegacia reconhecer a dela. Horrorizada, minha filha disse que jamais iria até lá reconhecer a calcinha velha, tinha vergonha. Mas a tailandesa tanto insistiu que ela foi. O policial pequenino (lá todos são pequeninos) espalhou várias calcinhas sobre a mesa, ela reconheceu a calcinha esburacada, ele a colocou em um saquinho de plástico, escreveu em letras garrafais "BRAZILIAN THONG" e a guardou como prova do crime. Deve estar por lá ainda, na forma de pó. E o japonês, não se sabe o paradeiro.

                Ah, e tem também um caso local, da camisola da minha amiga. Foi assim: há alguns anos , em Uberlândia, no centro, aconteceu  a explosão de um botijão de gás durante a noite. Um acidente terrível, que danificou prédios e lojas. A minha amiga morava em um prédio próximo . Quando ouviu o estrondo da explosão, pensou que era um avião que tinha caído em cima do prédio. Levantou-se como estava, com uma camisola confortável, mas com fendas laterais,  bem velha, feia, desbotada e descosturada  nas laterais. Desceu esbaforida todos os degraus, do décimo segundo andar até o térreo, sem chinelos, sem óculos, sem nada, só de camisola velha. Todos os moradores do prédio desceram também como estavam. Quando o dia amanheceu, ficaram olhando uns para os outros, consternados, e ela encolhida na sua camisola desbotada e descosturada. Jurou que , a partir daquele dia, só dormiria com camisolas lindas e novas, pronta para qualquer explosão de botijão de gás, queda de avião ou terremoto.

                Bem, depois do umbigo, da calcinha velha e da camisola com fendas, não resta mais nada a contar.


sábado, 5 de outubro de 2024

O sujeito da oração é você


                                                  

                Não gosto de enviar mensagens de bom dia, boa tarde, boa noite...Não sei se as pessoas têm tanto tempo assim de ficarem lendo. Mas gosto de muitas que recebo. Por exemplo, desta : -"Se é para viver, vamos viver direito. Com conteúdo. Troque o verbo, mude a frase, inverta a culpa. O sujeito da oração é você. A história é sua, mãos à obra! Melhore aquele capítulo, joque fora o que não cabe mais, embole a tristeza , o medo, aceite seus erros, reescreva-se. Republique-se. Reinvente-se. E transforme-se na melhor edição feita de você."

                É isso aí. Cada um escreve a sua história. Se aquele capítulo não está bom, embola tudo, amassa, joga no lixo e começa a escrever outro. Invente, ouse, sonhe, enfrente desafios. Mesmo que dê muita confusão. Como aconteceu com a minha amiga, que não vou contar o nome, para proteger a personagem.

                Ela, professora universitária e já na casa dos 60 anos,  estava se sentindo fora do contexto social porque não tinha Facebook. Resolveu pedir auxílio à uma sobrinha para entrar nessa rede. Deu certo e já no primeiro dia, muito conhecida e amada pelos alunos, recebeu dezenas de mensagens. Algumas que achou muito estranhas, parabenizando-a e oferecendo apoio por ela ter assumido sua orientação sexual. No segundo dia, a mesma coisa. Sem entender o que acontecia, pediu socorro novamente á sobrinha. Essa chamou-a de "burra" e mostrou o problema. Havia uma pergunta na descrição do perfil: -"Você gosta de menino ou de menina ?" A minha amiga, pensando em meninos e meninas criancinhas, pensou :- " Uai, claro que gosto dos dois ". E marcou. Pronto, com isso se identificou como bissexual. E recebeu todo apoio. Apavorada, saiu do Facebook e nunca mais voltou. Embolou este capítulo e jogou fora, foi uma reinvenção que não deu certo. Mas continuou tentando se reinventar e transformar-se em uma edição melhor dela mesma. Já com dois cursos de graduação, pós-doutorado no exterior, aposentada, está agora cursando disciplina optativa na universidade. Chega na sala de aula com seus vestidinhos estampados coloridos e de alcinhas, caneta com florzinha de crochê na ponta e senta-se no meio de jovens  vestidos de preto e com tatuagem. Dia destes o professor perguntou: "  - Quem é favorável á liberação da maconha?" Todos levantaram a mão, menos ela...Ah, e teve um colega que perguntou : -" Você beija menina? Pediram para eu perguntar pra você." E ela, espantada: " Na boca???"  Depois, completou : -"Eu beijava menino, mas no momento não beijo mais nada!" Agora ela anda escrevendo o próximo capítulo.

