A cada dois dias tentarei colocar um texto novo, para manter o interesse dos meus leitores e também algumas fotos para exemplificar alguns textos. Obrigada pelo apoio.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A prova


Para renovar a carteira de motorista, eu precisava fazer a prova teórica. Poderia escolher entre participar de um curso presencial e fazer a prova lá mesmo ou então, estudar sozinha e fazer a prova no DETRAN. Em 30 questões objetivas, deveria acertar no mínimo 21. Pensando que seria moleza, optei por não participar do curso.
Assim, consegui um livrinho que tinha “tuudo” sobre legislação de trânsito, infrações, penalidades, sinalização, direção defensiva, primeiros socorros. Explicava a diferença entre apreensão, retenção e remoção de veículos (pra mim, era tudo a mesma coisa); o que era frenagem (pensava que era quando o carro derrapava na água); os problemas dos retrovisores convexos; a necessidade de manter uma distância de dois segundos entre dois veículos; o comportamento sub e sobre-esterçante (nunca tinha ouvido falar). As normas de conduta: mil infrações gravíssimas, graves, médias e leves, com as penalidades em cada caso. Um horror. Pulei essa parte.
No dia da prova, cinco pessoas participando. Primeira pergunta: parar o veículo na contramão da direção é infração: leve, média, média com multa, grave. Puxa, nem sabia que era infração. Depois: usar o carro para jogar água nos pedestres é: falta de educação; infração leve; média sem multa; média com multa. Tinha certeza de que era falta de educação. Aliás, deveria ser mais que isso e marquei “infração leve” (errei, era média com multa). Em seguida, perguntaram o tipo de gás existente no extintor de incêndio. Nem desconfiava. Marquei o gás ACC porque achei o mais interessante, mas nem sei se existe. Apareceram também questões bem óbvias e pensei: “essas eu acerto”. De repente, a pergunta: “se aparecer vaca e cavalo na pista, qual o procedimento a ser tomado?” Deveria decidir entre acender ou não os faróis e entre buzinar ou não. Pensei na reação dos bichos e optei por não assustar os pobres animais. Mas como as más línguas dizem que sou má motorista (acredito que é por causa do preconceito contra as mulheres ao volante), perdi a segurança e assinalei que iria acender os faróis. Lembro-me de outra difícil: “se acontecer um acidente na pista com orientações para afastar as pessoas e não acender fósforos, o acidente envolve”: incêndio; óleo na pista; fios elétricos caídos do carro; atropelamento. Concluí que não era incêndio, pois o foguinho do fósforo não faria diferença. Quanto ao óleo, pensei que não se incendiaria assim tão facilmente. Fiquei com os fios elétricos, mas sem muita convicção.
Passei as respostas para o gabarito, com capricho, preenchendo as bolinhas. Contei as questões nas quais eu “tinha certeza” que a resposta estava correta: 23. Nas outras sete, como cada questão tinha quatro alternativas, eu ainda tinha 25% de chances de acertar, mesmo sem saber nada. Tranqüilo.
Passado um tempo, o examinador leu as notas: 20, 21, 23, 24 e 26. A nota 20 era a minha, só eu “tomei bomba”, que vergonha! Ainda tive a audácia de perguntar: “Moço, você corrigiu direitinho?” Ele nem respondeu. Eu não sabia se ria, se chorava, se me escondia. A primeira “bomba” de minha vida. Não sei se foi por excesso de confiança, falta de estudo ou burrice mesmo.
Agora, estou com a carteira vencida. Aprendi no bendito livrinho que dirigir com carteira de habilitação vencida, por mais de 30 dias, é falta gravíssima, com multa e sete pontos na carteira (isso eu sei). Tenho que fazer outra prova, mas desta vez não vou contar pra ninguém se for reprovada.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Ingresso na UFU

