A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sábado, 9 de maio de 2015

Perfume de mãe

Minha mãe, Maria, aos 82 anos (faleceu aos 88)

A magnólia

Meu irmão, minha sobrinha e eu, de cachinhos, no jardim da minha infância
               No excelente filme "Perfume de mulher",  Al Pacino representa um militar cego que sonha em passar um fim de semana inesquecível em Nova York antes de morrer. A cena mais bonita do filme é um tango que ele dança com uma jovem, ao som da música de Carlos Gardel. Mas o interessante é a extrema sensibilidade do militar, como pessoa cega,  em sentir e definir com precisão o perfume usado por cada mulher que se aproxima dele.
                Pensei então que existem perfumes que nos fazem lembrar de certas pessoas ou de lugares. O perfume da flor de magnólia sempre me lembra a minha mãe  e o jardim da minha infância. Na nossa antiga casa, numa cidadezinha de interior, existia um belo jardim com hortências, rosas, antúrios, ciprestes e palmeiras. No meio, majestoso em sua simplicidade, um pé de magnólia. Quando as flores brancas se abriam, perfumavam todo o ambiente, com um aroma adocicado e penetrante. Minha mãe cuidava do jardim e tinha um carinho especial pelo pé de magnólia: podava, tirava as flores e folhas velhas, colocava terra e esterco. E quando sinto cheiro de goiaba também me lembro dela. Todo ano fazíamos goiabada. Eram dias de labuta e minha mãe ficava com cheiro de goiaba. E eu também, pois ajudava em todas as etapas, desde subir no pé para apanhar as goiabas, até ficar horas mexendo o tacho de cobre na trempe de lenha, com uma grande colher de pau, com medo do doce de goiaba molinho e escaldante, que borbulhava no tacho, cair nas minhas pernas. Sinto saudades dela. Mãe é para sempre e não deveria morrer. Como escreveu  Drumond : "-Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será sempre pequenino feito grão de milho".
                Mas não tem como e um dia as mães vão-se embora. Mas deixam seus ensinamentos,  exemplos e a lembrança de algum perfume só seu. E com certeza, se amor tivesse perfume, todas as mães teriam o perfume do amor. Um perfume resultante do amor de  todos os tipos de mãe:  a mãe de barriga ou a mãe de vida; a mãe alegria e a mãe sofredora; a mãe educadora e a mãe analfabeta; a mãe corajosa, a mãe oprimida, a mãe carinhosa, a mãe-pai , a mãe desde sempre e a mãe escolhida; a mãe que se acaba junto com o filho viciado, a mãe que pede pão para os filhos. E tantos outros, pois os  tipos mudam, mas o amor não.
                Como exemplo de tipo de mãe dos tempos modernos, temos a mãe de aluguel,  que surgiu com o aperfeiçoamento das técnicas de reprodução humana. Li na "Folha" (28/04/15) uma reportagem sobre o terremoto no Nepal, enfocando o resgate pelo governo de Israel de 26 bebês recém-nascidos  de barriga de aluguel. São filhos de solteiros e gays israelenses que utilizaram a inseminação artificial e o embrião foi implantado no útero da mãe de aluguel. Há mais de 100 mulheres nepalesas grávidas de filhos de israelenses; o processo custa em torno de US$20 mil no Nepal e US$ 100 mil nos EUA. Com medo de tremores secundários, estão resgatando os bebês e 20 mães de aluguel em adiantado estado de gestação, mas  não há preocupação com as  80 mães que ficarão e nem com aquelas que acabaram de dar a luz.
                Ser mãe de aluguel é um assunto complexo demais para dar opinião. Só sei que minha mãe nunca sonharia que isso seria possível e não entenderia nada do processo,         mas mesmo assim envolveria todas as mãe com seu perfume de magnólia.  

