A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O tênis

Zé experimentando o tênis

            Na poesia "Desejos", de Carlos Drummond de Andrade, ele deseja às pessoas coisas simples,  singelas e gostosas, que fazem parte do cotidiano e que muitas vezes a gente nem percebe. Entre outros desejos, escreveu:  "desejo a vocês fruto do mato, cheiro de jardim, namoro no portão, filme antigo na TV, ver a banda passar, noite de lua cheia, sarar de resfriado, tomar banho de cachoeira, queijo com goiabada, bater palmas de alegria, calçar um velho chinelo, sentar numa velha poltrona, ouvir a chuva no telhado, bolero de Ravel..."
            Tenho certeza de que o Zé, meu marido, se lesse essa poesia, gostaria mesmo era de sentar na velha poltrona e, principalmente, de calçar um velho chinelo. Ou uma botina velha ou  um tênis arregaçado. O problema é que o pé dele é gordinho, alto e quadradinho na frente (bico fino, nem pensar), por isso é árduo encontrar algum calçado que fique confortável. Quando encontra, usa o mesmo sapato por anos, até acabar. Certa vez, quando ainda jogava futebol duas vezes por semana, descobriu na hora do jogo que o tênis preto de lona tinha rasgado todo na lateral. Jamais deixaria de jogar por causa de um detalhe desses. Ressuscitou um tênis branco que já tinha encostado: calçou o pé direito com o tênis preto que estava bom e o pé esquerdo com o tênis branco, acreditem ou não. A turma do futebol, no começo, achou engraçado. Mas ele continuou em outras partidas com um pé branco e outro preto e eles se revoltaram. O Zé estava confundindo o time, pois na correria não sabiam se ele era um ou dois jogadores. Fizeram uma "vaquinha" e deram um tênis novo de presente pra ele.
            E agora, no Natal, aconteceu um fato inédito. Quando tudo se acalmou depois da ceia, do Papai Noel, do amigo da onça e das preces para o Menino Jesus, fui guardar alguns presentes que o Zé ganhou (o aniversário dele é nas vésperas do Natal). Retirei algumas roupas e objetos do armário para encaixar os presentes. Absorta na tarefa, deparei-me com uma caixa de sapato no chão, perto dos outros presentes do Natal. Curiosa, abri e encontrei um tênis preto, de cano alto, de material emborrachado sintético com costuras brancas em zig-zag, solado de borracha, com design bonito, novinho. Surpresa, perguntei ao Zé quem tinha dado para ele. Meio sem jeito e sem graça, respondeu que não sabia, não se lembrava. Argumentei que era muito descaso ganhar um presente bom como aquele e nem saber quem deu. Entusiasmado, ele calçou para ver se servia e ficou encantado: era macio, confortável, não machucava, dava o apoio necessário para a caminhada, daria até para correr e saltar. Andava pra lá e pra cá no quarto, impressionado como alguém adivinhou exatamente como deveria ser um tênis para ele, que tinha um pé tão difícil. Resolvemos tirar uma foto e colocar no grupo de whatsApp da família, para descobrir quem foi e agradecer. Ninguém se manifestou, apenas um filho perguntou: "será que era para ele mesmo? " Quando li isso, lembrei-me de tudo: foi o Zé quem comprou o tênis!!! Há uns seis meses atrás, eu tinha conseguido arrastá-lo a uma loja de calçados pra comprar uma sandália. Ele gostou desse tênis e insistiu em levá-lo. Eu disse pra não levar, que ele não usaria até a sandália acabar. Ele insistiu, com cinismo: "Posso? " Daí levou, guardou no armário e esqueceu. Quando desocupei o armário, o tênis veio junto e se misturou com os outros presentes. Resumindo, foi ele quem deu o presente pra si mesmo. Ele não se lembrava, nem eu.
            Assim, mesmo o Drummond desejando tantas coisas boas pra gente, só posso terminar com um texto divertido que li na internet: "não sei quem inventou essa bagaça de melhor idade...Melhor idade uma pinóia! Acho o papel e perco a caneta. Quando acho a caneta já não sei mais onde coloquei o papel. Quando consigo unir os dois, cadê "ozóculos"? E quando acho os três já não me lembro mais o que escrever...Eu heim..Ô rái!!!"

