A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

domingo, 15 de março de 2020

Grilo recheado





            Quando o assunto é inseto, logo se pensa em insetos nocivos, como mosca do berne, mosquito da dengue, pernilongo, barata, barbeiro da doença de Chagas. Mas inseto é muito mais que isso. Existe cerca de um milhão de espécies descritas e o número de espécies existentes no planeta, segundo diferentes autores, pode variar de cinco a dez milhões. O bom é que a maioria das espécies conhecida é benéfica. Só para dar alguns exemplos: o incrível avanço da genética nos últimos anos se deve em parte aos estudos com a mosquinha da banana, a Drosophila melanogaster, que possui cromossomos gigantes nas glândulas salivares; a maioria das plantas que floresce no mundo depende de insetos polinizadores, como abelhas, vespas, besouros e moscas, para a produção do fruto; os insetos saprófagos decompõem cadáveres de animais e plantas; os insetos do solo promovem aeração e aumento da matéria orgânica; produtos derivados dos insetos, como mel e seda, movimentam indústrias milionárias.
            Além disso, acredita-se que futuramente os insetos terão um enorme destaque na alimentação humana. Atualmente, cerca de 30% da superfície terrestre é destinada à agricultura e à pecuária. Os insetos podem ser criados sem necessidade de áreas específicas para isso e são uma excelente fonte alternativa de proteína. Embora pequenos, são altamente proteicos e podem ser criados em massa, devido à sua alta capacidade reprodutiva e ao ciclo de vida curto. Aliás, a entomofagia, ou seja, o hábito de comer insetos, é bem antigo e surgiu com os primeiros hominídeos. O povo asteca já se alimentava com dezenas de espécies de insetos: assados, fritos, ao molho, fervidos, secos. Hoje em dia são consumidos por diferentes povos em diferentes regiões do mundo. Por exemplo, pupas do bicho da seda são comidas na China e no Japão como biscoito e vespas adultas, na forma de churrasquinho. Ovos de percevejo são o caviar dos mexicanos e os percevejos adultos servem como condimento do alimento, torrados e moídos com pimenta. Lagartas de mariposas são comidas normalmente no Zaire e dez delas são suficientes para suprir as necessidades diárias de um adulto. Gafanhotos africanos cozidos em água salgada são vendidos nos mercados de Marrocos. Tanajuras torradas são usadas como tira gosto em Pernambuco. Larvas assadas de vespas são comidas com farinha pelos índios brasileiros. Insetos enlatados são vendidos nos mercados americanos, mas o preço é alto. As lagartas fritas são comidas como cereal e os gafanhotos fritos são usados em pizza.
            No entanto, muitas pessoas possuem aversão a comer insetos (inclusive eu), o que é muito mais cultural do que científico ou racional. Afinal de contas, outros invertebrados, como ostras e scargots, escorregadios e gosmentos, fazem parte da dieta humana. E a "carne" dos insetos tem os mesmos componentes das outras carnes, mas com muito mais proteínas e vitaminas, representando uma poderosa fonte alimentar para o mundo que passa fome.
          Como tudo é uma questão de hábito, pesquisas mostram que as pessoas podem comer insetos com prazer, desde que apresentados de uma forma disfarçada. Estudantes de entomologia comeram prontamente insetos cobertos com chocolate e também brigadeiros com farelo de grilo. Por outro lado, comemos insetos- ou seus fragmentos- diariamente, e nem sabemos. Alface e couve possuem pulgões diminutos; o arroz é altamente infestado por insetos; a farinha de pão possui pequeninos e inúmeros fragmentos de insetos; massa de tomate, catchup, goiabada, sucos de tomate, maçã, manga e goiaba e outros produtos possuem insetos triturados dentro de um índice aceitável pela saúde publica (isso aumenta o valor nutritivo do produto).
           Assim, como todos nós já comemos insetos mesmo, e deveremos comer mais ainda em um futuro próximo, segue uma receita picante de grilo recheado. Ingredientes: uns dez grilos e amendoins. Retire a cabeça dos grilos e o final do abdômen. Remova o intestino. Insira amendoins torrados no abdômen. Frite os grilos limpos e recheados na manteiga ou no óleo. Polvilhe com sal e sirva quente. Importante: retire as asas e as pernas antes de comer! Bom apetite...
           