sábado, 11 de abril de 2015

O joão-de-barro, o louva-a-deus e o leão

Casal de joão-de-barro construindo o ninho

Fêmea de louva-a-deus devorando a cabeça do macho


Casal homossexual de leões


                Sempre que caminho em um clube, converso com um funcionário troncudinho e gentil. Dia desses, estava ele envolvido na observação de um casal de joão-de-barro construindo o ninho. Fiquei observando também. Um deles chegava com a pelota de barro no bico, colocava na parede do ninho, o outro vinha e alisava o barro, se revezando. O ninho estava quase pronto, na forma de um forno e com uma portinha caprichada. O funcionário comentou que o casal de joão-de-barro é muito fiel um ao outro e que, se o macho for traído pela fêmea, que voa até uma grande altura e depois despenca do alto, se esborrachando no chão. Ou seja, um suicídio por desgosto amoroso. Uma amiga entrou na conversa e disse que não era  assim, que na verdade o macho traído fechava a porta do ninho e prendia a fêmea lá dentro. Eu disse que isso devia ser lenda, pois imagina se a fêmea ia ficar quietinha dentro do ninho, esperando durante uns dois dias  o macho pegar cada pelotinha de barro para tampar a entrada e prendê-la. Ainda mais que o joão-de-barro  é considerado um pássaro inteligente...
                Não encontrei na literatura nada que confirmasse nem o suicídio, nem o instinto assassino do joão-de-barro. Mas existem muitos fatos comprovados e interessantes sobre o comportamento sexual dos animais. Como no caso do louva-a-deus e do leão. A malvada fêmea do louva-a-deus pratica o canibalismo sexual, uma forma de predação em que a fêmea devora o macho na cópula. Quando ainda estão realizando o ato sexual, a fêmea, que é maior que o macho, começa a devorâ-lo pela cabeça, pedacinho por pedacinho, com suas potentes mandíbulas. Isso porque precisa de proteínas para amadurecer seus ovos e já começa a aproveitar as do macho, coitado. Um caso típico de macho perdendo a cabeça pela fêmea. Mas existem invertebrados mais espertos, como em espécies de aranhas onde o macho é bem menor que a fêmea. Ele pode ser confundido com uma presa se chegar muito depressa, afoito demais para copular. Assim, o macho leva uma presa de presente para a fêmea e enquanto ela come a presa, ele copula.  Depois, sai rapidinho. Melhor dar um presente do que ser devorado.
                Quanto ao leão, o rei dos animais, ele é um dos muitos exemplos de espécie onde existe homossexualidade. Machos abandonam as fêmeas disponíveis para formar seu próprio grupo homossexual. O biólogo canadense Bruce Bagemihl, no livro "Biological exuberance: animal homosexuality and natural diversity", com 750 páginas resultantes de dez anos de pesquisa, cita o comportamento homossexual cientificamente documentado de cerca de 300 espécies de mamíferos e pássaros. Entra essas, o leão. E outras como pinguins machos, que tentam roubar o ovo de casais heterossexuais;   galos-da- serra com comportamento gay devido à alta densidade populacional e enorme competição pelas fêmeas; girafas machos jovens que formam pares homossexuais temporários, para treinar técnicas de acasalamento; baleias brancas machos em brincadeiras eróticas que sugerem uma orgia; macacas japonesas que se tornam agressivas quando tentam separar o casal de fêmeas. O biólogo deixa claro que é muito variado o repertório sexual encontrado na natureza e que não podemos estabelecer conexões entre animais e seres humanos.
                Quando comentei com meu irmão grandalhão, com alma de criança, o comportamento homossexual dos leões, ele reagiu indignado e boquiaberto, falando desanimado: -"Mas não é possível, até o leão? " Pois é, até o leão.