            

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Trapalhadas do Papai Noel

Papai Noel com os netos : Maíra no colo, Miguel olhando para o pai, Pedro, Vítor e Théo

      No natal da nossa família sempre tem alguém que se veste de Papai Noel para alegrar a criançada. A roupa é a tradicional, de cetim vermelho e enfeites brancos, casaco com capuz, barba falsa costurada no pano, cabeleira postiça, óculos pretos para disfarçar os olhos, luvas para encobrir as mãos, saco vermelho de cetim para encher de presentes. Acontece que, no penúltimo Natal, toda a indumentária do Papai Noel (que eu mesma confeccionei) tinha desaparecido. Tudo indica que o saco vermelho, com a roupa dentro, caiu da camionete durante a viagem de volta para Uberlândia (imaginem a surpresa de quem encontrou). Assim, no dia do Natal, na pacata cidade de Carmo do Rio Claro, com toda a família reunida, o bom velhinho não pode aparecer para a meninada (Papai Noel sem roupa, pelado, não dá). Foi a sorte dele.
            Na noite de Natal, a criançada comentava o que pediu para o Papai Noel. O neto de cinco anos pediu um laptop do Batman e o de quatro anos, uma pistola do Power Ranger. O pai (meu filho) achou o máximo o pedido da pistola, coisa de macho. Depois, como médico, lembrou-se de que armas, mesmo de plástico, estão em desuso, pois mexem com o hipotálamo e o sistema límbico da criança, desajustam a membrana coriônica do sistema alfa e estimulam a violência. Concluindo: o filho iria virar bandido. Como ele pagou os presentes, já não sabia se era um bom ou um péssimo pai.
            As horas corriam e os adultos, consternados, não sabiam como resolver a ausência do velhinho. De repente, alguém teve uma brilhante idéia e gritou com entusiasmo que o Papai Noel já tinha chegado, escondidinho, e deixado os presentes na árvore de Natal. Completou que ele tinha vindo no trenó puxado pelas renas, que tinha até uma com narizinho vermelho que brilhava, mas ele não pode esperar porque tinha muitos presentes para entregar.
            As crianças, enganadas direitinho, saem em disparada (umas vão devagar, pois tem medo do Papai Noel). O neto mais novo , eufórico, abre o presente com o seu nome e solta um grito de terror: -“O que, uma Barbie? Eu mato este Papai Noel!” E o mais velho, decepcionado e choroso: -“Olha o que eu ganhei, um tapete cor de rosa da Barbie!” O pai olhava tudo, boquiaberto e indignado, pensando: “não dar a pistola, tudo bem, mas uma Barbie! Aí o Papai Noel exagerou!”. Os pimpolhos correm pela casa, tentando encontrar e matar o Papai Noel. Os adultos descobrem que a mãe deles, em Uberlândia, antes da viagem, trocou os presentes com a irmã, que mora em Araguari e tem duas filhas. Tentando contornar a situação, colocaram as crianças para conversar ao telefone. A priminha conta que ganhou a pistola do Power Ranger e a irmãzinha, o laptop do Batman. Eles falam que ganharam a Barbie e o tapete. Com alívio, concluem que o bom velhinho se enganou e que os presentes estavam a salvo. Depois, os netos encontram na árvore uma roupa do Power ranger para cada um. Vestem, incorporam o personagem e esquecem a frustração.
            O maior problema, na verdade, foi o pai, que ficou emburrado, deitado no sofá. Desenterrou da memória um antigo trauma da infância, de um Natal quando tinha seis anos. Na época, escreveu uma cartinha para o Papai Noel e endereçou para o Pólo Norte. Pediu um Rifle Super Tiro, uma arma de plástico espetacular, que espocava 20 tiros fortes em sequência. Ganhou uma Super Mouse, que dava cinco tirinhos fracos. Também queria matar o Papai Noel.