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Procura-se

                                 

          Estava eu folheando o jornal " Agora" quando me deparei com duas fotos. A primeira, de uma mulher de meia idade, nem feia nem bonita, se apresentando como viúva, do lar, de bons dotes e procurando um companheiro para se relacionar. A segunda, logo abaixo, de um senhor com cara de mau, explicando seu perfil e querendo se relacionar com mulher de 40 a 50 anos para compromisso sério. Fiquei olhando, pensando, divagando...Quem sabe seria só juntar os dois. Estranho isso, colocar o rosto no jornal pra todos verem, parece meio desesperador, exposição demais...Daí lembrei-me do caso do meu irmão, Geraldo, já falecido, que Deus o tenha. Pessoa culta, inteligente, mas sistemático e de gênio difícil. Por volta do ano de 1965, a sogra dele, Maria Spofia, uma alemã forte e interessante, ficou viúva e foi morar com a filha, esposa do Geraldo, em Blumenau, SC. Ou seja, foi morar com o Geraldo também. Como existe um ditado que diz:  "a melhor distância para a sogra morar é uma distância não tão perto que ela possa ir de chinelo e nem tão longe que ela possa chegar com uma mala", ele teve uma ideia brilhante. Escreveu um texto com o perfil da sogra, explicando que ela procurava um alemão para relacionamento sério. Enviou para um jornal de São Paulo e apareceram vários pretendentes, que enviaram cartas. Ela se encontrou com alguns e gostou do Fritz, um engenheiro alemão que morava no Brasil e tinha uma boa aposentadoria em marco alemão. Casaram-se, ela se mudou para São Paulo, para o apartamento dele, viveram felizes 20 anos e o Fritz ainda levou a Maria para conhecer a Europa toda. Quando o Fritz faleceu, ela ficou com o apartamento, pois ele não tinha filhos. Assim, a ideia do Geraldo deu certo.
           Mas isso foi há 55 anos atrás. Hoje, as pessoas colocam o "procura-se" em sites de relacionamentos, tudo mais evoluído, rápido e com inúmeras possibilidades de escolhas (e de perigos também). Como a história incrível que escutei esta semana, que uma amiga contou-me. O pai dela tem 93 anos. Separou-se da mãe desta minha amiga há muitos anos atrás e casou-se novamente, sendo a esposa bem mais nova que ele. Todos pensavam que ele morreria primeiro, mas não foi assim. Daí ele herdou uma casa boa, vendeu e em agosto passado mudou-se de volta para Uberlândia. A minha amiga providenciou a mudança toda, para poupá-lo, pois está velhinho. Isso numa quinta feira. No sábado, ela foi visitá-lo no apartamento novo. Ele disse que estava sentindo muita solidão e que tinha entrado no aplicativo Tinder para procurar uma namorada. Mostrou para ela fotos de várias que tinham gostado do perfil dele e que tinham respondido, algumas bem mais novas. A minha amiga olhou, deu uns conselhos,  deixou-o  procurando e foi embora. Ligou no domingo e ele não atendeu. Nem na segunda. Preocupada, voltou ao apartamento na terça. Ele estava feliz e contou que tinha arranjado uma namorada. Nisso, a campainha tocou e ela abriu a porta. Entrou uma senhora simpática, de mala e tudo, dizendo que era a madrasta dela e ainda deu-lhe um abraço. Foi um espanto só. Conclusão: estão juntos há sete meses, a namorada é costureira, gente boa, tem uns 70 anos e cuida do pai da minha amiga direitinho. Como recompensa, ele deu para ela, a namorada, uma aplicação de botox, para um tratamento de harmonização facial. Vi a foto dos dois, sorridentes, felizes e bem conservados. Acho que nos tempos atuais a vida começa é aos 90 ...t
            Outro fato que não me esqueço aconteceu há uns quinze anos atrás, no casamento da filha de uma grande amiga. A noiva, radiante e empolgada, fez um pequeno discurso para agradecer a presença de todos. Com um largo sorriso,  explicou que encontrou o seu noivo no site chamado Par Perfeito. Indicou o mesmo pra quem quisesse encontrar um companheiro. Estão juntos até hoje, vivem bem e têm um filho.            Por curiosidade, verifiquei na internet se este site ainda existe. Existe sim. Na página inicial, está escrito que é o melhor site de relacionamento online no Brasil. Basta preencher um cadastro e entrar com um clique. Em azul, em destaque, está escrito "BUSCAR".
            Eu não. Já tenho o meu Par Perfeito.
           


sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Um milagre chamado Darlene


                                        

             O terremoto de magnitude sete, que arrasou o Haiti em 2010, completou dez anos no domingo,  12 de janeiro. Uma década depois, mesmo com a promessa da comunidade internacional de reconstruir o país do zero, o Haiti continua na pobreza e numa crônica instabilidade política, que se traduz em violentas manifestações de rua.
            Naquela época, escrevi uma crônica sobre algumas pessoas que sobreviveram ao terremoto. Era impossível  explicar a tragédia que aconteceu em Porto Príncipe, mas era possível sentir, sofrer com as pessoas, chorar por elas, alegrar-se quando uma vida era  salva. Como no caso de Darlene Etienne, a adolescente de 17 anos retirada com vida dos escombros após 15 dias, em condições estáveis de saúde. Sua sobrevivência foi inexplicável do ponto de vista médico. Mas milagres acontecem. No caso dela, não um milagre como o acordar de manhã, abrir a janela e ver o dia lindo que Deus coloriu para nós, cada dia de um jeito. Ou de poder desfrutar essa diversidade de flores que Deus planta aqui e acolá, só para colorir e alegrar o caminho da gente. Mas sim, um milagre além da nossa capacidade de compreensão.
Darlene sobreviveu a um pesadelo. De repente, estava viva e soterrada. Sem nem saber por que: seria alguma explosão, algum morro que deslizou, um terremoto (se é que ela sabia que existem terremotos), um prédio por perto que desmoronou? Tudo escuro, o corpo espremido, pedras em volta, terra grudada no cabelo, no corpo todo. Falta de ar, mãos e pés dormentes, músculos doloridos, sem espaço para mudar de posição (e pensar que eu, na minha pequenez, tenho medo de ficar presa no elevador, no escuro e sem ar). A boca seca, a fome lancinante, a consciência indo embora devagarzinho. Cada minuto parecendo uma eternidade (e 15 dias são 21.600 minutos). O medo de se mexer e de tudo desmoronar à sua volta. O pavor de aparecerem vermes, ratos e baratas. A vida passando por sua mente como um filme: as brincadeiras de criança (se é que teve infância), o abraço que queria dar e não deu, a saudade da mãe, do pai, dos irmãos, sei lá. Aquela vontade de gritar, pedir socorro, mas a voz não saia mais. A resignação em ficar quietinha, esperando a morte chegar. Ou esperando um socorro que, no fundo do seu coração, ela sempre soube que chegaria (mas não sabia que perto de 200 mil haviam morrido, que milhares estavam feridos e que à sua volta cerca de 300.000 pessoas precisavam de absolutamente tudo, de abrigo à água, remédio e comida).   Como escreveu Ruy Castro, na Folha de São Paulo, “nenhum livro, filme ou série de TV jamais poderá dar conta da real tragédia de Porto Príncipe. Mesmo a simples reconstituição de um desses dramas individuais está além da capacidade humana de descrever o terror.”
Darlene tinha esperanças e sobreviveu. Miúda, franzina, com olhos opacos, mas capaz de mostrar que o desejo de viver vence a morte. Assim como o pequeno Kiki, que ficou oito dias soterrado e saiu rindo para a mãe, transformando-se no rosto feliz da mais infeliz das tragédias. E Enna Zizi, de 66 anos, que depois de sete dias nas ruínas, cantou firme e forte quando foi salva. Tem também o caso da jovem Widlyn, que depois de gritar e suar muito, deu à luz, no chão do pátio do hospital, ao pequeno Cristopher, que teria como futuro o Haiti destroçado. E depois de tudo, todos precisariam recomeçar. Passados dez anos, fico pensando como estarão Darlene, Kiki, Enna e Cristopher...
Que o Pai desça sobre todos os haitianos com seu amor, citando aqui a prece do teólogo Leonardo Boff: “Pai, desce dos céus, desce, pois morro de fome nesta esquina, não sei para que serve haver nascido, desce um pouco, contempla isto que sou, esse sapato roto, essa angústia, esse estômago vazio, essa cidade sem pão para os meus dentes, a febre cavando-me a carne, esse dormir assim, sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido. Pai, desce, toca-me a alma e o coração”.




segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Gente mais ou menos

Casinha branca

        O Padre Fábio de Melo fará um show em Uberlândia no dia 13 de dezembro. Acredito que será emocionante. Gosto muito dos seus textos,  músicas, pregações e palestras. Por exemplo, a palestra intitulada "Gente mais ou menos", que circula na internet.                                                              Ele começa chamando atenção para o fato do aumento de um tipo de gente que é mais ou menos. Para  qualquer pergunta- como vai a vida, como vai o namoro, como vai a mulher, como vai a saúde- a resposta é sempre a mesma: "-Mais ou menos". Assim a pessoa vive mais ao menos e vai multiplicando o mais ou menos pela vida afora. E são muitas as situações  em que podemos nos sentir mais ou menos: aprendemos inglês mais ou menos, namoramos mais ou menos,  ficamos mais ou menos doentes. Daí procuramos um médico que é mais ou menos porque fez uma faculdade mais ou menos. E ele faz uma cirurgia mais ou menos na gente. Ou seja, começamos a sentir os problemas do mais ao menos quando precisamos de alguém competente. Ou quando alguém procura um marido e acha um mais ou menos, porque ele foi mais ao menos amado dentro de casa. Daí ele ama de qualquer jeito e de qualquer jeito vai embora. E se ficar, também vai ser um pai mais ou menos e ter um filho mais ou menos.                      Continuando, ele afirma que isso tudo é muito triste. Não podemos deixar as pessoas entrarem na nossa vida de qualquer jeito, pois somos preciosos. A gente pode até achar algumas coisas mais ou menos, como a casa onde moramos, a rua, a cidade, o transporte, o governo. Ou a cama onde dormimos, a comida. Até acreditar mais ou menos no futuro. Mas a gente não pode, nunca, é amar mais ou menos. Ou sonhar, ser amigo, namorar, ter fé, acreditar. Tem que ser por inteiro. Gente que quer fazer a diferença na vida não pode ser mais ou menos. E a solução para deixarmos de ser mais ou menos está nas coisas simples da vida. Como na música  Casinha Branca.  No começo dessa música, se fala de solidão, da falta de prazer, da felicidade cada vez mais longe, dos sonhos da mocidade não realizados. Mas de repente chega o refrão, com um sonho bem simples:  "eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde pra plantar e pra colher, ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela, só pra ver o sol nascer..." Assim, a solução do mais ou menos não está em grandes coisas. Ele, o Padre Fábio de Melo, conta que nunca viu ninguém chorar por não ter um iate ou uma casa grande e bonita. Pode até reclamar, mas não chora. Mas quando precisamos de amor e não temos, aí a gente chora. Ou porque não temos um pai e uma mãe dentro de casa. Ou quando o pai ou a mãe olham pra gente de qualquer jeito, quando perderam a intimidade com o filho. Quando olham com tanta pressa e não são capazes de olhar nos olhos. Porque a única forma de deixar de ser pai ou mãe mais ou menos, não é a forma de falar, é a forma de olhar.  Não adianta ser uma pessoa competente se o pai (ou a mãe) não consegue deixar um sorriso no filho que gerou. Numa casa onde só existem pessoas mais ou menos, não há felicidade e não há herança para deixar. Porque o importante não é a casa que você constrói e sim, o que você coloca lá dentro. Daí vale pensar no sonho da casinha branca: o que vale são as coisas simples e pequenas. O pai que pega na mão, que olha sem gritos e acusações, acreditando que o filho pode ser melhor. Que para de colocar defeitos e que conta para o filho o que acha de bonito nele e que nunca teve coragem de falar. Pode ser que o filho, sabendo o que tem de bonito dentro dele, passe a fazer as coisas bonitas mais vezes.                   Enfim, são coisas tão pequenas, tão miúdas, esforços simples que podemos fazer todos os dias e que podem nos levar a ser inteiros, a deixar de ser mais ou menos e a fazer a diferença no mundo.




segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A praça

Garrafas retiradas do jardim

Dia da Cavalgada


         Um dos filmes mais conhecidos de Alfred Hitchcock, o gênio do suspense, é "Janela Indiscreta". Nele, um fotógrafo, que se recupera de sua perna quebrada, acompanha com um binóculo a vida dos seus vizinhos do prédio, observando as suas janelas. Desconfia que tenha ocorrido um assassinato e o filme se desenrola em meio a romance, drama e suspense.
         Ando me sentindo como este fotógrafo. Sempre que posso, olho a vida pelas janelas do meu apartamento na Praça do Rosário, no terceiro andar, bem no coração da cidade.  De uma das janelas da sala, vejo a Av. Floriano Peixoto e acompanho os desfiles e passeatas.  O  Sete de Setembro, as passeatas pró e contra Bolsonaro,  a passeata LGBTQ+, os ternos da festa do Congado. Em um dia de tempestade, estava eu olhando quando dois galhos enormes do cedro da praça se quebraram.  Caíram em cima de uma fila de carros que passava devagar e um carro pequeno ficou esmagado. Após longos minutos dramáticos, com a chegada do socorro, saiu do carro um homem, sem ferimentos. Viveu de novo.
        Da outra janela da sala, vejo a praça em frente à sorveteria Bicota. Durante algumas tardes, assisto às apresentações de um grupo de capoeira, com músicas gostosas. Vejo os catadores de recicláveis tentando separar os materiais nos cinco containers de lixo em frente. Os funcionários dos bares próximos despejando centenas de garrafas de vidro nos containers, com um barulho ensurdecedor. Os varredores de rua, toda manhã, sem nunca desistir, retirando o lixo da praça que fica imunda nos finais de semana.  Nas noites de quinta a domingo, aprecio a multidão. Tem de tudo. Música ao vivo  misturada com pessoas tomando sorvete nas mesinhas. Jovens tatuados, de piercings, de preto, bebendo cerveja na garrafa. Casais  heterossexuais, homossexuais, indefinidos.  Pessoas bem vestidas e bonitas. Outras com cabelos loucos e coloridos. No dia do Halloween, por exemplo, foi um desfile de vampiros bem debaixo da minha janelas (mas também tinha alguns vestidos com saias de bailarina e asas de borboleta). No meio da praça  ficam os policiais, tentando colocar um pouco de ordem. Dia desses,  passou um carro com música estrondosa. Sempre passam por aqui, fazendo as janelas do prédio tremerem. Só que nesse dia o motorista deu azar, passou justo pertinho dos policiais. Eles foram ágeis, pararam e levaram o carro, junto com o motorista espantado. Tenho um neto de seis anos que gosta de olhar o agito também, mas tem medo da polícia. Fica atrás da cortina, olhando de soslaio. Certa vez, estava nessa posição quando meu filho chegou, deu uma espiada pela janela e falou: "Oh, chegou a polícia civil!" E o neto, quase arrancando a cortina de susto: "O que, a polícia me viu???"