segunda-feira, 16 de março de 2015

As cores do Brasil

Eu, de blusa de bolinhas, na passeata

Pessoas enroladas na bandeira

Crianças na passeata
         Eu estava lá, na manifestação do dia 15 de março, na passeata que saiu da praça Tubal Vilela e percorreu o centro da cidade, debaixo de uma chuvinha fina. Foi emocionante. A bandeira do Brasil enrolada nas pessoas ou carregada no alto. Tudo verde e amarelo: os balões, as camisas, os panos enrolados na cabeça, os chapéus de todo tipo, as faixas, os enfeites nos carrinhos de bebê (com bebês dentro); as caras, cabelos e carecas pintados de verde, amarelo e azul. O vermelho, apenas no nariz de palhaço que muitos usavam. Algumas pessoas batendo panelas, outras se oferecendo para pintar o rosto de quem queria, outras com espírito de liderança organizando os gritos de guerra. Pessoas idosas de mãos dadas, com camisas escritas "corrupção nunca mais".
       A passeata teve início com o refrão: "Dilma vai embora, o Brasil não quer você! Aproveita e leva o Lula, e a quadrilha do PT". O Hino Nacional foi cantado no inicio, durante e no final da passeata. Pessoas nas calçadas olhando e também cantando o hino. Pessoas nas janelas dos prédios estendendo panos e bandeiras e a multidão gritando pra eles: "vem pra rua, vem pra rua". Pessoas cantando e dançando ao som de uma bateria bem animada " sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor". Durante todo o trajeto, gritos em uníssono de " fora PT", "fora Dilma", "fora Lula',  "1,2,3 petista no xadrez", "Lula cachaceiro devolve o meu dinheiro", "PT nunca mais", "eu vim de graça", "jamais será vermelha a minha bandeira".
      Também havia cartazes e faixas com dizeres variados e muitas bandeiras amarelas escritas "Basta de corrupção".  No caminhão de som, que foi andando devagar na frente da passeata, quatro faixas: "Renuncia Dilma, você não nos representa"; "Queremos nosso Brasil de volta"; "Verás que um filho teu não foge à luta" e "Fora Dilma e leva o PT junto". Cartazes escritos "Cadê a OAB?", "Muda Brasil", "Agora não é por 20 centavos, é pelos 88 bilhões roubados", "Dilma tem que ser investigada". E um muito criativo: "A culpa é das estrelas", todo enfeitado com estrelinhas vermelhas.
    Foi uma manifestação pacífica e patriótica, verde e amarela (e com um pouco de azul). Contra a corrupção, a desonestidade, a impunidade, a roubalheira, os abusos de poder,a falta de caráter, o incentivo ao crime, o desestímulo  a  honestidade e  a produtividade, o estímulo a ociosidade e outros, que tanto envergonham e revoltam a nós, brasileiros.
     Lembrei-me de uma redação que circula na internet. Foi escrita por uma adolescente de 14 anos e foi premiada.  Transcrevo  aqui parte da redação: "certa noite, ao entrar em minha  sala de aula, vi num mapa mundi o nosso Brasil chorar.  "- O que houve, meu Brasil brasileiro?", perguntei-lhe.  E ele, espreguiçando-se em seu berço esplêndido, esparramado e verdejante sobre a América do Sul, respondeu chorando, com suas lágrimas amazônicas:  "-Estou sofrendo...Vejam o que estão fazendo comigo...Meu povo era heroico e os seus brados retumbantes. O sol da liberdade era mais fúlgido e brilhava no céu a todo instante. Eu era a Pátria amada, idolatrada...Havia paz no futuro e glórias no passado. Nenhum filho fugia à luta. Eu era gigante pela própria natureza, que hoje devastam e queimam , sem nenhum homem de coragem que, às margens de algum riachinho, tenha coragem de gritar mais alto para libertar-me desses novos tiranos que ousam roubar o verde louro da minha flâmula"
       Vamos então ser pessoas de coragem e ajudar o Brasil.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Cenas americanas