Retratos de infância

Luiz Cláudio com 3 anos de idade

         Em Uberlândia, há 40 anos atrás, a região nas proximidades da atual Avenida Rondon Pacheco, no bairro Lídice, era toda coberta de mato, com inúmeros lotes vagos. No local da Rondon passava um córrego, que muitas vezes era usado como despejo de esgoto. Havia muita área verde, vacas e cavalos soltos. Na época, morávamos na Avenida Professor Mário Porto, dois quarteirões acima do córrego.
           Neste bairro, meus filhos foram criados brincando na rua. Especialmente um deles adorava a vida livre, leve e solta. Sempre estava desaparecido na hora de ir para a escola e eu saia procurando-o pelas vizinhanças. Aos cinco anos, troncudo, pernas grossas, bochechas coradas, roupa suja, encontrei-o suado subindo o morro com uma varinha de anzol em uma das mãos e na outra, uma latinha com minhocas, sorrindo feliz. Estava atrasado para a escola e perguntei-lhe, zangada, onde ele estava. Respondeu com sinceridade: "-Pescando no bosteiro!"
          Em outra ocasião, aos quatro anos, chegou em casa puxando um cavalo branco e magro em uma corda. Explicou que era o cavalo que o seu padrinho , que morava no Carmo, havia enviado para ele. Contou que pediu a um senhor para laçar o cavalo no pasto, pois não tinha conseguido. Espantada, soltei o pobre animal e ele fez um escândalo. O problema é que realmente o padrinho tinha prometido um cavalo para ele, nunca deu e criança não esquece.
          Na frente da escolinha onde ele começou a estudar aos cinco anos, havia um enorme poste de concreto da rede elétrica . Até hoje me pergunto porque aquele poste tinha que estar logo ali. Dia sim e outro também, ele se agarrava ao poste para não entrar na escola. Era uma luta árdua arrancá-lo dali (mãe sofre). Pensei que ele não iria virar gente. Mas Deus é misericordioso, e quando ele fez vestibular para medicina, na UFU, aos 17 anos, foi aprovado em primeiro lugar.
        Pensando em tudo isso, enviei-lhe um email, depois que ele  já era pai de dois filhos, perguntando-lhe sobre as lembranças que tinha da sua infância. Respondeu-me com estas palavras:"ganhei meu Rifle Super Tiro no Natal, tive meu Falcon olhos de águia, dezenas de playmobil, comprei minha primeira espingardinha de chumbinho com o dinheiro que economizei do lanche, pesquei no bosteiro, nadei nele, peguei giardia, bicho-de-pé, oxiuríase, berne na testa, joguei futebol na rua, cortei fundo o pé, levei ponto, finquei prego enferrujado no dedo, chupei manga e bebi leite (e não morri até hoje), brinquei com fogo (e não queimei o dedo), quase morri afogado na lagoa de Formiga, me perdi na praia com o meu baldinho catando conchinhas, caí várias vezes da bicicleta, matei passarinho com estilingue, brinquei de guerra de argila, de mamona e de sal grosso, desci morro com carrinho de rolimã que eu fiz. Mas o principal é que tive bom exemplo dentro de casa e que fui amado".
            E assim, com amor, a vida continua e tudo se repete. Quando os filhos dele eram pequenos, também faziam uma travessura atrás da outra. Um dia, a mãe disse a um que, na época, estava com quatro anos: -"Ah, Vítor, espero que um dia você ainda vire gente!" Ele dormiu e quando abriu os olhinhos no dia seguinte, perguntou:
 -" Mamãe, eu já virei pessoa?"
            