                O importante é viver com conteúdo e se reescrever sempre. Eu, por exemplo, tentando enriquecer os capítulos finais da minha história, resolvi ser fazendeira, sem entender do assunto. Vou trocando os verbos, colocando conjunções , mudando as frases e vai dando certo . Por exemplo: "Tenho trinta vacas e não tenho nenhum boi. Não posso comprar outro porque todos os que comprei morreram. " Daí coloco uma conjunção adversativa, acrescento um verbo e resolvo o problema: "Não posso comprar um boi, MAS posso pedir um emprestado" . E os casos que acontecem por lá dão emoção aos capítulos. Como no caso da galinha. Tenho três galinhas e dois galos.  Dia desses, o caseiro enviou um aúdio avisando que o galo foi subir na galinha  e escadeirou a galinha (do verbo escadeirar, lesar a bacia abdominal e torácica)  . E ele não sabia se podia comer a galinha. Daí, coloco uma interjeição, uma conjunção causal  e encerro o drama: "Jesus!Mas isso acontece?? Melhor o caseiro comer a galinha e eu comer o galo quando for na fazenda, PORQUE ainda restará um galo e a galinha não ficará sofrendo". Lembrando que esse é um período composto e na oração sindética aditiva "e eu comer o galo" , o sujeito é o pronome pessoal reto, "eu". Porque cada um de nós  é sempre o sujeito da oração.

 

 

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Mãe é mãe


                                              O meu primeiro filho. Depois vieram mais cinco...

              Certa vez, um menininho precisava fazer uma redação com o tema: " Mãe, só tem uma". Ele escreveu: "Cheguei em casa depois da aula, estava com fome. Queria chupar laranjas, abri a geladeira, olhei dentro e só tinha uma laranja. Daí, gritei para minha mãe: -Mãe, só tem uma!! Fim". Bem, o menininho poderia ter escrito que mãe é uma só porque só cabe uma mãe na vida de um filho, e olhe lá! 

            Também não sei como escreveria uma redação com este título. Mãe é um ser difícil de definir. Danuza Leão, por exemplo, escreveu que uma mãe tem que ser confortável. E mãe confortável é aquela que tem vida própria: ou joga pôquer e ninguém vai tirá-la da rodinha de sábado, ou tem um namorado que não vai deixar, nem morta, para cuidar dos netos, ou tem um gato que não pode ficar sozinho. É claro que o filho vai reclamar que não conta com ela  para nada e vai acusá-la de ser egoísta. Mas, se ele pudesse escolher entre uma mãe que sufoca e a que vive e deixa viver, por certo escolheria a última. Aconselha a não dizer ao filho que gosta dele mais do que tudo neste mundo. E a não ficar triste ao constatar que ele se importa mais com seus próprios filhos do que com a mãe. Pois a vida é assim, e o amor de cima para baixo - de mãe para filho - é muito maior do que aquele de baixo para cima - de filho para mãe. O que é natural, não é bom nem ruim, nem justo nem injusto: apenas é.