            Não gosto de escrever sobre temas polêmicos, mas não me contive. E sinto-me à vontade para escrever sobre o assunto, pois participei da vida acadêmica da UFU como professora, coordenadora de curso, aluna de doutorado, membro de conselhos superiores, etc e tenho paixão pela universidade. Atuei vários anos na elaboração e correção de questões de vestibular. Como esposa do José de Paulo, presidente da Comissão Permanente do Vestibular durante 13 anos, vivenciei cada etapa do processo. E agora, em 2012, como mãe de vestibulando de 17 anos, acompanhei o primeiro processo seletivo na UFU com ingresso por meio do Sisu, utilizando a nota do Enem.
            Analisei vários aspectos numéricos e muitos são preocupantes. Exemplos: o número de candidatos inscritos na UFU saltou de cerca de 11.000 no último vestibular para quase 50.000, com candidatos das mais diversas regiões do país. Ou seja, está muito mais difícil para um bom e mesmo ótimo aluno de escolas de Uberlândia ingressar na UFU. E como o aluno podia ir mudando sua inscrição de acordo com as notas de corte, que foram bastante altas, muitos foram aprovados em cursos que não eram os desejados e sim, onde conseguiriam aprovação. Isso poderá causar mais desistências e desajustes nos cursos e mais vagas ociosas. Só para se ter uma idéia do problema, ao lado dessas 1789 vagas oferecidas para ingresso em 75 cursos da UFU, estão sendo ofertadas 1161 vagas para transferência externa e para portador de diploma de curso superior, oriundas de desistências, abandono de curso, etc. No Campus Santa Mônica, só no curso de Matemática são 171 vagas ociosas,  no de Física 68, no de Ciências Econômicas, 50. As chances das vagas serem preenchidas são pequenas e isso é muito grave, vagas sobrando em universidade paga com o dinheiro do povo.
Outro fato preocupante é que as turmas de ingressantes são preenchidas por meio do Paaes, destinado aos alunos de escolas públicas e pelo processo seletivo (vestibular). Com isso, vem ocorrendo ao longo dos anos uma distorção na relação candidato vaga. Por exemplo, a turma de Medicina de 2012/1, será formada por 20 alunos que ingressaram numa relação de 100,2 candidatos/vaga (vestibular) e por 20 alunos que ingressaram numa relação de 7,8 candidatos/vaga (Paaes). No Direito noturno, a proporção é de 145,3 para 4,65; na Administração, noturno, é de 114,15 para 4,65; na Engenharia Civil, de 92,5 para 5,95. Não há projeto pedagógico eficiente capaz de resistir a tal disparidade. Por outro lado, dos 78 cursos que reservam vagas para o Paaes, 18 já começarão o semestre com vagas ociosas, pois o número de candidatos do Paaes foi menor que o de vagas. Outros 11 cursos têm um candidato por vaga ou menos de dois.  Ou seja, o certo é investir na melhoria do ensino médio público e não reservar vagas que não serão preenchidas. È necessário que alunos da rede pública e privada possam competir com igualdade.
Quanto ao meu filho vestibulando, lógico que ficou entre os 2940 candidatos reprovados no curso de Direito noturno e não entre os 20 aprovados (mas teria chances em um vestibular “normal”). Conversando com ele, disse que achei engraçado tanta falta de sorte: terminar o ensino médio logo quando a UFU está implantando uma nova forma de seleção; participar “de cara” do vestibular mais concorrido da história da UFU e, pior, escolher o curso que foi o mais procurado de todos. Muito sério, ele respondeu que não achou graça nenhuma.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Tempo de Natal