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A volta da ararinha-azul





            A ararinha-azul, Cyanopsitta spixii, é uma das menores das treze espécies de arara encontradas no Brasil. Foi considerada extinta na natureza em outubro de 2000, quando as últimas sumiram do céu brasileiro, por maior que tivessem sido os esforços feitos pelo "Projeto Ararinha na Natureza" para salvar a espécie.
       Agora, a revista Veja de 21 de novembro, numa reportagem intitulada "Olha elas aí outra vez", traz uma ótima notícia:  as ararinhas-azuis estão de volta. Sairão da Alemanha e da Bélgica e virão para o norte da Bahia, no primeiro trimestre de 2019, para duas áreas de conservação que estão sendo criadas na caatinga, em Juazeiro e Curaçá. Elas se livraram da extinção porque uma parcela das que foram contrabandeadas para a Europa e Ásia, no famigerado tráfego de animais silvestres, acabou sendo resgatada por ONGs de preservação animal e conservada em cativeiro. Hoje restam 158.
         Isso é uma história interessante, que daria um filme. Aliás, já deu. No longa metragem de animação, "Rio", que foi indicado ao Oscar, a estrela é Blu, uma ararinha-azul que caiu do ninho no Rio, foi capturada e levada para os Estados Unidos.  Voltou ao Rio, passou por uma série de apuros, conheceu a fêmea  Jade e viveram felizes para sempre.
        Também as ararinhas-azuis de verdade terão que vencer uma série de obstáculos até poderem viver na natureza, felizes para sempre. As primeiras cinquenta desbravadoras  viajarão de avião de carga viva até Petrolina, em Pernambuco, o local mais próximo da reserva. A viagem dura dez horas. Antes, tomarão medicamentos para viajarem calmamente adormecidas em caixinhas, duas a duas. No aeroporto, passarão oficialmente dos cuidados dos veterinários alemães para a equipe brasileira. Daí, serão transportadas em camionete até Curaçá, onde aprenderão a viver em liberdade. Parece fácil mas não é, será um longo aprendizado. Por exemplo, precisam ser ensinadas a reconhecer e captar na natureza as frutas, folhas e sementes de que se alimentam. Até agora, receberam tudo pronto no bico. Também precisarão encontrar locais apropriados para fazer o ninho. Para isso, faz parte do projeto plantar na caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, pés de caraibeira,  árvore alta na qual os antepassados da ararinha-azul faziam ninhos. Outro problema é que precisam saber reconhecer predadores, como serpentes e macacos (caso contrário, logo estarão todas mortas). Assim, serão usados sons e figuras de predadores, para causar medo e ativar o instinto de preservação. Outra barreira a ser vencida é que as avezinhas são escaladoras, gostam de subir cada vez mais alto nos galhos. Terão que aprender qual galho será capaz de suportá-las, senão será tombo na certa. Além disso, precisam entender que são bichos e não gente como a gente, pois animais criados em cativeiro se percebem mais como humanos do que como seres da sua própria espécie. Mais uma barreira: a população no entorno da reserva precisará ser conscientizada para participar no processo de reintegração.
        Entre tantos obstáculos a vencer, talvez o maior desafio seja a reprodução. Além da necessidade de local apropriado para nidificação, a gestação das ararinhas -azuis, de trinta dias, produz apenas dois filhotes, uma baixa taxa de fertilidade, que contribui para a extinção da espécie. As avezinhas até que se acasalam, mas como a população é reduzida, a infertilidade é alta.
         Com tanto trabalho para se salvar da extinção uma única espécie animal, pode-se pensar que tudo isso é um exagero. Mas cada espécie à beira de desaparecer é indício de que uma parte do meio ambiente, essencial á sobrevivência de outras espécies e do homem também, está desaparecendo.
          Oxalá  a ararinha-azul tenha sucesso na sua reintrodução na natureza e volte a colorir com seu voo os céus do Brasil.


terça-feira, 20 de novembro de 2018

O gato preto




        O Léon é um gato preto que participa da nova novela da Globo, "O sétimo guardião". Ele é misterioso, tem poderes, não é bem um gato e sim uma pessoa transformada em gato. Mas a história que vou contar é sobre um gato normal, bem guloso.
     Tenho uma casa de aluguel e resolvi colocá-la na imobiliária, para evitar desgaste com os inquilinos. Só que eu não sabia da existência do gato preto.
    Acontece que ela foi alugada para inquilinos que possuem dez gatos: brancos, marrons, malhados, pretos. Gatos no sofá, no muro, na sala, no quintal, na cozinha. Tudo bem se eles ficassem por ai. Mas o problema era o gato preto. Não porque dizem que gato preto dá azar, mas porque toda noite o felino saia sorrateiro, lépido, pisando macio, corpo elástico, olhinhos verdes brilhando no escuro. Ia atormentar a vizinhança. Entrava na cozinha da D. Tetê (nome fictício, para proteger a personagem) e atacava a comida de quatro gatos filhotes,  indefesos perante a audácia do gatuno que, além de tudo, ainda batia neles. D. Tetê, indignada, foi reclamar com a vizinha, minha inquilina.
O gato preto, alheio a tudo, continuava suas peregrinações, ora na casa da D. Tetê e ora na casa de uma amiga minha, onde batia no Toninho e na Princesa, seus gatos de estimação. Como se não bastasse, ainda subia no fogão e comia nas panelas destampadas, lambendo os beiços. Minha amiga passou a deixar a cozinha fechada, mesmo quando o calor estava insuportável. Culpa do gato preto.
    Um belo dia, D. Tetê veio na minha porta. Desfilou um rosário de lamentações sobre as traquinagens do felino. Queria providências imediatas, até pensei que teria um ataque cardíaco ali mesmo. Sugeri encurralar o gato na cozinha, colocar num saco e soltar bem longe (fazer o que?). Ela ficou estupefata com a sugestão, disse que eu não sabia como era perigoso um gato encurralado. Até me ofereci para ajudar, mas não chegamos a nenhum acordo. E eu, como bióloga, jamais poderia sugerir algo mais drástico.
    Depois, passeando com minhas cachorrinhas (que, felizmente, nunca foram atacadas pelo malvado) encontro-me com a D. Tetê. Ela me pergunta o que vou fazer. Sem saída, prometo-lhe que vou telefonar para a imobiliária e reclamar dos inquilinos. Ligo e conto o caso do gato. A atendente ri da história, fala que nunca receberam reclamação deste tipo. Promete consultar o departamento jurídico. Enquanto isso, o gato preto, gordo de tanto atacar a comida alheia, continua atormentando.
      Em uma manhã, indo buscar pão quentinho na padaria, vejo o gato preto estendido na beirada do passeio, morto. Mortinho. Sem nenhum arranhão, sem sangue, sem tripa pra fora, sem nada. Os pelos brilhando, olhinhos fechados, patinhas encostadas umas nas outras, bem arrumadinho. Abismada, meu primeiro pensamento foi: -"A D. Tetê matou o gato!"
      Chego em casa, conto o acontecido. Minha amiga liga dizendo que o gato preto morreu. A D. Tetê toca o interfone e pergunta se já sei da novidade. Olho bem para ela, tentando decifrar seus pensamentos. Os olhos estão marejados, a voz entrecortada. Não, não pode ter sido ela, a não ser que seja uma excelente atriz. Mas olhos marejados como, se detestava o gato?
    A vizinhança passou a fazer especulações. Teria sido o gato preto envenenado na calada da noite, com veneno de rato? Teria levado uma paulada ou uma pedrada? Ou foi atropelado por um motoqueiro distraído? Por um carro desgovernado? Mas como foi parar no passeio, assim tão arrumadinho? Mistério.