            Por outro lado, se perguntarmos a filhos como definiriam uma mãe, poderíamos ouvir respostas bonitas como "mãe é muito mais que um parente, mãe é jeito de amar'; "mãe é ser ao mesmo tempo a pediatra, a cozinheira, a professora, a brincadeira, o abraço; ser mãe é ser mágica";  " ser mãe é um dom divino que Deus deu a cada mãe,  por falta de tempo de cuidar de todos nós, ele criou a mãe"

            Mas também poderíamos ouvir respostas como: "mãe é aquela que não tem tempo nem para comer,  mas não se esquece de perguntar: -"E os dentes, já escovou?";  "mãe é aquela que padece no paraíso e inferniza a vida dos filhos"; "mãe é tão chata que não deixa os filhos andarem desarrumados e em plena chatice dá um beijo no filho na frente dos colegas da escola". Ou então:  "mãe é uma espécie esquisita que se alterna entre fada e bruxa com uma naturalidade espantosa."

            Eu, particularmente, gostei de uma definição que encontrei: "ser mãe é descobrir que o príncipe encantado, o homem dos seus sonhos, nasceu de você". Não pela explicação em si, mas porque lembrou-me do meu netinho Breno, de sete anos. Dia desses, quando fazia pouco tempo que o Zé, meu marido, tinha falecido, o Breno e eu estávamos na cozinha picando tomates (ele é um bom ajudante). De repente, ele disse: -"Que pena,  vovó, o seu príncipe encantado morreu!" Fiquei surpresa, perguntei qual príncipe encantado e ele respondeu : " O vovô Zé! "  Completou que agora eu dormia sozinha, que eu devia estar triste e se eu queria que ele dormisse na cama comigo. Quase chorei de emoção. Respondi que não precisava, quando a gente é mãe e avó nunca está sozinha...

            Enfim, mãe é mesmo um ser estranho, que olha para a seu bebê  querendo que ele não cresça nunca, não engatinhe, pois isso não seria necessário, ela poderia carregá-lo no colo a vida inteira. Que passa por experiências aterrorizantes, como ter um bebê engasgado no seu ombro ou o filho partir para as drogas. Que passa por noites mal dormidas, que sofre junto com os filhos adolescentes, com os filhos adultos, com os filhos já velhos. Querendo que as dores deles sejam suas. Mas, maior que tudo, ser mãe é fazer parte de um milagre, o milagre da vida.  É saber que o nascimento de um filho anuncia um futuro vasto do qual  não fará parte totalmente, pois os filhos são uma forma  de irmos mais longe no nosso tempo aqui na Terra. Ser mãe é ter o desprendimento e a sabedoria de saber que os seus filhos não são seus , como na poesia de Kahlil Gibran: " seus filhos não são seus filhos, são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de você, mas não de você.  E embora vivam com você, eles não lhe pertencem.  Vocês são os arcos dos quais seus filhos são lançados como flechas vivas. Você pode abrigar seus corpos, mas não suas almas,  pois suas almas habitam na casa do amanhã, que você não pode visitar, nem mesmo em seus sonhos".

            Concluindo, parabéns para todas as mães: as carinhosas, as bravas, as chatas, as preocupadas demais, as desligadas, as tias-mães, as pai-mãe, as de barriga de aluguel, as adotivas, as que perderam seu filhos, as que cuidam de suas mães, as que estão no céu junto ao Criador. Porque mãe é mãe e ponto final.

 


 

 

 

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sábado, 24 de fevereiro de 2024

O ano 2100



                                             

                Fiquei pensativa ao ler  algumas reportagens  do jornal Folha de São Paulo, enfocando aquecimento global, avanços da Ciência, corrida à lua, inteligência artificial...Daí, fiquei pensando que tipo de mundo teremos no ano 2.100.