Lia vestida de Elsa

Lia logo depois de colocar os brinquinhos

          Estive na Califórnia durante um mês, na casa da filha, e vivenciei cenas interessantes. Por exemplo, lá as meninas não têm as orelhas furadas para colocar brincos quando nascem, isso é cultura de latinos. Mas a Lia, minha netinha de quatro anos, quando veio ao Brasil, ficou fascinada com os brinquinhos das primas. Pediu para colocar nela também. Levei-a a uma farmácia e o funcionário sentou-a em uma cadeira. Sem maiores preâmbulos, pegou uma maquininha e segurou a orelha. A Lia ficou horrorizada e fugiu. Passado o susto, já nos States, pediu novamente. A mãe levou-a a uma loja com centenas de brincos e com moças lindas, vestidas de princesas. Sentou-se em um trono e uma princesa deu a ela um ursinho macio para segurar. De mansinho, outras duas vieram por trás e furaram as duas orelhas ao mesmo tempo, para evitar fuga com apenas uma orelha furada.  Quando ela começou a berrar e o irmão a gritar " sangue, sangue", enfiaram um pirulito na boca deles. A Lia saiu com lágrimas nos olhos, mas de brinco e se deliciando com o pirulito.
            Outra cena inusitada aconteceu numa sauna. Abri a porta, não enxerguei nada devido ao vapor, sentei-me como pude (felizmente no banco e não no colo de alguém). Ao meu lado estava um jovem com camisa, calça, tênis e meia, fone de ouvido, suando ao som da música. Pensei que estava no lugar errado, sai e perguntei. Não, lá é assim mesmo, depois vi outras pessoas bem vestidas suando na sauna. E na piscina, mulheres com maiô de saia rodada. Biquini fio dental, como aqui, nem pensar.
            Também fui em um local com massagistas asiáticos, todos de olhos puxadinhos. O interessante é que as massagens são coletivas. Cerca de 30 pessoas ao mesmo tempo, na penumbra, música suave,  barulhinho de água, pés mergulhados em água morna,  corpo vestido e coberto por toalhas felpudas quentinhas. Um asiático para cada pessoa, massageando com força o nariz, os olhos, as orelhas, a nuca, o pescoço, tirando os nós das veias, das artérias, espichando os dedos dos pés. A melhor coisa do mundo, vontade de ficar lá para sempre. Ainda vou levar o Zé, meu marido, para fazer essa massagem.Ele vai adorar.
            Ah, tem ainda as manicures vietnamitas. Pequeninas, vaidosas,  de cabelos bem lisos e tagarelando em vietnamita sem parar. Elas passam um esmalte que não sai nunca, mas nunca mesmo, só se tirar a unha também.
            Outra coisa: a meninada de lá não briga como a meninada daqui. Por qualquer empurrãozinho em uma criança, os pais falam  "I´m sorry" mil vezes e repreendem o filho. Minha filha fazia parte de um Clube do Livro e nas reuniões levava o Enzo, então com três anos. Com o seu lado bem brasileiro, ele mordia todas as crianças presentes. Ela foi convidada a se retirar do clube.
            Enfim, existem por lá muitos costumes diferentes. Nas eleições, ninguém pergunta para o outro em quem votou, é falta de educação. Aqui, a gente espalha e ainda pede voto. Os cachorros são um show à parte. No teatro, vi um cachorro grande, peludo, lustroso, com uma bolsa dourada de lado, quietinho, assistindo ao balé "Romeu e Julieta", bem ao meu lado. E não era cachorro de cego.
            Mas o  Brasil também tem cenas inacreditáveis. Como José Simão escreveu na Folha , em um banheiro em Aracaju tem a placa "É proibido lavar pés, cabelos, pano de chão, pratos com resto de comida e dar banhos em crianças dentro da pia" . Não pode nada, mas pelo menos tem pia no banheiro. Se fosse em São Paulo, nem pia teria, pois não tem água...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Conversas alopradas




       Cada fase da vida tem suas características e umas são melhores, outras piores. Uma das fases difíceis é quando começamos a "caducar". E não há como fugir disso, pois a vida é um ciclo, que vai de babando a caducando...
     Tenho um conhecido que está nessa fase e as conversas dele são uma loucura. Sempre que nos encontramos, batemos longos papos e damos boas risadas. Ele gosta de contar que tem treze formaturas e que fala fluentemente quatro línguas: inglês, francês, china e bagdá. E que agora está aprendendo os pauzinhos do iraque. Conta que trabalha para a NASA e que tem livre acesso à base militar montada em Anápolis. Acrescenta que sabe dirigir qualquer tipo de caminhão e que pilota avião a jato. Disse que está comprando um trailler de três andares para viajar pelo mundo com minha filha, pois sabe que ela gosta muito de viajar e vai levá-la para conhecer Cancun. Eu comecei a rir e falei que é muito longe para ir de trailler. Ele então disse que vai de avião a jato e chega lá em cinco minutos. E que também vai levá-la na Avenida Paulista para ela comprar centenas de camisas lindas e baratas e revendê-las a cinco reais cada. Conta que é dono de vários prédios na Avenida Paulista, que ganhou de herança do avô. Completa a conversa dizendo que conhece muita gente importante e que arranjou emprego no Palácio da Justiça para uma moça de Morrinhos. Rindo, conta que ela é muito burra, mas que conseguiu um salário de dezoito mil reais para ela.
       E por aí vai. Fico imaginando como deve ser a mente de uma pessoa com o Mal de Alzheimer e o sofrimento pelo qual toda família passa. Qualquer um de nós pode passar por isso, é só uma questão de tempo. Eu mesma já ando misturando tudo. Chamo o cachorro pelo nome do filho e o filho pelo nome do cachorro. Esqueço as panelas no fogo, o ferro ligado e queimo tudo. Estou ficando perigosa. Falta pouco para pensar que também trabalho na NASA.
     Em outra fase, estão as crianças. Num mesmo dia, encarnam o Batman, o Super Homem, o Homem Aranha. Colocam uma capinha e pulam de lugares altos, pensando que podem voar (muitos se estatelam no chão). Entre uma coisa e outra, têm conversas muito lúcidas. Como o meu neto de seis anos, quando estávamos conversando sobre vacas e porcos. De repente, ele soltou a seguinte generalização: "todas as vacas são fêmeas". E o outro, muito briguento, quando comentei que eu estava feliz porque ele tinha melhorado o comportamento, olhou-me bem nos olhos e disse com seriedade: "é, as coisas mudam!"
      Entre a fase dos idosos e das crianças, estão adultos bem loucos, gritando conversas escandalosas ao celular, nos locais menos apropriados. Como a mulher que ouvi na sala de espera do aeroporto, bem alto: "o que? Mas já, na lua de mel?" Pausa. Todos por perto olhando para o alto, fingindo não escutarem. "E agora, você ainda vai ficar com esse canalha? " Pausa. Mistério.
   Tem também a conversa que ouvi na padaria, de outra mulher (será que as mulheres são fofoqueiras?). Ela repetiu bem alto, várias vezes, pois parece que a pessoa do outro lado era um pouco surda: "a Ritinha entrou hoje na justiça, quer a metade da casa. Descobriu que foi "chifrada" durante estes anos todos".  Puxa, será que todo mundo precisa saber que a Ritinha foi chifrada?
Bem que diz o ditado: "de médico e de louco, todo mundo tem um pouco"