       Sei que o gato preto se foi. Mas não sei se deixou saudades.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

Sete de setembro

Foto no dia do desfile

    
            Neste último sete de setembro, Dia da Independência do Brasil, assisti ao desfile na Avenida Floriano Peixoto. Os tanques de guerra, os jipes, os  militares marchando em compasso, a bandeira do Brasil, o Hino da Bandeira.  O Corpo de Bombeiros, com uma bonita ala de mulheres e crianças dentro do caminhão vermelho brilhante acenando para a plateia. Militares com uniforme de camuflagem, segurando cães policiais e rottweiler enormes, fizeram a alegria da criançada que estava na beira da calçada agitando bandeirinhas do Brasil. Eles depois pararam na praça para tirar fotos, inclusive comigo e com o neto de dois anos, que ficou aterrorizado com a bocarra do rottweiler A Infantaria Motorizada, carros e motos da polícia com sirenes ligadas. Os escoteiros. Pessoas da terceira idade desfilando com bolas enormes. Acrobacias com bicicletas. Desfile de fuscas antigos e bem conservadinhos. Cavaleiros com camisas iguais e coloridas, desfilando com pangarés franzinos e com marchadores de passos dançantes. O colégio militar. Várias entidades, algumas bem diferentes, como a Associação Brasil Soka Gakkai Internacional e a Cultura Racional do Brasil para o Mundo. Escolas municipais e estaduais, com bandeiras, tambores, faixas, dançarinas, acrobatas e crianças bem comportadas parecendo orgulhosas de estarem desfilando. Gostei principalmente de uma, que homenageou os coletores e varredores de rua, e  confeccionou tudo o que foi utilizado no desfile reciclando material, como os tambores de plástico azul e a saia de jornal da bailarina.
        Fico empolgada com o desfile das escolas, pois no planejamento do desfile estão os professores, tentando ensinar aos alunos a respeitar o planeta Terra,  a saber quais deveres temos como brasileiros, que país é esse e o que é amar a terra onde nascemos. Ainda mais nestes tempos em que falta ao povo brasileiro um pouco mais de paixão pela Pátria. Ainda mais neste Dia da Independência quando o Brasil todo estava traumatizado com o atentado a faca sofrido pelo candidato á presidência do Brasil, ocorrido na véspera.
Apreciando o desfile, pensei no distante sete de setembro de 1822, quando D. Pedro I mostrou que se preocupava com o Brasil. Impulsionado por suas ideias liberais, gritou  às margens do riacho Ipiranga a frase que passou para a história: “Independência ou morte!” Revoltado, resolveu romper definitivamente com a autoridade do pai, D. João VI (um caso de filho revoltado com o pai e que deu certo) e proclamou o fim dos laços coloniais do Brasil com Portugal. A cena está registrada em um famoso quadro de Pedro Américo, com D. Pedro majestoso, em cima de um cavalo fogoso, cabelos penteados, espada em riste, uniforme elegante e impecável, cercado por inúmeros cavaleiros também garbosos e bem vestidos.            Pessoalmente, acho que a cena não foi tão espetacular assim, deveriam estar todos cansados, empoeirados e descabelados (viajavam de Santos para São Paulo, a cavalo e em estradas de terra). Como escreveu Leandro Narloch em seu livro “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, para fabricar um espírito nacional é normal que se jogue um brilho a mais em certos episódios. Acrescentou que um bom jeito de amadurecer, ao interpretar a nossa história, é admitir que alguns heróis da nação eram simplesmente pessoas do seu tempo.
Enfim, mesmo se estivesse suado e cansado, devemos a D. Pedro a independência do Brasil do jugo português. Falta agora ficarmos independentes do jugo do extremismo, da radicalização, da intolerância e da corrupção, que tanto mal fazem ao nosso país.