                Por exemplo, o físico Alexandre Araújo, doutor em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Colorado, escreveu um extenso artigo sobre o aquecimento global e as ondas de calor que aconteceram no final de 2023. Tem um trecho assim: -"Você pode imaginar que num mundo 4 °C mais quente, vários pontos do Brasil chegariam a 50 °C. Nenhum dos nossos biomas resiste a isso. Nem a caatinga. Olha, está feio. É duro, porque a gente avisou tanto. Faz 20 anos que não faço outra coisa". Outro artigo, intitulado "Vêm aí os furacões força 6", de Marcelo Leite, jornalista de ciência e ambiente, alerta que os superfuracões serão cada vez mais frequentes e devastadores, pois a força deles está diretamente relacionada com a temperatura na superfície do mar, o seu combustível.  E Hélio Schwartsman, cronista , comentando a obra "The  Earth Transformed", descreve o fenômeno " El Niño" e  como o clima sempre foi personagem central da história humana. Afirma que dinâmicas ecológicas já extinguiram vários grupos e civilizações. Só sobraram os que souberam adaptar-se... E  teremos muito trabalho nas próximas décadas.

                Já o artigo "Saúde muda projeção e diz que país pode ter 4,2 milhões de casos da doença" ,  alerta que podemos ter quase três vezes mais casos de dengue em 2024 do que em 2023. As altas temperaturas têm contribuído para a proliferação do mosquito e também as chuvas torrenciais que causam alagamentos (é importante lembrar que uma única tampinha de refrigerante com água é um ótimo criadouro para a fêmea).

                Além de textos,  há imagens impressionantes nesse jornal. Uma do rio Solimões, seco e com enormes bancos de areia devido à seca histórica que aconteceu no Amazonas no final de 2023, é de cortar o coração. Na legenda, explica-se que a crise hídrica é fruto do descaso com a natureza e o planeta.

                Com tudo isso acontecendo, tem gente  que não quer ter filhos . Michael Kepp, jornalista ambiental norte-americano radicado no Brasil, escreveu "Procriar num planeta a caminho do colapso?" Explica que um bebê nascido hoje, quando já tiver envelhecido, em 2100, estará em um mundo onde o derretimento do gelo polar e glacial terá causado a subida do nível dos oceanos, que inundarão cidades costeiras; e o aquecimento global terá transformado grande parte do mundo em  deserto, reduzindo o abastecimento de alimentos e água, conforme alertam os cientistas do clima. Ou seja, os que nascerem hoje poderão sofrer muito. Ele, o Michael , afirma que não quer ter filhos, a criança poderia perguntar:-"Pai, já que não pedi pra nascer e você sabia que este mundo se tornaria cada vez mais inabitável, por que me colocou neste planeta infernal?"

                Concordo que teremos que nos adaptar e que teremos muito trabalho pela frente. Como disse Charles Darwin, "não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas sim o que melhor se adapta". Para isso, trabalhos de conscientização serão fundamentais,   desde atitudes individuais como apagar as luzes e tomar banhos menos demorados, até políticas globais  para salvar o planeta. E ao lado disso, o progresso da Ciência será imprescindível .  Como no artigo  "Indonésia tem desafio de cortar carvão." O país, um dos mais populosos do mundo,  é o terceiro maior produtor mundial de carvão e abriga uma das maiores florestas tropicais do planeta. Os três candidatos à presidência na próxima eleição mencionam explicitamente a necessidade de eliminação progressiva do carvão, para preservar as florestas. Precisam da Ciência para saber como fazer a transição energética e ao mesmo tempo salvar a floresta. Outro artigo,  "Usina solar flutuante em SP deve por país entre gigantes", aborda a construção de usina fotovoltaica  na represa Billings, demonstrando a busca  de métodos mais eficientes na geração de energia limpa.