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Classificando objetos

O vestido de noiva de 45 anos

O ponto rococó do vestido de noiva que eu mesma fiz

O bonecão e a Tânia

As camisas de estimação do Zé, meu marido

       A necessidade de classificar objetos, animais e plantas,  sempre fez parte da natureza humana. Assim, além da classificação científica dos seres vivos, existem inúmeras outras que variam de acordo com cada classificador, dependendo do contexto em que são criadas. Quando era professora de zoologia, gostava particularmente de uma que aparece em certa enciclopédia chinesa. Os animais foram classificados em: 1) pertencentes ao imperador 2) embalsamados 3) domesticados 4) leitões 5) sereias 6) fabulosos 7) cães em liberdade 8) incluídos na presente classificação 9) que se agitam como loucos 10) inumeráveis 11) desenhados com pincel muito fino de pelo de camelo 12) etc 13) que acabam de quebrar a bilha 14) que de longe parecem mosca. Acho-a genial;  penso que foi o imperador quem a fez e agrupou no primeiro item a maioria dos animais. Os que não sabia, colocava no "etc" ou no "inumerável".
          Agora, estou passando por um momento histórico e necessito classificar milhares de objetos, por motivo de mudança de casa para apartamento. Deveria ser uma coisa simples, mas é mais difícil do que escalar o monte Everest. Como o imperador, estou classificando os objetos em: 1)Levar para o apartamento 2)Reformar e levar 3) Doar para o "cata treco" da prefeitura 4) Doar para reciclagem 4) Doar para as escolas 5) Doar para algum museu ou brechó 6) Doar escondido do Zé, meu marido 7) O  que faço com isso 8) Fotografar e colocar em site para vender 9) Abandonar na casa 10) Deixar na calçada pra alguém catar 11) Levar pra fazenda 12) Usar a criatividade e transformar em presente 13) Colocar no carro e sair perguntando quem quer.
       Dando alguns exemplos : dia destes, conforme item "colocar no carro", enchi o mesmo de eletrônicos e sai perguntando nas lojas de conserto se queriam  aproveitar as peças. Ninguém queria, mas apareceu um senhor que estava montando uma escolinha e levou tudo. Em "doar para as escolas", levei duas caixas de papelão imensas, com livros de ensino médio para uma escola estadual. No item "reformar e transportar", está um catre de 200 anos, que foi da minha bisavó, vou fazer pátina nele. Em "transformar em presente", descobri as cartas do meu filho, escritas há 22 anos, quando ele estava em Londres. Interessantíssimas e detalhadas. Organizei em um fichário e dei de presente pra ele, nunca receberá outro igual. No item "doar pra algum museu", está o meu bonecão de louça que ganhei  do meu pai, quando o de papelão derreteu. Em "o que faço com isso", está a caixinha com os dentinhos de leite dos seis filhos e o meu vestido de noiva, feito de crochê rococó, pontinho por pontinho. E a Tânia, uma boneca única, que teve seus grandes olhos azuis arrancados pelo filho em briga com a irmã (foram recolocados). Em "doar escondido do Zé", estão as camisas do time querido dele, o XV de Novembro, extinto há séculos.
     Existem ainda milhares de objetos para dar um destino a eles. Não sei porque guardamos e temos tanta tranqueira. Lembro-me que, quando minha filha fez o Caminho de Santiago, passou 40 dias caminhando e carregando uma pequena mochila com poucos pertences. Uma das lições que aprendeu na peregrinação foi que precisamos de muito pouco para viver. Além de tudo, o marido e o filho estão fazendo um complô para não nos mudarmos.Qualquer coisa, altero minha lista para "Classificação de objetos e pessoas", tiro fotos deles e coloco no site de vendas.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Um abraço de Natal