         Da janela do meu quarto, vejo outro ângulo da praça: a Igreja do Rosário, com a cruz lá no alto e a pracinha na frente (faço o sinal da cruz antes de olhar). Assisto  as apresentações dos ternos do Congado. Os tambores retumbam dentro do meu quarto e escuto o leilão de prendas de dez reais. É bonito de se ver as mulheres segurando fitas e dançando em volta das bandeiras, os homens com chapéus enfeitados e chocalhos nas pernas, as roupas de cetim em amarelo dourado, verde, azul e branco; os cantos pra Nossa Senhora. Também observo casamentos aos sábados. Convidados bem arrumados, noivas chegando em carrões antigos, madrinhas com vestidos da mesma cor,  daminhas com vestidos rodados, um luxo. Durante a semana, aparecem pessoas tirando fotos em todos os ângulos, com a igreja ao fundo. Outras caminhando, passeando com cachorros, fazendo o sinal da cruz. Aos domingos, com o sino tocando, o padre fica na porta da igreja cumprimentando os fiéis antes da missa. Dia desses, à noite, vi uma limousine branca imensa estacionando na praça. Um motorista elegante, de terno e quepe azul escuro, abriu a porta para um grupo de mocinhas bem vestidas e tagarelas, que entraram no carro e lá se foram, não sei pra onde.
          Da janela de outro quarto, quase toco o ipê rosa do jardim da frente do prédio. É lindo acompanhar suas transformações ao longo do ano:  o cair e o nascer das folhas, flores e frutos e o tapete de flores rosa no chão. Pombinhas, bem- te- vi e periquitos pousam e cantam em seus galhos. No banco de cimento redondo debaixo do ipê, acontece de tudo. Pessoas sem teto colocam papelão e dormem. Casais trocam beijos apaixonados. Jovens compram drogas. Outros bebem e jogam as garrafas no jardim. Idosos de mãos dadas sentadinhos, talvez esperando a banda passar, como naquela canção de Chico Buarque: "estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor". Debaixo do ipê tem um jardim, que tento cuidar. Ando elaborando uma lista do que as pessoas jogam nesse canteiro. Há itens como guardanapos e fraldas descartáveis; colheres, canudinhos, copos e tampinhas de  plástico de todas as cores; isqueiros; garrafas pet; latinhas; garrafas de pinga, de uísque, de gim, de vodka, de cerveja; palitos de picolé e muito mais. Encontrei até um cobertor azul novo, de bebê, bordado com o nome "Bruno", que vou reciclar. Por enquanto o jardim está resistindo, mas não sei até quando.
         Da janela da sala de jantar, sempre que posso , olho o sol se pondo entre os prédios, com as árvores da praça do Coreto enfeitando. E agradeço por mais um dia.
         E assim, entre janelas, a vida passa. Com suas dores e suas alegrias. E com a cruz da igrejinha e o céu azul ao fundo. E com cada por de sol lembrando que, por mais bonito que seja, amanhã pode ter outro mais lindo ainda.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Uma noite em Cachoeira do Manteiga