                Felizmente, ao mesmo tempo que espécies entram na lista de extinção, há cientistas, estudiosos e ambientalistas  fazendo o que podem para salvar muitas delas. Por exemplo, no artigo "Em saga por coral de proveta, lua nova vira hora de caça a sêmen". O autor descreve o trabalho árduo da equipe de cientistas para coletar óvulos e espermatozoides do coral Mussismilia harttii,  ameaçado de extinção, que se reproduz nas noites de lua nova apenas de setembro a novembro. Realizam a fecundação "in vitro" e já criaram o primeiro banco de sêmen de corais. Enquanto isso, outros se debruçam nos animais do passado para entender os animais do presente. No artigo "Pele fossilizada com 290 milhões de anos é encontrada nos EUA" , descreve-se que foi encontrado um fragmento de pele fossilizado menor que uma unha dos dedos da mão. Além de conseguirem datar esse fóssil, os paleontólogos consideraram que é uma pele típica de jacarés e crocodilos.  E que tudo indica que foi a partir de estruturas como as encontradas nessa pele fossilizada,  que a evolução trabalhou para produzir as demais estruturas da epiderme dos vertebrados, como o pêlo dos mamíferos e penas das aves.

                Bem, com tanto avanço na Ciência e com tantos países estabelecendo metas para reduzir o aquecimento global, talvez nem tudo esteja perdido.  E se tudo der errado, que Deus proteja os terráqueos em 2.100. Que, aliás, em 2100, poderão ter se transformado em lunáticos. Conforme o artigo "Corrida à lua e Starship marcam ano espacial", uma intensa corrida pela Lua e uma temporada dedicada aos asteroides marcaram 2023 na exploração espacial. O veículo Starship, da SpaceX, empresa de Elon Musk, foi escolhido pela NASA para levar tripulações à superfície da lua. Ainda há muito o que fazer, mas penso que até 2100  estarão circulando como ônibus...

                 E se não der certo na Lua, no artigo "Lua de Saturno abriga oceano propício ao surgimento de Vida", relata-se que Mimas, uma pequena lua de Saturno, possui água líquida abaixo da sua camada de gelo. Os astrônomos concluíram que Mimas reúne todas as condições para a habitabilidade. Assim, podemos ir para lá também. Aliás, eu não! Em 2100 estarei debaixo da terra. Ou no céu, não sei.

 


 

 

               

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Paixões sertanejas


                                       

            Não entendo muito de música (gostaria) e o sertanejo não é meu gênero musical predileto.  Mas  não há como negar que as letras das músicas sertanejas são demais:  criativas,  singelas, originais, nostálgicas. Algumas muito divertidas, outras de muita sabedoria, outras cantando as belezas da natureza, outras tratando dos relacionamentos amorosos. Essas últimas são as mais interessantes, tem paixão pra todo gosto.

            Por exemplo, há um grupo de músicas sertanejas em que o apaixonado está bem com sua amada e ela é tudo pra ele.  Como Zezé de Camargo e Luciano cantando "eu não vou negar que sou louco por você, meu doce mel, meu pedacinho do céu, minha doce amada, minha alegria". E esse amor pode ser bastante  fogoso, como cantam Christian e Ralf: "esse amor molhado faz tudo acontecer, você me deixa atiçado, pra te mais prazer, eu cubro com espumas o teu corpo nú". Ou Gian e Giovani: "se a gente se ama, porque não se enrosca, s'imbora, vamos lá pra cama, estamos no clima". Ou Bruno e Marrone, em  "24 h de amor": "e de repente vi você sair com a toalha no seu corpo e se agarrar a mim como nos velhos tempos de um amor tão louco" . Também Chitãozinho e Xororó exaltam esse amor ardente: " minha amada amante, você me enlaça, me enrosca, me amassa, me atiça, me inflama, me abraça e me ama". E tem alguns que ficam juntos, mas sempre brigando: "entre tapas e beijos, morro de amor por ela, eu sou dela e ela é minha, é ódio e desejo, eu saio pra fora, ela me chama pra trás", como cantado por Leonardo. Ah, e tem músicas que o amado faz de tudo pra ficar com a amada. Felipe e Falcão cantam assim: "deixa eu te amar por favor, você pode impor o seu jeito de amar que eu aceito". E Teodoro e Sampaio: "quero alugar uma casa pra poder morar com ela, dizem que ela não presta, não me interessa, eu só gosto dela."