É Natal mais uma vez. É tempo de sonhar com um mundo melhor, de agradecer. Tempo de união entre as famílias, de reflexão, de ajudarmos o próximo. Tempo de aprender a amar, a perdoar, a abraçar, a escutar. De lembrar da mensagem que Cristo nos deixou e que chama os homens ao amor: “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”.
Como escreveu Eduardo Galeano, escritor uruguaio, é preciso mirar os olhos para além da infâmia e sonhar com outro mundo possível. Onde ninguém viverá para trabalhar, mas todos trabalharão para viver. Onde a TV deixará de ser o núcleo mais importante da família, para ser igual a uma máquina qualquer. Onde os cozinheiros não acreditarão que as lagostas gostam de ser servidas vivas. Onde a comida não será um privilégio, mas um direito humano. Onde todos amarão e respeitarão a natureza da qual fazem parte. E onde a educação não será um privilégio de quem pode pagar por ela.
É também tempo de sonhar com um mundo onde todos saibam agradecer a Deus por tudo que Ele nos dá: pelo ar, pelo sol, pelas estrelas, pelo pão, pela paz, pelas crianças. Ou, como na prece de Emmanuel, agradecer pelos ouvidos, que ouvem o tamborilar da chuva no telhado, a melodia do vento nos ramos das árvores, a dor e as lágrimas que escorrem no rosto do mundo inteiro, a música do povo que desce do morro. Agradecer pelas mãos que criam, que semeiam, que agasalham. Mãos de caridade, de solidariedade, mãos que apertem mãos. Mãos de poesia, de cirurgias, de sinfonias, mãos que, numa noite fria, lavam louça numa pia.
      Tempo de orar pelas famílias, como na canção do Pe. Zezinho: “que marido e mulher tenham força de amar sem medida; que ninguém vá dormir sem pedir ou sem dar seu perdão; que as crianças aprendam no colo o sentido da vida.” Que exista entre os casais uma nova forma de amar, ou seja, a aproximação de dois inteiros e não a união de duas metades, pois o amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Que cada casal tenha sabedoria para envelhecerem juntos, sentindo-se abençoados pelos cabelos grisalhos e por terem os risos e as dores da juventude gravados em rugas na face.
      Tempo de refletir sobre o nosso papel aqui na Terra. Entender que podemos ser um oásis de paz no meio das guerras que muitas outras pessoas vivem. Que podemos ser, hoje, pessoas melhores do que fomos ontem. Entender também que cada um tem seu caminho, sua sorte e seu próprio meio de criar a sua história. E que ao longo desse caminho, Jesus nos empreste as suas sandálias, para caminharmos de encontro a Ele; o seu cálice, para quando estivermos sedentos de um mundo melhor e de uma sociedade mais justa; a sua túnica, para que a possamos repartir e dividir com o próximo; o seu perdão, para que, pecado após pecado, possamos sempre voltar ao Pai.
E, quando estivermos perdidos na nossa caminhada, que possamos nos lembrar da poesia de Fernando Pessoa: “se achar que precisa voltar, volte. Se perceber que precisa seguir, siga. Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo, continue. Se sentir saudades, mate-a. Se perder um amor, não se perca. Se o achar, segure-o. Circunda-se de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada.”
Enfim, é tempo de Natal. Como escreveu Vinícius de Morais, um tempo de falar baixo, pisar leve, ver a noite dormir em silêncio; não há muito o que dizer, talvez um verso de amor ou uma prece.
 Feliz aniversário, Menino Jesus! Feliz Natal para todos!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Roma eterna

Escultura Pietá, de Michelangelo, na Basílica de São Pedro


Papa Bento XVI falando para a multidão

Eu na Praça São Pedro, com vista da basílica ao fundo

      Na viagem à Europa, visitamos várias cidades. Cada local com seus encantos e tudo dividido em antes de Cristo e depois de Cristo.
Passamos pelas terras onde, dizem, aconteceu o romance entre Romeu e Julieta, as aventuras do Dom Quixote de la Mancha, a história do galo de Barcelos. Em Lisboa, a Torre de Belém, o bacalhau delicioso e o fado (um pouco enfadonho). Túmulos de pessoas famosas, como do Vasco da Gama e do Camões (um pouco fúnebre). Em Fátima, a emoção de  acender velas para Nossa Senhora. Em Madri, a Praça dos Touros, os palácios, muita gente nas ruas, a dança flamenca. Toledo, a cidade medieval, com muitas histórias, muralhas e pontes. Em Barcelona, o inacreditável templo da Sagrada Família, do arquiteto Gaudi, iniciado em 1882; o famoso presunto “jamón de bellota”, caríssimo, do porquinho de patas negras, criado comendo castanhas. Em Mônaco, as casas nas encostas, o mar muito azul, a troca de guardas na frente do palácio. Em Veneza, o encanto dos pequenos canais, das centenas de lojas, do passeio de gôndola e dos pombinhos na praça San Marco. Em Florença, esculturas fantásticas em mármore, como a do herói bíblico Davi, de Michelangelo, com 5m de altura.
          Por fim, depois de muitas fotos e de muito abrir, fechar e carregar malas, entrar e sair de hotéis, confusões com trocas de quartos, dramas para pegar metrô e medo dos larápios surrupiarem nossas bolsas, chegamos a Roma, a cidade eterna.
      A visita começou no ônibus da excursão, com a guia italiana explicando em espanhol. Do alto de uma colina, avistamos Roma. Lá estava a estátua da loba amamentando Rômulo e Remo, representando a origem da cidade, no século VIII a.C. Passamos por várias ruínas do tempo dos césares e do império romano: a muralha Aureliana; a pirâmide revestida com mármore branco; as Termas de Caracalla, onde se banhavam até 2000 pessoas; a Via Apia, por onde passavam os imperadores depois de uma vitória; o circo Massimo, onde aconteciam corridas de biga; o Arco Triunfal de Constantino, copiado por Napoleão em Paris; o Palácio dos Imperadores; as ruínas dos aquedutos; o grandioso Coliseu, o maior monumento da antiga Roma, com 80 arcos em mármore; as colunas do templo de Vênus; o lindo Monumento Vitoriano na praça Venezia; o templo de Hércules, igrejas e mais igrejas. Caminhando pelas ruas de Roma, conhecemos a linda Fontana de Trevi, a praça Navona, com a fonte  do deus Netuno; o Pantheon, um templo redondo hoje transformado em igreja; o rio Tibre, com suas  pontes e esculturas; o bairro Trastevere, com seus restaurantes convidativos. Mas o deslumbrante mesmo foi o Vaticano: a imensa praça de São Pedro, circundada por 284 colunas e 140 estátuas de santos;  a Basílica de São Pedro, a mais majestosa igreja do mundo, com a escultura de Pietá, o túmulo de João Paulo II, o corpo embalsamado de João XXIII, o altar dourado, a cúpula com 136m de altura. O palácio e o museu. A emocionante capela Sistina, com pinturas com passagens da bíblia, como o Juízo Final, pintado por Michelangelo, com 375 personagens, todos nus (mas o papa Júlio II chamou outros dois pintores e mandou pintar um paninho nos órgãos genitais de todos eles).
Coroando tudo, no domingo, ao meio dia, o papa Bento XVI apareceu na sua janelinha para uma multidão na praça de São Pedro. Falou em várias línguas, ressaltando a caridade como o caminho da salvação, agradeceu a presença e abençoou a todos, inclusive a mim. Agora, posso morrer em paz.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Peripécias de uma viagem