terça-feira, 28 de agosto de 2018

A Terra ferida




                  

          Em 1855 o cacique Seattle, de uma tribo no estado de Washington, enviou uma carta ao presidente dos Estados Unidos, quando o governo pretendia comprar o território ocupado por sua tribo. Um século e meio depois, o que ele escreveu continua bem atual. E muito mais preocupante. Há trechos assim: "sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exauri-la ele vai embora." Ou então: "não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos". Em relação ao ar, o cacique Seatle escreveu : "o ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar: animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira." 
           E advertiu ao presidente : "se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma".  Termina lembrando que "depois que o último homem vermelho tiver partido, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos"                                                     Penso que se o cacique Seattle vivesse hoje, estaria muito triste. O homem branco não tem cuidado nem das terras que ele vendeu e nem do planeta como um todo. A Terra está ferida, muito ferida. Não está protegida, nem conservada, nem amada. O ar que era tão precioso para o homem vermelho está poluído. Em cidades como Pequim, os moradores precisam de máscaras pra respirar. Com o aquecimento global, surgem incêndios gigantescos como os da Califórnia, extremamente rápidos, agressivos e perigosos, causando tempestades de fumaça e dificultando a respiração das pessoas. Os animais sofrem com o aquecimento global causado pelo homem branco, estão morrendo aos milhares, não são tratados como irmãos. Por exemplo, Clóvis Rossi, colunista da Folha, relata que na Coreia do Sul o calor recorde de 2018 provocou a morte de 4,5 milhões de galinhas, patos, porcos e vacas e na Suíça, uma tonelada de peixes mortos foi retirada dos rios porque a temperatura elevada reduziu o nível de oxigênio da água. Ele cita um estudo recente de cientistas britânicos que afirmam que o efeito dominó em cascata de gelo que derrete, mares que aquecem, correntes marítimas que mudam e florestas que morrem, pode empurrar a Terra para um estado de estufa no qual todos os esforços humanos para reduzir as emissões serão inúteis. O colunista concluiu que a Terra caminha pra se transformar em uma fornalha infernal. Ainda bem que o cacique Seattle morreu sem saber disso.
        E, como selvagem, ele ficaria horrorizado ao saber da enorme quantidade de plástico que o homem branco joga nos oceanos. A alma do seu povo, que deve continuar vivendo nas suas florestas e praias, deve estar estarrecida com a poluição das águas. Segundo pesquisa divulgada pela ONG International Coastal Cleanup, que passou o ano de 2016 coletando milhões de itens descartados na costa dos cinco continentes, as garrafas de plástico e suas tampinhas são os produtos que mais poluem os mares. Depois delas, as bitucas de cigarro: encontraram 1,86 milhão delas no período da pesquisa. Em seguida, as embalagens de alimentos: 762.000 (principalmente de doces e na costa dos Estados Unidos), as sacolas de supermercado com 520.000, as tampas de copo com 419.000 e os canudinhos, com 409.000.
              Pois é, cacique Seattle, os animais do mar também estão morrendo por causa da poluição das águas causada pelo homem branco. E como você escreveu, tudo quanto acontece aos animais pode acontecer também ao homem. E tudo que fere a Terra, fere também os filhos da Terra.