            Em outro grupo, classifiquei as músicas nas quais os dois amantes não estão mais juntos. Alguns ainda têm esperança,  como o Roupa Nova cantando: " volta pra mim, eu te amo e vou gritar pra todo mundo ouvir, sou menino e seu amor é que me faz crescer, esta paixão é meu mundo ". Zezé de Camargo e Luciano também : "aonde você foi parar, aonde a vida te levou, quando você vai voltar, pra ser de novo o meu amor?"  Mas há aqueles que sofrem muito e se apegam a pequenas coisas da amada, que já era, coitados.  Como Chitãozinho e Xororó : "um fio de cabelo no meu paletó, aquele fio de cabelo comprido já esteve grudado no nosso suor'".  E  Teodoro e Sampaio : "meu bem, eu queria que você voltasse, ao menos para buscar uns objetos que você não levou, um batom usado, um vestido velho, o vestido de seda que não tem mais valor". Tentam esquecer a amada, mas não conseguem . João Mineiro e Marciano cantam assim: " se eu não puder te esquecer, mando avisar que o velho amor acordou, esquecer é difícil demais, ninguém é capaz, se amou um pouquinho". Alguns reagem e entram em fúria : "esqueça o meu telefone e não ligue mais porque estou cansado de ser remédio para curar o seu tédio; decidi o meu telefone  cortar, telefone mudo não pode falar" , como na música do Trio Parada Dura . Outros partem para o xingamento: " você abusou demais, já não temos condições de continuar, vá pro inferno com seu amor, você não me amou", do Chitãozinho e Xororó. E tem aquele que chega ao extremo: mata a amada , vai pra prisão  e fica  conversando com o ipê florido que vê atrás das grades: "ela me abraçava, depois me traía, por isso a matei; agora minhas noites não têm aurora" , como cantado  por Liu e Léo.

            Nesse mesmo grupo da separação , tem amante abandonado que parte pra bebedeira. Como Teodoro e Sampaio: " antes de perder você eu não chorava e não sofria, agora bebo e sou fumante, se não conseguir esquecer, amanhã bebo de novo." E Jorge e Mateus : "oh, vida amargurada, oh, que saudades dela, não aguento mais, vou lá na vendinha, vou tomar um pingão". Na música "Boate Azul", o amado entristecido vai procurar outro amor para esquecer o que perdeu, mas se embriaga: "eu bebi demais e não consigo lembrar sequer qual o nome daquela mulher"  Já outros ficam sonhando em banco de praça, como na música de Bruno e Marrone:  "seu guarda, eu não sou vagabundo, eu não sou delinquente, sou um cara carente, eu dormi na praça pensando nela." Ou sonham em casa mesmo: "minhas lágrimas molharam a fronha do meu travesseiro, amor como é triste acordar e não te ver", de Milionário e José Rico. E tem aqueles que deixam claro que nunca, nunca mesmo, vão esquecer a amada: "você me pede na carta que eu desapareça, posso fazer sua vontade, mas esquecer é tempo perdido, ainda ontem chorei de saudades", de João Mineiro e Marciano .

E o ciúme, meu Deus? Tem muitos ciumentos sofredores. Como na música de Almir Rogério: "meu Deus do céu, diga que isso é mentira, se for verdade esclareça por favor, daí a pouco eu mesmo vi o fuscão, e os dois juntos se desmanchando de amor". E o Trio Parada Dura : "esta é a última vez que lhe vejo, não vou nem lhe pedir um beijo, não precisa virar o rosto , sei que no seu coração tem outro" .

            No último grupo, tem as músicas divertidas. Por exemplo, quando o amado "tá nem aí" para o que as pessoas pensam: "tô de namoro com uma moça solteirona, os parentes criticando, não me interessa se ela é coroa, panela velha é que faz comida boa", do Sérgio Reis. Também tem aqueles que contam vantagem , como Gino e Geno: "mulher bonita e gostosa, nóis ganha é de montão, de bobo nóis não tem nada, só a cara de coitado, nóis é bravo e bom de cama, nóis se finge de leitão, pra poder mamar deitado."