A turma em Mônaco, na frente do palácio: Vicente, Maria Luzia, Lourdinha, a guia espanhola, Marta, eu, Zé e Fá.


Os personagens principais, em Lisboa: Vicente, Zé e Fá

            Recentemente fomos, um grupo de sete pessoas, conhecer algumas cidades de Portugal, Espanha e Itália. No grupo, o meu irmão Fá (apelido carinhoso), um homenzarrão de coração bondoso, na sua primeira viagem ao exterior, e o Vicente, compenetrado e bem vestido, irmão gêmeo do meu marido e que nunca andou de avião (foi corajoso, entrou direto em um Boeing 747, num voo de 12 h).
            As confusões começaram já no aeroporto de Uberlândia, no check- in. O Zé, meu marido, levou tudo na bagagem, menos o passaporte. Pensou que eu tinha levado para ele (claro, a culpa é sempre minha). O avião quase saindo, o resto da turma esperando em Guarulhos-SP, os euros de todos na sacolinha do Zé, o último voo para chegarmos a tempo. Nesse contexto dramático, o filho, que tinha nos levado ao aeroporto, voltou em casa comigo, a mil por hora, para procurarmos o passaporte. Rezei para todos os santos e encontrei-o no fundo de uma gavetinha. Fomos os últimos a embarcar no avião e o Zé escapou de um ataque cardíaco.
            Já em Guarulhos, o Fá chegou de um voo de Belo Horizonte e pegou a mala na esteira. No momento de despachá-la, a alça, que tinha uma fitinha verde, arrebentou e a mala caiu com tudo. Catou a mala e fez o check-in. Lá fomos nós para a escala em Frankfurt, o maior aeroporto da Europa. Depois da aterrissagem, entramos em um ônibus moderno que nos conduziria para perto do portão de embarque. Parece que o Vicente pensou que o ônibus era um corredor, pois entrou por uma porta e saiu pela outra. Com uma multidão de pessoas entrando e falando em todas as línguas, ninguém percebeu. De repente, a esposa viu-o parado na plataforma, segurando firme sua mochilinha. Ela gritou e o Vicente entrou pela porta da frente. Se ficasse ali, adeus Vicente.
            Enfim, chegamos ao hotel Marriot, em Lisboa. O abriu a mala para tomar um banho relaxante e soltou um palavrão. Não era a sua. Estava cheia de chinelinhos de crianças, shorts pequeninos, bonés, chapéus de praia e um saquinho de remédios. Entrou em desespero e fui ao quarto socorrê-lo. Concluímos que a mala que ele despachou em SP era mesmo aquela, pois estava com a alça quebrada, com a fitinha verde e com o seu nome. Ou seja, ele pegou a mala de outra pessoa na esteira, quando chegou de BH. Depois de vários telefonemas e muito drama, descobriu-se a dona da mala e também a mala do Fá, nos achados e perdidos da TAM. Desistimos de pedir o envio da mesma, compramos algumas roupas para ele e carregamos a “mala dos meninos”, como passou a ser chamada, durante toda a excursão.
            Nessa mesma noite da chegada, na salinha de informática do hotel, roubaram minha bolsa nova, com apenas a caixinha dos óculos dentro (lá os ladrões são sofisticados, fingem que são hóspedes e roubam bolsas, até nas mesas do café). Enquanto estava espantada, surgiu o Fá, mais espantado ainda. Contou que, passado o susto da mala, foi tomar banho. Apoiou-se na alça de metal da banheira para não escorregar, ela quebrou e ele levou o maior tombo. Fomos dormir correndo, antes que acontecessem mais tragédias. O Fá tomou um remedinho da mala dos meninos, para dor de cabeça, escovou os dentes com o dedo e dormiu.
            Bem, isso foi apenas o começo. O dia seguinte começou com a Lourdinha, amiga da minha cunhada, levando um tombo na escadaria do hotel, daquele tipo que só acontece em filmes.
Mesmo com muitas confusões, chegamos até Roma e realizei meu sonho, conheci a cidade eterna. No próximo texto, escreverei sobre ela.







segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Abelhas: um outro olhar

Abelha europa visitando flores de mataiba

Quem pensa em abelhas, geralmente se lembra das ferroadas e do mel. Como contado no livro “Insetos no folclore.” Apareceu no museu da USP uma senhora aflita e amedrontada, querendo fazer uma consulta sobre insetos. Disse que seu filho, já adulto, havia sido ferroado por um inseto e desejava saber se o inseto era perigoso ou não.O funcionário mostrou-lhe uma gaveta da coleção de abelhas, com vários exemplares de mamangavas. “Foi esse, foi esse”, disse alvoraçada, querendo saber se a ferroada era mortal. Recebeu a explicação de que era muito dolorosa e causava inchaço no local, mas se a vítima não fosse alérgica, não haveria perigo maior. Reconfortada e mais tranquila, explicou que o filho havia sido ferroado por uma mamangava e os colegas de trabalho garantiram que ele morreria depois de sete anos. E acrescentou: “É nesta semana que se completa o prazo...”
             Mas, além das ferroadas, as abelhas tem seu encantamento. Jataí, irapuá, mandaçaia, mamangava, uruçu, jandaíra, abelha europa, moça branca, etc: todas dignas de admiração e de respeito. Morfologicamente, apenas um pequeno inseto, a grande maioria com menos de um centímetro. Mas com coração, aorta, cérebro, gânglios nervosos, glândulas salivares. Com sofisticado sistema sensorial e neuromotor. Com olhos compostos que percebem tons que nem os olhos humanos conseguem, como o ultravioleta (uma flor azul é vista pelas abelhas em vários tons azulados e ultravioleta). Com antenas com função de tato, olfato, audição e gustação, extremamente eficientes (o zangão sente o cheiro de uma rainha virgem a 10 km de distância). Com papo de mel, onde carregam o néctar e com escopas ou corbículas para transportar o pólen. Uma perfeição.
            As abelhas também possuem um incrível sentido de orientação e sempre encontram o caminho de volta para o ninho. Algumas comunicam a fonte de alimento com dança e outras usam trilhas de cheiro até o alimento. Na reprodução, há comportamentos fascinantes. As solitárias cavam o solo, fazem túneis, aprovisionam as células, ovipositam e morrem antes das crias nascerem. Nas abelhas sociais, os zangões morrem depois da cópula (mas para eles é a glória), a rainha armazena espermatozóides viáveis por toda a sua vida (em torno de cinco anos, dependendo da espécie) e as operárias altruístas deixam de cuidar de seus próprios filhos para cuidarem dos filhos da rainha.
            Além disso, são arquitetas fantásticas. No ninho, usam cera, batume e cerume para construírem a entrada, o invólucro que mantém a temperatura constante, os potes de alimento, o depósito de detritos e a galeria de drenagem da água. Uma obra majestosa. As operárias, de acordo com a idade, são faxineiras, nutrizes, engenheiras, guardas, campeiras e morrem com cerca de 60 dias, com as mandíbulas e asas gastas de tanto trabalhar. Vivem em uma sociedade perfeita, bem mais perfeita que a humana.
            Isso tudo sem mencionar o importante papel das abelhas na polinização, na apicultura e meliponicultura. Onde houver flores, ai estarão também as abelhas. Numa  interação abelha-planta, que vem evoluindo ao longo de milhões de anos. Estudei essa maravilhosa interação na minha tese de doutorado, na esperança de contribuir para um melhor conhecimento sobre as abelhas. E quem sabe, ajudar a preservá-las, pois só se respeita e se preserva aquilo que se conhece. 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Vacas e bezerros