Jane Goodall 

Sabrina na escolinha
        Recentemente, dois abraços me emocionaram. Um deles foi de um chimpanzé  abraçando a pesquisadora que salvou sua vida. O outro foi de uma menininha e minha filha, na Bahia.
        O primeiro, assisti em um vídeo na internet. Wounda, uma fêmea de chimpanzé, esteve muito doente, por várias vezes, e foi tratada em um centro de pesquisa na Tanzânia, África. Esse foi fundado por Jane Goodall, uma primatologista inglesa de 80 anos que dedica sua vida a estudar o comportamento dos chimpanzés e a cuidar deles. Wounda conseguiu se recuperar e uma equipe foi soltá-la em uma ilha. Quando abriram a jaula na qual foi transportada, Wounda saiu, olhou em volta a floresta exuberante, deu uma corridinha, voltou, subiu na jaula e abraçou a Jane. Um abraço demorado, apertado, com os olhinhos fechados. Passava as mãos peludas nas costas da pesquisadora, franzina e idosa, e essa acariciava os longos pelos do dorso de Wounda. Ficaram assim as duas, parecendo que a chimpanzé estava agradecendo e se despedindo. Depois, saiu em passos rápidos e bamboleantes e se embrenhou na selva, rumo à liberdade. Deu vontade de chorar.
        O outro abraço, foi de uma menininha bonita, cor de jambo, de quatro anos, quando ela chegou na escolinha na casa da minha filha, em Algodões, depois que a  mãe foi presa. O abraço dela foi de chegada, de entrega, de encontro, de esperança. O da minha filha foi de dor, de consolo, de carinho, de vontade de fazer tudo, ao sentir os ossinhos frágeis e ao ver as suas perninhas finas cortadas por capim navalha. A mãe dela (que na verdade ganhou a menina da mãe biológica) é usuária de drogas e assaltou uma casa juntamente com dois filhos. Quando fugia da polícia pelo mato, arrastou a criança com ela, que ficou toda machucada. Ela, a menininha, conta que não quer ficar sem a mãe e que essa vai voltar. Vontade de chorar também, mas não de alegria.
       Enfim, os abraços estão presentes  em nossas vidas, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. São gestos simples, carregados de sentimentos. Podem ser de apoio, de despedida, de chegada, de consolo, de saudade, de compreensão, de afeto, de aconchego, de partilha. E como alguém já disse, um bom abraço não pode ser rápido, tem que atravessar o corpo, ser uma confissão, ser o encontro de dois corações, precisa cruzar os braços e demorar no rosto.
      E como diz a canção de Jota Quest: "o melhor lugar no mundo é dentro de um abraço, pro mais velho ou pro mais novo, pra alguém apaixonado, alguém medroso; tudo que a gente sofre, num abraço se dissolve, tudo que se espera ou sonha, num abraço a gente encontra". Ou como cantado por Milton Nascimento: "mande notícias do mundo de lá, diz quem fica, me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando" ; ou  por Roberto Carlos: " você foi o maior dos meus casos, de todos os abraços, o que eu nunca esqueci".
      Assim, desejo que neste Natal você dê e receba muitos abraços. Não tem presente melhor. Abraços apertados, sinceros e inesquecíveis. Abrace a família, os amigos, os companheiros de trabalho, os velhinhos, as crianças, os abandonados, os carentes, os orgulhosos, os chorões, os ranzinzas, os otimistas, quem você puder. Mas, acima de tudo, desejo que você se sinta abraçado pelo Menino Jesus. Um abraço enorme, maior que o mundo, cheio de amor, de paz e de luz, capaz de unir o coração humano ao coração divino. Feliz Natal, com muitos abraços!