Margem do rio São Francisco em Cachoeira do Manteiga


 
            A poesia "Cidadezinha qualquer", de Carlos Drummond de Andrade, é bem simples, mas expressa, com ternura e um pouco de ironia, o que é uma cidade pequena:
Casas entre bananeiras 
mulheres entre laranjeiras 
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar. 
Um cachorro vai devagar. 
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Êta vida besta, meu Deus!
                Não tem como ler essa poesia e não pensar em Cachoeira do Manteiga, um povoado na beira do São Francisco, a quatro km da nossa fazenda. Tudo lá é devagar, ninguém tem pressa e todos se conhecem. Todas bem moreninhas. Só tem uma rua asfaltada, o restante é de terra empoeirada. No centro, uma igrejinha singela e uma praça, onde as pessoas ficam sentadas nos bancos esperando o tempo passar e a meninada brinca nos aparelhos de fazer ginástica. E uma quadra coberta, onde tudo acontece: as peladas, as formaturas, a festa junina, os treinos de futebol. O técnico é o Bill, um ceguinho que anda por todo lado com um guia. Não sei como, ele apita as faltas direitinho, eu vi. Tem também o Clube Náutico, onde ficam guardados muitos barcos de pescadores que vêm de longe pescar no São Francisco, mas os peixes sumiram. E a padaria, que fica aberta só até o pãozinho de sal acabar. A escola, a creche, um ou dois barzinhos que vendem pinga, cerveja e salgadinhos .
            Nesse cenário, fomos curtir a noite do último Corpus Christi, em junho. O Zé, eu, minha filha com o marido e os três filhos. Haveria missa na igrejinha, com o padre que veio de fora. Depois, a procissão, passando pelas ruas de chão batido que foi decorado com desenhos caprichados feitos de serragem, folhas e materiais coloridos. A igrejinha estava lotada e  haveria o batizado de um menininho  de uns quatro anos, o Vinícius. O Zé, eu e os netos fomos andando pelo corredor, procurando lugar pra sentar. Só tinha no primeiro banco e lá ficamos. Acontece que era o lugar dos coroinhas e cantores e ninguém teve coragem de falar, pois o Zé é fazendeiro conhecido na região. E daí a missa não acabava. Uma moça leu um salmo enorme, ia passando folhas e folhas. Tão grande que o Vinícius dormiu de boca aberta e dois netos, pesados, foram caindo em cima de mim, de sono. Mesmo catequista, não tive outra saída e disse para o Zé que ia sair. Ele ficou indignado, disse que ficaria até o fim (claro, era conhecido e estava no primeiro banco, não era por fé não). Saímos e ele ficou. Fomos comer coxinhas e pastéis no bar da esquina, uma delícia.
            Mas a noite estava agitada na Cachoeira. Havia cinco carros de polícia correndo pra lá e pra cá. O normal é apenas um, quando tem. Requisitaram reforço policial porque um baderneiro estava dando cavalo de pau com o carro e estragando os desenhos de serragem que o povo tinha feito nas ruas. Quando o único policial foi prendê-lo, resistiu à prisão e fugiu. Daí veio o reforço. Não conseguiram prendê-lo, mas como o irmão também estava aprontando, levaram o irmão dele e a esposa ficou em prantos (tudo isso nos contaram enquanto comíamos coxinhas e os carros corriam por ali). Brinquei com o meu neto de seis anos, o Moisés, que tem muito medo de polícia. Disse-lhe pra ficar esperto, pois se o Yuri (o irmão dele) aprontar, ele é quem vai preso. Respondeu-me que isso é injusto e que ia sair correndo.
            Nisso, passou a procissão. E o Zé, todo concentrado, com a velinha acesa na mão. Não viu nada, não sabia de nada, deve ter rezado muito...Nos juntamos a ele e fomos rezando e cantando, passando pelos desenhos, alguns estragados pelo vândalo fujão.  
            Voltamos pra fazenda pra dormir em paz. De repente, olhei no espelho e vi que estava sem a correntinha de ouro e o pingente que sempre uso. Num lampejo, lembrei-me que a tirei do pescoço para desembaraçar e a deixei em cima da mesa do bar. O genro se ofereceu pra voltar lá. Foi com o Yuri, de 10 anos. Voltaram sem ela. Mas o neto, que tinha ficado escondido dentro do carro, com medo dos vários homens que estavam no bar, disse que viu um de boné vermelho com a correntinha enrolada no braço e que ele a escondeu. Valente e enfezada, peguei o carro e voltei pra Cachoeira com o Yuri. Ele, escondido, mostrou-me o moço moreninho de boné vermelho. Puxei uma cadeira e sentei-me diante dele (tipo estes filmes de faroeste). Olhei-o bem nos olhos e disse-lhe que tinha esquecido a minha correntinha em cima da mesa. Perguntei-lhe se ele não a tinha encontrado. Enrolou um pouco e disse que ia me ajudar a procurar. E no mesmo instante a encontrou caída no meio da terra. Assim a recuperei.
            Pois é, Carlos Drummond, mesmo nas cidadezinhas com bananeiras e laranjeiras e onde a vida passa devagar, muitas coisas acontecem.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Prece fitness