       Ando preocupada com as vacas e seus bezerros, por causa de algumas coisas que ando vendo e ouvindo. Dia desses, fui à fazenda com o Zé, meu marido (minha mãe sempre dizia que mulher tem que acompanhar o marido). Mas eu não sabia que ele tinha comprado, em leilões, vários bezerros recém desmamados de suas mães, uns duzentos. Cada lote foi colocado em curral separado, em frente da casa da fazenda. Os bezerros eram da raça nelore, branquinhos, e se um disparava na frente, o bando todo ia atrás. Era até bonito de se ver. O problema é que os bezerros berravam dia e noite, bem alto, em coro, clamando pela mãe e por seu leite. Um berreiro de dar dó. À noite, a gente dormia (ou tentava) ouvindo aquele lamento grupal. Segundo o funcionário da fazenda (com total apoio do Zé), os bezerros deveriam ficar presos três dias, passando fome. Assim, quando fossem soltos no pasto, estariam tão esfomeados que só pensariam em pastar e não iriam fugir desatinados, pulando cercas e se afogando no rio, à procura do leitinho da mãe. Ou seja, era uma forma de proteger os bezerros. Achei essa técnica uma crueldade, uma forma de explorar os laços entre mãe e filho e pensei em chamar a Sociedade Protetora dos Animais. Voltei da fazenda com o coração partido e o Zé feliz da vida com seus lotes de bezerros.
            Agora, esta semana, o Zé estava explicando pra mim tudo sobre pastagem e como estava fazendo com o gado durante a seca, para ele, o gado, não passar fome (sei que um casal precisa dialogar, mas nem tanto). Se é que consegui entender, o gado de uma fazenda estava sendo salvo pela tiririca, que brota justo quando o capim braquiaria está seco e os outros tipos de capim (quais mesmo?) ainda não nasceram. O gado gosta da tiririca quando está nova e macia. Acontece que na outra fazenda não tinha tiririca (será porquê?) e os funcionários tinham que cortar um caminhão cheio de cana, todo dia, para alimentar o gado. Mesmo assim, morreram de fome e fraqueza vários bezerrinhos que foram retirados da mãe muito cedo e vendidos nos leilões (e o Zé, malvado, comprou os bezerros). Como foram desprovidos do leite materno precocemente, não suportaram a seca. Novamente, fiquei triste pelos bezerros e agora estou sempre do lado das vacas, sofrendo com elas e torcendo por elas.
            Por tudo isso, gostei de uma questão da última prova do ENEM. Nela existe o texto: “De acordo com o relatório “A grande sombra da pecuária”, feito pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, o gado é responsável por cerca de 18% do aquecimento global, uma contribuição maior que o setor de transportes.” O aluno deveria  assinalar a letra A, de forma a completar a seguinte frase: “A criação de gado em larga escala contribui para o aquecimento global por meio da emissão de metano durante o processo de digestão”. Trocando em miúdos, quando bois, vacas e bezerros soltam “puns” e arrotos, o gás metano que liberam na atmosfera contribui mais para o aquecimento global que os gases liberados por veículos. Isso já foi comprovado e não há como inocentar as vacas e seus bezerrinhos. Mas nessa questão da prova tem um desenho em quadrinhos de duas vaquinhas simpáticas conversando. Uma diz : “Colocaram a culpa do aquecimento global nas vacas”. A outra então pergunta: “E o que faremos?’. A primeira vaquinha pensa e responde: “Culparemos as galinhas”. Como agora defendo as vacas, estou com elas, a culpa é das galinhas.