            Bem, depois dessa, vou parando por aqui. Mas que os amores e desamores retratados nas músicas sertanejas dariam um livro bem grosso, lá isso daria.

 


quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Ao rufar dos tambores




                               

            No domingo, oito de outubro, Uberlândia  encheu-se de cores, de música , de dança e de rufar de tambores. De todos os cantos da cidade chegaram , na Praça Rui Barbosa, os ternos do Congado, uma festa de origem africana. Um ritual do povo negro em homenagem à Nossa Senhora do Rosário e aos santos negros, São Benedito e Santa Efigênia.

            Das janelas do meu apartamento, eu assisti tudo. A Banda Municipal iniciou as comemorações e os ternos desceram pela Avenida Floriano Peixoto. Quando chegavam na praça em frente à igreja do Rosário, acontecia o apogeu das danças, dos cantos e do rufar dos tambores, na apresentação para a imagem de Nossa Senhora do Rosário, cercada de flores.

             Foi tudo bem organizado e de acordo com a tradição  das raízes do Congado.   Cada terno tem os seus componentes, a sua vestimenta, o seu canto, o rei , a rainha, as princesas, o capitão. E anjinhos também. O terno vai devagar, cadenciado, tocando e dançando em louvor à santa. O tipo de movimento e de dança é sempre o mesmo: saltitante, marcada pela ginga e pelo cruzamento de pernas e de pés. A direção é  horizontal, com deslocamentos laterais, dois passos pra lá, dois pra cá, certinhos. O capitão, que é o líder,  vai na frente, cantando os versos e os demais respondem em coro. Os cantos são destinados a tirar o grupo da ação das forças ruins e a invocar a proteção de Nossa Senhora. Falam dos sofrimentos da escravidão, dos lamentos de um povo arrancado de sua terra. Ao mesmo tempo que  invocam os santos e as forças do alto, também são cantos de redenção , de esperança de uma vida melhor. São espontâneos, curtos e singelos, como alguns exemplos de cantos do Congado que encontrei na internet: "trabalha nêgo, trabalha direito, a Senhora do Rosário merece o nosso respeito";  "ora viva, cai sereno, na aba do meu chapéu, a bandeira hoje ela sobe, pra ficar perto do céu; " ô viva nosso rosário, ô viva São Benedito, eu danço este reinado, danço porque acredito". Também há cantos de gratidão à Princesa Isabel, pela libertação dos escravos: " no tempo do cativeiro, preto não tinha valor, salve a Princesa Isabel, que o preto libertou". "no dia 13 de maio, eu amarrado na corrente, veio Princesa Isabel, nêgo véio libertou, foi Nossa Senhora, que esse nego véio salvou."