           
            Existe um vídeo circulando na internet de um gordinho simpático conversando com Deus, intitulado "Como emagrecer graças a Deus".  De rosto redondo, cabelos e sobrancelhas bem pretas, está de camisa amarela ajoelhado ao lado de uma cama, de mãos postas. Fala com Deus de maneira fluente e espontânea, com voz clara e pausada. Olha pra cima e pra baixo, fecha os olhos de vez em quando, sorri, mexe as mãos várias vezes, dá umas risadinhas, pede perdão quando fala alguma asneira.
            Achei a "prece" dele criativa e divertida demais, assim como as expressões faciais. Ele fala mais ou menos isso: "Senhor, estamos aqui mais uma vez em prece. Eu estava querendo ser fitness, porque devemos ter cuidado com esse corpo físico, essa máquina maravilhosa que o Senhor nos deu para evoluir. Não sei se o Senhor tem acompanhado aí do céu, mas aqui na terra tem essa exigência, a gente tem que ser fitness. Não estou querendo dar pitacos, afinal o senhor é Deus e eu sou homem, mas acho que teve um erro de planejamento. Por que o Senhor não fez as coisas mais gostosas serem as mais saudáveis? Por que a vagem não tem gosto de lazanha? Por que a alface não tem gosto de nutella? Pensa comigo. Pra mim, alface sempre foi algo de enfeite. Não, não, sei que é um ser vivo, que brota, cresce, é bonito, foi o Senhor quem criou. Mas pensa comigo. O strogonoff tem um valor evolutivo, o homem teve que pensar muito mais para fazer um strogonoff do que para colher um pé de alface, então teria que ter alguma vantagem.
          Outra coisa, não estou me metendo, o Senhor é Deus e sabe o que faz, é só uma ideia, uma dúvida que vou lançar no ar. O corpo humano é perfeito? É perfeito, foi o Senhor quem fez. Mas tem gente que engorda só de respirar. Eu sou assim, passo perto de um fast food e engordo. Suspirei, engordei. Entra em mim por osmose, vem de fora para dentro e me inflo de peso, enquanto o senhor me infla de fé. Mas aí a roupa não vai cabendo...E tem gente que come como um desgraçado...Não, não, como uma pessoa perfeita criada por Vós. Tenho um primo assim. O Senhor sabe, ele é uma criação sua. Um vara pau, um palito. Não malha, não faz nada, é a genética. Acho lindo isso de genética.
          Senhor, e tem mais. O Senhor disse:  "Ame o próximo como a ti mesmo". Não disse ame a alface, ame as verduras, não foi claro em suas instruções. E tem outra: o Senhor multiplicou foi o pão, o carbohidrato, não foi a chia nem a quinoa, tem alguma dica aí.
          Além de tudo, eu quero estar cada vez mais empenhado em minha busca pelo bem, pelo crescimento na fé. Olha o tempo que vou perder fazendo academia, andando como um hamster, levantando peso quando poderia estar levantando vidas. Então Senhor, já que podeis tudo, pois sois Deus, eu posso dormir e acordar fitness. Não é vaidade, é uma coisa simples, não precisa ser uma beleza global, pode ser um Fábio de Melo, um Tom Cruise, uma pessoa comum. O que eu quero é saúde. Então é isso, Senhor. Estamos aqui só conversando. Gratidão por tudo. Assim seja".
            O vídeo termina com o gordinho fazendo abdominal em cima da cama, suando em bicas e com caretas horríveis. Enquanto faz abdominais, conta que descobriu a Prece Abdominal, uma maneira de falar com Deus, aproveitar o tempo e emagrecer. Depois pede a benção a Deus  e agradece por tudo. No final está exausto e gemendo. Rola sem querer e cai da cama. Fim.
            É isso aí. Cada um reza como sabe. Mas que seria bom emagrecer pela graça de Deus, lá isso seria.