            Assim, cantando , dançando, tocando tambores, tamborins , cuícas, pandeiros e  as latinhas amarradas nas pernas dos homens, devagar os ternos iam passando. Os tambores soando alto na rua, invocando de um modo africano e selvagem, os santos católicos e a coroação dos reis congos. Os ternos do Congado são divididos em  grupos distintos, como os guardas de Congo, que se vestem de verde e de rosa, significando o caminho para a Senhora passar, com galhos verdes e flores. E os do grupo de Moçambique, que se vestem com as cores de Nossa Senhora, azul e branco. Passam cada um com sua bandeira colorida, enfeitada de fitas e bordados. Com o nome do terno de um lado e do outro, de N.S. do Rosário, São Benedito ou Santa Efigênia, lembrando a proteção que estes santos deram aos escravos negros. Carregadas por moças bonitas que rodavam a bandeira sem parar e sem cansar. Bandeiras com fitas grandes seguradas nas pontas por mulheres com vestidos rodados e confortáveis, e com sandálias brancas novas, dançando sem parar. Com tranças verdadeiras e tranças falsas. Muitas crianças pequenas, vestidas com esmero, com as cores do terno. Algumas carregavam e tocavam tambor, outras dançavam com habilidade e faziam acrobacias.  Os homens, com chapéus e capas enfeitados de contas, miçangas, franjas e bordados, um luxo só. Alguns de branco impecável, outros com cores vivas e brilhantes. Cores e mais cores (e também suor e mais suor, pois estava um calor escaldante, mais de 30 graus). Levavam cajado, bastão ou espada, que são elementos materiais, investidos de magia,  que funcionam como fetiche, centralizando o poder e a força sobrenatural. Colocavam o cajado com a ponta no chão e dançavam em volta, em círculo e curvados.  Mulheres com vestidos enfeitados com rendas, crochê, bordados.  Com passinhos pra lá e pra cá, na cadência da música, tudo bem ensaiado. Cabelos enfeitados ou com panos enrolados. Algumas com criança de colo, outras amamentando o bebê vestido com a roupa igual a da mãe.  Tinha cadeirante e muitos idosos ágeis, que cantavam com entusiasmo  e faziam acrobacias com o tambor. Ah, os tambores! Grandes, médios, pequenos, tocados com vigor e no mesmo ritmo o dia todo: tá-tá-tum, tá-tá-tum (á noite, mesmo depois que todos se foram, os tambores continuaram retumbando na minha cabeça).  Algumas pessoas ajoelhavam com o tambor e choravam na frente da Santa, que decerto consolava cada um deles. Ela, Nossa Senhora do Rosário, deve ter ficado feliz com tanta demonstração de fé, alegria e empolgação. Ouvi bem um terno cantando com estardalhaço: "Adeus Nossa Senhora, estou indo embora", muitas e muitas vezes. E depois se foi, dobrando a esquina. Os reis e rainhas dos ternos eram mesmo majestosos, com capas pesadas de veludo enfeitadas de dourado e coroas enormes e pesadas, lembrando a opulência dos reis africanos.  Novos reis e rainhas são coroados a cada ano, no final da festa. Existe também o rei e a rainha vitalícios. Segundo o porteiro do meu prédio, que é capitão do terno Amarelo Ouro, situado no Bairro Santa Mônica, os reis vitalícios são o casal D. Darci e o Sr. Zé do cinema. Vi os dois sentados durante a festa ao lado da imagem da Santa, majestosos em suas vestimentas. Curiosa, perguntei ao capitão do terno Amarelo Ouro qual era o canto deles: "dormi a noite no sereno da madrugada, sou amarelo ouro com amor, felicidade é de ouro , é de prata, a Mamãe do Rosário também é de ouro"; "rei, cadê a rainha, rainha, cadê o rei, nós viemos visitar, a rainha do nosso rei"; "na gaiola tem um canarinho, na gaiola tem um sabiá, só eu, só eu, só eu que não sei cantar". Achei lindo...

            Além do desfile dos ternos, teve hasteamento de bandeiras, procissão com as imagens de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito; missa com o Padre Fábio; coroação dos reis e rainhas para o próximo ano. E no entorno da praça via-se de tudo: barraquinhas de cachorro quente, churrasquinhos e bebidas, muita bebida; pessoas embriagadas fazendo algazarras ou caídas no chão; anjinhos sentados, cansados e segurando as asinhas; princesas com coroas e vestidos brancos descalças e carregando as sandálias; homens com carrinhos catando latinhas; público cantando e dançando junto com os ternos; crianças brincando com os tambores; grupos fazendo pose para fotos. E lixo, muito lixo, de dar tristeza. Enfim, tudo entrelaçado: a festa, a fé, a alegria das cores, a bebida, a tradição do ritual africano, o rufar dos tambores, a despedida para o próximo ano.

            Que Nossa Senhora do Rosário e São Benedito abençoem a todos.  Até o próximo ano, se Deus quiser.